Londres, 08:00 AM, 20/10/2010

Klaus estava pronto pra sair pro trabalho quando o telefone tocou. Ele estranhou a ligação tão cedo, mas atendeu.

— Klaus Hoff falando — ele falou

— Oi, Klaus. — Sarah falou do outro lado da linha

— Sarinha, quanto tempo! Já achava que você tinha esquecido de mim.

— Não esqueci por um motivo bem simples. Você ainda está com uma das minhas filhas.

— Asta não é só sua filha. Ela também é minha filha, assim como a Leslie. E ela já está no colégio, se essa era a sua próxima pergunta.

— Não sei se você lembra, mas ela ainda está sob a minha guarda.

— Eu sei disso. E também sei que você não me deixaria esquecer. Pode ficar tranquila. Asta está indo melhor impossível na escola. O diretor até me pediu pra liberar aulas extras pra ela.

— Porque eu não consigo acreditar em você, Klaus?

— Porque você não quis me ouvir cinco anos atrás. Se você tivesse realmente ouvido tudo o que eu tinha pra dizer, você não estaria nessa situação. Eu sei que você está enfrentando um dilema, Sarah. Mas você é orgulhosa o suficiente pra não dar o braço a torcer e me ouvir.

— Então me diga, Klaus, o que realmente aconteceu naquele dia que eu não saiba.

— Eu nunca te contei sobre as minhas motivações pra esconder a magia. Eu não poderia te contar porque existe uma coisa chamada legislação bruxa que me impede de contar pra qualquer pessoa que não seja bruxa sobre a magia.

— Mas você fez votos no dia do nosso casamento, Hansi. — Sarah praticamente cuspiu o apelido de Klaus, como se fosse uma forma de ofensa — Era pra você ter me contado que tinha alguma coisa ao menos diferente com você. Eu sempre contei tudo pra você. Dividia meus medos, minhas angústias, meus segredos e minhas alegrias. E você me escondeu uma coisa que simplesmente não se esconde.

— Em outras palavras, você queria que eu quebrasse uma lei pra te dizer que sou uma coisa que você condena. Parece muito justo. Só que eu não posso simplesmente sair quebrando leis, Sarah. Eu não só cumpro as leis de pessoas não bruxas como eu cumpro as leis dos bruxos, tenho tratados a cumprir. Se você acha que eu não sou um bom exemplo pras meninas, ótimo. Mas deixe que eu fique com a Astrid. Ela mudou muito desde que veio pra Londres.

— Então nos vemos na justiça, Hoff. Eu não vou abrir mão da minha filha.

— Nem eu vou abrir mão de ter algum contato com as minhas filhas. Eu sei que no tribunal a Leslie vai querer ficar com você. Ela sempre foi muito parecida com você, Sarah. Cética, mas sempre tentando ajudar quem precisa. Mas pense bem antes de disputar a guarda das meninas no tribunal. Você sabe muito bem que eu não entro em brigas pra perder.

— Nem eu, Klaus.

Os dois bateram o telefone. Klaus ainda gostava de Sarah e sabia que ela ainda nutria um sentimento por ele. Ele também sabia que ela não abriria mão de demonstrar o quanto estava ferida com o fato dele ter escondido por tanto tempo o fato de ser bruxo.

Tentou se recompor da briga que teve com a ex-mulher. Ainda tinha que ir pro trabalho e não poderia estar abalado emocionalmente. Tinha que ser profissional.

Hogwarts, 05:30PM, 20/10/2010

— Vai ser sempre torturante desse jeito? — Miko perguntou pra Astrid quando saíam da aula extra — Eu mal me aguento em pé. Achei que com o tempo ficava mais fácil.

— Vai ficar mais fácil, Dawud. Mas só daqui a algum tempo. E a gente já tá quase produzindo um patrono decente. Já dá pra perceber que o seu é um dromedário.

— Não, aquilo não é um dromedário. Aquilo é um camelo, Biene. Ca — me — lo. Dromedários só têm uma corcova. Camelos têm duas.

— Em outras palavras, seu patrono é um animal do deserto.

— E o seu é um pássaro.

— Um melro.

— Ele poderia ser um sabiá.

— Eu tenho certeza que é um melro. Sabiás são diferentes de melros. O bico, o rabo... Enfim, são diferentes.

Os dois iam em direção à sala comunal, como se os pés deles os guiassem.

— Acho que daqui pra sexta a gente consegue terminar a sessão patrono e vai pra sessão animagus. — Astrid falou

— O que você escolheria?

— Talvez um melro, que nem meu patrono. É que eu gostaria de saber qual é a sensação de voar. E dizem que você tem que escolher um animal que permita você manter uma característica humana sua. O melro tem a penugem preta e eu, cabelo preto.

Miko olhou pros lados.

— Posso te contar um segredo? — ele perguntou

— Pode.

— Jure que não vai contar pra ninguém.

— Juro solenemente não contar pra ninguém.

— Sirius, Peter e James são animagus ilegais.

— O que? — Astrid engasgou nas próprias palavras

— Nunca reparou as piadinhas que eles fazem, não? O Sirius chamando o James de chifrudo, o James chamando o Sirius de pulguento e os dois chamando Peter de roedor...

— E o Remus? Ele é amigo dos meninos.

— Digamos que ele é o motivo pelos outros terem se tornado animagus. Eles só não me envolveram porque meu pai trabalha no Ministério e se essa história viesse à tona, seria um escândalo pro meu pai.

— E porque o Remus é o motivo dos meninos serem animagus?

— Isso eu não posso dizer. De verdade. É por uma questão de respeito mesmo. O Remus me mataria da forma mais dolorosa possível se eu te dissesse sem o consentimento dele. A única coisa que eu te digo é que é um problema cabeludo.

— Problema cabeludo?

Miko assentiu e os dois continuaram andando pelos corredores. No caminho, acabaram passando perto da torre da Gryffindor. James, Sirius e Remus estavam saindo da torre no momento que Astrid e Miko passaram.

— O clima tava bom, hein? — Sirius brincou

— Você não tem ideia de como, Padfoot. — Astrid devolveu a brincadeira

— Vocês têm que ir com calma. — James botou os braços em volta dos ombros do casal, ficando entre os dois — Ou então vocês terão sérios problemas.

— Pode ficar tranquilo, James. A gente sabe se cuidar.

— Não quero ter afilhados tão cedo.

— Prongs, por favor, né? Você acha mesmo que eu vou te dar o gostinho de ser padrinho tão novo?

— Acho bom.

— Agora eu tenho que ir. Diferente das três beldades aí, eu tenho mais o que fazer, como dever. E estudar pros OWLs, né, gatões? Até mais. — Astrid falou enquanto se desvencilhava de James.

Os quatro rapazes observaram ela sair andando pelo corredor.

— Cara, adorei a sua namorada. Se você não casar com ela eu te mato. — James falou

— Eu também adoro a minha namorada, James. Você não sabe o quanto. — Miko brincou

— Se for mais ou menos o tanto que eu gosto da Lily, pode ter certeza que eu sei o quanto.

— Tem certeza que vocês só se conheceram nas férias? Não tem mais tempo nisso não? — Remus perguntou

— Não, não. Só conheci Biene quando a gente foi pra Diagon Alley comprar o material.

— Vocês parecem se conhecer a mais tempo. E ela realmente bateu em você? — Sirius perguntou curioso

— Bateu. Foi uma mãozada na minha cara. Mas depois ela acalmou.

— Ensina o truque pro Prongs, que ele tá precisando.

Os rapazes riram.

— Padfoot e Moony, a gente precisa montar a operação cupido pro nosso caro Prongs. Ele alega que desistiu de Lily, mas duvido muito. — Miko falou como se estivesse num tribunal

— Michael Thompson. Não existe um ‘nós’ nessa conversa. Existe um ‘James Potter’. E ele é quem vai falar com ela. — Sirius continuou com o mesmo tom que Miko — E vai ser pro próximo passeio à Hogsmeade que, por algum acaso, é nesse fim de semana.

— Triste fim, Prongs. Você vai ter que chamar a ruivinha pra sair. — Remus falou

— James, pra te ajudar, vou fazer o seguinte: eu, Michael Dawud Thompson, vou pedir para Astrid falar com Lily, para que ela vá com você. Como amigos. É só pra ela não ficar segurando vela minha e da Astrid. Combinado? — Miko propôs.

— Uma estratégia boa. Porque você não tem esse tipo de estratégia pra aprontar? — James perguntou pro amigo.

— Acho que a fonte pra planos infalíveis secou permanentemente, caro Prongs. Mas se quiser ajuda com a Lily, é só falar. Agora eu tenho uns trabalhos de Transfiguração pra terminar. E semana que vem vou precisar da ajuda dos dois — ele apontou pra James e Sirius — Vou ter aulas pra me tornar um de vocês.

Os meninos se entreolharam confusos e demoraram um tempo pra entender o que Michael queria dizer. Quando finalmente entenderam, Miko já estava na porta da sala comunal da Ravenclaw. O menino entrou, pegou seu material no malão e começou a fazer o trabalho de Transfiguração. Terminou o trabalho e foi ajudar a namorada com as tarefas.

A sala comunal foi esvaziando enquanto os dois iam terminando as tarefas acumuladas. Chegou um momento em que os dois caíram no sono na poltrona e só acordaram no dia seguinte.

— Biene. — Miko chamou enquanto cutucava a perna da namorada — Biene, acorda.

Astrid resmungou qualquer coisa, mas não acordou. Miko chacoalhou a perna dela mais forte.

— Biene, hora de acordar. — nada da Astrid acordar — Astrid Sabine Hoff. Tá na hora de acordar.

Astrid coçou os olhos. Ela rapidamente ficou verde.

— Dawud, não estou bem. — ela falou

— O que foi?

Astrid não conseguiu responder. Só deu tempo pra desviar o rosto e vomitou no carpete. Miko pediu pra um menino que passava chamar o professor Flitwick. O menino foi correndo. Miko olhava preocupado pra namorada. Ela ainda estava verde e vomitando quando o professor chegou.

— O que está acontecendo? — perguntou Flitwick

— Ontem de noite acabamos dormindo por aqui enquanto fazíamos a tarefa. Ela acordou e começou a vomitar. — Miko explicou

O professor se juntou à aluna e a analisou de perto.

— Nunca vi alguém ter uma reação tão tardia a um dementor. — ele murmurou

Astrid segurou o braço do professor.

— Eu estou bem. De vez em quando isso acontece. — ela conseguiu falar fracamente.

— Astrid, isso não é normal. — Miko se aproximou da namorada com cuidado pra não pisar na poça formada pelo vômito. — Vou te levar pra ala hospitalar.

— Não precisa.

— Você não vai teimar, pelo menos não agora. Essa estratégia pode até funcionar com a sua mãe, mas não vai funcionar comigo. Consegue ficar em pé?

Astrid assentiu e levantou. Andou apoiada no namorado e foi seguida pelo professor. No caminho, parou umas duas vezes pra vomitar. Quando chegaram na ala hospitalar, Madame Pomfrey foi logo descobrir o que estava acontecendo.

— Ela já acordou nesse estado, Poppy. Ontem ela teve aula comigo e teve que ver um dementor. Provavelmente é alguma reação tardia. — falou o professor

— Eu estou bem. — Astrid soou irritada — Isso acontece comigo. É normal.

— Sair vomitando as tripas não é normal, Astrid. — Miko devolveu, também irritado

— Isso é só TPM. Eu esqueci que eu não posso comer peixe nessa época se não acontece isso. É normal. Eu vou ficar bem normalmente. Não precisa ficar tão preocupado assim, tá certo? Eu estou bem.

— Mesmo assim, mocinha. Você vai ficar aqui por um tempo. Pelo menos até esse estômago se acalmar. — falou Madame Pomfrey — E você — ela se virou pra Miko — vá tomar café. Ela vai ficar bem.

Miko foi pro salão principal acompanhado do professor. Não queria deixar Astrid sozinha naquela situação, mas sabia, por experiência própria, que ela estava em mãos muito competentes. Tentou comer alguma coisa, mas não conseguia botar muita coisa na boca. Quando terminou de comer um pouco, voltou pra ala hospitalar. Sua namorada estava sentada numa cama comendo.

— Já está assim? Que melhora rápida é essa? — ele perguntou

— Eu disse que eu estava bem. Vocês é que não acreditaram em mim. — Astrid falou de boca cheia — Eu sei o que acontece comigo, sabe? Isso já aconteceu várias vezes e cá estou eu, vivinha.

— Nunca mais me dê um susto desses. Eu tava quase tendo um troço.

— Prometo que vou tentar. Não posso dar garantia de nada, já que meu organismo é meio louco e decide umas coisas não muito divertidas.

Ficaram um tempo em silêncio, Miko observando Astrid comer.

— Você não comeu — ela falou

— Comi sim.

— Não comeu. E se comeu, não comeu o suficiente. Dá pra perceber do jeito que você tá olhando pra comida. Pegue um pouquinho.

Miko e Astrid comeram e ficaram conversando até Madame Pomfrey expulsa-los da ala hospitalar. Pegaram o material no dormitório e foram pra primeira aula. No caminho, Miko pediu pra que Astrid falasse com Lily e tentasse convencer a ruiva de ir com eles e James pra Hogsmeade no fim de semana.

— Em outras palavras, isso é uma missão cupido pra juntar o James e a Lily, só que a Lily não pode perceber que a gente tá juntando ela com James. — Astrid falou

— Isso. Ela tem que achar que foi ela que tomou a iniciativa. Ou então, cabeças irão rolar. Mais especificamente as nossas, já que James pediu que a gente só desse um empurrãozinho, e não fizesse o trabalho todo.

— Tá certo. Vou falar pra ela que a gente quer a presença dela no passeio de Hogsmeade, mas vou sugerir que ela chame James pra não ficar segurando vela. E vou dizer pra ela não sair espalhando, já que não é uma festa.

— Pode ser.

— Vou aproveitar esse fim de semana pra comprar um presente de aniversário pra você e outro pro seu irmão.

— Você sabe que não precisa fazer isso, não sabe?

— Isso o que?

— Comprar um presente pra mim.

— Óbvio que eu preciso. Eu sou a sua namorada.

— Então se prepare pro Natal, dona Astrid.

Os dois entraram na sala de poções e prestaram atenção na aula, que era sobre como preparar uma poção do amor. Astrid conseguiu ir satisfatoriamente bem, enquanto Miko se saiu um desastre.

— Como é isso? Com um mês de aula você simplesmente consegue fazer poções melhores do que a turma inteira sem nem ter assistido uma aula sequer antes de vir. — Miko reclamou

— É que isso é parecido com as aulas de química que eu tinha no internato. Um pouquinho disso, mais um pouquinho daquilo. E você misturou pro lado errado. Foi a única coisa errada que você fez e conseguiu desandar tudo.

— Sério que foi só o lado que eu errei? Que droga.

Professor Slughorn passou pelos dois e olhou o caldeirão de Astrid.

— Parabéns, senhorita Hoff. — o professor falou em aprovação. Quando viu o caldeirão de Miko, o professor torceu o nariz.

— Já sei, professor. Acabei de descobrir que misturei pro lado errado.