Touches You
5 Capítulo 4
Londres, 4:00 PM, 20/07/2010
O dia estava ensolarado, por uma obra de um milagre. Jovens de férias circulavam pelas praças, parques e ruas da cidade com sorrisos estampados no rosto. Mesmo naquele bairro que ninguém se incomodava em visitar, as pessoas saíram mais alegres de casa, inclusive ele, Michael. Ele estava sorrindo, não só por ser um dia bonito, mas por ter recebido uma notícia que o animou muito.
A menina que tanto o fascinou pouco mais de uma semana antes respondeu sua carta dizendo que aceitaria se encontrar com ele numa parte Muggle de Londres. Mas a condição era que nenhuma gracinha fosse tentada nem ofensas contra o povo dela fossem feitas.
Depois de pegar um ônibus até o local combinado, Michael procurou com os olhos onde estaria Astrid e não a achou. Sentou num banco perto da entrada e ficou esperando. Talvez tivesse chegado cedo demais. Começou a observar o movimento pra passar o tempo. Uma menina se aproximou.
— O lugar está vago? — ela perguntou
Ele olhou pra menina e não a reconheceu.
— Na verdade eu estou esperando uma pessoa. Mas não tem problema se você sentar. — Miko respondeu
— Sua namorada?
— Queria que fosse. Mas é minha amiga.
— Um menino lindo como você, solteiro?
— Estou feliz assim, obrigado.
— Essa é a Lily? — perguntou Astrid, que apareceu na frente de Miko.
— Oi, Astrid. Não, essa não é a Lily. — Miko respondeu — Vamos?
Astrid concordou com a cabeça e foi com Michael pro café. Pegaram uma mesa na varanda e pediram um iced tea, cada um.
— Quem era aquela menina lá fora? — Astrid perguntou
— Não sei. Ela simplesmente chegou, perguntou se podia sentar no banco e depois tentou me cantar.
— Lá em — ela fez um sinal com a mão — você tem amigos?
— Em Hogwarts? Tenho. Não sou dos mais populares, mas tenho alguns amigos. Fique tranquila, lá não é tão difícil de fazer amizade. Só é difícil manter quando são da mesma casa.
— Soube um pouco sobre Hogwarts, mas não entendi muito bem como funciona esse esquema de casas.
— Deixa eu te explicar. Em Hogwarts, existem quatro casas que se tornam meio que a sua família enquanto você estuda por lá. As casas são Gryffindor, Hufflepuff, Slytherin e Ravenclaw. No dia que você chega em Hogwarts pela primeira vez, o Sorting Hat diz pra que casa você vai. Não dói nada e você não tem como trocar. Cada casa tem um valor que preza mais. A minha casa, por exemplo, preza pelo conhecimento.
— E qual a sua casa?
— Ravenclaw. Isso é o processo das casas.
— Tá certo. Deixa eu ver se eu entendi. No primeiro dia de aula, um chapéu me manda pra uma das quatro casas. E isso só acontece uma vez na minha vida e eu não posso mudar.
— Isso.
— Cada casa tem meio que um valor principal. E o da Ravenclaw é o conhecimento.
— O da Slytherin é a ambição, o da Gryffindor é a coragem e o da Hufflepuff é a lealdade. Com o tempo você percebe que existe uma rivalidade enorme entre Gryffindor e Slytherin. Ravenclaw é meio que aliada da Gryffindor e a Hufflepuff da Slytherin. Eu, sinceramente, não tenho nada contra as outras casas.
— A Lily que você me falou na carta estuda lá também ou não?
— Ela é aluna Gryffindor. Maioria dos meus amigos são Gryffindor. Uma coisa que eu quase ia esquecendo de comentar, o professor responsável pela minha casa é Flitwick.
— Você tem amizade com alguém da sua casa?
— Só com Emmeline Vance. Ela é gente boa, mas às vezes ela é meio irritante, fica enchendo o saco de todo mundo ao redor dela sobre uns assuntos que nem foram vistos em aula ainda.
— Vou me ferrar nos assuntos. Perdi quatro anos. — Astrid lamentou
— Bem, saiu no jornal que vocês terão apoio extra dos professores, caso precisem. Quer dizer, o Ministério já livrou vocês dos OWLs no tempo normal.
— Vocês quem, cara pálida? Minha irmã já está de volta em Manchester se preparando pra mais um ano num internato Muggle. E que raios são OWLs?
— Ordinary Wizardry Levels. (N/A: Níveis Ordinários em Magia — NOMs) Todo mundo é obrigado a fazer quando chega no quinto ano em Hogwarts.
— E o Ministério adiou a minha prova pra quando?
— Não sei dizer. Talvez você faça nas férias, já que, no sexto e no sétimo ano as aulas são de acordo com as suas notas nos OWLs.
— Não sei se estou muito animada com a perspectiva de estudar feito uma condenada por ter sido esquecida e ter perdido quatro anos de aula.
— Eu também não estaria. Mas acho que os professores vão pegar um pouco mais leve com você, já que teve esse problema.
— Assim espero. Eu não vou aprender o conteúdo normal do quinto ano mais todo o conteúdo que eu perdi nos últimos quatro anos num ano só e ser capaz de tirar notas boas. É simplesmente impossível.
— Bem, acho que nem Lily nem Remus iriam se incomodar se você participasse do grupo de estudos da gente. Se você quiser, já posso ir te adiantando algumas matérias teóricas que a gente já viu, como História da Magia, Herbologia e Astronomia.
— Seria maravilhoso. E as práticas? Como é que ficam?
— Eu não posso te ensinar. Magia praticada por menores de 17 anos fora dos terrenos de Hogwarts é ilegal. A não ser que seja pra evitar a própria morte, o que não é o caso.
A garçonete do café aparece na hora em que Michael termina de falar e olha com espanto pra ele enquanto recolhe os copos vazios da mesa.
— Eu não vou fazer nada de ilegal, moça. — ele falou — A não ser que você considere um passeio desse tipo seja ilegal.
Astrid ficou rindo baixinho. A garçonete olhou escandalizada pra menina.
— É sério, moça, ele não vai fazer nada de mais — Astrid falou com seu sotaque alemão. — E ele não é meu namorado, se é o que tá pensando.
A garçonete saiu sem falar nada. Os dois adolescentes começaram a gargalhar. Pouco tempo depois, a mesma garçonete voltou pra ver se eles não queriam mais alguma coisa. Eles pediram a conta e depois saíram do café.
— Quer conhecer a estação que a gente vai pegar o trem, não? — Michael perguntou
— Eu acho que eu já conheço, sabe? Venho de Munique. Acho que eu não tinha outra opção a não ser conhecer a estação de King’s Cross. Só tenho que parar em algum lugar pra comprar cigarros. O meu maço já acabou.
— Oi? — Michael impediu a passagem de Astrid — Cigarros?! Você ficou maluca?
— Bem, não, eu não fiquei maluca. Que problema tem? Quase todo mundo que eu conheço nesse país fuma. Inclusive gente da nossa idade.
— Você não pode comprar cigarro.
— Claro que eu posso. Eu tenho o dinheiro e tenho idade suficiente pra pedir por um maço.
— Digo, em Hogwarts você não vai poder sair comprando cigarro adoidado. Isso é proibido.
— Você acreditou mesmo que eu fumo? Sério isso? O cigarro é pro meu tio.
— Se é pro seu tio, então tá certo. É que eu não consigo suportar a ideia de alguém da nossa idade fumando.
Os dois foram caminhando até a tabacaria mais próxima e Astrid comprou o cigarro. Quando iam atravessar a rua, Miko quase é atropelado por um motoqueiro. Por sorte, Astrid foi capaz de puxar o menino de volta pra calçada.
— Isso é um hábito, não é? Ser atropelado? — Astrid ralhou com ele.
— Bem, não. Mas aquele cara veio do nada. Praticamente brotou do chão. Não tinha como adivinhar.
— Você tem telefone em casa?
— Tenho e sei usar. Por quê?
— Qualquer coisa, me liga. — ela anotou um número de telefone num pedaço de papel — Não estou a fim de ter que ficar mandando uma pobre de uma coruja ficar cruzando a cidade só pra ficar mandando bilhete. Esse é o meu número. Se um homem atender, é o meu pai ou o meu tio.
Michael pegou o papel e deu uma olhada antes de falar:
— Mas você não disse que morava com a sua mãe?
— Você disse bem. Morava. Desde que recebi a carta de Hogwarts to morando com meu pai. Se eu estivesse ainda morando com a minha mãe, eu estaria em Manchester.
— Tá certo. Te ligo quando conseguir confirmar com Lily e Remus sobre as aulas de reforço.
— Valeu pelas aulas. Até mais.
Astrid foi pra estação de metrô mais próxima e pegou o trem pra casa do pai. Sabia que Miko já demonstrava certo interesse nela pelo jeito que falava e se comportava perto dela e sempre parecia curioso em saber mais e mais sobre a vida dela. Passou o caminho todo pensando o porquê dele ser tão familiar. Quando chegou em sua estação, percebeu quem era Miko. Era o menino das aparições lá em Manchester. O que Astrid não sabia, era que Miko também tinha a sensação de já conhecê-la, mesmo sabendo que não tinha como eles terem se conhecido antes do esbarrão.
Chegando em casa, Astrid jogou o maço de cigarro na mesa e foi correndo pro quarto e foi tentar ligar para a única amiga que tinha de verdade, Ashley. Passou alguns minutos explicando a situação para a amiga. Tinha encontrado o menino das aparições e, aparentemente, ele nunca esteve em Manchester. Ashley ouviu a amiga e depois disse para Astrid ter calma no relacionamento com o menino.
— Mais calma do que eu já estou tendo? Ashley, isso é impossível. E você não viu a reação dele quando ele achou que eu fumava. Ele praticamente surtou e quase me impediu de comprar um maço pro meu tio.
— Não tem nada a ver, dona Astrid. — Ashley retrucou — E, pelo que você me falou, ele quer alguma coisa a mais, mas tenha calma. O cigarro do seu tio não vai ser um impedimento. Ele vai querer ficar com você. Quando vocês começarem a namorar, me avise que eu vou correndo pra Londres conhecer esse menino.
— Ah, claro. Como se a tua mãe fosse te deixar vir pra Londres.
— Olha, eu vou conhecer o menino que roubou o coração da minha melhor amiga e vou abraça-lo até ele sufocar. Ele merece toda felicidade do mundo. Mas agora eu tenho que desligar. Ainda tenho as tarefas de férias do infernato. Qualquer coisa, me ligue.
— Pode deixar, Ash. Até mais.
Astrid desligou o telefone e pouco depois viu o celular piscando. Era uma mensagem da mãe perguntando se tinha algum problema. Astrid logo respondeu dizendo que não, estava tudo bem. Tinha até feito amigos. O que não era nenhuma mentira. Realmente tinha feito amigos em Londres. Miko e o irmão dele, Max. Só. Mas eram dois amigos e ela com toda certeza faria mais em Hogwarts. Não tinha mais dúvidas.
Miko, por outro lado, estava realmente contente em ter conseguido o encontro e não ter levado um bolo. Ele tinha certeza que esses três anos que ele ainda tinha em Hogwarts seriam os melhores, por ter aquela menina que tanto o cativou, mesmo tendo um temperamento forte.
Assim que chegou em casa, Miko teve a grata surpresa de ver a mãe mais cedo em casa.
— Oi, mãe. Foi liberada mais cedo do trabalho? — ele perguntou
— Fui. E, como eu tinha te prometido, aqui está — Samira retirou um pacote da bolsa e entregou pro filho — seu presente por ter se tornado Prefect.
— Obrigado, mãe.
— E que cheiro de cigarro é esse? Você andou fumando?
— Não, não andei fumando. É que eu fiz amizade com uma menina e ela foi comprar cigarro pro tio que fuma.
— Lembre-se do que acontece se você aparecer aqui em casa com um maço de cigarros.
— Mãe, é sério que estamos tendo essa conversa? Sério mesmo? — Miko se dirigia às escadas — É comigo que você está falando. Sou doido por natureza, não por causa de cigarro. E você sabe disso.
Miko subiu pro próprio quarto e guardou os lenços recém-recebidos. Olhou pela pequena janela que tinha no sótão que transformara de quarto no ano anterior. O sol ainda estava imponente no céu, mesmo já sendo quase 7 da noite. Ele tentou imaginar o que Astrid estaria fazendo. Lendo, talvez? Ou estaria numa loja de discos de vinil procurando por algum disco alemão ou de alguma banda quase que completamente desconhecida? Era difícil imaginar, mas em todas as opções, ela estava com a cara fechada, como quem quer passar desapercebido.
Ele apoiou a cabeça na esquadria da janela e ficou admirando o sol descer, pouco a pouco na Londres incrivelmente ensolarada.
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