Tous les secrets
1 Tous les secrets
Notas iniciais
Milo aproximou-se lentamente da casa, mas de longe já era possível ver a fogueira alta que fora acesa no quintal.
Os amigos gostavam muito de reunir durante os fins de semana, ou quando tinham uma folga, aproveitando o tempo ameno, quando não estava quente demais para uma fogueira e nem frio demais para dormirem ao relento.
Também era possível ouvir de longe a cantoria e enquanto se aproximava, conseguia distinguir as risadas e as vozes de cada um na conversa. Não entrou pela entrada principal da casa, dando a volta e seguindo direto para onde a turma se reunia, sorrindo a cada passo que o levava para mais perto dos amigos… para mais perto dele…
Sorriu para todos num cumprimento, levando tapinhas nas costas e tendo os fios loiros e longos bagunçados, enquanto se aproximava mais da fogueira, andando pelos grupinhos que se formaram, conversando com um mais demoradamente do que outro, perguntando como estavam, se tinham trazido os cds que prometeram, caçoaram porque o escorpiano estava atrasado, mas ele já sabia que estava. Tivera uns problemas antes de sair de casa, não se lembrava de onde guardara a chave do carro, depois teve que abastecer e enquanto esperava, notou que tinha esquecido algo e teve que voltar em casa para buscar. Nada muito fora do normal.
Parou perto de um grupo em particular, finalmente tirando a mochila das costas e deixando-a cair a seus pés, começando uma conversa mais demorada, onde lhe contaram algumas novidades que perdera, mas seus olhos não paravam em nenhuma face. Ele estava procurando alguém em particular, alguém que ele já havia notado nos primeiros segundos em que pisara naquele ambiente que ele não estava ali.
Depois que começara a sair com o ruivo, era como se um imã os unisse, ele sabia onde e como encontrá-lo, não importava quantas pessoas tivessem à volta, Milo não precisava olhar por muito tempo para localizar o outro. Não era difícil localizar as longas madeixas rubras, mas mesmo se ele estivesse disfarçado ou com algo cobrindo a cabeça, o olhar do loiro sempre parava em sua figura. Era uma ligação que não sabia explicar, mas sabia que ela existia.
Perguntou para os amigos onde Camus estava, recebendo resmungos em resposta, pois ele não estava prestando atenção no assunto. Claro que não estava, ele não queria saber das fofocas dos amigos ou qualquer outra coisa que fosse antes de ver o seu ruivo. Ele queria tê-lo por perto, em seus braços, apertá-lo e sentir o seu aroma. Ver seu rosto corar, como só ele conseguia fazer, para em seguida arrancar aquele sorriso mínimo e tímido, e sem modéstia alguma, que só ele conseguia ter também.
Ele não podia não ter ido! Simplesmente não podia!
“Je ne connais pas
Tous les secrets de ton coeur”
Eu não conheço
Todos os segredos do teu coração
Um dos amigos deu de ombros, dizendo que não sabia de Camus. Outro disse que não o tinha visto ainda, talvez ele também não tivesse chegado. Mas se todos estavam ali, então o ruivo deveria estar, ele viria de carona com alguém. Alguma alma caridosa, ouvindo a conversa e sabendo que Milo não sossegaria até encontrá-lo, respondeu que ele estava dentro da casa, possivelmente se escondendo e fugindo da bagunça. Típico do ruivo.
O escorpiano soltou uma risada baixa e saiu dos jardins com um sorriso maroto em seus lábios. Ele traria aquele aquariano para fora, nem que fosse a última coisa que fizesse aquela noite. Exceto se ele lhe desse um motivo melhor para ficarem lá dentro, aí ele não ia nem forçar a barra.
Caminhou silenciosamente pelos cômodos, subindo os degraus com calma, tentando não fazê-los ranger, conferindo quarto por quarto até encontrar o que queria. Até encontrar quem queria.
“Mais je viens quand même, tu vis
Quelque part entre douleur et douceur”
Mas eu venho mesmo assim, tu vives
Qualquer parte entre a dor e a doçura
O ruivo parecia uma figura surreal, não pertencia àquele mundo, àquele lugar, mas ao mesmo tempo, se encaixava tão bem naquele quadro à sua frente. Ele estava sentado em uma poltrona próxima à janela e mantinha um livro aberto no colo, enquanto olhava pela janela, mas seu olhar parecia estar perdido em um lugar bem mais distante que aquela fogueira, que fazia algumas sombras estranhas surgirem na parede atrás de si e em sua face.
Aproximou-se sorrateiro, dividido entre se divertir e assustar o ruivo ou continuar ali parado, o observando e admirando. Porque se mostrasse que estava por perto, Camus não o deixaria ficar olhando, com aquela conversa fiada de ficar sem graça por ser encarado tanto tempo, achando que tem algo estranho em sua cara.
Mas Milo não queria só olhar, ele queria tocá-lo, conversar com ele, saber como estava, o que tinha feito durante aqueles dias… não fazia tanto tempo desde que se viram pela última vez, no máximo duas semanas, devido à correria do seu trabalho e a faculdade do ruivo, mas de uns tempos pra cá, ficar um dia só que fosse sem vê-lo ou ouvir sua voz já parecia uma eternidade.
Talvez Camus não estivesse tão distraído quanto imaginara, pois quando chegou à metade do quarto, o ruivo virou-se na sua direção, analisando-o fixamente. Aquele olhar deixava Milo desconcertado, era profundo, atento, com um quê de curiosidade, como se não entendesse e o perguntasse o que estava fazendo ali.
Milo não demorou a findar com a distância que havia entre eles, postando-se ao lado da poltrona, podendo encarar aqueles olhos mais de perto. À sombra da fogueira, seus olhos castanho-avermelhados estavam mais vermelhos ainda, dando-lhe um ar misterioso e perigoso. Levou os dedos à sua face, roçando as costas da mão na maçã de seu rosto, bem de leve, descendo e contornando seu queixo e depois seguindo para o pescoço, deixando ali um carinho, ao qual Camus respondeu inclinando o rosto em direção à sua palma e fechando os olhos para aproveitar o gesto. Misterioso e perigoso? Claro… só aparentemente. Mesmo que não entendesse completamente, Milo sabia o que se escondia por trás daquele olhar frio e daquela pose distante, conhecia sua dor e também seu lado doce e gentil.
“Ton regard comme une caresse
Je me sens si bien”
Teu olhar como uma carícia
Eu me sinto tão bem
O escorpiano chamou-o para ir lá fora, aproveitar a noite com os amigos, rir e conversar um pouco, mas o aquariano negou o convite, segurando sua mão próxima ao seu rosto, num pedido mudo que ficasse ali com ele, daquele jeito.
Mordeu o lábio de leve, tentado a acatar aquele pedido e ficar ali, a noite inteira se ele quisesse, apenas observando e acariciando-o daquela forma… ele podia ser tão carinhoso quando estava só os dois, sem ninguém por perto…
Mas o problema é que Milo queria ir lá pra fora, queria aproveitar com os amigos e com o namorado. Por mais que ficar só os dois fosse gostoso, ele queria participar da bagunça também.
Insistiu uma, duas, três vezes e nada do ruivo ceder. Ele não gostava de bagunça, não queria ficar comendo porcarias feitas na fogueira e nem participar daquelas brincadeiras idiotas. Queria ficar ali dentro, longe de mosquitos e num lugar confortável, quietinho.
Revirando os olhos e contrariando as vontades do ruivo, Milo tirou sem cuidado nenhum o livro de suas mãos, puxando-o para se levantar, ignorando os protestos e ameaças, segurando-o pela cintura e jogando-o por cima do ombro, conseguindo parar os protestos pelo tempo que durou o susto por se ver sendo carregado para fora. Mal chegou à porta do quarto e o ruivo começou a reclamar novamente, pedindo para ser colocado no chão e ameaçando mais uma vez o loiro, mas o pedido só foi atendido depois que Camus prometeu não voltar para o quarto e participar pelo menos um pouco da festa.
Uma hora. Era o tempo que ele concordou em ficar por lá e nem um segundo a mais. Se não gostasse iria voltar para dentro sem pensar duas vezes e nada do que o escorpião dissesse o faria mudar de ideia, mas para Milo era suficiente. O mais complicado era arrastar o ruivo pra fora e uma vez lá, ele sabia como distraí-lo.
Chegaram ao jardim de mãos dadas. O loiro exibindo um sorriso vitorioso enquanto o ruivo olhava para o chão, tentando esconder a face corada. Camus não tinha vergonha do namorado ou de andar de mãos dadas com ele… só não se sentia a vontade pra fazer isso tão abertamente.
“Puis je perds l'écrin de tes bras
Et je n'ai plus rien”
Depois que eu perco a preciosidade dos teus braços
E eu não tenho mais nada
Ele sabia também que lá no fundo, gostava daquele toque e daquele gesto. De saber que Milo gostava de si e não tinha vergonha de demonstrar para ninguém.
E diferente do que Camus tinha imaginado, o loiro não o levou para junto do grupo. Apenas passou perto dos amigos, pegando um dos pacotes com marshmallows e levando-o para um lado mais afastado, de onde podiam ver e ouvir os outros, mas ao mesmo tempo, sendo um cantinho só pra eles.
Juntos fizeram uma fogueira bem menor e mantiveram uma conversa amena enquanto o fogo esquentava. O ruivo colocou alguns dos doces nos palitos e fixou-os no chão próximo ao fogo para aquecerem e o loiro foi providenciar algumas bebidas.
A hora de teste veio e se foi e o ruivo não queria sair dali.
Quando a conversa se tornou espaçada e o silêncio marcava mais presença, alguns dos outros casais pegaram colchonetes e cobertores, jogando ali mesmo no chão de terra, deitando ao ar livre para dormirem. Milo, por sua vez, ainda animado em sua conversa, apoiou-se contra uma árvore, puxando o ruivo para se sentar entre suas pernas, fazendo-o apoiar as costas em seu peito, envolvendo-o em um abraço protetor.
“Tu m'entoures comme un drap de soie
Je me sens si bien”
Tu me cercas como um lençol de seda
Eu me sinto tão bem
Diferente do que o loiro imaginou, o ruivo não o afastou ou protestou por aquela demonstração de carinho. Ele se aconchegou melhor, deitando meio de lado, apoiando ambas as mãos em seu tórax e o ouvido bem em cima de seu coração. Camus ergueu o olhar, agora podendo analisar melhor a feição do loiro, não conseguindo reprimir um sorriso ao tê-lo tão perto. Amava aquele sorriso e aqueles olhos azuis tão profundos e ao mesmo tempo tão transparentes. O aquariano conseguia distinguir o que aquele olhar transmitia e gostava da mensagem que eles passavam.
As batidas ritmadas e o abraço o acalmaram e logo o ruivo estava ressonando, dormindo profundamente entre aqueles braços fortes. Milo levou a mão até sua face, não conseguindo reprimir um sorriso, mas não o sorriso zombeteiro de sempre.
Soltou um longo suspiro, sentindo os olhos pesarem, lançando um último olhar para o ruivo antes de se entregar ao sono. Apertou meio inconscientemente o abraço, e dependesse de si, não o soltaria nunca. Ele podia não saber todos os segredos que a alma do outro escondia, mas ele queria estar ali do lado, sempre que o ruivo precisasse, sempre cuidando e o observando.
“Mais je viens quand même
Je te suis quand même”
Mas eu venho mesmo assim
Estou em ti mesmo assim.
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