Três Desejos

16 Capítulo Quatorze


Capítulo Quatorze

— Poseidon, me devolva isso já!

— Vem pegar!

Atena apanhou uma almofada da cama desarrumada e atirou em Poseidon, que se abaixou rapidamente e voltou a se levantar com um sorriso no rosto. Há dois dias, dezoito horas e precisos dois minutos que Atena se trancava no escritório de Poseidon (com o deus dos mares como refém) o dia todo e pesquisava sobre os titãs mais desconhecidos. Desde o dia em que o monstro lhe fizera um corte imenso, a deusa ficara curiosa sobre os seres que viviam na ilha de Castries, especialmente o titã que aparecera dentro da casa. Tinha certeza de jamais ter visto aquele monstro antes, e também uma porção de outros que participaram do ataque. Desconfiava que houvesse ali muito mais que um grupo clandestino de titãs; talvez fosse uma força nunca enfrentada antes.

Então, no presente dia, Poseidon, em toda a sua insolência, invadiu o escritório — que por acaso lhe pertencia — e sem mais nem menos arrancou os papéis da mão de Atena e saiu andando. Como qualquer deusa da sabedoria decente faria, Atena correu atrás dele pelos corredores do castelo sem pensar duas vezes (os pescoços de alguns guardas quase chegaram a dar uma volta completa), e acabou que, por fim, ela o encurralara no quarto dele — que poderia ser chamado também de seu, porque a deusa dormia ali todas as noites (por insistência de Poseidon, é claro, não que ela achasse ruim).

— Tsc, tsc, tsc. Tente de novo.

— Eu vou te matar!

Atena se atirou em sua direção, mas novamente Poseidon fugiu, desaparecendo de onde estava para aparecer de novo na outra extremidade do quarto, encostado à parede. Atena sorriu. Pensou ser uma falha imensa da parte dele deixar a si mesmo sem saída. Sem perder tempo, a deusa apareceu logo à sua frente e ergueu a mão para pegar os papéis. Foi quando toda a sua pompa murchou. Poseidon simplesmente levantou o braço em que segurava os papéis, e Atena já não tinha mais chance de pegá-los, sendo que Poseidon era uns dois palmos mais alto que ela. Pulou inutilmente, tentando alcançar o braço do deus, mas seus esforços foram vãos. Poseidon até mesmo teve a ousadia de sorrir e roubar um beijo de Atena em meio a afobação da mesma.

— Poseidon!

— O que foi? — perguntou Poseidon, um sorriso malicioso nos lábios.

— Eu já te disse para não fazer isso! — Atena bufou, enraivecida.

— Não fazer o quê? — Poseidon puxou as costas de Atena, colando seus corpos, e beijou novamente os lábios da deusa, que já não tentava mais se soltar, e ainda se atreveu a morder seu lábio inferior antes de afastar o rosto. — Isso?

Atena o empurrou, sentindo mais do que nunca a vontade de abrir um buraco para o Tártaro bem embaixo da sacada e atirar Poseidon dali. Céus, como ele a irritava. Não bastava deixar a cabeça dela rodando a cada cantada idiota e cada frase maliciosa, tinha que brincar com seus sentimentos como se ela não tivesse um coração.

— É, exatamente isso.

— Ora, Atena, relaxe um pouco — Poseidon a dispensou com um gesto da mão. — O que demais pode acontecer?

Atena suspirou.

— Eu posso entrar em combustão espontânea. Isso não te preocupa?

— Nem um pouco. Eu sairia na vantagem, de todo modo.

Atena tentou pular e pegar os papéis da mão de Poseidon de surpresa, mas o deus não estava tão desatento assim. Com um estalar de seus dedos, todo o trabalho de Atena simplesmente desapareceu de suas mãos para um lugar que só ele sabia qual era.

— Poseidon, devolva meus projetos!

— Não — Poseidon balançou o indicador de um lado para o outro. — Você está enfiada nessas coisas há dias. Precisa de um descanso.

— Estamos no meio de uma guerra, não posso ter descanso algum!

— Tudo bem, cérebro de todos nós, olhe só — Poseidon segurou suas mãos. — Hoje nós vamos jantar, só você e eu. Esquecer toda essa correria. Só um jantar, e amanhã você pode voltar a trabalhar em... seja lá o que você esteja fazendo, e eu prometo continuar te ajudando. Okay?

Atena hesitou. Da última vez que jantaram juntos, o desfecho não havia sido nada bom: o esconderijo dos deuses foi descoberto e a deusa acabou com um racho nas costas. Além disso, enquanto se deliciavam em taças de Au Paradis, semideuses sofriam ameaça iminente de um novo ataque surpresa no Acampamento. Não tinha tempo para jantares. No entanto, era impossível que qualquer resposta além de "sim" saísse de sua boca quando Poseidon a encarava com suas orbes verdes tão profundas e brilhantes cheias de súplica.

— Tudo bem — concordou, por fim. — Mas só hoje. E depois você me deixa trabalhar.

Poseidon sorriu abertamente.

— Fechado — concordou. — Vamos?

— Espere um pouco — Atena franziu as sobrancelhas. — Não vamos trocar de roupa?

— Eu não o faria, se fosse você — Poseidon disse, misterioso. — Porque acho que vamos nos sujar um pouco.

***

Atena sabia que era uma péssima ideia desde o início. Calculara tantos riscos resultantes daquela atividade insana que quase se trancara em seu quarto para não ter que acompanhar Poseidon. Contudo, ali estava, na cozinha do palácio, vestindo um avental florido e tendo em mãos uma colher de madeira.

A ideia de Poseidon era muito simples ao ouvir: ao invés de convocar um grande número de criados e esperar que fizessem um jantar chique e sem graça, os próprios deuses cozinhariam suas refeições. No entanto, na hora de colocar na prática, não era nada menos que assustador. E isso não só porque Atena não sabia cozinhar; mesmo a sua inabilidade podia ser usada para alguma coisa simples. Mas porque Poseidon era um ser incrivelmente atentado, e Atena já podia imaginar os planos que ele desenvolvia na mente para atormentá-la, como uma guerra de molho de tomate ou coisa parecida. Foi por isso que, definidos os pratos, a deusa tomou uma boa distância dele, mantendo-se sempre em movimento, pegando ingredientes e trocando as colheres (mesmo sem necessidade e sem entender porquê o fazia), para que Poseidon não tivesse tempo de fazer qualquer coisa.

O deus, por outro lado, não parecia preocupado com nada disso. Tinha pego uma garrafa de alguma bebida que Atena não se deu ao trabalho de perguntar qual era, e bebia um gole direto do gargalo a cada mexida que dava no frango que cozinhava. Quieto e concentrado. Parecia até civilizado, não fosse o avental também florido que ele usava, que quebrava toda a seriedade ao seu redor. A primeira vez que abriu a boca foi quando olhou para Atena, que preparava o molho para cobrir o tal frango.

— Tem uma coisa aqui — ele apontou para o rosto dela.

— Onde? — perguntou Atena, passando a mão pela face, tentado eliminar a sujeira que não via.

— Aqui — Poseidon foi até ela e passou um dedo em sua bochecha, tirando dali o que não era nada mais que um pequeno respingo de molho.

Atena corou até os ossos e agradeceu timidamente. Poseidon sorriu, se afastando, mas voltou logo em seguida com um spray na mão contendo algo que Atena não conseguiu identificar.

— Sabe o que eu acho? — ele disse. — Você está limpa demais para uma cozinheira.

— O que você...

Antes que Atena pudesse terminar o que dizia, uma borrifada de chantilly atingiu em cheio seu rosto. Seu sangue fervilhou. Sentiu tanta raiva que mal teve consciência do que fez a seguir, mas quando se deu conta, já perseguia Poseidon pela cozinha com uma lata de spray de chantilly que ela mesma tinha conjurado. Logo, a perseguição virou uma guerra. Os deuses se escondiam atrás de móveis e muretas, como em trincheiras, e sempre que um conseguia encurralar o outro, chovia chantilly como uma granada. Tão rápido quanto a brincadeira evoluiu, a raiva de Atena se dissolveu em alegria. Depois de poucos minutos, a deusa já gargalhava livremente e não sentia mais uma vontade extrema de estrangular Poseidon, o que era um bom sinal. Finalmente, o inevitável aconteceu: acabaram-se os chantillys dos sprays, mas a essa altura, a cozinha já estava coberta pela substância branca, e os deuses não estavam muito melhores. Jogada no chão, com a mão sobre a barriga, que doía por conta de suas risadas, Atena estava coberta de chantilly da cabeça aos pés, e inclusive havia um rasgo na lateral de sua camiseta, provavelmente feito enquanto corria como uma louca atrás de Poseidon. Só quando conseguiu parar de rir foi que Atena percebeu o quão próxima estava de Poseidon, com a perna praticamente jogada por cima da dele e a cabeça apoiada em seu ombro. Um silêncio desconfortável reinou entre eles, até que Atena pigarreou e se levantou.

— Eu, hum... acho que vou me trocar — disse tropeçando nas próprias palavras.

— Eu também — Poseidon respondeu prontamente, também se levantando.

Com um estalar de seus dedos, a cozinha suja e bagunçada voltou ao seu estado impecável de antes.

— Bem, eu acho que a ideia do jantar não deu muito certo — ele riu, colocando as duas mãos na cintura. — Façamos o seguinte: vou colocar uma pizza para assar no forno até trocar de roupa, e depois comemos e assistimos um filme na sala de estar. O que você acha?

Atena deu de ombros.

— Por mim tudo bem.

Na verdade, ela se sentia muito mais confortável com a ideia de assistir a um filme comendo uma comida simples e gostosa — porque nada jamais superaria a pizza, que bela invenção dos mortais! — do que com um jantar extravagante feito por ela mesma. Corria menos riscos, além de ter a chance de tirar um cochilo durante o filme sem que Poseidon percebesse.

Tomou um banho rápido na ducha e vestiu a roupa mais rápida e decente que encontrou: um shorts com uma camisa de manga comprida. Não era o tipo de coisa que ela costumava usar — na verdade, Atena sequer sabia como aquele shorts fora parar em sua gaveta -, mas foi a opção mais confortável e bonita que ela encontrou. Deixou o cabelo solto, para que secasse, e estava pronta em tempo recorde.

Atena sentiu o cheiro da pizza antes mesmo de chegar ao seu destino. O aroma delicioso de frango e queijo derretido invadia suas narinas, e ela quase podia sentir o gosto da pizza quando abriu as portas da sala de estar e encontrou as comidas dispostas sobre uma mesa de centro retangular. Poseidon procurava, em uma estante que ocupava uma parede inteira, um filme que o agradasse. Quando se virou, tinha em mãos um filme que Atena se lembrava vagamente de ter visto alguns dias atrás.

— Oh não — disse Atena, os ombros caindo. — É um romance.

Poseidon riu.

— Alguma coisa contra?

— Muita coisa contra — respondeu Atena. — Mas o que eu posso fazer?

— Exatamente — concordou Poseidon. — O que você pode fazer?

Poseidon se abaixou para colocar o disco no aparelho de DVD, enquanto Atena servia-se de dois pedaços de pizza e enchia um copo — sim, um copo e não uma taça, bendito fosse Poseidon — de champanhe. A deusa não conseguiu se incomodar com a proximidade com que Poseidon se sentara dela, praticamente grudado, mesmo com o espaço imenso do qual o sofá dispunha, não quando podia recostar a cabeça em seu peito quentinho. Ela o fez, e Poseidon passou o braço ao redor dela, fazendo o ambiente perfeitamente propício para dormir.

O filme começou. O longa corria como se tivesse ainda mais tempo do que realmente tinha, e o tédio chegou a ficar quase insuportável na metade do filme, quando a pizza e o vinho já haviam acabado e Atena sentia os olhos pesarem. Ela beirava a inconsciência quando Poseidon começou a acariciar seus cabelos molhados com os dedos. Foi então que todos os seus sentidos despertaram, e o sono passou subitamente.

Não era grande coisa, ela sabia. Já deveria estar acostumada depois de todo aquele tempo. Mas era inevitável que o sangue lhe subisse às bochechas toda vez que Poseidon a tocava, e não era voluntariamente que se arrepiava quando ele sorria, piscava ou dizia algo de múltiplos significados para ela. Qualquer coisa em seu jeito desleixado, tão calmo quanto a vida que levava, a atraía.

Poseidon soltou uma risada baixa.

— Você está vermelha — ele observou, a boca muito próxima de seu ouvido. — Vai ficar envergonhada sempre que eu encostar em você?

— Eu não estou envergonhada — disse Atena, se esforçando para manter a voz firme.

— Ah sim, estou vendo.

Atena se mexeu desconfortável no sofá, e Poseidon afastou a mão de seus cabelos.

— Eu não sei — ela disse, encolhendo os ombros. — Talvez seja porque é você.

— Como assim porque sou eu? — Poseidon aproximou o rosto, seus olhos inundados de interesse.

— Ah, é difícil explicar. Eu geralmente não me sinto atraída por nenhum homem que conheço. Chega a ser estranho para mim.

— E você se sente atraída por mim? — Poseidon tinha um sorrisinho de lado nos lábios.

Atena se virou para ele como se tivesse que explicar a coisa mais óbvia do mundo à uma criança de sete anos.

— Você sabe disso — ela acusou. — Só está perguntando para me deixar com vergonha.

Poseidon gargalhou e segurou a mão de Atena.

— Perspicaz — ele observou. — É só porque você fica linda corada.

Parecia impossível, mas Atena corou mais ainda. O deus dos mares só conseguia rir de seu embaraço, como se aquela fosse sua meta desde o início. Atena voltou sua atenção para o filme, não realmente ouvindo ao que os personagens diziam, mas calhou de estar justamente em uma cena que a havia confundido semanas atrás — e da qual Poseidon riu. A deusa balançou a cabeça negativamente, bufando.

— O que foi? — Poseidon perguntou.

— Eu assisti esse filme com Apolo e Ártemis há algumas semanas — explicou Atena. — Ele riu nessa mesma cena, mas eu não consegui entender qual era a graça. E ele se recusou a explicar para mim e para Ártemis.

— Quer que eu cometa essa blasfêmia no lugar dele? — Poseidon indagou, sempre dramático.

— Blasfêmia? — perguntou Atena. — Por quê?

— Por macular a sua perfeita mente casta com essa informação — Poseidon começou a dizer. — Mas no caso, a graça é que o homem fez uma analogia ao 69. Ambiguidade, sabe?

Atena franziu o cenho.

— 69? O que é isso?

— É uma posição sexual — Poseidon esclareceu. — Achei que você conhecesse.

Atena só conseguia imaginar o deleite do deus dos mares ao assisti-la enrubescer como fazia naquele momento. Ele ria em alto e bom som do vermelho em suas bochechas. Não era como se Atena não soubesse que aquelas coisas existiam, mas era apenas uma categoria em branco no seu cérebro, já que ela não fazia questão de conhecer nada sobre isso.

— Pare com isso! — ela exclamou, só para ter um motivo para brigar com Poseidon, em retorno por ele estar rindo descaradamente de seu embaraço. — Por que eu conheceria algo assim?

O deus deu de ombros.

— É uma posição conhecida — ele respondeu, como se aquilo justificasse alguma coisa. — Sabe, como o T, cadeado e...

Diante do olhar mais mortal que Atena era capaz de dar, Poseidon parou de falar, mas ainda mantinha um sorrisinho incontido no rosto. E não era como se ela pudesse esconder a pitada de curiosidade que sentia sobre o assunto. Ela era a deusa dos conhecimentos, afinal. Tinha curiosidade sobre todos os assuntos, sua ânsia era saber um pouco sobre tudo; só não se imaginava pesquisando algo como aquilo ou perguntando para alguém, até que Poseidon viesse com sua irreverência e tivesse a audácia de falar tão abertamente sobre o assunto com ela, sendo que outros deuses temiam sequer dizer a palavra "sexo" perto de uma deusa casta.

— Você é impossível — ela suspirou. — Nunca ouvi falar nessas coisas, por mais famosas que sejam.

— Posso te contar tudo, se você quiser — o deus sugeriu. — Ou mostrar...

Atena desferiu um tapa em seu braço, ao que Poseidon simplesmente riu e segurou seu pulso.

— Venha aqui.

— Mas eu já estou aqui.

Atena não entendeu o que havia dito de errado, mas Poseidon rolou os olhos como se lidasse com a pessoa mais burra de todos os tempos (uma ofensa que ela não aceitou facilmente). Então, sem mais nem menos, puxou a cintura da deusa e a colocou em seu colo, o rosto virado para o seu.

— O que você...

— Shhh. Não comece a perguntar agora — interrompeu Poseidon, sem parecer irritado. — Só relaxe um pouco, okay?

Atena não conseguiria relaxar mesmo que alguém estivesse massageando suas costas naquele exato momento. Já estivera naquela situação com Poseidon uma vez, mas não daquela forma — de noite, no sofá, no escuro, muito bem acordados e absolutamente sozinhos no silêncio. Sabia que todos os fatores levariam a uma coisa se ela não tomasse cuidado.

— Essa é uma das posições — Poseidon teve a coragem de dizer. Será que ele sabia do risco de morte que corria se repetisse algo como aquilo? — Mas geralmente as pessoas usam bem menos roupas do que isso.

Atena olhou no fundo de seus olhos, sem saber o que fazer. Tinha vontade de gritar com ele por fazê-la se sentir curiosa e atraída por essas coisas, mas sequer conseguia ficar brava de verdade com ele. Por isso, não disse nada e nem impediu Poseidon quando o mesmo firmou as mãos em sua cintura e a beijou. Pelo contrário, apoiou hesitantemente as mãos em seu peito e se deixou guiar pelo próprio corpo, que já sabia exatamente como responder aos toques do deus. De repente, podia sentir tudo: o ar quente ao redor, cada toque de Poseidon em sua pele como se queimasse cada ponto em que encostava, a respiração pesada dele contra a sua. A língua de Poseidon tocou seus lábios, e não houve um segundo sequer de hesitação da parte de Atena antes de abrir a boca e permitir que suas línguas se tocassem e explorassem uma a outra.

Aquele beijo não era como os últimos, cuidadosos e lentos. Não havia nada de cálido e inocente nele — havia um certo fogo desde o início, o mesmo da noite da festa de Helena, e mesmo Atena podia sentir isso. Ainda assim, não foi necessário muito tempo para que a deusa já não pensasse mais no que estava fazendo e onde estavam os limites. Sua mente deixara de funcionar, dando lugar ao coração traiçoeiro, que bombeava um sentimento que só Poseidon era capaz de despertar nela: desejo. Era algo que queimava como fogo, enviando chamas até as pontas de seus dedos e impulsionando seus movimentos desesperados como se nada no mundo importasse mais do que o homem à sua frente. Ela o beijou como se ele fosse o ar que ela respirava, e agarrava seu pescoço tão ardentemente que sabia que a marca de suas unhas permaneceria ali por um bom tempo.

O ar começou a lhe faltar, e Poseidon, também com a respiração falha, afastou o rosto. Atena estava prestes a implorar para que ele não se desgrudasse dela, mas Poseidon compartilhava de suas intenções. Ele abaixou a cabeça, arrastando suavemente o nariz pela superfície da pele hipersensível da deusa e distribuindo beijos por todo o caminho imaginário que traçava pelo corpo dela. Ele marcou sua bochecha, sua garganta e a curva de seu pescoço até chegar à clavícula, onde o decote da camisa de Atena impedia que ele continuasse sua exploração. Enquanto isso, a deusa só conseguia gemer e correr as mãos por seu corpo por cima do tecido da camisa, ocasionalmente cravando as unhas em sua pele.

Muito lentamente, Poseidon inverteu suas posições, de forma que Atena estava deitada no sofá, com ele sobre ela, apoiando o peso do corpo nos cotovelos para não soltá-lo inteiramente na deusa.

— E essa é outra — ele fez questão de dizer, mas Atena nem conseguia mais se irritar com seus comentários; estava inebriada pelo que ele fazia tão facilmente com ela. — Talvez você queira se lembrar disso depois.

A deusa revirou os olhos, mas não disse nada. Pelo menos agora tinha mais espaço para se mover e tocar o corpo do deus, e foi exatamente o que fez. Foi com certa surpresa que se viu escorregando as mãos para baixo da camisa de Poseidon com muita naturalidade e deslizando os dedos para suas costas. Ela contornou com os dedos suas omoplatas e todos os músculos abaixo, e desceu as mãos até seu quadril, onde o puxou para baixo, unindo ainda mais seus corpos. Poseidon sorriu contra sua pele ao reparar o movimento, e um volume pressionou as coxas de Atena.

— Se sentindo ansiosa, amor?

— Eu poderia fazer a mesma pergunta — Atena respondeu entre um gemido, sem abandonar seu orgulho nem por um segundo.

Poseidon se inclinou e gargalhou.

— Você nem imagina o quanto.

O deus subiu as mãos das coxas de Atena para sua cintura, onde a agarrou e puxou para junto de si, eliminando a distância entre seus corpos.

— Eu poderia te mostrar tantas coisas, Atena — ele sussurrou em seu ouvido, as mãos descendo perigosamente para o zíper do shorts da deusa. — Você só precisa dizer que sim — o deus beijou os ombros de Atena calidamente, como se implorasse por aquela chance. — E eu faço tudo o que você pedir. Tudo o que você puder imaginar.

O efeito daquelas palavras sobre Atena era inexplicável. Elas a ativaram de um modo estupendo, fazendo com que todo o seu corpo pedisse por mais, por o que quer que fosse que Poseidon oferecia. O sim sairia muito facilmente de sua boca, bastava mais uma palavra, e ela estaria embaraçosamente entregue ao que ele pedisse. Mas antes que ela tivesse a chance de responder qualquer coisa, a voz familiar de Helena se fez audível, gritando o nome de Poseidon.

O deus se afastou, como que saindo de um transe, e ergueu a cabeça, sem, no entanto, desgrudar os olhos de Atena, que sustentava seu olhar. A tensão na troca de olhares era tão evidente que parecia reduzir o ambiente a um pequeno cubo, no centro do qual estavam Poseidon e Atena, se comunicando silenciosamente, e ainda assim, como se gritassem.

— Poseidon! — a voz de Helena soava cada vez mais próxima. Provavelmente no cômodo ao lado. — Onde você está?

Poseidon se levantou num movimento rápido como o vento, e atravessou o cômodo em segundos.

— Estou aqui, Helena — ele respondeu, abrindo a porta da sala.

Percebendo que Helena estava prestes a alcançar a sala e encontrá-la em um estado embaraçoso que Atena não gostaria de ter que explicar, a deusa se arrumou o mais rápido que pôde e se sentou no sofá, olhando para a televisão como se nada tivesse acontecido.

— Ah, graças aos deuses eu te achei — disse Helena, ofegante, ao ver Poseidon.

— O que você quer? — ele perguntou, um tanto bruto.

— É o Jack — respondeu ela. — Ele fugiu.

∆∆∆

Por algum motivo estranho, tudo o que Atena sentiu foi raiva. Raiva por ter o seu momento com Poseidon interrompido, raiva por ter confiado em Jack e ser traída, raiva pela situação frágil pela qual passava quando só queria um pouco menos de guerras.

Imediatamente, se colocou de pé e andou até entrar no campo de visão de Helena.

— Como assim ele fugiu?

— Ele saiu do castelo escondido — Helena explicou. — E levou um saco.

— Os guardas seguiram ele? — perguntou Poseidon.

— Sim.

Poseidon olhou para Atena, exibindo preocupação em suas lindas orbes verdes.

— Você vem?

Atena teve que pensar por um momento. Se fosse, teria que ficar perto de Poseidon por um bom tempo, e isso seria bastante constrangedor, levando em conta o que havia acabado de acontecer entre eles. Por outro lado, se não fosse, pareceria que não se importava com Jack, o que não era verdade. Tinha tanta curiosidade sobre a vida do menino quanto qualquer um naquele cômodo.

Estava entre a cruz e a espada.

No entanto, Poseidon não era incompetente. Ele governava Atlântida há mais de dez mil anos, e o reino continuava de pé. Isso tinha que significar alguma coisa. Além do mais, ele não a estava forçando a ir. Estava dando uma escolha. E talvez Atena devesse aprender a confiar um pouco nele.

— Não — respondeu, por fim. — Eu vou ficar.

Poseidon apenas assentiu e seguiu Helena às pressas para o lado de fora, lançando um último olhar para Atena, parada no meio da sala como uma estátua de marfim, antes de desaparecer pelo corredor.

∆∆∆

Durante o banho daquela noite, Atena teve mais no que pensar do que o habitual. Havia ido mais longe do que jamais fora dentro no tempo em que mantinha o voto de castidade — se é que ainda o mantinha -, e tinha medo de ir ainda mais longe em uma das tentativas de Poseidon. Não é que fosse uma puritana atirada, mas mesmo uma deusa com éons de experiência em autocontrole tinha dificuldade em se manter sã quando um homem como Poseidon oferecia o que ele havia oferecido. As mortais não resistiam, e ela não estava tão longe de ser como elas — especialmente porque ele era ele, e havia toda uma complexidade por detrás desse fato.

Mas o maior problema não era seu voto. Pelo contrário, esse era o menor deles, já que não havia feito a burrice de jurar pelo Estige uma condição tão frágil, como os Três Grandes fizeram ao prometer não ter mais filhos com mortais. O x da questão era: e depois? O que aconteceria depois de tudo isso? Depois que, se acontecesse, quebrasse a própria promessa, depois que a missão chegasse ao fim? Voltariam às suas rotinas, cada um em seu respectivo lar, e esqueceriam tudo o que havia acontecido? Não, certamente que não. Uma história tão confusa e contraditória quanto a deles não era tão facilmente esquecida, ainda mais por aqueles que a protagonizaram. E então o quê? Continuariam como bons amigos, fingindo que Atena nunca havia quebrado seu voto? Pouco provável. Seria uma amizade um tanto quanto estranha.

E o pior: E se os medos da Atena de dois mil anos atrás subitamente viessem à tona outra vez? E se as ameaças se tornassem verdade?

Atena correu os dedos pelo cabelo, nervosa. Sentia vontade de chorar. Queria deixar suas lágrimas caírem sem preocupações e se misturarem a água da banheira, sem deixar provas de seu momento de fraqueza. Mas não chorou. Não conseguia chorar. Parecia que todas as suas lágrimas haviam secado e decidido que não cairiam mais. Se era esse o caso, estava certo. Atena se levantou e vestiu o roupão, decidida. Não era uma garotinha. Era uma mulher, a mulher mais sábia e forte do mundo, e resistiria aos encantos de Poseidon, não importava o que ele fizesse. Seus princípios e valores não mudariam por causa de uns amassos, mesmo que ela tivesse corado ao ter tal pensamento.

Naquela noite, se recolheu para dormir em seu próprio quarto — aliás, o quarto que Poseidon emprestara à ela, por assim dizer. De toda forma, não dormiria com ele de novo. Podia muito bem conservar-se mesmo a um centímetro de distância dele, mas preferia não arriscar. E depois, se baixasse a guarda um pouco que fosse, Poseidon iria bombardeá-la com perguntas inconvenientes, então decidiu que dormir em seu quarto era a escolha mais sensata.

Não sentia sono, ainda mais com a cabeça cheia de pensamentos confusos, então pegou um livro para passar o tempo até querer dormir. Mas se esperava não ser importunada só por estar em seu próprio quarto, estava muito enganada. Muito tempo depois de sair para procurar Jack, Poseidon bateu em sua porta e, sem esperar resposta, abriu, enfiando a cabeça para dentro.

— Hey, Atena.

Ele parecia cansado, com os fios do cabelo grudados na testa pelo suor e sombras debaixo dos olhos.

— Hey — a deusa respondeu, meio sem jeito.

— Está tudo bem? — Poseidon abriu a porta, entrando por completo no quarto.

Atena franziu as sobrancelhas. Queria dizer que não. Queria pegar o abajur ao seu lado e atirar em Poseidon, e arrancar sua cabeça fora por fazê-la querer tanto estar perto dele quando na verdade deveria estar o mais distante possível. Mas ao invés disso, suspirou e deu um sorriso contido.

— Sim.

— Você... — Poseidon coçou a cabeça, parecendo incomodado com algo. Para falar a verdade, até Atena estava começando a se sentir desconfortável com a situação. — Você vai dormir aqui hoje?

— Sim — repetiu Atena.

— Por quê?

— Porque é o melhor.

— Como assim o melhor?

Atena fechou o livro, enchendo o peito de ar e de coragem.

— Poseidon, o que aconteceu hoje... — sua garganta parecia ter um nó, de modo que quase não completou a frase diante do olhar interessado de Poseidon. — Não pode acontecer de novo. Você sabe que não pode.

Poseidon levou um segundo para entender. Inicialmente, suas sobrancelhas estavam unidas, seu olhar distante. E então, sua confusão se tornou em raiva, tão nitidamente que Atena viu, tão claramente quanto a luz do dia, tempestades se iniciarem no mundo dos mortais e ondas gigantes atingindo ilhas.

— Na verdade, eu não sei — ele explodiu. — Você vive falando que não pode isso, que não pode aquilo, mas não moveu um músculo para me impedir quando eu te beijei. E sempre vem jogar a culpa em mim, como se eu fosse o único que fez parte disso.

— Eu não estava pensando! — Atena replicou. — Eu... Eu não sabia o que estava fazendo.

— Ah, é mesmo? Não era o que parecia.

Atena corou fortemente, mas obrigou a si mesma a manter o controle.

— Aquilo foi um erro — disse calmamente. — Eu tenho um voto, e preciso mantê-lo. Não posso deixar que outras relações me atrapalhem.

— Oh, o seu voto — Poseidon franziu os lábios em desgosto. — É sempre ele. Quando é que você vai viver a vida para você e não para o seu voto, Atena?

— Eu não vivo para o meu voto! — Atena protestou. — Apenas honro uma promessa que fiz a mim mesma.

— Mas afinal, é um voto ou uma promessa?

— Não importa! O fato aqui é que não podemos... Eu não posso mais fazer isso.

— Eu sabia, eu sabia que você acabaria jogando a culpa em mim — Poseidon riu sem humor. — É o que você faz sempre, não é? Sabe, Atena, eu tentei. Tentei de verdade, e você sabe disso. Mas aparentemente nem fogo grego é capaz de derreter o gelo em volta do seu coração, se é que você ainda tem um. Eu cansei disso.

Sem esperar por resposta, Poseidon se virou e saiu, batendo a porta com força. Atena ficou para trás, a boca aberta e os olhos vermelhos. Não fora fácil fazer o que fizera. Agora sentia uma dor indescritível no coração só de imaginar que Poseidon pudesse estar magoado. Se doía nele o que ouviu, doía ainda mais nela o que dissera. Talvez agora ele fosse atrás de uma mulher qualquer para esquecer tudo, ou encher a cara de bebidas. E doía ainda mais pensar nisso. Mas era o melhor, Atena concluiu ao se deitar novamente e apagar o abajur, escurecendo o quarto. Faria qualquer sacrifício para que a história de anos atrás não se repetisse.

Faria qualquer coisa para que Poseidon não corresse perigo.