Três Desejos

8 Capítulo Sete - parte II


Capítulo Sete – parte II

O clima geralmente tão gelado da ilha havia amenizado naquela noite, dando lugar a um mormaço gostoso, então ao sair do banho, Atena vestiu uma calça de tecido leve e uma camisa branca de mangas soltas. Penteou seus cabelos com paciência, decorando os fios com uma trança francesa, e ao final calçou chinelos, já que não faria nada além de jantar e ir dormir.

O cheiro delicioso de comida inundou suas narinas enquanto ela ainda descia a escada, mas para a sua surpresa, a deusa percebeu que não vinha da cozinha, e sim do lado de fora da casa. Ela atravessou a porta de entrada com o cenho franzido em confusão, e só ficou ainda mais confusa e surpresa ao olhar na direção do gazebo e encontrar Poseidon terminando de arrumar uma perfeita mesa de jantar no centro da estrutura de madeira. A deusa se aproximou silenciosamente, ainda surpresa demais para pensar qualquer coisa sobre isso, e quando já estava perto o suficiente para ser notada, Poseidon se virou para ela e sorriu.

— A noite está tão gostosa, pensei em jantarmos aqui fora — ele explicou, depositando um último garfo ao lado de um prato. — Você se importa?

— Não, claro que não — Atena balançou a cabeça, ainda meio entorpecida.

O deus havia arrumado a mesa exatamente do jeito que ela havia feito na noite anterior (embora ele tivesse feito questão de zombar de seu perfeccionismo naquela ocasião): havia pratos, talheres de sobra e taças, além de uma garrafa empoeirada de vinho no centro da mesa. Ela se sentou na cadeira mais próxima, enquanto Poseidon abria uma das fôrmas à sua frente e começava a servir a comida em seu prato.

— Isso é o que eu estou pensando? — ela perguntou, vendo o pedaço que era depositado em seu prato.

— Não sei nem pronunciar o nome disso — Poseidon riu, servindo um pedaço também a si mesmo. — Mas acho que é o que você está pensando sim.

Confit de canard — Atena inalou o cheiro delicioso. — É meu prato favorito.

— Eu sei — Poseidon sorriu, como se tivesse alcançado uma grande conquista.

Atena ergueu a cabeça para olhá-lo, e era como se o visse pela primeira vez naquela noite. Poseidon, seu maior inimigo perante todo o mundo, se lembrava qual era o seu prato favorito e o havia cozinhado simplesmente porque queria? Atena mal se permitia acreditar.

O deus ocupou a cadeira logo ao seu lado e, sem dizer mais nada, começou a comer. Atena também beliscou um pedaço de sua comida, e sorriu ao constatar que o gosto estava exatamente no ponto que ela gostava.

— Gostou? — Poseidon perguntou, esperando por sua aprovação.

— Está delicioso — Atena o elogiou, e Poseidon sorriu com aquilo.

Passaram algum tempo em silêncio, nada além do som calmante do quebrar das ondas preenchendo o local, antes que Poseidon falasse:

— Sabe, tem uma dúvida que não sai da minha cabeça desde o dia em que chegamos — ele disse. — Tenho quase certeza de que a resposta é sim, mas preciso confirmar.

Atena colocou uma garfada de comida na boca e acenou, indicando que ele continuasse.

— Da última vez que nos vimos, você era morena, não era? — ele perguntou, por fim.

Atena ficou quieta um tempo, aguardando pela pergunta, até que percebeu, depois do silêncio de Poseidon, que a tal pergunta capciosa era aquela. A deusa gargalhou, sem conseguir se conter.

— Essa era a dúvida que não te deixava em paz? — perguntou, e o deus assentiu, sorrindo. — Podia ter me perguntado, oras. Sim, eu era. Mas durou pouco. Gosto mais dele assim, do jeito que eu nasci.

Poseidon concordou.

— Eu não via uma situação em que eu te perguntava isso no dia em que chegamos aqui — ele justificou. — Pensei que minha memória estivesse ruim. Mas também gosto mais do seu cabelo assim. Parece mais... Você.

Atena corou, sem saber o que fazer a respeito daquele comentário inusitado. Mas logo quando se via sem reação, seus olhos voaram para acima da cabeça de Poseidon, onde uma enorme aranha peluda pendia de uma teia grossa. Como se fosse uma reação em cadeia, ela subiu o olhar mais ainda e se deparou com dezenas de outras aranhas encolhidas no teto escuro de madeira do local. A deusa arregalou os olhos e imediatamente se afastou dali, descendo as escadas do gazebo e correndo para a praia em tempo recorde. Poseidon, vendo seu desespero, se virou para trás e franziu o cenho.

— O que aconteceu, Atena?

— Você não está vendo? — a deusa perguntou, exclamando. — Olhe o tamanho dela!

Poseidon voltou a se virar, e seus olhos se focaram na aranha, mas ele não parecia entender.

— Está falando da aranha? — ele questionou, e seus olhos se inundaram de compreensão quando Atena assentiu. — Você tem medo de aranhas?

— Medo não é bem a palavra, mas... — Atena sentiu um arrepio correr seu corpo ao olhar novamente para a aranha, e ela se afastou mais ainda do gazebo. — Não nos damos muito bem.

Poseidon soltou uma gargalhada antes de se levantar, caminhar na direção da aranha e, num estalar de dedos, fazê-la desaparecer dali.

— Prontinho. Ninguém mais vai te ameaçar de morte hoje.

Mas ao invés de voltar para lá, Atena balançou a cabeça negativamente.

— Olhe para o alto. Tem mais dezenas dela!

Poseidon não se deu ao trabalho de realmente olhar para o alto. Ele, no entanto, revirou os olhos, pegou a garrafa e as taças de cima da mesa e saiu resmungando até onde Atena estava. A deusa entendeu o que ele fazia e logo conjurou uma toalha grossa para forrar na areia, próximo à entrada da casa. Ela se acomodou ali, e logo Poseidon se sentou ao seu lado, parecendo divertido.

— Não acredito que você tem medo de aranhas — ele balançava a cabeça, incrédulo. — Atena, a deusa da estratégia em guerra, foge de um animalzinho dez vezes menor do que ela?

— Não é medo, eu já falei — Atena retrucou, sorrindo, mas Poseidon não estava nada convencido. — Só não nos damos bem.

— Isso não é não se dar bem — Poseidon realmente queria dar continuidade àquela discussão. — Afinal, ela não correu de você como você correu dela.

Atena rolou os olhos se dando por vencida.

— Tudo bem, talvez seja — ela admitiu. — Mas não conte para ninguém.

Poseidon repuxou um sorriso enviesado antes de respondê-la.

— É nosso segredo, amor — Poseidon prometeu, servindo as duas taças com o vinho da garrafa.

Ele ofereceu uma taça cheia à Atena, mas ela balançou a cabeça.

— Eu não bebo — declarou.

Poseidon inclinou a cabeça.

— Não posso dizer que estou surpreso. Mas por que não?

— Bebidas nos fazem perder o controle de nós mesmos — Atena justificou, e Poseidon fingiu bocejar ao seu lado. — Pare com isso, você sabe que é verdade!

— Não é como se você bebesse uma taça e do nada virasse a Atena reversa — ele rebateu. — Não vamos nos embebedar até desmaiar hoje.

Com muita hesitação, a deusa pegou a taça na mão e bebeu um gole, sob o olhar muito atento de Poseidon.

— Viu só? — ele perguntou, quando ela terminou de engolir. — Você ainda sabe que seu nome é Atena, não sabe?

Atena mostrou a língua para ele, um gesto que sempre havia achado infantil, mas não via nada que se encaixasse melhor na resposta que queria dar. Poseidon riu, também surpreso, e bebeu um pouco da própria taça. Todo o clima que os envolvia estava tão gostoso: pássaros noturnos piando nas árvores ao redor, o som do vento balançando as folhas grossas, o vai e vem do mar muito próximo, e afinal, Poseidon acabou sendo uma companhia impressionantemente boa. Atena começava a se sentir relaxada ao lado dele, coisa que pensou que jamais aconteceria de novo. Se alguma palavra pudesse descrever aquele momento, seria simplesmente... Perfeito.

— O que é aquilo? — Atena perguntou depois de um tempo, estreitando os olhos na direção do mar.

Havia visto um movimento diferente entre as ondas escuras. Primeiro pensou que fosse só impressão sua, afinal, o mar se movia o tempo todo, mas então acompanhou com os olhos o contorno inconfundível de um animal pulando em arco, muito próximo da superfície, e aquilo definitivamente não podia ser uma onda.

Poseidon moveu a cabeça para enxergar melhor no instante em que o animal pulou de novo, e então se afastou, o reconhecendo.

— É um hipocampo — ele explicou. — Eles costumam me seguir aonde eu vou. E como agora somos dois de nós atraindo a presença deles...

— Como assim dois de nós? — Atena perguntou.

— Dois deuses com o domínio do mar — Poseidon respondeu. — É isso que os atrai.

Atena assentiu em compreensão, observando o animal se aproximar mais da superfície, cravando duas patas na areia molhada aonde as ondas acabavam. Ele era metade cavalo e metade peixe, e tinha uma pele brilhante com todas as cores do arco-íris que parecia reluzir debaixo do luar.

— Eu nunca tinha visto um antes — Atena comentou. — Ele é lindo.

— É sim — Poseidon concordou. — Quer ir lá ver?

Atena encolheu os ombros.

— É seguro?

Poseidon inclinou a cabeça.

— Ele não vai te machucar.

A deusa então se levantou, sendo seguida por Poseidon, e caminhou na direção do animal, que fazia um barulho animado conforme os deuses se aproximavam. O hipocampo era muito maior visto de perto, quase duas vezes a altura de Atena, mas ele curvou a cabeça até o chão quando a deusa chegou perto o suficiente para tocá-lo.

— Ele está fazendo uma reverência para você — Poseidon observou.

— Oh — Atena fez, surpresa, sem saber o quê mais responder.

Ela sabia que aquilo se devia ao fato de ela compartilhar dos poderes de Poseidon, automaticamente tendo um certo domínio sobre os animais marinhos, mas não deixava de ser estranho ver uma criatura tão linda e desconhecida daquele porte se curvando diante dela.

Em um impulso que não sabia de onde veio, a deusa se abaixou e acariciou a crina molhada do hipocampo, que se remexeu satisfeito sob sua mão e fez um barulho alegre. Ela conseguia sentir Poseidon sorrindo às suas costas.

— É, ele gostou de você.

— Também gostei dele — disse Atena, segurando a cabeça do animal com as duas mãos. — É um doce.

Atena não se dava bem com grande parte dos deuses, mas com os animais... Bem, além de aranhas, tinha como se dar mal com qualquer um deles?

Poseidon bateu palmas, e imediatamente o hipocampo se ergueu em toda a sua altura na direção das mãos do deus.

— Você precisa ir, garotão — ele disse, coçando carinhosamente o queixo da criatura. — Não pode ficar muito tempo aqui, ou vai secar.

O hipocampo soltou um som triste, mas acabou por balançar a cabeça em compreensão, se esfregar uma última vez na mão de Atena e sair nadando em alta velocidade para o alto mar. Sua cauda comprida espirrou água por todo o corpo de Atena, fazendo o tecido de sua calça grudar em suas pernas, assim como a camisa em seu tronco, mas ela não se importou. Conhecer aquele animal havia sido uma experiência quase sobrenatural; um primeiro contato com um mundo exuberante que ela tinha curiosidade de conhecer, e que agora ela sentia ter em suas mãos.

Os deuses ficaram parados por um instante, olhando para o horizonte escuro, enquanto a água quentinha do mar noturno molhava seus pés descalços. Atena olhou para baixo, para as pequenas ondas que se quebravam em seu pé, e era quase como se elas a abraçassem aos poucos, lentamente a recebendo. A deusa sentia algo diferente da única vez em que havia ido na praia, séculos antes. Não sabia se era Poseidon quem fazia aquilo, ou se simplesmente acontecia por sua influência, mas era uma sensação boa e inexplicável. Ela ergueu os olhos para o deus, que para sua surpresa já estava olhando para ela, e ele sorriu quando a deusa deu um pequeno chute na onda, atirando água para longe.

— Eu nunca tinha vindo na praia assim, você sabe — ela comentou, enquanto se virava para finalmente sair do mar. — Não desde que... Bem, desde muito tempo. Mas é bom — ela concluiu.

— É sim — Poseidon sorriu, e de repente o deus tempestuoso que ela conhecia parecia ter se tornado a própria calmaria do mar, e Atena não teve como não retribuir o sorriso caloroso que ele ofereceu. — Você deveria vir mais. Nunca te vi na praia.

Atena supôs que ele fosse capaz de saber todas as vezes em que ela entrasse no mar, sendo o deus desse domínio e tudo o mais.

— Eu nunca venho — ela justificou. — Não costumo ter tempo para sair do Olimpo.

Novamente, Poseidon parecia zangado com sua tonelada de ocupações no monte dos deuses.

— Eu vou invadir aquele lugar qualquer dia e te arrastar para a praia — ele disse. — Se é isso que você precisa.

Atena gargalhou diante de seu comentário.

— Vou ficar bem alerta.

Os deuses alcançaram a toalha outra vez e Poseidon conseguiu, com muito esforço, fazer com que Atena o ajudasse a esvaziar a garrafa do vinho que, segundo ele, era o melhor do mundo.

— Estou falando sério — ele disse, mas Atena realmente não se importava. — Au paradis não é qualquer vinho. Ainda mais essa safra que Afrodite tem aqui. Você está bebendo do melhor vinho do mundo.

— Tudo bem, Poseidon, tudo bem — Atena concordou só para que ele parasse de falar e continuou a beber de sua taça até que tivessem terminado a garrafa.

Ao final, Atena se sentia um pouco zonza (nada como a Atena reversa que Poseidon havia mencionado, contudo), e seu corpo estava meio mole; então, vencida pela preguiça, a deusa se deitou na toalha, de barriga para cima, olhando para o céu pontilhado de estrelas. Há muito tempo que ela não admirava um céu daquela forma; em Nova York era quase impossível ver uma estrela por causa da poluição. Já ali, o céu era tão cheio que chegava a ficar azul claro.

— Sabe que eu decorei todas as constelações? — ela disse.

Não sabia porque estava contando aquilo para Poseidon, mas escapuliu de sua boca antes que pensasse direito no que falava. O deus, contudo, também se deitou na toalha e a olhou, muito interessado.

— Todas? — ele perguntou baixo, sem acreditar.

— Todas as que são visíveis na Grécia, pelo menos — a deusa justificou. — Quando o Olimpo ainda era, você sabe, no Olimpo, e eu tinha menos coisas para fazer... Eu costumava deitar na grama de noite e observar todas as estrelas, enquanto lia um mapa, e tentava decorar todos os nomes.

— Hum, vamos ver... — o deus se virou para o céu, procurando por algo. — Aquela ali, que parece um espeto?

Atena seguiu na direção que seu dedo apontava, e riu ao encontrar o que ele mostrava.

— Aquela é a constelação de escorpião — ela esclareceu. — Ártemis a odeia. Ela está bem atrás da constelação que Ártemis mais gosta, que é a do arqueiro; a constelação de Órion — Atena apontou para o conjunto de estrelas um pouco mais acima. — Artie as colocou assim no céu para sempre se lembrar da história dele.

— Mesmo? — Poseidon pareceu interessado. — E aquela ali à direita?

— Aquela é libra — Atena sorriu. — A minha constelação.

— Ártemis a colocou ali por causa de você também?

Atena assentiu.

— Ela fez uma balança, que segundo ela é o que melhor me representa — a deusa explicou. — Eu queria que ela colocasse uma coruja, mas segundo ela, é muito difícil de desenhar.

Poseidon gargalhou de seu comentário, e depois disso os deuses recaíram em um silêncio gostoso. Devido ao tamanho da toalha, Atena estava deitada mais perto de Poseidon do que ficava na cama, o que, além de trazer a ela um sentimento estranho, causava também uma estática fora do normal em seu braço, que praticamente tocava o dele, e de um jeito inexplicável em seu estômago, que parecia estar despencando por causa da adrenalina de estar tão perto dele outra vez.

O deus, contudo, não parecia de todo incomodado. Tinha um braço debaixo da cabeça e as pernas semi-dobradas, e havia fechado os olhos. Seu semblante estava perfeitamente relaxado, e por um momento Atena teve que apreciar o quanto ele ficava bonito daquela forma: quieto, calmo, os contornos do seu rosto perfeitamente imóveis.

— Poseidon... — ela o chamou baixinho.

O deus virou a cabeça para ela e abriu os olhos. E deuses... Os olhos de Poseidon eram mesmo lindos, Atena tinha que admitir. E seu rosto também ajudava muito; ele tinha contornos bonitos, um maxilar firme coberto por uma barba rala que começava a aparecer e o deixava estranhamente... Atena não sabia qual era a palavra. Ela viajou por segundos naquele verde que não existia em nenhum outro lugar do mundo, e até se esqueceu do que ia falar inicialmente.

— Sim, Atena? — ele perguntou, a voz grossa e baixa, depois que ela ficou quieta por tempo demais.

— Eu... — a deusa balançou a cabeça, tentando se concentrar. — Só ia perguntar se você acha que devemos continuar treinando amanhã.

— Acho que não — Poseidon disse, depois de pensar um pouco. — Já conseguimos perceber que a distração é o método de confronto mais eficiente, não?

Atena rolou os olhos para ele, e o deus riu baixinho.

— Só porque você me distraiu uma vez não quer dizer que seja o melhor método — ela rebateu. — Além do mais, eu nunca deixaria um titã me distrair daquele jeito.

— Que jeito? — Poseidon sorriu descaradamente.

— Você sabe muito bem — Atena deu um tapa fraco em seu ombro. — Aquilo só aconteceu porque era você.

A deusa não pensou muito bem antes de dizer aquilo (o rosto de Poseidon tão perto do seu realmente a estava afetando), mas por sorte, o deus não pensou muito a respeito. Poseidon gargalhou, e naquele exato momento, Atena podia jurar que ouviu o som de suas muralhas desabando, uma por uma, e indo ao chão.

— Honestamente, não achei que fosse funcionar com você — ele admitiu. — Pensei que fosse agarrar meu pescoço e jogar um raio em mim. Parece que deusas castas também tem sentimentos, afinal.

Atena corou fortemente, mas não deixou de responder:

— Claro que temos. Sentimos as mesmas coisas que os outros deuses, mas ignoramos algumas delas em prol de algo melhor.

Poseidon piscou, parecendo interessado.

— E o que é o seu algo melhor?

Atena voltou a virar o rosto para o alto. Ali estava uma pergunta que jamais poderia responder, especialmente para o deus dos mares. E ela detestaria acabar com aquele momento tão bom, mas Poseidon era a última pessoa no planeta que podia descobrir aquilo.

— Digamos que esse é meu segredo — ela respondeu simplesmente.

Poseidon concordou com a cabeça, e sem dizer mais nada, conjurou um cobertor pequeno, apenas grande o suficiente para cobrir os dois se fosse necessário. Ele agarrou a peça e ofereceu um pedaço à Atena.

— Você vai dormir aqui fora? — ela perguntou.

— Você não? — ele perguntou de volta.

Atena aceitou o cobertor, mas a desconfiança devia estar estampada em seu rosto, porque Poseidon disse:

— Se arrisque um pouco, Atena. Quando é que você vai ter outra chance de dormir desse jeito?

Sob as estrelas? Na praia? No chão, sobre uma toalha?

Com ele? Sua mente inconveniente martelou.

Com certeza nunca mais, ela sabia.

Com isso, Atena se enrolou ainda mais no cobertor e se fez confortável. Um vento geladinho soprava, mas a proximidade com Poseidon impedia que Atena sentisse qualquer outra coisa que não o calor que emanava dele.

— Boa noite, Atena — ele disse, os olhos já fechados, e talvez só por isso a deusa tivesse sorrido.

— Boa noite, Poseidon.

∆∆∆

Atena acordou com uma dor terrível nas costas. Isso por si só já deveria ser um presságio do que estava por vir, mas não só por isso a deusa foi poupada de todas as surpresas que se seguiram. Ela abriu os olhos muito lentamente, incomodada pela luz do sol atingindo diretamente seu rosto, e a primeira surpresa veio quando ela foi levantar a mão para tapar a claridade e percebeu que a mesma estava presa debaixo de alguma coisa. Não, estava presa debaixo de alguém. Seus olhos se abriram de uma vez, impulsionados pela adrenalina, e Atena teve vontade de gritar ao se deparar com o que acontecia ali: estava deitada perto... Não, estava deitada grudada em Poseidon, que estava de frente para ela, de forma que sua mão esquerda estava "presa", por assim dizer, debaixo do peitoral do deus, enquanto a cabeça de Atena estava encostada no mesmo. A vergonha que a acometeu naquele instante era avassaladora, e ela tentou escapar daquela posição o mais rápido possível sem acordar Poseidon. Mas sua mão estava muito presa debaixo dele (o que a fazia questionar seriamente como eles chegaram àquela posição), e ela só conseguiria tirar fazendo um movimento que inevitavelmente o acordaria. A deusa respirou fundo, tentando reprimir a vergonha que a invadia, e reuniu forças para puxar sua mão de uma só vez. O plano deu certo, apesar de sua mão estar um tanto dormente, e, como ela já esperava, Poseidon começou a se remexer para acordar.

O deus abriu os olhos e rapidamente os fechou, também atingido pelo sol que despontava no horizonte, mas como uma de suas mãos não estavam presas debaixo de ninguém, ele cobriu o rosto com a mão esquerda e conseguiu enxergar.

— Bom dia, Atena — foi a primeira coisa que ele disse, vendo a deusa sentada à sua frente. — Dormiu bem?

Atena se espreguiçou, estalando as costas doloridas. Apesar de tudo, havia dormido bem demais. Deu de ombros ao responder, contudo:

— Até que sim. E você?

Poseidon balançou a cabeça.

— Mais ou menos. Minhas costas estão ferradas — ele confessou. — E não foi nada fácil dormir com você em cima de mim a noite toda.

Atena sentiu que todo o calor do mundo se concentrava em suas bochechas quando gritou:

— Poseidon!

O deus se levantou, gargalhando, enquanto Atena embolava o edredom e atirava nele.

— Idiota — ela murmurou. — É mentira, não é?

O deus dos mares sorriu misteriosamente.

— Me diga você se é.

Atena rolou os olhos. Sabia que o deus não fazia ideia de como ela havia acordado praticamente sobre ele, e que ele só estava falando aquilo para envergonhá-la. No entanto, ela também sabia que era verdade. E aquele seria mais um de seus segredinhos.