O pequeno Alex estava ansioso. Acabara de completar oito anos e, pela primeira vez, sua mãe o deixara passar o final de semana fora, sozinho. Depois de muito insistir, como presente de aniversário, ela permitiu que ele dormisse uma noite na casa de seu melhor amigo da escola, Nate.

Na noite de sexta para sábado ele quase não conseguiu dormir, querendo que o dia amanhecesse logo para que ele pudesse ir pra casa do amigo. Suas coisas estavam arrumadas desde o dia anterior — ele passou a tarde inteira preparando sua mochila com tudo que ele achou que precisaria. Sua mãe já havia feito a mala do menino, mas ele tinha desfeito tudo e botava seus itens "essenciais", como ele gostava de chamar: a primeira coisa que lembrou de guardar foi seu pijama do Super Man, sabendo que seu amigo Nate dormia com um do Batman. Botou alguns de seus jogos preferidos e também seus bonecos de ação, que iam com ele pra todos os lugares. Não retirou a escova de dente, mesmo tendo aversão a usá-la, achando que ela era uma grande perda de tempo.

Quando o despertador tocou, Alex levantou em um pulo e correu para o quarto de seus pais, pulando na cama do casal, enquanto puxava as cobertas.

- Mãe, mãe... acorda!! Já é sábado e eu vou pra casa do Nate! Ele já deve estar me esperando! Vamos, mãe – a mulher sorriu com a animação do filho e lentamente se pôs de pé.

- Você ta animado mesmo, hun? Aposto que vão se divertir bastante – ela sorriu, passando a mão por seu cabelo, o colocando no lugar – por que você não vai trocar de roupa e pegar suas coisas e me encontra lá embaixo para tomarmos café? – o garoto assentiu várias vezes com a cabeça, um imenso sorriso brincando em seu rosto e logo saiu correndo para seu quarto, pegar a roupa que estava separada especialmente para a ida à casa do amigo.

Mesmo contrariado – como todo menininho de oito anos que odeia banho -, ele tomou o seu, querendo ficar impecável para sua primeira noite fora de casa. Vestiu sua roupa separada e riu no espelho, fazendo umas caretas que pretendia usar para assustar Nate quando acordassem no dia seguinte. Logo se lembrou do café da manhã e que sua mãe estava o esperando. Correu para a cozinha, encontrando sua tigela favorita — azul com estrelinhas douradas — já cheia de cereal e leite, pronto para ser ingerido.

Estava tão agitado, mal conseguindo parar no lugar, que rapidamente conseguiu convencer sua mãe a sair de casa. No carro, foi cantando todas as músicas que tocavam no rádio, mesmo que não soubesse a letra de quase nenhuma. Ele se empolgava, dançando no banco de trás, às vezes se prendendo em meio ao cinto de segurança.

Alex não percebeu quando e nem como, mas ouviu um barulho estranho e logo várias gotículas de chuva embaçavam os vidros do carro de seus pais. Ele ficou assustado, várias cenas passando por sua cabeça. Aquela aguaceira poderia atrapalhar suas brincadeiras com Nate.

Ouviu a voz de seu pai o chamando e tirou sua atenção do vidro frontal do veículo para encará-lo pelo retrovisor.

- Que chuva, não? Vai ter que ficar quietinho dentro da casa do seu amigo, sem todas aquelas brincadeiras divertidas que iam fazer no quintal! — O mais velho riu, se achando bastante engraçado, não vendo o tremendo beiço que seu filho fazia.

- Não. Não pode. Não! — Logo Alex tremia seu queixinho delicado, preenchendo suas orbes com lágrimas tristes. Seu pai se assustou, não esperava que o pequenino realmente levasse aquilo a sério e tratou de logo se desculpar, tentando acalmar o garotinho que estava mais desesperado do que quando empolgado.

- Alex, não chore meu filho... era brincadeira. Logo essa chuva passa e vocês vão poder andar de bicicleta pelo parque. Não chore Alex, já vai passar.

Apesar de ter se acalmado um pouco com as palavras do pai – ele sempre acreditou no que o mais velho o dizia –, o pequeno ainda estava com um biquinho quando chegou a casa do seu amigo. Mas, assim que viu Nate vindo o receber com um largo sorriso no rosto, ele se esqueceu de tudo e se sentiu bem porque, independente da chuva, ele sabia que os dois poderiam se divertir juntos fazendo qualquer coisa, afinal, eles eram melhores amigos.

...

Nate também despertara muito mais cedo do que o comum naquele sábado. O menino estava tão animado para receber seu amigo em casa que sonhou a noite toda com as muitas brincadeiras que ele programara para os dois. Quando acordou, sem esperar qualquer ordem de sua mãe, tomou seu banho e colocou uma roupa limpa, descendo para tomar seu café da manhã. Chegou na cozinha e seus pais se encontravam sentados a mesa, conversando animadamente.

- Nate! Acordado tão cedo, filho? – a mulher sorrio para o pequeno, preparando seu café da manhã – Animado?

- Muuuito – o pequeno respondeu alongando o “u” e dando pulinhos na cadeira, mostrando sua alegria – vocês têm que ver como o Alex é legal! Ele é o melhor amigo de todo o mundo – ele falava agitando os braços pro ar, como que para dar ênfase ao que estava falando.

- Tenho certeza que sim, querido – seu pai também sorria, feliz por ver o filho tão ansioso – uma pena que está chovendo. Isso pode atrapalhar algumas brincadeiras que a gente tinha pensando, não é mesmo? – o garoto deu de ombros.

- Tudo bem. Nós podemos pensar em alguma outra coisa – ele se levantou, sem nunca deixar seu sorriso, e saiu correndo até a grande janela da sala, que dava visão à rua – eu vou esperar o Alex aqui!

Ele ficou ali, com o rosto grudado no vidro, observando o movimento de carros e fazendo desenhos imaginários com o dedo, seguindo as gotinhas da chuva. Ele já estava ficando impaciente, queria que seu amigo chegasse logo.

Quando viu o carro do pai do menor virando a esquina, deu um pulo, correndo até a porta e já abrindo, com um grande sorriso.

- O Alex chegou! O Alex chegou! – ele pulava no lugar, esperando que o pai o acompanhasse até o lado de fora, para falar com os pais do amigo. E isso não demorou a acontecer.

Quando chegou à porta do carro, Alex já saía, agora sorrindo enormemente ao finalmente perceber que estava com Nate, pronto para um final de semana apenas de brincadeiras. Toda a preocupação com a chuva nem se passava mais na cabeça de nenhum dos dois.

Os dois correram o máximo que suas perninhas pequenas e fininhas permitiam, abraçando-se em um baque e logo estavam no chão. Assim que se separaram, encararam-se por um tempo, ambos alisando suas bundas por terem caído sentados e nada. Seus pais os olhavam preocupados, caminhando na direção dos filhos que logo chorariam, mas se surpreenderam, recebendo risadas infantis, ao invés do choro dolorido que esperavam.

- Vem, Alex! Vamos jogar – Nate foi o primeiro a se levantar, estendendo a mão para o amigo segurar e o puxando para dentro de casa.

Logo os pequenos já corriam pelo interior, Alex largando sua mochila jogada na sala e eles largados no chão, com o videogame ligado, começando uma disputa emocionante entre os monstros do joguinho.

- Eu vou acabar com você – o menor dizia animado, enquanto o monstro vermelho que ele escolhera vencia o jogo.

- Mas isso não vale! Você ficou treinando quando eu não tava aqui – Alex mantinha um biquinho no rosto, numa expressão confusa entre tristeza e raiva, mas sem desistir de tentar fazer o monstro verde virar o jogo e ganhar a luta.

Quando Alex finalmente conseguiu virar a partida, Nate o olhou revoltado, chateado. Um bico enorme se formou em seus lábios e logo lágrimas banhavam seus doces olhos infantis. Alex se assustou por um instante e logo lhe entregou o controle, dando de ombros, sussurrando que o menor tinha vencido e não tinha problema, o monstro vermelho era melhor mesmo.

O maior conversou com Nate e insistiu para que jogassem mais uma vez, para que pudesse, assim, o monstro vermelho vencer. Mas Nate já havia enjoado do jogo e resolveu que queria ir para o jardim, pegar um pouco de chuva enquanto brincavam de qualquer coisa muito mais divertida.

Os dois meninos foram correndo porta a fora, aproveitando o ventinho gelado e as gotículas que escorriam por suas faces brancas e lisinhas. Resolveram brincar de pique-pega. Inicialmente estava com o Nate e este corria desesperado atrás de Alex que já sentia falta de ar de tanto fugir. Conseguiu despistar Nate em uma das voltas que deu pela casa e se escondeu atrás de uma árvore, vendo o rapazinho procurá-lo sem nenhum sucesso.

Alex resolveu sair de seu ‘esconderijo’ quando Nate deu outra volta na casa. Ele não esperava e por isso se assustou quando descobriu que o menor também se escondera, podendo assim, capturá-lo, quando ele resolveu aparecer.

Os meninos correram pelo quintal por mais algumas horas – exatamente duas — quando os adultos deram falta dos pequenos e perceberam que estavam na chuva, correndo o risco de pegarem um resfriado. Ensopados, voltaram pra casa e, depois de tomarem um banho de banheira bem quente, enquanto brincavam com os bonecos que Alex havia levado, eles sentaram na sala, descansando enquanto assistiam a um filme do Super Man, esperando pelo almoço.

Depois de comerem, o pai de Nate resolveu inventar algo para distrair os meninos, já que o plano de ir até o parque e deixá-lo andar de bicicleta tinha ido por água abaixo – literalmente –, devido à chuva que aumentava a cada instante: o que antes era uma garoa, já tinha evoluído para uma verdadeira tempestade, daquelas que impede que as janelas de casa sejam deixadas abertas e que causam um barulho alto e assustador.

- Ei, meninos... por que nós não fazemos alguma coisa? Não vai dar pra ir no parque – os dois responderam com um biquinho, esperando que o mais velho resolvesse o problema.

- Mas nós vamos fazer o que, pai? Não tem nada pra fazer dentro de casa – Nate já estava ficando agoniado de não poder sair e ele esperava realmente que seu pai tivesse uma ideia boa pra divertir eles. Não podia ser que o primeiro final de semana com Alex e eles ficariam presos dentro de casa, sem fazer nada.

- Por que nós não brincamos de twister? A mamãe brinca também e pelo menos podemos fazer isso aqui dentro. – o homem sugeriu, arrancando grandes sorrisos dos dois pequenos.

- O senhor é o melhor, Tio – Alex dava pulinhos no lugar, acompanhado do amigo – vamos começar agora mesmo! Vamos!

O mais velho riu da animação dos meninos e logo saiu, indo chamar a esposa e trazer o jogo, para que eles pudessem se distrair.

...

- Nate, sua vez: mão direita, no amarelo – o pequeno choramingou quando viu que o único círculo amarelo que ele podia colocar a mão estava longe demais dele. Os jogadores já estavam todos enroscados, principalmente os dois pequenos, que quiseram ficar um ao lado do outro na brincadeira. Nate se esticou o máximo que pôde e repousou sua mão no local indicado – Alex... agora você tem que colocar o pé esquerdo no verde.

- No verde? Mas eu não alcanço – ele fez um biquinho, pensando em como alcançaria o círculo, já que tinha o corpo de Nate à sua frente.

- Vai, Alex... você consegue. Eu alcancei o amarelo – o menor sorriu para o amigo, tentando encorajá-lo a continuar a brincadeira.

Alex concentrou-se — se é que podemos dizer que uma criancinha de oito anos conseguia focar em algo com tanta rapidez – e se esticou, forçando sua perna ao máximo que podia. Ele estava quase alcançando... seus dedinhos iam se estendendo e arrastando-se pelo pano plastificado branco com bolinhas coloridas. Estava prestes a alcançar seu destino quando escorregou, sem intenção nenhuma, jogando seu corpo por cima do corpo magro de Nate, que caiu batendo o queixo no chão, enquanto o maior grunhia por cima de si.

O pai do menor puxou rapidamente o garoto que estava por cima podendo assim deixar o pequenino de baixo respirar. A mãe ajudou Nate, pondo-o sentado no chão. Os garotos tinham beiços imensos em seus pequenos lábios e choramingavam enquanto alisavam os locais doloridos por seus corpos.

Fizeram birra e, quando o pai perguntou se queriam continuar a brincar, os dois negaram prontamente: não queriam continuar com aquilo, era perigoso demais e eles já estavam de saco cheio de tudo aquilo de se arrastar um por cima do outro.

Já estava escurecendo e os meninos – como qualquer outra criança – não conseguiam ficar parados. Depois da frustrada brincadeira com o twist, eles resolveram procurar algo mais ‘seguro’ para eles brincarem.

- Já sei! Vem, Alex – Nate, que estava sentado no chão da sala com o amigo, assistindo um desenho qualquer que passava na televisão, levantou-se animado e já saía correndo em direção à escada quando o maior se deu conta de que estava sendo chamado.

- Me espera! Onde nós vamos? – ele saiu em disparada atrás do amigo, querendo descobrir o que ele tinha em mente. Não demorou nada e os dois estavam no quarto do menor e este espalhava pela mesinha que tinha em uma das paredes vários potinhos cheios de lápis de cor, giz de cera, tintas e tudo mais que se podia imaginar e precisar pra fazer desenhos – Ual! Quanta coisa, Nate! Dá pra fazer uns desenhos muito legais com tudo isso.

- Isso mesmo! Vamos desenhar. Quero ver se você consegue fazer um monstro mais legal do que o meu – o pequeno já começava a rabiscar um papel animadamente e o maior logo o seguiu, fazendo o mesmo.

Eles passaram horas assim, ilustrando os papéis e comentando sobre cada novo desenho que ficava pronto. Também conversavam sobre os amiguinhos da escola e seus professores, sempre rindo juntos e fazendo caretas e gracinhas.

- Meninos – a mãe de Nate estava na porta do quarto, sorrindo para a pequena bagunça que os dois faziam para colorir. Os dois a olharam sorrindo sapeca, sabendo que teriam que dar um jeito naquilo – já está na hora de vocês arrumarem toda essa bagunça e ir dormir, hun? Já ta tarde!

- Mas eu ainda não to com sono, mãe.

- Nem eu, tia. A gente queria desenhar mais – os dois faziam biquinho, tentando convencer a mulher a deixá-los ficar mais tempo brincando.

- Vocês têm que dormir se não amanhã não vão aproveitar nada. Quem sabe não faz sol, hun? Vocês ainda têm o domingo inteiro pela frente. – suspirando derrotados os dois concordaram e começaram a juntar toda a bagunça.

Enquanto organizavam o quarto, os dois não paravam um segundo sequer de conversar – todos os assuntos que crianças têm – e de brincar um com o outro, o que rendeu um bom tempo e que os deixou cansados, prontos para dormirem.

Então, depois de arrumarem as duas camas – o quarto de Nate era grande, cheio de brinquedos e desenhos na parede. Do lado esquerdo ficava a sua cama, com uma colcha azul, cheia de carrinhos desenhados e, do lado direito, paralelo à cama do pequeno, seus pais colocaram uma outra cama, para quando eles tivessem alguma visita que pudesse dormir com o garoto. Naquela noite, a segunda cama tinha, também, um lençol estampado, mas dessa vez com foguetes roxos.

- Nate! Eu trouxe o meu pijama do Super Man! Porque eu sou forte que nem ele – Alex dobrava os braços na altura da cabeça, mostrando seus músculos para o amigo, que ria do maior.

- Pois eu vou colocar o do Batman. Ele é bem mais legal – ele deu de ombros, rindo da careta de reprovação que o amigo fez – mas mesmo assim nós podemos salvar o mundo juntos – Alex desfez sua expressão, abrindo um sorrio enorme com a ideia.

- Sim! Nós vamos destruir todos os vilões que quiserem destruir o mundo. Vou me trocar logo – ele pegou sua mochila, tirando a roupa e saiu correndo para o banheiro.

Enquanto o maior estava no banheiro se trocando, Nate também vestiu seu pijama, já pulando pra sua cama. O dia tinha sido agitado e o pequeno estava cansado – apesar de não ter a menor vontade de dormir. Alex voltou pro quarto e deitou na outra cama.

A mãe do menor foi até o quarto desejar boa noite para os dois garotos e saiu, fechando a porta e apagando a luz. A chuva tinha aumentado significativamente e, o que antes era uma garoa, agora tornara-se uma tempestade.

Os dois meninos estavam deitados, cada um em sua cama em sua cama, cobertos até o pescoço e encolhidos, com medo do alto estrondo que a água fazia quando batia na janela.

Alex pregou os olhos fortemente, tentando imaginar sons mais altos que os da tempestade. Pensava nos sons dos seus games favoritos, cantarolava até as músicas de aberturas dos seus desenhos preferidos, mas toda vez que um estrondo muito mais alto era feito, ele se encolhia, parando de cantar ou pensar na música anterior.

- Boa noite Nate – disse Alex baixinho, tentando manter seus pequenos olhinhos abertos. Mas, apesar de toda a força de vontade, o cansaço estava começando a vencê-lo.

- Boa noite, Alex – Sussurrou o pequeno, na esperança de que o amiguinho pudesse ouví-lo. – Eu ainda não quero dormir... Você quer? – Pode ver o edredom do maior se mover parecendo, então, que o outro havia negado com um aceno de cabeça – E-eu... – Nate descobriu sua cabeça e, apesar do escuro, o outro pôde ver como seus olhinhos estavam brilhantes, as lágrimas ameaçando cair.

Alex saltou, ficando sentado na cama, olhando preocupado para o outro, que o encarava.

- O que foi, Nate? Por que você ta chorando?

- Eu to com medo, Alex – confessou baixinho, sentindo o rosto arder, sinal de que estava com vergonha de confessar seu temor para o maior, apesar de saber que ele jamais o zombaria.

Ao ver o menor apavorado, todo encolhido e embolado no meio das cobertas, Alex esqueceu completamente de seu medo, deixando todo esse sentimento de lado para tentar ajudar o menor a se sentir melhor.

- Você quer brincar mais um pouco? – ele falava baixinho, para que os pais do outro não escutassem, com medo que eles ficassem chateados pelos dois não terem obedecido e ido dormir.

- Mas... e se minha mãe ouvir? Ela vai ficar brava – Nate se descobriu um pouquinho, olhando para o outro. Ele estava com muito medo; a janela entreaberta, apenas com o vidro encostado, deixava que a claridade da rua entrasse e, graças à chuva, as grandes árvores de frente da sua casa tinham os galhos sacudidos, formando grandes e assustadoras sombras na parede do quarto, que faziam o pequeno achar que monstros estavam dentro do cômodo, o deixando mais apavorado ainda.

– A gente não faz barulho, é só ficarmos bem quietinhos. Tudo bem? – O outro concordou e logo Alex estava andando na ponta dos pés pelo quarto. Quando encontrou sua mochila, tratou de buscar na mesma o objeto de seu interesse. Correu silenciosamente para a cama do amigo e, sem demorar muito, os dois estavam cobertos até as cabeças, brincando com a lanterna que maior levara.

Os dois davam risos baixinhos, enquanto faziam caretas com a luz batendo em seus rostos, mas, apesar disso, Nate ainda estava assustado. Alex já estava ficando agoniado, sem saber o que fazer pra espantar o medo do pequeno.

- Ei... olha isso, Nate – ele descobriu os dois, indicando para que o menor segurasse a lanterna apontada pra parede, de modo que, conforme ele dobrava seus dedinhos, as sombras formassem bichinhos.

- Como você faz isso? – um sorriso, mesmo que um pouco trêmulo, escapara dos lábios de Nate, arrancando um maior ainda de Alex, que continuou inventando formas e fazendo barulhos baixinhos com a boca, imitando os animais.

Quando os dois praticamente nem lembravam mais do temporal que caía lá fora, mais preocupados em se divertir, um raio cortou o céu, causando um clarão por todo o cômodo, acompanhado de um trovão fragoroso. Os dois se encolheram e Alex assistiu quando Nate fechou os olhos com força. Pouco tempo depois, o menor os abriu minimamente, ficando um pouco mais calmo ao ver o amigo ali perto.

- Alex... Eu to com sede – sussurrou. Mas o outro pôde ouvir perfeitamente. Ele não gostou da ideia de ter que sair do quarto com toda aquela chuva caindo, mas se Nate queria beber algo ele iria lá buscar.

- Ok... eu vou lá buscar leite pra você – assentiu, se movendo na cama para levantar.

- Não! – Nate puxou a pontinha da manga do pijama do outro, fazendo um biquinho – eu não quero ficar sozinho aqui! Os monstros, Alex – o maior não sabia o que fazer, pois não podia mesmo deixar seu amigo sozinho. E ele também estava com medo – Deixa eu ir com você?

Ele sorriu para o menor e assentiu, levantando e vendo o outro se arrastar para seu lado e, então, os dois saíram silenciosamente para o corredor, se assustando completamente com as sombras e os barulhos que a chuva causava; tudo parecia um filme de terror daqueles que eles mais tinham medo, cheio de coisas assustadoras e sons estranhos.

Os meninos desceram as escadas na ponta dos pés, encolhidos e muito próximos, e seguiram até a cozinha. Quando chegaram lá, trataram de pegar o que queriam e sentaram-se à mesa, um do lado do outro, e começaram a comer. Alex podia ver as mãozinhas pequenas de Nate trêmulas, ao que ele levava seu biscoito até o leite e isso o estava deixando com mais medo ainda.

Então, fazendo uma careta engraçada, ele molhou sua bolacha na caneca do menor. Nate o olhou com as bochechas infladas, mostrando que não tinha gostado da brincadeira. Alex deu de ombros e mostrou a língua divertidamente para o menor e, mais uma vez, usou a caneca do amigo.

Depois de fazer isso algumas vezes, sempre com expressões graciosas no rosto, Nate já não estava mais irritado e sim distraído, entrando na brincadeira. Alex ficou infinitamente feliz quando viu que sua ideia tinha dado certo e que o outro já não lembrava mais da chuva – mas ele lembrava e ainda estava com medo, só que não ia jamais mostrar isso pro pequeno, querendo protegê-lo apenas.

- Acho que... – um bocejo interrompeu a frase de Nate, que riu baixinho, esfregando os olhos – acho que eu to com sono. Vamos dormir Alex?

- Vamos sim – ele assentiu e, depois de colocar os copos na pia e arruma o que tinham bagunçado, os dois voltaram pro quarto. Dessa vez eles estavam praticamente correndo. A chuva mais uma vez os estava assustando e eles se imaginavam fugindo de um monstro que ficava no corredor.

Quando eles chegaram no quarto, Nate logo correu pra sua cama. Ele estava morrendo de sono e não agüentaria muito mais tempo acordado. Mas ainda assim não queria que Alex ficasse longe. Ele tinha certeza que, se tinha alguém que iria o proteger de qualquer perigo, era o maior.

- Alex... Você pode ficar na minha cama mais um pouquinho, até eu dormir? – pediu manhoso, ganhando um sorriso como resposta.

O maior sentou na beirada do colchão e levou uma mão até o cabelo do amigo, que o olhava com as orbes atentas. Então ele começou a contar uma história qualquer, em que o Batman vencia mais um dos vilões e era reconhecido como o maior herói de todos os tempos. E, apesar de preferir o Super Man, ele não ligava pra isso quando via o sorriso de Nate.

Logo o pequeno sentia seus olhos pesados e o sono o vencia. A chuva ainda caía forte do lado de fora, mas ele não prestava atenção em mais nada que não fosse à voz do amigo lhe contando a história.

Quando Nate pegou no sono, Alex percebeu que agora ele estava sozinho e ficou com mais medo do que teve pela noite inteira. Ele estava apavorado de ter que ir pra sua cama e ficar ouvindo os ruídos que a chuva fazia. Tudo o lembrava coisas horripilantes. Então ele simplesmente preferiu se aconchegar ao lado do menor, envolvendo seus ombros com um braço e fechando os olhos, pronto pra dormir.

E eles perceberam que, lutando juntos, não tinha nenhum monstro que pudesse vencê-los.