Touches You
3 Capítulo 2
Londres, 06:30 PM, 07/07/2010
— Mãe, adivinha quem é o mais novo Prefect da Ravenclaw? — Mike disse com um sorriso enorme assim que a mãe aparatou na sala de estar.
— Parabéns, filho — a mulher falou, respondendo ao sorriso
— Ainda acho que tem algum erro nessa história — disse Max saindo da cozinha — Você é irresponsável demais pra ser Prefect, Miko.
— Não sei se você lembra, irmãozinho, mas eu mudei. Quem apronta em Hogwarts é James, Peter, Sirius e Remus, que não são nem da minha casa. Eu não. Para provar, estou andando com Lily Evans, minhas notas subiram e faz um bom tempo que nem a mãe nem o pai recebem uma carta da McGonagall.
— Isso não quer dizer nada. Você se aproveita de Lily Evans.
— Quem disse isso? Ela só me incentiva a estudar.
— Max, você deveria se orgulhar do seu irmão. Afinal, ele conseguiu melhorar a ponto de ser nomeado Prefect. — interferiu a mãe dos garotos
— Mãe, ele ainda é irresponsável — argumentou Max.
— Chega, Max. Seu irmão realmente mudou. Apesar de continuar amigo dos Marauders, ele melhorou o comportamento. — falou a mulher
Com um ruído baixo, apareceu o pai dos garotos. Observando as expressões dos filhos e da mulher, sabia que alguma coisa estava acontecendo.
— Samira, qual o problema? — perguntou o homem
— O Mike foi nomeado Prefect, Ivan. — respondeu Samira
— Parabéns, filho. E você, Max? O que me conta de novo?
— Nada, pai. — o menino respondeu cabisbaixo
— Max, seu chato, aposto que você vai ser Head Boy daqui a dois anos. — Michael falou atirando uma almofada no irmão.
— Mike, você pode vir aqui, por favor? — perguntou Samira
— Claro, mãe. — respondeu Michael, fazendo gracinhas pro irmão.
Chegando no escritório da casa, Samira indicou a cadeira a sua frente e mandou o filho se sentar.
— Como é tradição na família, quando alguém é nomeado Prefect, capitão do time ou Head Boy ou Girl, se dá alguma coisa pra simbolizar o orgulho da família. — começou Samira — Normalmente damos uma coruja ou uma vassoura melhor.
— Posso escolher? — perguntou Michael, animado com a perspectiva de pedir alguma coisa sem receber um ‘vá trabalhar’ como resposta.
— Pode — disse Samira, como se pudesse ler a mente do filho.
— Tem certeza, né, mãe?
— Michael, diga logo. Para de enrolar.
— Que tal um lenço palestino novo? O meu está quase se rasgando.
— Um lenço? Tem certeza de que você quer isso?
— Tenho. Mas se você quiser me dar mais de um eu garanto que não recuso.
Samira revirou os olhos. Isso era típico de Miko.
— Tá bom, vão ser dois. — falou a mulher
— Obrigado, mãe.
— Sexta, você poderia ir com o Max pra Diagon Alley comprar os materiais de vocês?
O menino deu um abraço apertado na mãe e saiu todo serelepe pela casa. Quando Max viu o irmão tão feliz, tentou ficar feliz por ele, e por não ser nenhum metido a sabe tudo.
— Acabou de chegar uma carta da Lily — disse Max, entregando o envelope ao irmão.
— Valeu — respondeu Miko, pegando o envelope e indo em direção ao sótão.
Subiu as escadas da casa abrindo o envelope, feliz por ver a caligrafia tão familiar. Assim que chegou abaixo do alçapão que dava para o sótão, parou, deixou a carta no chão e puxou as escadas. Apanhou a carta e entrou em seu quarto para ler a carta a sós. A carta dizia:
“Miko,
Tudo bom? Adivinha quem é um dos Prefects da Gryffindor? Isso mesmo. Eu, Lily Evans. Petunia ficou dizendo que era uma escola de loucos pra ter esse tipo de cargo estudantil. Mas quem liga pro que ela pensa em relação à Hogwarts? Estou realmente animada com o fato de ter sido nomeada e tal. E esse ano ainda tem os OWLs. Por Merlin, esse ano promete!
Queria saber todas as novidades da família Thompson. Desde você e Max até seus pais. Por aqui, a Petunia está — como sempre — enchendo o meu saco e agindo como se eu tivesse alguma terrível doença contagiosa. Meus pais estão muito felizes por eu ter sido escolhida pra ser Prefect.
Ah! Já ia me esquecendo. Severus foi nomeado Prefect da Slytherin.
Bem, é isso.
Beijos e abraços,
Lily”
Miko riu do bom humor da amiga em relação à irmã. Sabia que não era fácil ter Petunia como irmã, principalmente por Petunia ser um tanto quanto invejosa e preconceituosa demais. Procurou o pedaço de pergaminho onde tinha anotado o telefone da amiga, pegou a extensão do telefone e ligou.
— Sra. Evans falando — atendeu a mãe de Lily
— Oi, Sra. Evans. Aqui é Miko, amigo da Lily. Como vai a senhora?
— Vou bem. Vou passar pra Lily, só um instante.
Depois de um minuto ou dois, Lily atende o telefone.
— Miko! Que bom que você ligou! Tinha esquecido o teu número e acabei mandando uma carta. — disse uma Lily animada
— Acabei de receber a carta. Que ótimo que você foi nomeada Prefect. Pelo menos vou poder conversar com você e com o Severus durante a viagem até Hogwarts.
— Como assim?
— Fui nomeado Prefect da Ravenclaw. Legal, não?
— Ótimo! Como foi que o Max reagiu?
— Ele ficou com raiva por eu ter sido nomeado e ele não. Mas acho que ele vai mudar de ideia. Ele não é tão afim de responsabilidade como parece.
— Então espero que o outro Prefect da Gryffindor não seja o Potter. Se for ele, eu renuncio.
— Duvido muito que seja James. É mais fácil ser o Remus do que o James. Remus é praticamente o aluno modelo da escola.
— Peraí. Acabou de chegar um bilhete do Remus. — a menina deu uma pausa — Ele tá dizendo que o Potter foi nomeado Prefect da Gryffindor. Inferno. Dois amigos meus como Prefect, mas o idiota do Potter também vai junto... Esse ano, não sei o que esperar. Realmente.
— Mudando um pouco de assunto, eu to pensando em ir até a Diagon Alley essa sexta de tarde. O que você acha da gente ir juntos? O Remus e o Severus podem vir também.
— Não é uma má ideia. Vou combinar com os meninos.
Da sala, Miko ouviu a sua mãe chamar para o jantar.
— Lily, vou ter que desligar. Qualquer coisa, manda uma coruja.
— Tá certo. Até mais, Miko.
— Até.
O menino desceu e foi jantar com a família. Durante o jantar, comentou que seus amigos se tornaram Prefects e avisou ao irmão que na sexta iriam comprar os materiais escolares.
Manchester, 6:30 PM, 07/07/2010
— Leslie! A mãe chegou! — Astrid gritou pra irmã
— Tá certo. Gênia do mal, você tem certeza que esse plano vai dar certo? — Leslie perguntou receosa
— Claro que eu tenho certeza. Papai e Onkel Leon estão do nosso lado.
— Mesmo assim. Não me sinto bem em mentir pra mamãe.
— Então fique calada. — Astrid ouviu o barulho da porta se abrindo na sala — É muito tarde pra desistir.
Depois de um tempo, a mãe das meninas aparece no corredor.
— O que aconteceu? Vocês estão muito quietas. Especialmente você, Astrid. — a mulher falou
— Mãe, posso falar com você uma coisa séria? — Astrid perguntou
— Claro.
— Bem, é que eu estava pensando em passar um tempo com o papai e o Onkel Leon lá em Londres. Mais cedo o papai ligou dizendo que queria que eu e a Les passássemos um tempo por lá.
— No tanto que o pai de vocês deixem vocês na escola depois, por mim tudo bem. Vocês têm o direito de passar um tempo com o pai de vocês.
Assim que a mãe saiu de vista, as duas irmãs se olharam de queixo caído. Na cabeça das duas estavam surgindo as mesmas perguntas, que nenhuma das duas poderiam responder. A mãe tinha cedido muito fácil, coisa que não teria feito alguns dias antes. O que as duas meninas não sabiam era que a mãe estava simplesmente cansada de tentar separar as filhas do pai. Que sabia que mais cedo ou mais tarde alguma das duas — a sua principal aposta era Astrid — iria se revoltar com o fato de não ver o pai e fugir pra Londres morar com ele na primeira oportunidade.
Sarah sabia que Astrid era muito parecida com o pai e que tentaria de tudo pra ficar com ele. Mas Sarah não conseguia aceitar tudo o que se passou no ano que ela e Klaus se separaram. As meninas ainda eram pequenas, deviam ter uns 10 anos e eles estavam de férias na casa de Leon, na Inglaterra. Klaus estava sozinho no porão da casa do irmão, mexendo numa coisa que Sarah não tinha a menor ideia do que era.
Quando descobriu que o então marido era envolvido com magia, o expulsou de casa e o impediu de ver o crescimento das filhas. Mesmo com Klaus constantemente tentando explicar o ocorrido, Sarah não queria ouvi-lo. Ele não era mais o alemão pelo qual ela se apaixonou. Em momento nenhum contou às gêmeas o que havia acontecido realmente. Apenas disse que o pai não ficaria mais em casa e que ficaria com o tio delas por um tempo.
Quando voltou pra Alemanha, Sarah só passou mais dois anos com as filhas antes de se mudar para Manchester. Assim que se mudaram para a Inglaterra, coisas estranhas começaram a acontecer, o que levou Sarah a colocar as filhas num colégio interno.
Sarah se sentou abatida em sua cama. O dia que ela menos esperava na vida chegou. O dia em que as suas preciosas filhas queriam ir para a nublada Londres passar um tempo com o pai. Pegou o porta-retratos que mantinha escondido das filhas. A foto era de um tempo em que ela e Klaus eram felizes e que ela podia confiar cegamente nele. Aquilo já estava no passado.
— Hansi, Hansi, o que eu fiz pra te merecer? — Sarah murmurou
Apagou os vestígios de lágrimas que queriam cair. Pegou o telefone e ligou pro ex-marido, sabendo que provavelmente enfrentaria o ex-cunhado alcoólatra.
— Astrid? — Klaus atendeu do outro lado da linha
— Não. É a mãe dela, Klaus. — Sarah falou friamente — Eu queria falar sobre a ida das meninas pra sua casa.
— Ah, claro. Você se importaria se as meninas passassem o ano aqui comigo? Garanto que eu matriculo elas numa escola de freiras que você escolher, mas eu queria ter as meninas por perto pelo menos mais uma vez.
— Vou pensar no seu caso, Hoff. Primeiro as férias. Depois a gente discute as aulas. Se eu deixar as meninas no trem, você pega as duas na estação de trem?
— Claro que sim, Sarinha — Klaus usara o apelido que usava quando ainda eram casados de propósito.
— Não me chame de Sarinha — Sarah falou entredentes — Vou comprar as passagens das meninas e mando elas depois de amanhã.
— Ótimo, Sarinha. Espero te ver logo.
Desligaram o telefone. Sarah sabia que o ex-marido fazia aquilo para irritá-la, mas nunca cederia. Ela não queria ser enganada de novo por aquele homem que mentiu pra ela por tantos anos. Escondeu o porta-retratos e foi falar com as filhas. No dia seguinte iria comprar as passagens de trem pras duas. Quando chegou no quarto de Astrid, encontrou a menina usando o computador, conversando com uma amiga. Decidiu bater na porta.
— Astrid? — Sarah perguntou
— Oi, mãe.
— Amanhã eu vou comprar as passagens de trem pra você e pra Leslie.
— Muito obrigada, mãe.
— Tem algum problema?
— Nenhum, por que?
— Você tá falando com a Ashley. Você normalmente fala com a Ashley quando tem algum problema.
Astrid respirou fundo.
— Não é nada, mãe. Pode ficar tranquila.
A mãe da menina saiu do quarto pra falar com a outra filha. Astrid voltou o foco para a conversa que estava tendo com a amiga. Tinha sim um problema. O problema que Astrid só confiava a Ashley.
O problema era uma visão que Astrid tinha tido uns dias antes, mas que vivia recorrendo e cada vez com mais frequência. Era um menino que de vez em quando aparecia na frente de lojas, em balanços inutilizados de parques, do outro lado das ruas. O menino sorria pra Astrid e no segundo seguinte sumia. Astrid nunca conseguia chegar mais perto dele, sempre acontecia alguma coisa — alguém a chamava, passava alguma coisa entre eles — e sempre ficava pra próxima. Ela já estava se sentindo mal por ter aquelas visões.
A teoria da amiga era que isso era algum sinal. Astrid ponderou o que a amiga disse com o que tinha acontecido nas últimas horas e concordou que poderia sim ser um sinal. Um sinal de como seria a sua nova escola, sua nova vida. Sua nova vida realmente longe de sua mãe, tendo a possibilidade de ver o seu pai e seu tio quando bem entendesse (ou assim esperava) e poderia estar num lugar onde realmente pertencia.
Esse era um segredo que Astrid guardava a sete chaves. Ela nunca se sentiu pertencente a algum lugar. Sempre aconteciam coisas fora do controle dela quando ela estava apavorada, nervosa ou ansiosa. Em parte, foi por essas coisas fora do controle que Astrid teve que aprender a mentir. Mentia constantemente pra sua mãe, criando teorias e mais teorias para justificar as coisas sem sentido que aconteciam. E as mentiras foram surgindo cada vez mais rápido, como se ela fosse uma máquina de formular mentiras.
Leslie achava que era besteira da irmã, e que Astrid, na verdade, era uma mentirosa compulsiva do bem, mas que também tinha um gênio meio maléfico. E Leslie, diferente da irmã, nunca se sentiu um peixe fora d’água. Se sentia relativamente bem vivendo com a mãe, sem ter nenhum contato com o pai e tendo que ir prum colégio interno. Leslie concordava que o colégio interno não era um dos melhores lugares que já esteve, mas sabia que aquilo era prum bem maior.
Diferente de Leslie, Astrid sentia muita falta do pai. Sentia falta de ouvir todas as histórias fantásticas que seu pai contava. E, relembrando as histórias ouvidas, Astrid começou a perceber que tudo se encaixava. Os dragões, os feitiços e os lugares tinham grandes chances de serem reais. E algumas daquelas histórias poderiam ter sido vivenciadas pelo próprio pai. Mas Astrid sabia que teria que esperar dois dias pra saber se eram verdadeiras ou não aquelas histórias que povoaram a sua infância.
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