Três Desejos

19 Capítulo Dezessete


Capítulo Dezessete

Os gemidos vindos do lado de fora eram nada menos do que insuportáveis. Com o travesseiro tapando os dois ouvidos, Atena não sabia se chorava, gritava ou ia no quarto de Poseidon e cortava sua cabeça fora. Estivera ouvindo aquele barulho infernal desde as cinco da manhã, com curtíssimos intervalos de silêncio, e agora já passava das sete. Na dúvida, preferiu tentar conter seus instintos assassinos quanto ao deus dos mares — afinal, estava generosamente hospedadano palácio dele -, e saiu correndo do quarto, o pijama envolto em um roupão fino, seguindo às pressas para o sossego do jardim. O sol — ou qualquer que fosse o luminar diurno do fundo do mar — iluminava as plantas exóticas e coloridas, dando uma vista de se tirar o fôlego. O mar de vegetação arco-íris se estendia por metros e metros até os portões de ouro que guardavam o palácio. Às costas de Atena, a construção de mármore branco e cristal brilhava como milhões de diamantes. E metros acima, Poseidon estava com outra mulher, Atena pensou tristemente.

No fim das contas, não era especial como pensava. Fora tratada apenas como todas as outras mulheres com que ele flertava; a diferença é que não tinha ido para a cama com ele. Se ao menos tivesse seguido seus instintos iniciais, pensou, e o afastado, nada disso teria acontecido. Teriam uma relação cordial e respeitosa (ou não), e a missão já estaria finalizada há dias. Atena estaria de volta ao Olimpo, com sua paz e conforto, em meio a pessoas que realmente se importavam com ela e ajudariam a curar seu coração despedaçado, direta ou indiretamente.

Atena seguiu até uma colina ao lado do palácio. O lugar dava a ela a mesma sensação de um cemitério: tristeza, saudade, todo tipo de sentimentos ruins; e principalmente dor, ao pensar que agora era outra, provavelmente uma náiade cujo nome seria esquecido em poucas horas — se é que ainda não havia sido — e cujo lugar na cama de Poseidon era o mesmo que Atena havia ocupado, com os braços do deus ao redor de sua cintura e os lábios em seu pescoço, que desfrutava da presença dele.

Era engraçado aquele sentimento. Atena nunca havia pensado em Poseidon como seu, e tinha certeza de que ele também nunca havia pensado o contrário. Ele não era sua propriedade, não devia nada a ela. Ainda assim, como podia estar tão incomodada por pensar nele com outra pessoa? Por que se sentia tão traída?

Surpreendentemente, Atena não chorou. Era de fato uma tristeza devastadora, mas já havia chorado mais do que sua dignidade permitia. Só ficou ali, sentada e quieta, observando a movimentação da cidade ao longe.

Um sino soava no centro da cidade quando a deusa resolveu se levantar e voltar para dentro do castelo. Talvez fosse meio-dia. Por mais triste que estivesse, precisava trabalhar. Assim, além de proteger o Olimpo e o Acampamento, sairia de perto de Poseidon mais rápido. Tal pensamento foi tudo o que lhe deu forças para colocar um pé na frente do outro e caminhar até o escritório de Poseidon, onde tinha esperanças que seus planos tivessem sido guardados depois da briga — nem tão pequena — que tivera com ele.

Seu queixo caiu em surpresa ao chegar no escritório e encontrar Poseidon sentado em sua cadeira — e perfeitamente vestido, por sinal -, segurando alguns papéis na mão, como no outro dia. Ele ergueu os olhos e baixou logo em seguida, como quem diz "ah, é só você". Atena suspirou, tentando não se deixar abalar por sua expressão, e entrou mesmo sem permissão. Poseidon provavelmente já não se importava mais que Atena invadisse os cômodos onde ele estava, visto que ela vinha fazendo isso com frequência.

— Onde você guardou meus projetos?

— Na segunda gaveta da fileira de cima — respondeu Poseidon, sem olhar em seus olhos.

Atena foi até lá, e nunca pareceu tão difícil cruzar uma sala em toda a sua vida. Apesar de saber que Poseidon não a olhava, sentia que ele prestava atenção em cada um de seus movimentos. Teria se sentado na cadeira que ficava na frente dele e seguramente do lado oposto da mesa, mas por algum motivo a mesma estava ao lado dele dessa vez. Não sem muito esforço psicológico, se sentou ali mesmo, puxando a cadeira para o lado e tomando distância do deus. Pensou ter ouvido uma risada baixa vinda dele, mas não se atreveu a erguer os olhos para checar. Atena encontrou uma folha em branco e pousou o frasco com o "sangue" do monstro sobre a mesa.

— Onde está o Jack? — perguntou Poseidon depois de não muito tempo.

Ele está tentando puxar assunto, Atena não pôde deixar de pensar.

Não seja estúpida, rebateu para si mesma. Ele quer saber se você está sendo responsável com o garoto.

Atena resistiu ao impulso de dizer "eu não sei", que era a verdade. Não queria dar à Poseidon mais um motivo para acusá-la, então fez o contrário: ergueu a cabeça e declarou, sem vacilar:

— Está na cozinha, almoçando.

— Está? — perguntou, com uma falsa delicadeza. — Porque eu vim de lá há pouco tempo, e ele não estava.

— Ele está — Atena repetiu.

Poseidon sorriu, divertindo-se.

— Você não sabe onde ele está, sabe?

Atena franziu o cenho, confusa. Poseidon não parecia bravo com ela como no dia anterior, nem de longe. Seus olhos brilhavam, e o sorriso que estampava parecia minimamente verdadeiro. Talvez porque teve uma boa noite. Por algum motivo, o pensamento acendeu uma ira repentina em Atena.

— Por que você não vai procurar a mulher com quem você passou a noite para importunar ao invés de se preocupar com Jack?

Poseidon franziu as sobrancelhas, o sorriso sumindo de seu rosto.

— Que mulher?

— Ah, agora você nem se lembra mais dela? — perguntou Atena, cínica. — Bom, ao menos eu tenho com quem me identificar.

Poseidon parecia estar vendo uma melancia dançante à sua frente, tamanha era a incompreensão em seu rosto.

— Atena, do que você está falando?

— Ora, não se faça de desentendido — Atena se inclinou na direção dele, a raiva queimando em seu peito. — Eu passei quase toda a noite ouvindo os gemidos!

Poseidon sorriu carregado de malícia, o que levou Atena a se segurar muito para não socar sua cara.

— O que é isso? — ele perguntou.

— Isso o quê?

— Na sua voz — Poseidon passou a mão pelos cabelos, como se soubesse o quanto aquele gesto a irritava. — É um som muito familiar. Parece até... ciúme.

— Não seja absurdo. Eu já disse que não sinto ciúme! — Atena exclamou, indignada. — Só estou tirando satisfação do motivo pelo qual eu não consegui dormir.

Poseidon se inclinou para frente, seu sorriso malicioso se tornando estranhamente sedutor.

— Eu não sei o que você ouviu, amor, mas te garanto que não fui eu, embora eu não devesse te explicar nada dada a sua situação de ontem à noite. Mas se é o que você quer saber, a única coisa que eu fiz ontem foi dormir com o maravilhoso isolamento acústico das paredes do meu quarto — ele respondeu, a voz rouca. — E talvez te seja útil saber que o quarto de Helena é logo ao lado do seu.

Uma vergonha singular preencheu Atena quando a compreensão inundou sua cabeça. Ela levantou os olhos para fitar Poseidon, com seu sorriso zombeteiro e a postura despreocupada. Sentia tanta raiva que poderia matá-lo naquele mesmo instante, mas aqueles olhos verdes estavam tão próximos dos seus, os lábios tão provocativos, tudo parecia um convite. Que mal faria se ela apenas...?

Mas Atena não precisou tomar decisão alguma, porque o próprio Poseidon a beijou antes que ela pudesse entrar em batalha interna. Ele a beijou como jamais havia beijado antes, explorando minimamente cada centímetro de sua boca como se sua existência dependesse daquilo, e Atena mal conseguia processar isso tudo, mas acabou por retribuir automaticamente. Ela correu as mãos até sua nuca e se agarrou ali, e só agora ela percebia como havia sentido falta daquilo. Mas suas posições, cada um em uma cadeira, frente a frente um com o outro, era desconfortável, então de alguma forma — Atena não saberia explicar se fosse necessário, e isso significava muita coisa -, Poseidon a colocou sentada sobre a mesa de mogno. No segundo seguinte ele estava de pé, e o espaço entre seus corpos já não existia mais. Ele se encaixou entre suas pernas e a puxou mais para perto, Atena tendo que erguer a cabeça para chegar à sua altura. Ela sentiu Poseidon descer as mãos até a barra de sua camisa, mas não o impediu. Precisava dele, precisava do seu toque, precisava senti-lo não importava o que tivesse que fazer.

— Mas espere um pouco... — ofegou, ao fazer uma pausa para respirar. — Eu pensei... pensei que você estivesse com raiva de mim.

— Ah, eu queria estar — Poseidon alegou entre beijos. — Eu deveria estar. Mas como eu poderia? — suas mãos escorregaram até as coxas de Atena e se agarraram ali quando ele a puxou para ainda mais perto. — Eu não consigo ficar sem você nem mais um minuto, Atena. Eu preciso de você. Preciso que você seja minha.

Atena não podia dizer que não estava chocada. Chegou a perder uma batida de seu coração, a se afastar ligeiramente. Mas a essa altura sabia que estavam chegando a um ponto onde só teria duas escolhas: se entregar ou fugir para sempre. E ela não fugiria. Não mais.

— Mas eu já sou sua — declarou, os lábios muito próximos dos dele.

Poseidon não precisava de mais incentivo do que isso. Ele puxou a ponta de sua camisa lentamente, como se pedisse permissão não verbal, e Atena cedeu. Não queria mais resistir ao que fazia com que se sentisse tão plena, ainda que a sensação do quanto era errado pesasse em sua mente. Deixou que ele tirasse sua camisa, as pontas dos dedos quentes tocando cada pequeno pedaço de pele exposta, e mesmo corando até não conseguir mais sentir o próprio rosto, não disse sequer uma palavra.

— Poseidon — Atena sussurrou com muito esforço. — Estamos no seu escritório. Alguém pode entrar aqui a qualquer momento.

Poseidon suspirou e disse algo que Atena nunca esperou ouvir sair de sua boca:

— Você está certa.

Ele circundou sua cintura com os braços e, num piscar de olhos, Atena já não estava mais no escritório, e sim no quarto de Poseidon, encostada na cabeceira acolchoada de sua cama. O deus se demorou um pouco enquanto tirava os sapatos aos pés da cama, e em seguida engatinhou até onde ela estava, ajoelhando-se à sua frente para voltar a beijá-la. As mãos experientes acariciavam os lugares certos, e com a boca ele fazia coisas que faziam com que Atena se esquecesse do próprio nome.

Sem pressa alguma, a deusa deslizou as mãos até o primeiro botão de sua camisa e o abriu, repetindo o processo com todos os outros até que Poseidon finalmente estivesse despido da cintura para cima. Agora seus corpos se tocavam ainda mais, e tudo o que Atena sentia era uma vontade inexplicável por mais; não queria só o que tinha do corpo de Poseidon. Queria tocá-lo todo, sentir cada pedaço de pele enviando faíscas elétricas para a sua.

Suas mãos escorregaram para o peito de Poseidon, se deliciando com a sensação de finalmente tocá-lo depois de tanto tempo, a pele dele em chamas sob o toque tímido de seus dedos. Ela desceu ainda mais, explorando o abdômen e cada músculo demarcado na barriga dos quais sentira tanta falta, até que a calça de Poseidon impedia o contato com sua pele.

— Poseidon...

A palavra escapou de seus lábios como um pedido desesperado. Não tinha a intenção de falar, mas simplesmente saiu, porque cada célula de seu corpo implorava por mais. Sentiu Poseidon sorrir com os lábios em seu pescoço, e morder o local com mais força do que era necessário. Quando levantou os olhos e Atena o fitou, viu no brilho das orbes um sentimento que ela identificava bem: desejo. Desejo ardente, como o que sentia ao fazer todo o trajeto novamente pelo abdômen e pelo peitoral musculoso, até enterrar os dedos nos cabelos lisos.

— Eu te amo — Poseidon sussurrou.

Atena congelou. O deus dos mares segurava seu rosto, depositando em seus lábios um beijo lento depois de todo aquele tempo de ferocidade, mas ela já não prestava atenção ao que ele fazia. Não captava mais nada do que acontecia ao seu redor. A única parte de seu corpo que continuava ativa era um pedacinho de sua mente, onde a frase ainda ecoava como um estrondo:

Eu te amo.

— O quê? — ela perguntou, esperando ter ouvido errado.

— Eu te amo, Atena — Poseidon repetiu. Ele se afastou um pouco, e havia uma dor tão profunda em seu olhar que Atena sentia como se ela mesma fosse apunhalada no coração. — É a minha parte do nosso acordo. Esse é o motivo pelo qual eu te beijei. Eu tentei lutar contra isso, eu juro que tentei, mas é impossível. Eu nem consegui ficar com raiva de você, por mais que eu quisesse.

Atena continuava sem conseguir responder, mas aparentemente Poseidon não precisava de uma resposta, porque ele prosseguiu um segundo depois:

— Se não fosse por esse seu maldito voto, — Poseidon apertou os olhos e tornou a abri-los — eu poderia ficar com você. Você poderia viver aqui comigo — disse, com o olhar distante. — E eu não precisaria parar aqui o que estamos fazendo. Não posso deixar você quebrar sua promessa, meu amor.

Atena escorregou para baixo na cama. Chocada era um eufemismo para descrever seu estado psicológico naquele momento. Não havia uma palavra que compreendesse todo o turbilhão de sentimentos que passavam por seu coração, as diversas sensações que tinha.

Eu te amo.

Já haviam existido três palavras mais destruidoras? Uma frase tão pequena, com um significado tão complexo e consequências tão catastróficas. Então era essa a resposta o tempo todo? Por isso Poseidon havia começado a ser gentil? Por isso a havia perdoado sem receber um pedido de desculpas? Por isso cuidara dela, e a hospedara em seu palácio apesar de tudo? Ele a amava?

— Você está falando sério?

— Parece que eu estou brincando?

Honestamente, Atena não saberia dizer. Poseidon era mestre na arte do engano, e isso ela dizia por experiência própria. Por que acreditaria nele agora?

— Eu aguentei todos esses anos — ele disse. — Me mantive longe de você. Tentei te esquecer, pelos deuses, eu realmente tentei. Eu te observei de longe, porque respeitava a sua escolha, mesmo sem entender. E então o seu pai veio com a ideia dessa maldita missão, e eu tive que vir, porque eu não poderia deixar que você enfrentasse tantos titãs sozinha; não que você não pudesse acabar com todos eles em segundos, é claro. Você sempre se mostrou tão forte, mas começamos a viver juntos, e eu percebi que afinal você é quase... — Poseidon suspirou. — Me perdoe, Atena, eu me apaixonei por você. Eu não pude evitar.

Atena suspirou. Estava relativamente recuperada do choque. Ao menos agora conseguia se mover e falar. Mas sua mente ainda não havia processado toda aquela informação.

— Bem, eu acho que agora eu te devo a minha parte do acordo — disse finalmente. — É a minha vez de contar a verdade sobre o meu voto.