Notas iniciais
Novo capítulo postado. Algumas considerações sobre ele, principalmente sobre questões envolvendo relações abusivas serão tratadas nas considerações finais. Mudando de assunto, gostaria de fazer aqui um agradecimento imperdoavelmente atrasado, pois era para ter sido feito quando da postagem do capítulo anterior. Enfim, um grande agradecimento para Prince Snape, pela maravilhosa capa que fez para a fanfic, e também para a Cristiani Cruz, pela recomendação que tornou possível fazer essa capa. Aproveitem a história.

– Me larga, Vitor, me larga. Merlin, o que você está fazendo?

O final da frase dela saiu com dificuldade de sua boca, pois Vitor começou a apertar o seu pescoço com força. Ela sentiu dificuldade em respirar, encarando o olhar dele com medo, pois via ali uma expressão que podia ser classificada como uma mistura de vários sentimentos. Havia raiva, tristeza, além de pura loucura. Hemione tentou pegar a sua varinha para se defender dele, mas dessa vez Vitor estava preparado para essa reação. Não foi preciso nenhum feitiço, pois ele utilizou a mão livre para tomar a varinha dela, jogando-a longe. Seus corpos estavam praticamente colados, não deixando espaço para Hermione tentar usar um de seus joelhos para acertá-lo naquele local muito prático numa situação como essa.

– Quem você pensa que é para me ignorar sua sangue-ruim arrogante? – havia muita raiva na voz dele – você devia ser grata por alguém como eu te notar.

Ele continuava apertando a garganta de Hermione. A falta de ar aumentando ainda mais a sensação de medo que estava sentindo, pois sentia que podia desmaiar a qualquer momento. A idéia de ficar indefesa diante dele deixou-a apavorada. Estava sem sua varinha, não tinha como dar uma joelhada nele, por conta da proximidade em que se encontravam. A única possibilidade que restou para Hermione foi justamente utilizar essa proximidade em seu favor. A boca dela se fechou no lado direito do rosto dele, os dentes mordendo sua face com toda a força que foi capaz de reunir. Vitor deu um grito de dor, afrouxando o aperto na garganta dela. Hermione aproveitou a chance e o empurrou. Ela tentou correr até sua varinha, mas Vitor agarrou um de seus braços e lhe deu um violento tapa, derrubando-a no chão.

– Sua desgraçada! – ele gritou – tudo o que eu queria era cuidar de você, amar você, mas você não é capaz de ser grata por isso, não é?

– Eu não tenho nada que ser grata a você, seu verme – ela sentiu seus cabelos sendo agarrados com violência, ele mantendo-a de joelhos. Hermione percebeu rapidamente qual era a sua intenção, e tratou de utilizar os braços para tentar se manter o mais longe possível de seu agressor.

– Deixa disso, sua putinha de sangue-ruim; nós dois sabemos o quanto você gosta de meu pau na sua boca.

Vitor usava uma de suas mãos para forçá-la de encontro ao seu pênis, embora estivesse tendo dificuldade de tirá-lo de sua calça com a outra mão, justamente devido a resistência de Hermione. Ambos estavam tão empenhados em seus objetivos que nem notaram as pessoas que se aproximavam deles. Sirius foi o primeiro a alcançá-lo, forçando Vitor a se virar para ele e lhe dando um violento soco. O impacto do golpe jogou o agressor de Hermione no chão. Sirius foi até ele e começou a lhe dar vários socos em seguida, até ser impedido por Remus.

– Já chega Sirius, já chega – Remus teve de fazer muita força para tirar Sirius de cima de Vitor, mas acabou conseguindo. Este se aproveita da situação para pegar sua varinha, mas Remus percebe o que ele vai fazer, reagindo com rapidez – Expeliarmus – a varinha de Vitor é jogada para longe quando Remus faz o seu feitiço.

– Tentou me pegar com um feitiço não é? – Sirius aproveita que Remus o largou para fazer o feitiço e dá um chute bem forte, no meio das pernas de Vitor. Este se contorce de dor com o golpe.

– Ele fez por merecer essa, mas vamos parar por aqui está bem – Remus faz um novo feitiço, conjurando uma corda para amarrar Vitor. Após conseguir isso ele se volta para Tonks, que está amparando Hermione – como ela está, Tonks?

– Ela vai ficar bem – Tonks responde ao seu marido – você vai ficar bem, não é Mione? – Hermione faz um sinal de positivo com a cabeça, mas a sua vontade é de chorar. Ela vai até Vitor, procurando manter o ar mais digno possível; não daria a ele o gosto de vê-la de outra forma que não essa.

– Eu preferia que tudo entre nós não terminasse desse jeito Vitor – ela disse – mas o que você tentou fazer agora foi a gota d’água. Vou te denunciar por isso seu desgraçado.

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Já era tarde da noite quando ela voltou para Hogwarts. Sentiu-se com sorte por ter tantos amigos do seu lado quando fez a denúncia contra Vitor pelo ataque que sofreu. Hermione não tinha muitas ilusões sobre o tipo de punição que ele poderia sofrer por tê-la agredido daquela maneira; com certeza não iriam mandá-lo para Askabam por isso, mas ainda assim, sabia que tinha de denunciá-lo. A ordem de restrição ao menos poderia lhe dar algum sossego, e o escândalo certamente não seria bom para a carreira dele. Isso ficou bem evidente para ela quando o empresário de seu ex-namorado lhe ofereceu uma boa quantia em dinheiro, a título de indenização, segundo ele, para esquecer o ocorrido. Hermione recusou, deixando bem claro que a única coisa que queria de Vitor era distância. Ela estava se olhando no espelho quando ouviu batidas na porta. A visão de Tonks após abrir a porta não provocou embaraço dessa vez. Não a estava vendo mais como a esposa do homem, com quem esteve numa sessão BDSM semanas atrás. Sabia que estava diante da amiga que esteve do seu lado todo o tempo, desde o ataque que sofreu. Elas se abraçaram por um bom tempo, antes de Tonks entrar nos aposentos de Hermione.

– Como você está? – Tonks passava a mão carinhosamente no rosto de Hermione ao perguntar.

– Cansada, mas muito aliviada, ainda mais depois de tudo o que tive de fazer – Hermione respondeu.

– Fiquei muito orgulhosa da sua coragem em denunciar o Vitor por tudo o que ele fez, amiga.

– Obrigada Tonks. O fato de você e tanto dos meus amigos estarem lá comigo ajudou bastante a me dar coragem para isso.

– Eu fico muito feliz de ouvir você dizer isso, Mione. Você sabe que a nossa amizade está acima de qualquer convenção social, não sabe? – disse Tonks, pegando na mão de Hermione – é por isso mesmo que nós precisamos resolver esse problema que parece estar te incomodando. Nós duas sabemos que não tem nada a ver com a reportagem da cretina da Skeeter.

– Eu... olha Tonks – Hermione não sabe direito como iniciar a conversa – você sabe o que ocorreu na sessão que eu tive com o Remus, não sabe?

– É claro que eu sei, Mione. É um adestramento. Eu sei muito bem que numa relação entre Mestre e escrava o sexo ocupa um espaço fundamental.

– Do jeito que você fala... você é uma dominatrix, uma Mestra.

– Existem algumas diferenças. Na relação com os meus escravos o sexo não é tão importante. Exercer o controle, o domínio, a autoridade, esses são os pontos centrais.

– Não existe sexo? – pergunta Hermione.

– Às vezes sim, é claro – responde Tonks – mas como eu disse, o sexo, nem de longe tem a mesma importância, quando se trata da relação entre uma Mestra e seu escravo. Podemos dizer que isso reflete bem a diferença entre homens e mulheres, mesmo numa relação BDSM onde mulheres são dominantes, como eu.

– Como você e Remus lidam com isso?

– Não pense que foi fácil no começo – Tonks tem um breve momento de silêncio, suspirando antes de voltar a falar. Ela tem no rosto uma expressão muito mais séria do que Hermione está acostumada a ver nela – nós nos amamos, Hermione, eu e Remus, mas existe um lado nosso que o outro não pode satisfazer. O fato de ambos sermos dominantes nos obrigou a discutir bastante até chegarmos a melhor maneira de lidarmos com isso.

– Mas vocês não poderiam encontrar outra maneira?

– Outra maneira qual, Mione? – indaga Tonks – você está falando de um de nós aceitar ser o submisso numa relação entre Mestre e escravo? Isso vai contra a nossa natureza, minha amiga – Tonks se levanta, andando um pouco pela sala – lembra de quando eu lhe falei sobre as diferenças entre uma relação BDSM e uma relação abusiva? Se um de nós aceitasse contrariar sua natureza para satisfazer o outro, em que isso seria diferente de uma relação abusiva?

– Como seria se eu escolhesse o Remus para ser o meu Mestre? – pergunta Hermione – como vocês lidariam com isso? Como nós duas lidaríamos?

– Eu não sei amiga, isso é algo que só poderemos saber como funcionaria caso venha a acontecer de fato. Você já tem a sua escolha definida?

– Eu ainda nem sei quem será o meu adestrador – Hermione respondeu – ainda falta a sessão com Sirius.

– Vamos Mione – Tonks volta a se sentar, pegando novamente na mão de Hermione – nós duas sabemos que a sua escolha vai muito além do seu adestramento.

Dessa vez foi Hermione quem se levantou de onde estava e começou a andar pelos seus aposentos. Sua mente trabalhando intensamente. Algo que ela tinha percebido, após recuperar a consciência, na noite da sua iniciação, tinha voltado à sua mente com muita força agora. Ela olhou para Tonks, em busca de uma resposta que certamente não viria da mulher diante dela. Sabia que além de ser sua amiga, Tonks também ocupava uma outra posição, no mundo BDSM do qual Hermione decidira fazer parte. Neste mundo, Tonks tinha outros compromissos, além da amizade delas. Sempre esteve muito claro para Hermione que algo muito importante tinha sido discutido entre Tonks e os outros três Mestres, enquanto ela esteve inconsciente naquela noite. A resposta não tardou a ficar muito clara em sua mente; ela não podia dizer que tinha sido enganada, pois esteve na sua cara o tempo todo. Hermione voltou a se sentar, ficando de frente para Tonks.

– Eles estão me disputando? – Hermione indagou a Tonks – eles estão disputando o direito de ser o meu Mestre?

– O único direito que qualquer um deles poderá ter sobre você, Mione, serão os direitos que você decidir conceder a um deles – afirmou Tonks.

– E seu eu decidir escolher outra pessoa que não um deles para ser o meu Mestre?

– Eles terão de aceitar essa decisão – Tonks deu de ombros ao responder – essa é uma escolha que só cabe a você fazer.

– Mas eles esperam que eu faça essa escolha entre os três, não é? – Hermione olha bem nos olhos de Tonks ao perguntar isso – eles esperam que eu escolha um deles para entregar a minha submissão.

– E quem no lugar deles não teria essa expectativa? – Tonks pegou na mão dela – você é Hermione Granger, a heroína de guerra, a garota de ouro da Grifinória, uma das melhores alunas que já passaram pela história de Hogwarts. Isso sem falar que você tem uma vocação para ser uma submissa como poucas vezes se viu. Mas como eu já disse, essa é uma escolha que caberá exclusivamente a você, Mione.

– Eu odiaria que uma escolha minha estragasse a nossa amizade, ou que pusesse o seu casamento com o Remus em risco – Hermione desejava muito que Tonks acreditasse realmente no que ela estava dizendo.

– É claro que eu acredito em você, Mione – Tonks sorri para sua amiga.

– Eu ainda fico espantada em como você e Remus lidam com isso – Tonks dá um novo suspiro antes de responder à Hermione.

– Tem algo que eu e Remus aprendemos em nossos anos juntos, minha amiga. Eu chamo de os quatro pilares de um relacionamento: confiança, respeito, amizade e honestidade. São nessas fundações que baseamos nosso casamento – ela continua de mãos dadas com Hermione enquanto diz tudo isso – qualquer que seja a dificuldade que possamos enfrentar: seja em relação à nossa vida no BDSM, ou fora dela, a única chance de superá-la é se houver confiança, respeito, amizade e honestidade entre nós. E isso vale para qualquer tipo de relacionamento, Mione.

– Eu entendo o que você quer dizer Tonks.

– Fico feliz por ouvir isso amiga, pois acredite em mim – Tonks olha bem fundo nos olhos de Hermione ao falar – se confiarmos uma na outra, sendo honestas, havendo respeito e amizade entre nós, qualquer dificuldade poderá ser superada a partir daí – elas se abraçaram. Hermione sentiu-se muito melhor após essa conversa.

– Obrigada Tonks, foi muito bom conversar contigo – disse Hermione.

– Obrigada você, Mione – ela se levanta, indicado que estava indo embora – eu tenho de ir, mas me pediram para te dar um recado.

– O que foi?

– Você foi chamada no gabinete do Snape, ele o Ministro da Magia querem falar contigo.

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Hermione caminhou até o escritório de Snape com a sensação de que era o assunto principal de todos na escola. Ao andar pelos corredores, ela podia sentir os olhares sobre si, seus ouvidos percebendo os comentários sussurrados, além de notar um ar de constrangimento por parte de todos que cruzavam o seu caminho. Isso sempre acontecia quando aproximava de um grupo, e este silenciava ante sua passagem. As reportagens de Rita Skeeter, principalmente a última sobre um suposto romance dela com um professor da escola, ainda repercutiam em Hogwarts. Como se isso já não bastasse, o que aconteceu entre ela e Vitor, certamente amplificará ainda mais as atenções sobre ela. Hermione sabia que não poderia evitar isso, sabia também que nenhuma das dificuldades que fosse apresentada seria capaz de fazê-la desistir de seus sonhos e planos. Ela seguiu o seu caminho, tentando manter a postura altiva. Ao chegar ao escritório de Snape, bateu na porta, esta abrindo sem maiores dificuldades. Ela entrou, encontrando o atual diretor de Hogwarts, junto ao Ministro da Magia.

– Diretor, senhor Ministro – Hermione os cumprimentou assim que entrou.

– Pode me chamar de Kingsley, Hermione. Não há razão para esse tipo de formalidade neste momento.

– Obrigada... Kingsley – Hermione aproveitou o oferecimento silencioso de Snape e se sentou na cadeira que estava disponível para ela. Kingsley e Snape fizeram o mesmo.

– Creio que o Ministro poderá lhe informar a razão de ter sido chamada até aqui, professora Granger – a formalidade com que Snape a chamou não passando desapercebida por ela, mais ainda a naturalidade como isso foi feito.

– Antes iniciar a nossa conversa, Hermione, eu gostaria de dizer que lamento o ocorrido com Vitor Krum. Quero que saiba que estarei à sua disposição, caso você precise de alguma ajuda no processo contra ele.

– Obrigada Kingsley – ela procurou não demonstrar o quanto falar sobre o assunto a incomodava – mas vamos falar sobre a razão de eu ter sido chamada até aqui, por favor.

– É claro – Kingsley se ajeitou na cadeira antes de entrar no assunto – como você bem sabe nem todos os adeptos de Voldemort receberam a devida punição pelos seus crimes.

– Eu sei, muitos utilizaram suas fortunas e contatos para conseguir a condescendência de alguns juízes – ela disse – infelizmente essa história de sangue puro ainda conta muito no mundo bruxo – Kingsley fez um som típico de alguém que se sentiu desconfortável com o comentário de Hermione.

– Infelizmente eu não tenho como contestar o que você acabou de dizer – o ministro da magia fez um breve silêncio antes de voltar a falar – o problema é que temos certeza de que, nesse momento, um grupo desses que escapou da punição está preparando um novo golpe. Precisamos de sua ajuda para impedir que isso ocorra.

Notas finais
Como prometido nas notas iniciais, gostaria de tecer algumas considerações sobre a forma como venho tratando a diferenciação entre uma autêntica, consensual e saudável relação BDSM, e uma relação abusiva. Eu não sei se alguns dos que estão lendo essa fanfic ouviram falar de uma criatura vil chamada Julien Blanc. Trata-se de um sociopata que ganha dinheiro fazendo palestras ensinando como conseguir mulheres através de métodos abusivos, praticamente uma apologia do estupro. Ele tentou vir ao Brasil para fazer algumas dessas palestras, mas foi impedido por um movimento que envolveu um forte lobby junto às autoridades e também um abaixo-assinado. A maneira como Vitor age com Hermione no início do capítulo foi baseada em alguns dos métodos ensinados por ele, como forma de conseguir mulheres. Essa cena, bem como o diálogo entre Tonks e Hermione foi a maneira como procurei deixar bem claro as diferenças entre o BDSM e uma relação abusiva. Espero ter feito isso bem. No próximo domingo tem novo capítulo, aguardem.