Trépas
1 Único
Notas iniciais
Pode ser que esteja meio confuso, mas é assim mesmo! Queria passar a ideia de algo, mas queria que vocês interpretassem ao seu modo também.
Espero que gostem!
Já estava farto. O que me restava? Vagar pelo mundo como um sórdido moribundo? A comida já não tinha gosto, a bebida era só uma rotina, o prazer já não me atraía. Era apenas uma alma à deriva.
Naquela época, me perguntava o que era felicidade. Para mim, aquele era um sentimento inexistente; nunca havia estado feliz de fato.
Meu mundo era regido pela dor, em meu coração só havia solidão; sofrimento era minha realidade e infelicidade, o meu carma.
Podes achar que reclamo a toa, mas a mim pouco importa; tudo que tenho é meu eterno descontento.
Desde meu nascimento fui rejeitado. Meus pais me deixaram a mercê deste impetuoso mundo; o orfanato, onde morei até minha maior idade, não se importava comigo. Dormia no frio e escuro porão da construção, as ratazanas e os vermes eram meus melhores amigos. Nenhuma das crianças falava comigo, parecia que tinha uma doença contagiosa. Eu causava asco às pessoas.
À época da Revolução Francesa, a pobreza estava instalada. Mas, ainda assim, nem os degredados atreviam uma aproximação. Não entendia. Tinha eu algum problema? As poucas vezes que me olhei no espelho, notei que defeito físico me faltava. Pelo contrário, meus cabelos eram longos e louros, meus olhos azuis, a pele branca como porcelana, as feições leves e finas: um modelo de beleza. Então, por que a distância? Por que o aparente nojo?
Minha saúde, aparentemente, era ótima. Não sentia dor ou anormalidade alguma em meu corpo e mesmo sem ir ao médico sabia que estava tudo bem. Então, por que a distância? Por que o aparente nojo?
Qualquer aproximação de minha parte era rejeitada, algo que eu não entendia os afastava de mim.
Toda minha infância fora assim. Mas, incrivelmente, fora a época menos triste da minha vida. Não que eu tenha sido feliz, mas simplesmente ser ignorado não me importava tanto.
Foi durante a adolescência que mais sofri, A vontade de ter um relacionamento estava sempre lá. Queria saber o era abraçar, ser beijado, sentir os prazeres da carne. Mas tudo o que conseguia era uma expressão de horror e a rejeição iminente.
Vinte e um anos depois e lá estava eu a me lamentar. Uma solidão indescritível, uma tristeza infinita.
Após sair do orfanato, passei a vagar pleas ruas de Paris, parando vez ou outra em tabernas para beber. Não podia ir duas vezes ao mesmo local, visto que sempre saía sem pagar. Não tinha onde dormimr, o que vestir e nem o que comer. As pessoas nunca se apiedaram de mim.
No auge da minha decadência — quando uma grave doença me acometeu -, alguém veio falar comigo. Estava eu sentado na calçada, quando vejo um homem abaixar-se para ficar à minha altura. Ele era um tanto estranho, mas não deixava de ser lindo.
-O que faz aqui, jogado ao relento? — ele me olhava intensamente e senti um tom interessado em sua voz.
-Ninguém me quer, não tenho nada e agora estou a morrer. Por que viestes falar comigo? Ninguém nunca se atreveu a fazê-lo antes!
-Sempre quis me comunicar com tú mas nunca pude. Agora que estas a morrer finalmente posso me revelar. — aquilo fez-me estremecer, mas de longe tive medo — És tão belo, mon amour. — e passou a acariciar meu rosto.
Aquele carinho era tão bom. Sempre quis sentir o contato da pele de alguém com a minha.
-Também és lindo. Mas quem és tú? E por que só agora pudestes me contatar? — tentei acariciar seu rosto também, mas eles desviou e sentou-se ao me lado.
-Não me reconheces? — fitava-me intensamente. Neguei-lhe com a cabeça. — Pois bem, me chamo Jean. Quem sou ainda não te direi, pois com o tempo descobrirás. Mas saiba que tenho de estar ao teu lado.
Olhava-me tão intensamente que fez um frio percorrer minha espinha. Sua mirada era frime, mas, não sei a razão, transmitia-me carinho. Não o conhecia, não sabia o que queria; no entanto, me encantara com sua presença, com sua aura. Ele fora a única pessoa que se aproximou de mim por vontade própria.
-Quero te levar a um lugar. Virias comigo? — acariciou meu rosto novamente e aproximara-se mais. Sua respiração resvalava em meu rosto como uma brisa morna e agradável.
Seus olhos eram acalentadores, convidativos; sua aura era suprema, não parecia humano. Seu toque fazia correntes elétricas percorrerem meu corpo. Eu sentia-me fraco por causa da doença e sua presença, como se uma voz sussurrasse em meu ouvido, fazia-me pensar que acompanhá-lo era a melhor solução.
-Para onde vais levar-me? — ousei tocar-lhe o rosto e ele pareceu satisfeito. Deslisou sua mão até minha cintura, apertando um pouco a região.
-Um lugar maravilhoso onde mal algum te aflingirá e a felicidade será plena. Sei que desejas a felicidade, que não aguentas mais todo esse martírio. Pois bem, me acompanhe e farei isto acabar. — sussurrara a última frase em meu ouvido, o corpo cada vez mais próximo ao meu.
Não sabia como agir, tudo aquilo era muito novo para mim. Nunca alguém se apiedara de mim e, agora, Jean aparecia em toda sua magnificiênica querendo ajudar-me.
Estava maravilhado com a criatura a minha frente. Ele parecia estar livre de imperfeições e, ao meu ver, emanava luz. O calor de seu corpo me tranquilizava e eu não hesitaria em segui-lo.
Não respondi nada, só segui minha vontade. Seus lábios eram tão convidativos, não conseguia resistir. Nunca havia beijado alguém e tê-lo ali, tão perto, tão lindo, só me fazia querer agarrá-lo e ir para onde quer que ele quisesse levar-me.
Foi o que fiz. Juntei nossos lábios, num beijo calmo e cheio de carinho. Jean não pareceu surpreso e se deixou levar. Nossas línguas dançavam harmoniosamente em nossas bocas e as mãos exploravam o corpo alheio.
Me senti feliz como nunca antes; era tão bom. Mas, quando me dei conta, meu corpo não tinha mais peso; ao me afastar dele, não vi mais nada. Ao nosso redor, só trevas e Jean com um sorriso em seu rosto.
-Bem vindo à morte, mon amour.
A escuridão me consumiu; finalmente estava morto. Aquele que me causara sofrimento, deu um fim à minha vida. Jean me levara para a morte.
Não sabia ao certo o que aconteceria, mas tinha a impressão de que seria melhor que a minha vida.
Notas finais
Minha primeira fic original e, sinceramente, eu gostei!
E vocês, o que acharam? Mereço reviews?
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