Três Mestres para uma escrava
24 A missão de Hermione – Parte III
Notas iniciais
Hermione a conheceu no seu quinto ano em Hogwarts. A voz era fina e irritante, sempre ouvida num tom baixo, educado, falsamente carinhoso. Os seus modos delicados serviam mesmo era para esconder uma profunda maldade, um mal disfarçado sadismo. A ausência de qualquer empatia que ela tinha com as pessoas à sua volta sempre se refletiu nas vezes como lidou com o poder que lhe foi dado. Isso ocorreu em pelo menos duas ocasiões: na época em que Hermione ainda estudava em Hogwarts, e no período em que Voldemort dominou o Ministério da Magia. Em ambas as vezes, ela nunca perdeu a chance de atormentar todos os que tiveram o azar de cruzar o seu caminho. Hermione ainda lembrava dos ferimentos de Harry, ou do modo cruel como a professora Trelawney fora tratada. Ela também se lembrava das regras que foram criadas por Dolores, no seu tempo em Hogwarts, cujo único objetivo era infelicitar a vida das pessoas que tinham de segui-las. Dolores Umbridge foi uma das que escapou da justiça, após a queda de Voldemort, pois limitou sua colaboração ao trabalho no Ministério. De fato, ela não fez nada diferente ali, do que na época em que o próprio Ministério atuava contra Dumbledore e a Ordem da Fênix.
A mulher diante de Hermione procurava passar o máximo de autoridade possível, fazia todos as ameaças, tinha todas as atitudes agressivas, mas era impossível evitar a impressão de vê-la como uma figura patética, tanto ela como o grupo que comandava. O fato de ter sido relegada a uma função burocrática, sem a menor importância dentro do Ministério, foi uma atitude mais do que inteligente de Kingsley. Uma humilhação cujos efeitos eram bem visíveis para Hermione. Agora aquela mulher estava diante da jovem professora de Hogwarts, sem saber quem ela de fato era, mas profundamente desconfiada. Hermione sabia que estava numa situação perigosa, estava um pouco assustada, mas também se sentia segura, pois tinha em mente tudo o que era necessário fazer.
– Eu precisarei mandar aquela mensagem de novo daqui a pouco – disse Hermione.
– Cale a boca – a voz de Dolores ganhou um acento ameaçador ao falar – em apenas um instante vamos saber se você é mesmo quem diz ser.
– Eu me chamo Mellinda Jones, já disse que sou uma funcionária do alto escalão do governo de sua majestade – disse Hermione, tentando parecer assustada.
– Isso nós vamos saber daqui a alguns instantes – Dolores tinha uma expressão cruel no rosto, lembrando muito a época em que a conheceu em Hogwarts – trate de ficar quieta e vamos esperar até o momento em que saberemos se você está ou não usando uma poção Polisuco.
Hermione sabia que não havia nada a fazer em vez de esperar, tentando lidar da melhor forma possível com o momento de grande tensão que tinha acabado de se estabelecer. Mais uma vez ela se dava conta de que estava lutando contra os restos decadentes de um outrora temido exército. Ela não precisava ver o restante do grupo para perceber que os Comensais da Morte, tão apavorantes na época de Voldemort, foram reduzidos a um grupo, que apesar de ainda perigosos, também beirava o ridículo. Hermione percebia essa decadência, simbolizada pela única líder que lhes restou, junto a um segundo em comando que não passava de um mero gorila, que um dia esteve a serviço de um garotinho mimado em Hogwarts. As expressões deles eram ameaçadoras, mas ela também sentia o medo, que em vão, tentavam esconder.
Ela duvidava muito que houvesse um grupo grande de outros Comensais escondidos neste galpão. Hermione estava confiante que Harry, Ron e os demais aurores, não teriam dificuldade para acabar com eles. O problema é que não haveria aurores aqui, se ela não fizesse o que tinha em mente. Sua maior preocupação era Lúcio Malfoy, pois o rosto dele não deixava duvida sobre o quanto estava assustado, com o que lhe parecia o momento em que Hermione seria desmascarada. Um Malfoy em pânico, confessando todos os planos para capturar esses Comensais, era tudo o que Hermione não precisava naquele momento. Por isso mesmo, ela torcia para que o pai de seu antigo colega de Hogwarts se lembrasse da conversa que todos haviam tido no Ministério no final do ano passado.
FLASHBACK – MINISTÉRIO DA MAGIA – 29 DE DEZEMBRO
– E se eles decidirem verificar se você está com um feitiço de vigilância, senhorita Granger? – pergunta Lúcio Malfoy.
– Eles com certeza irão verificar – Hermione respondeu – é por isso mesmo que esse feitiço poderá ser desativado quando eles forem fazer essa verificação.
– Como isso será feito, Hermione? – agora era Ron quem estava curioso. Hermione sacou o celular de sua bolsa.
– O feitiço não estará em mim, mas no celular – ela respondeu – antes deles verificarem eu darei um jeito de desativar o feitiço de vigilância, com um feitiço silencioso.
– Você precisará da sua varinha para fazer isso, senhorita Granger – disse Lúcio.
– Ela estará num bolso da calça que eu estiver usando – ela respondeu – bolso esse que será ampliado magicamente para poder esconder a varinha.
– E se eles desconfiarem da sua mão no bolso da calça? – ponderou Ron.
– Então terá que ser como num truque de mágica Trouxa, Ron – disse Hermione – criar uma distração para que eles não vejam de onde vem o truque. Creio que a minha bolsa terá de servir para esse fim.
– E se eles reconhecerem você, o que é bem provável, já que é difícil alguém no mundo bruxo não reconhecer você – disse Lúcio Malfoy.
– Ela estará usando uma poção Polisuco – respondeu Harry.
– Você não acha que eles irão verificar isso? O efeito da poção Polisuco só dura uma hora.
– Com certeza irão fazer isso, senhor Malfoy – Hermione respondeu, olhando de maneira significativa para Harry e Ron.
– O que foi? – Lúcio percebe algo no ar.
– Não acho que devemos contar para ele – Ron foi bem enfático ao falar.
– Ele precisa saber, Ron – Harry deixou seu amigo surpreso ao falar.
– O sucesso da missão pode depender dele souber disso, Ron – completou Hermione.
– Do que vocês estão falando? – Lúcio pergunta.
– Senhor, por favor – Ron se dirige ao ministro Kingsley – esse segredo só é conhecido pelo senhor, pela Mione e por um pequeno grupo de aurores, e isso tem um motivo.
– Eu não posso deixar de levar em consideração o que o senhor Weasley disse – afirmou Kingsley – a vida de vários aurores, bem como o sucesso de suas missões, dependem do fato desse segredo se manter seguro.
– O senhor ministro me permite uma sugestão? – Snape interveio – esse parece ser um segredo importante; que por sinal eu também desconheço. Eu e Lúcio poderíamos fazer um voto Perpétuo, nos comprometendo a não revelá-lo.
– Essa me parece uma ótima solução, senhor ministro – agora era Harry quem intervém, ele olha para Ron e Hermione, que concordam silenciosamente.
– Pois muito bem – disse Kingsley. Ele, Lúcio e Snape se juntam e fazem o voto Perpétuo; onde Lúcio e Snape prometem jamais revelar o segredo que lhes será confiado.
– Agora será que vocês podem nos dizer como evitar que a verdadeira identidade da senhorita Granger seja descoberta?
– Simples, senhor Malfoy, eles certamente vão esperar uma hora até o efeito da poção Polisuco passar – explicou Harry – afinal, esse é o tempo que ela dura. O que eles não sabem é que alguns aurores têm acesso a uma poção Polisuco cujos efeitos duram mais de duas horas.
– Como assim? – agora era Snape que se mostrava bem curioso, o que deixou Hermione especialmente lisonjeada.
– Hermione inventou um tipo de poção Polisuco que dura mais do que o tempo normal – disse Ron, sorrindo para a amiga. Hermione ficou visivelmente corada, ao se ver como o centro das atenções naquele momento.
– Apenas nós que estamos nesta sala, e uns poucos aurores, sabemos disso – afirmou o ministro Kingsley, que se volta para Snape e Lúcio – entendem agora porque exigimos a garantia de um voto Perpétuo de vocês?
– Foi uma decisão muito correta, senhor Ministro – disse Snape, dando um olhar significativo para Hermione – esse é um segredo que precisa ser mantido com o maior cuidado.
GALPÃO ABANDONADO NA LONDRES TROUXA – TEMPO ATUAL
– Então você é mesmo quem diz ser – Dolores olhava para o seu relógio e depois para Hermione – muito bem, senhorita Jones, agora que ficou tudo esclarecido, creio que podemos começar a nossa negociação, mas antes... – Dolores faz um novo feitiço, revelando a presença de um novo grupo de Comensais, até então protegidos por uma barreira invisível – aqui estamos companheiros, o momento em que nos ergueremos novamente está mais perto agora – ver todos os Comensais reunidos era a oportunidade que Hermione estava esperando.
– Se importa de eu pegar o meu celular – Hermione pega o celular com a mão esquerda, enquanto enfia a mão direita no bolso da calça, tocando em sua varinha – eu preciso mandar a minha mensagem de novo – ela vê um sorriso cruel se formando no rosto de Dolores, ficando bem alarmada com isso – o que foi?
– Você pode pegar no celular, mas quero sua outra mão bem à vista – ela aponta a varinha para Hermione enquanto se volta para Goyle – diga-me senhor Goyle, a senhorita Jones também colocou a outra mão no bolso da calça, quando mandou a sua mensagem no beco onde vocês estavam?
– Ela fez isso sim, eu acho – Goyle olha para os seus dois outros colegas, e ambos confirmam o fato.
– Você é realmente um aborto como diz ser, minha cara? – Dolores olha fixamente para Hermione, a varinha ainda apontada para ela, os outros Comensais fazendo o mesmo com ela e Lúcio – Kingsley tem me mantido fora de qualquer trabalho importante que acontece no Ministério, e isso inclui os novos aurores que foram recrutados.
– Ela não é uma auror, Dolores!
– Cale a boca, Lúcio – Dolores grita para ele – eu devia saber que era um erro ter tentado trazer você para o nosso plano – ela volta a apontar sua varinha para Hermione – então minha querida; é melhor você dizer algo que não me faça querer te matar.
EM ALGUM LUGAR DA LONDRES TROUXA – QUINZE MINUTOS DEPOIS
– Está demorando demais, Harry – a preocupação no rosto de Ron era muito grande.
– Nós não temos outra escolha além de esperar, Ron – Harry compartilha da preocupação do amigo, mas também observa, muito desconfiado, os três homens conversando afastados. Snape, Sirius e Remus sussurravam entre eles, claramente compartilhando um segredo.
– Não devíamos ter permitido a remoção do feitiço de vigilância – sussurrava Snape.
– Hermione tinha razão, Severus – Remus olhava em volta ao falar – era preciso garantir que o feitiço não fosse detectado.
– Nós podíamos ter feito algo para tornar o feitiço não detectável – Sirius estava um tanto surpreso ao se ver concordando dessa forma com Snape.
– O que vocês estão conversando? – a chegada de Harry surpreende os três, claramente o treinamento como auror lhe garantindo essa habilidade – que segredo é esse que vocês parecem estar compartilhando com Hermione?
– Se há um segredo, ele só diz respeito a nós e a ela, Potter – por um instante Harry sentiu-se de volta a sua adolescência em Hogwarts, lidando com o professor que mais detestava.
– Nós só estamos preocupados, Harry – Remus procurava conciliar a situação.
– Você e Ron não são os únicos amigos de Hermione, Harry – Sirius se dirigia ao afilhado – na verdade, nos últimos meses, Remus, Severus e eu, estivemos mais próximos dela do que você e Ron; pode acreditar – o tom de voz no final da frase deixou Harry ainda mais desconfiado. Ele já ia falar mais quando foram interrompidos por Tonks.
– Será que vocês podem deixar para comparar quem tem o pinto maior depois – ela disse – o que deve ficar elevado aqui é o nosso nível de concentração, não de testosterona.
– Pessoal, olhem – o grito de Ron atrai a atenção de todos, que logo se dão conta que suas varinhas estão brilhando – é o sinal que estávamos esperando – Ron mal terminou de falar e todos se concentraram no brilho de suas varinhas, fazendo um feitiço silencioso e aparatando ao mesmo tempo.
GALPÃO ABANDONADO NA LONDRES TROUXA – QUINZE MINUTOS ANTES
– Tudo bem, tudo bem, estou tirando a mão da minha calça – disse Hermione – vamos ficar todos calmos, está bem.
– Quem diabos é você? – a expressão ameaçadora de Dolores voltada para Hermione – diga logo quem é você.
– Eu já disse quem sou – Hermione procura dar um tom bem assustado à sua voz.
– Você está mentindo, eu sei que está, sou muito boa em sentir quando alguém está mentindo para mim – as palavras saindo praticamente cuspidas da boca de Dolores – o que tem no bolso da sua calça. É uma varinha, não é? Responda – o silêncio de Hermione a enfurece ainda mais, fazendo-a gritar – não vai responder? Muito bem então. Crucio!
Hermione é jogada no chão. Não foi pelo impacto do feitiço, mas sim o fato de que a dor não lhe permita ficar de pé. Ela já tinha sofrido esse feitiço antes. Tinha quase 18 anos quando Belatrix Lestrange a torturou com ele, no salão principal da Mansão Malfoy. Ela se lembrava da dor, do desespero, das lágrimas caindo pelo seu rosto, dos seus gritos de extrema dor. Também se lembrava de ver a expressão de prazer, estampada no rosto de Belatrix Lestrange, enquanto lhe infligia uma dor impensável; da gargalhada sádica e enlouquecida. Era como se sua pele estivesse sendo arrancada de seu corpo por ganchos, não era a mesma dor que estava sentindo com o feitiço de Dolores.
Hermione aprendera em suas aulas que não bastava dizer o nome do feitiço; que o desejo de provocar dor era muito importante, mas que não era o suficiente. O talento para a bruxaria, a habilidade natural, tudo isso era necessário, e poucas pessoas tiveram tanto talento para provocar dor quanto Belatrix Lestrange. Dolores Umbridge podia ser tão sádica quanto ela, mas não tinha o mesmo talento. Ela também não tinha a mesma disposição, pois um feitiço como este exige muito do bruxo, em termos físicos. Foram minutos de grande agonia até Dolores ser forçada a parar. Os outros Comensais se voltaram para ela, quando o cansaço a fez quase desfalecer. Hermione sabia que não teria outra chance, aproveitando que a atenção dos Comensais estava em sua líder, jogou o seu celular aos pés de Lúcio Malfoy. Os olhares deles se cruzaram por um instante, ela temendo que o medo que via nos olhos do pai de Draco fosse tão grande que ele não lembrasse mais o que havia sido combinado.
FLASHBACK – MINISTÉRIO DA MAGIA – 29 DE DEZEMBRO
– Eu ainda acho que vocês estão sendo otimistas demais – afirma Lúcio.
– Qual dúvida você ainda tem, Lúcio? – Snape toma a iniciativa de perguntar.
– Essa história do feitiço de vigilância, por exemplo – Lúcio parecia realmente preocupado – quem garante que a senhorita Granger poderá desativá-lo, e depois reativá-lo, sem que os Comensais percebam?
– Ninguém garante, senhor Malfoy – disse Hermione – essa é uma missão perigosa, pr or Malfoy — disse m?
uem ado.a temendo que o medo que via nos olhos do pai de Draco fosse tincipalmente para nós dois.
– O que o senhor Malfoy colocou tem validade, Mione – agora é Harry que decide externar suas preocupações – esse plano é muito arriscado, está tudo sujeito a uma série de variáveis que podem pôr tudo a perder.
– Eu sei disso, Harry – apesar de tudo, Hermione sorria para seu amigo – um bom plano precisa cobrir o máximo possível de variáveis, porque o imprevisto sempre estará a nossa espreita. Por isso mesmo foi importante colocar o senhor Malfoy a par de tudo.
– O que você quer dizer com isso, Mione? – Ron perguntou.
– Eu creio, senhor Weasley, que a senhorita Granger quer dizer que o plano original determina que Lúcio deveria apenas nos garantir acesso a esses Comensais, mas que uma possível variável pode tornar necessário que ele exerça um papel mais ativo para que tudo dê certo – ele olha para Hermione – não é isso que você quer dizer, senhorita Granger?
– Sim... Senhor, é exatamente isso.
Hermione corou naquele instante. Ela não conseguiu evitar, ao se dar conta de como tinha se tornado tão transparente para o homem diante dela. Ela percebe o olhar desconfiado de Harry, o jeito surpreso de Ron, bem como o ar interrogativo de Lúcio e Kingsley; tratando de recuperar o controle de suas emoções. Ajeitando-se em sua cadeira, ela torcia para que o lapso que cometera, presente em seu tom de voz, na hora em que se referiu a Snape como “Senhor”, não tenha sido notado. Hermione volta de novo a olhar para Harry, logo se dando conta, vendo o olhar dele seguindo dela para Snape, que seu amigo de infância sentia que algo havia no ar entre ela e o antigo professor dos dois.
GALPÃO ABANDONADO NA LONDRES TROUXA – TEMPO ATUAL
O breve momento de alívio terminou quando Dolores recuperou o fôlego. Ela conseguiu ver Lúcio tentando demovê-la de continuar torturando Hermione, esta ficando furiosa por ele deixar de fazer o certo para se focar nela. Com o passar dos minutos, entretanto, nada disso a interessava mais. A visão já estava embaçada pelas lágrimas que caiam abundantes de seus olhos. Os demais Comensais estavam à sua volta, pareciam sorrir com a agonia dela. Dolores parecia dizer algo, mas tudo o que Hermione ouvia agora eram os seus próprios gritos. Não importava mais se aquela mulher desagradável não era tão boa em causar dor quanto Belatrix Lestrange, pois o fato é que a dor que estava sentindo parecia que a estava despedaçando.
Ela parou de gritar, mas a dor não a abandonou. Seu corpo não sofria mais espasmos, o que significava que a tortura tinha sido interrompida. Sentia que estava preste a desmaiar, o que seria uma benção. As figuras à sua volta pareciam envolvida em brumas; mal podia vê-las. Hermione não sabia se era o torpor pela dor que sentia, ou se a quase cegueira já era um prenúncio da sua morte. Uma série de clarões torna ainda mais difícil para ela enxergar. Outras figuras apareceram, envoltas na mesma bruma. Uma cacofonia de sons encheu seus ouvidos, ao mesmo tempo em que raios de diversas cores atravessavam o ar acima dela. Era um espetáculo bonito, a última visão que teve antes de tudo escurecer diante dela.
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