Touches You
32 Capítulo 31
Berlim, 04:30PM, 14/05/2014
— E então, Astrid, o que você faz lá em Londres? Timm comentou bastante que vocês eram amigos no colégio interno... — perguntou Wolfgang, enquanto beliscava da salada de frutas a sua frente
— Então, eu trabalho prum banco. Serviço meio chato, se quer saber. Mas eu gosto. Comecei oficialmente esse ano. E você? Timm contou que vocês fazem aulas juntos.
— Basicamente as aulas mesmo. Diferente do sabichão aqui, que decidiu ser professor de dança e conseguiu um emprego, eu to tentando fazer espetáculo. Só que é meio difícil. É um mercado com muita carta marcada. Mas enfim. Não quero ser o chato que vai ficar despejando as chatices da vida de artista pra cima de vocês. Quero conhecer vocês.
— Saber o que? Minha vida é basicamente meu trabalho, minha família e o Miko.
— Taí, a gente pode falar do Miko.
O garoto ficou vermelho por ter se tornado o centro da conversa e das atenções.
— Tenho nada de especial, não. Eu sou só um funcionário médio do governo. — ele se embolou com as palavras
— Tem nada de especial, só alguma coisa que deixou essa piveta completamente apaixonada por você mesmo quando ela estava teoricamente morrendo de ódio de você. Eu lembro muito bem disso. — Timm interferiu
— Adoro esse tipo de história. — Wolfgang comemorou
Astrid respirou fundo, tentando organizar os pensamentos de uma forma de que a magia ficasse de fora para poder contar o máximo possível da história para Wolfgang.
— Eu e ele estudávamos na mesma escola lá na Inglaterra, já que eu tinha ido morar com o meu pai. Só que eu teria que passar um tempo na guarda da minha mãe na Bulgária. Como ela não tinha muito tempo pra ficar comigo, ela me matriculou na escola que Timm estudou. Fiquei sabendo que ia pra lá antes do semestre acabar e contei pra ele. — Astrid começou a explicar
— Só que ela tinha me pedido pra não contar pra ninguém. Acabei contando pro meu irmão gêmeo e ele espalhou que ela ia sair da escola. Quando a Asta ficou sabendo, achou que a culpa era minha e ficou completamente furiosa. — Miko continuou — Ela terminou comigo e foi pra Bulgária ainda com raiva de mim. Quando ela voltou pra Inglaterra, consegui pedir desculpas e ela entendeu meu lado.
Wolfgang começou a bater palmas.
— Vocês são uma graça juntos. Como vocês se conheceram? — ele indagou
— Comprando material escolar. Ela tinha acabado de se mudar pra casa do pai e foi comprar as coisas pro ano letivo. A gente literalmente se esbarrou na livraria da escola e ela gritou comigo, mandando eu olhar por onde ando e tudo mais.
— Eu não gritei com você! — Astrid protestou
— Realmente, você não gritou. O termo certo seria me espancou, mas como sou uma pessoa educada, disse que você só gritou. Continuando. Para tentar ver se eu conseguia fazer ela ser menos esquentada e se tornar minha amiga, chamei pra tomar um sorvete.
Timm começou a rir. Ia se acalmando sob os olhares curiosos dos outros na mesa.
— Foi a mesma forma que eu chamei o Wolf pra sair a primeira vez. — explicou, ficando um pouco vermelho — Eu realmente não sabia como chegar nele e chamei prum sorvete depois de, o que, uns dois meses de aula?
— Três. Você ainda era um dos perdidos da turma. Não sabia quem podia responder mal a uma investida.
— Karo já sabe disso? — Astrid perguntou curiosa — Digo, ela ia adorar saber que tu conseguiu alguém pra te fazer feliz.
— Quem é Karo? — Wolfgang questionou
— Amiga nossa. E ela ainda não sabe. Não consegui tirar ela daquele maldito curso dela pra vir me dar uma visita.
— Você sabe que pode simplesmente mandar uma carta pra ela, não sabe? Fiz isso chamando ela pro meu casamento. Casamento esse que você ignorou solenemente, van Dort.
— Eu não recebi o convite, München.
— Recebeu sim. Porque a carta não voltou! Nem invente de mentir pra mim. Eu sei muito bem quando você mente.
— Que inferno! Eu tava na Holanda, ok? Eu não podia ir! Minha família tava toda em cima de mim pra que eu começasse a faculdade de economia o mais cedo possível, mas eu não queria e tinha que...
— Não, ok, ok, ok. Não precisa explicar. Entendo que era drama de família que você não queria me envolver. Perdoado, van Dort.
Godric’s Hallow, 6:20PM, 14/05/2014
Sarah tinha acabado de chegar em casa. Seu estado não era dos melhores, parecendo um pouco mais cansada que o normal, com o olhar um pouco perturbado. As mãos dela tremiam um pouco, suficiente para Klaus notar. Ele estranhou o nervosismo da mulher.
— Sarah, o que aconteceu? Você não me parece bem. — questionou
Ela respirou fundo e olhou para o marido com os olhos marejados.
— Minha mãe me ligou agora há pouco com uma conversa muito estranha. — a sua voz tremia mais que suas mãos — E eu to com medo, Klaus.
Ele a abraçou, esperando que Sarah se acalmasse.
— O que a sua mãe lhe disse, meu amor?
— Você já ouviu falar de Beauxbatons? — com o aceno em concordância do marido, continuou — Ela me contou que estudou lá antes de conhecer meu pai. E que eu...
Sarah simplesmente não conseguiu segurar o choro. Agora, mais do que nunca, entendeu ao que seu marido se referiu quando não comentou sobre a própria condição de bruxo quando as filhas não demonstraram magia.
— Shh... Vai ficar tudo bem, Sarinha. Eu to aqui com você. — Klaus tentou a consolar
— Como, Klaus? Pelo amor de Deus, eu sou uma Squibb! — a voz dela se elevou e ele segurou seu rosto
— Lembra quando sofremos um ataque lá em Londres? — Sarah concordou com a cabeça — Astrid disse aos Death Eaters que sua mãe tinha realmente ido a Beauxbatons e que você não tinha herdado magia. A Asta jurava que estava contando uma mentira que tinha comprado um tempo pra gente.
— É o que?! E porque ela inventou essa coisa toda, se nem eu sabia da verdade?
— Porque esses caras realmente estão atrás de gente que defende os Muggles, as pessoas não bruxas. Eles vão caçar de um em um até que todas essas pessoas estejam mortas. No topo da lista, estão bruxos influentes com relacionamentos com Muggles. Por isso eu e o Leon somos um alvo e a Asta inventou essa coisa toda, achando que ia colar.
Sarah pareceu ponderar por um instante. Ela tinha recebido informação demais em pouco tempo. Sua própria mãe era bruxa. Ela, Sarah, junto com sua irmã, era uma Squibb, um corpo descendente de bruxos que rejeitou magia — ou foi assim que sua mãe lhe explicou. Agora, como se já não bastasse toda a confusão que sua vida tinha se tornado, também descobria que uma de suas filhas tinha “mentido” com uma teoria que nem ela mesma cogitava.
Com essa enxurrada de informações, se sentiu obrigada a fazer um pedido que nunca se imaginou fazendo para Klaus, nem mesmo quando soube da verdade sobre sua omissão.
— Hansi, você poderia, por favor, me ajudar? — ela quase implorou, meio sem jeito e com os olhos cheios d’água
— Claro, Sarah. Eu podendo ajudar, faço qualquer coisa.
— Queria entender. Poder me inteirar das conversas com a Astrid, com o que se passa nos dois mundos e no que isso interfere na minha vida.
Klaus pegou sua mulher no colo, lhe dando um susto.
— O que você quer saber primeiro, Sarah Henderson Hoff? Seria como funciona meu emprego chato? Ou o da nossa pirralha?
— Por enquanto, nada de trabalho. Quero saber do começo. Das coisas que você ouvia da sua mãe quando era um pirralho.
— É muita coisa, dona Sarah. Mas acho que vou tentar te explicar o essencial.
Ele a colocou no sofá, sentando ao seu lado e tentou explicar de forma rápida e clara todo o mundo bruxo. Os olhos de Sarah pareciam cada vez mais curiosos e atentos. De vez em quando, interrompia seu marido para entender algum ponto que não tinha ficado muito claro.
— Como você acha que a Asta vai reagir a essa notícia, hein? Porque a Leslie não é de ter reações surpresas e explosivas e acho que vai até se sentir um pouco melhor em assumir o lado bruxo da família. — Sarah perguntou quando deram como encerrada a “aula de mundo mágico”
— Acho que ela vai ser a velha Astrid de sempre. Vai resmungar que a sua mãe não contou antes, deixando todo mundo no escuro. E vai dizer que mesmo quando ela quer mentir ela acaba contando alguma verdade.
Sarah deu uma sonora gargalhada.
— Ela já soltou dessas pra cima de mim.
Astrid tinha culpa estampada na cara antes mesmo de sequer ver a sombra da mãe. Mais cedo, tinha sido pega por uma das madres responsáveis pela sua ala nos dormitórios tentando escapar do quarto para os jardins. “Eu só queria ir pro banheiro!” ela alegou minutos depois na sala da diretora. Quando Sarah foi chamada para ir até a escola por “tentativa de fuga”, respirou fundo e pediu aos céus ajuda para enfrentar a madre superiora.
Assim que entrou na direção e encontrou sua filha sentada de cabeça baixa, foi já como soubesse tudo o que tinha acontecido.
— Senhora Henderson, entendo que a sua família esteja passando por um período difícil, principalmente para as meninas, mas a senhora tem que entender que esse tipo de comportamento apresentado por Astrid não será admitido aqui nesta escola. — explicou a madre superiora
— Entendo completamente, irmã. Mas tente entender o meu lado. Passei mais de dez anos noutro país. Depois do divórcio e da mudança, tem sido realmente complicado ter as meninas em casa. — Sarah tentou justificar
— Eu entendo tudo isso, e sei que a senhora nos confiou a educação das duas porque confia em nós. Mas quero que saiba que essa mocinha terá sérios problemas se tentar fugir de novo.
— Ich sagte, ich habe nicht fliehen wollen. Ich wollte nur in dem Garten zu gehen.— Astrid protestou (Tradução: Eu já disse que eu não queria fugir. Só queria ir pro jardim.)
— Astrid! Ich habe Ihnen hier erzählt wird, ist in Englisch zu sprechen! Ich will nicht, sie zu widerholen. Und aufhören zu lügen. Natürlich wollten Sie weg zu laufen. Sie hassen Grenzen. (Tradução: Eu já te disse que aqui é pra falar em inglês! Não quero ter que repetir isso. E pare de mentir. É claro que você queria fugir. Você detesta limitações.)
— Sie sprechen nur in deutscher Sprache. Und ich wollte nicht zu fliehen. Ich weiß, das Papa immer noch für mich kommen. (Tradução: Você acabou de falar em alemão. E eu não queria fugir. Sei que o papai ainda vem me buscar.)
— Senhora Henderson, acho que Astrid deveria ter acompanhamento psicológico. — interferiu a madre superiora — Claramente ela não está lidando com as coisas que estão acontecendo na vida dela. E, não que realmente me importe, onde está o pai?
— Em Londres. Se a escola tiver algum programa que inclua o atendimento psicológico, gostaria de incluir a Astrid nele.
A freira concordou com a cabeça e deu como encerrado o encontro. Saindo da sala, Astrid seguiu sua mãe.
— Du weißt schon, Mama, ich wirklich nicht weglaufen wollte. Oft, wenn ich liege, sage ich die Wahrheit. Ich wollte nur, dass Sie das wissen. (Tradução: Sabe, mãe, eu realmente não queria fugir. Muitas vezes, quando minto, eu conto a verdade. Só queria que você soubesse disso.)
— Olha, Astrid. Eu sei que você gosta mais do seu pai do que de mim e que você gostaria de estar lá em Londres com ele, mas você precisa entender que as coisas nem sempre funcionam do jeito que a gente quer.
— Tschüs, Mama. (Tradução: Tchau, mamãe)
— Quando ela entrou no colégio interno lá em Manchester, ela tinha certeza absoluta que você ia buscar ela lá e se recusava a falar qualquer outra língua que não fosse alemão porque não queria fazer feio quando você chegasse. — Sarah confessou
Klaus riu.
— Bem a cara dela, isso.
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