Londres, 3:30 PM, 09/07/2010

Um táxi parou na frente de um bar imundo e espremido entre duas lojas. As pessoas que passavam não pareciam perceber o bar. Duas garotas saem do táxi e vão em direção ao bar. Pouco depois, um homem sai do mesmo táxi que as meninas e também entra no bar. Ele era alto, com olhos cinzentos e cabelos lisos e bem pretos. Assim que entrou no bar, ele procura ao redor e encontra as meninas em pé num canto.

— Astrid, Leslie! — o homem acenou — Por aqui!

Os três seguiram até o fundo do bar e o homem tirou do bolso da calça uma varinha. Ele bateu com a varinha num tijolo e uma passagem se abriu.

— Meninas, bem vindas a Diagon Alley.

O trio entrou na rua que se apresentava à frente. Os sons eram misturados, vindo das lojas coloridas e da Londres invisível ao olhar. Os três foram para o banco antes de fazer qualquer outra coisa. Saindo do banco, o homem, que parecia o pai das meninas, ia indicando o que era vendido em cada loja e ajudando as filhas nas compras dos materiais. Em algumas poucas horas, todos os materiais das duas listas já tinham sido comprados.

— Vou deixar as coisas de vocês em casa e daqui a pouco eu volto pra ficar com vocês e talvez levar pra algum outro lugar. Aproveitem essa folga sem mim e conheçam o lugar. — falou o homem

As meninas se despediram do homem e foram em direções diferentes. Astrid foi olhando mais detalhadamente pras lojas. Quando viu novamente a livraria, decidiu entrar e olhar mais atentamente os livros. Pegou um livro que chamou a sua atenção e pagou no caixa. Saindo da loja, Astrid esbarra em alguém, deixando a bolsa e o livro recém-comprado caírem no chão.

— Grosso! — Astrid gritou com seu forte sotaque alemão — Não olha por onde anda, não?

— Quem não olha por onde anda é você, garota. E é bem histérica, também — o menino falou antes de levar um tapa — Doeu! — ele falou enquanto massageava a bochecha ferida

— Mereceu o tapa que levou. — Astrid começou a recolher as próprias coisas que tinham caído.

O menino ficou parado enquanto Astrid recolhia a bolsa e o livro. Quando ela se virou pra sair, o menino a puxou pelo braço.

— Desculpa — ele falou, soltando o braço dela — Meu nome é Michael.

— Sou Astrid — ela respondeu friamente — Tenho que ir.

— Posso ir com você? Prometo que me comporto.

— Qual foi a da mudança de personalidade?

— Por favor, Astrid. Não quero arrumar inimizade com a novata.

— Como você sabe que eu sou novata?

— Nunca te vi em Hogwarts e estudo lá há quatro anos. Eu acho muito difícil você estar aqui e ser estudante de outra escola. E aí, posso ir com você ou não?

— Você não desiste, não é?

— Não tão fácil.

— Tá certo. Pode vir.

Os dois adolescentes foram andando em silêncio até a Florean Fortescue. Pegaram uma mesa e pediram um sorvete cada um.

— De onde você é, Astrid? — Michael perguntou

— Munique

— O que faz tão longe de casa, além de esperar pelas aulas?

— Estou longe de casa há três anos. Mas eu basicamente estou esperando as aulas, mesmo. É sempre a única coisa que eu tenho pra esperar, mesmo.

— Seus pais não estão juntos — ele afirmou, mas soou como uma pergunta.

— Não. Há uns cinco anos.

— Que triste.

— Nem tanto. Por meus pais não estarem juntos, posso fazer coisas que eu não poderia fazer com eles juntos. Por exemplo, isso — ela apontou pro próprio cabelo — eu não poderia ter feito se os meus pais estivessem juntos, já que a minha mãe não deixaria me cortar o cabelo tão curto.

— Porque não?

— Minha mãe é meio contra esse tipo de coisa. O meu pai é bem tranquilo em relação a isso. Como minha mãe tem medo que eu vá morar com meu pai, ela acabou deixando.

— Isso é brincadeira, não é?

— E porque seria? A minha mãe é louca. Consigo até entender o motivo dos meus pais terem se separado.

Os dois foram conversando por alguns minutos sobre a vida em casa e sobre os irmãos. Ficaram contentes ao saber que o outro tinha um gêmeo que servia de comparação.

— Astrid! — Klaus gritou, acenando para a filha.

— Tenho que ir de verdade, agora. — a menina falou — Até qualquer hora.

— Até — falou Miko, enquanto Astrid se afastava.

Miko pagou os sorvetes e ficou vagando pela Diagon Alley. A menina alemã tinha chamado a sua atenção como nenhuma garota de Hogwarts ou de qualquer outro lugar tinha feito. Ele ficou andando a esmo pela Diagon Alley com o pensamento em Astrid. Em pouco tempo encontrou Lily e Remus.

— Miko, o que foi que aconteceu? Você tá muito aéreo desde que a gente te encontrou — Lily falou preocupada

— Porque as alemãs são tão perfeitas? — Miko perguntou pra Lupin, totalmente ignorando a preocupação de Lily.

— Ele se apaixonou por uma alemã, Lily. — Remus falou com um riso no rosto — É isso, Miko?

— Não é uma alemã. É a alemã. O nome dela é Astrid. — Miko falou

— Astrid o que? — Lily perguntou

— Nem perguntei o sobrenome dela. Droga. Mas logo, logo a gente vai descobrir. Pelo que ela falou, ela vai pra Hogwarts com a gente. E eu acho que ela é uma das garotas esquecidas.

— Então eu acho que eu posso descobrir o sobrenome dela. — Remus falou — A minha mãe pode ver lá no Ministério.

— Esperem! — Lily falou — Me deixem comprar o Daily Prophet. É rápido.

Os dois meninos ficaram esperando Lily comprar o jornal. Quando a menina abriu o jornal, ele foi tirado de suas mãos por Miko.

— A sua mãe nunca te falou que é falta de educação arrancar as coisas das mãos dos outros? — Lily perguntou irritada.

— Deve ter comentado em algum momento. — Miko falou — É dela que eu tava falando — ele apontou pro título de uma nota na capa de trás do jornal — Astrid Hoff. É uma pena não ter uma foto dela, só do pai dela.

Os três se acotovelaram pra ler a nota.

“Finalmente revelados os nomes das alunas esquecidas de Hogwarts” estava escrito em letras garrafais. Logo embaixo vinha: “Leslie e Astrid Hoff, irmãs gêmeas e filhas de Klaus Hoff, funcionário do Ministério, há quatro anos vinham sendo esquecidas por Hogwarts. De acordo com o diretor da escola, professor Albus Dumbledore, as meninas estavam sendo esquecidas por não serem cidadãs inglesas, mas alemãs. ‘Não era um erro que queríamos cometer’ afirmou o diretor ‘A escola que iria receber as alunas não tinha entrado em contato com as jovens e nós não éramos cientes da dupla cidadania das moças’. O pai das meninas se mostrou surpreso e contente com a notícia, já que acreditava que as filhas eram Squibbs, herdando os genes Muggles da mãe.”.

— Isso explica muita coisa. — Lily falou — O fato das meninas terem sido esquecidas é meio chato, mas acabou sendo explicado.

— E explica outras coisas também. — Miko falou, massageando a bochecha que havia sido ferida mais cedo — Mas ela é muito gente boa. Pareceu meio assustada, mas depois foi se acostumando.

— Você realmente gostou dela, não foi?

— Gostei. Ela é maravilhosa, mesmo sendo meio marrenta. Acho que eu finalmente entendo o James, Lily.

— Mas há uma grande diferença entre você e o James. Ele é um galinha exibido e egocêntrico. — os meninos começaram a fazer gestos para que Lily parasse de falar — O que foi? É a mais pura verdade.

— É isso que você acha de mim, ruivinha? — a última voz que Lily queria ouvir falou atrás dela.

Lily virou e deu de cara com James Potter.

— Isso mesmo. Tem mais coisa, também. Quer ouvir? — ela falou, desafiadoramente.

— Já é ruim o suficiente saber que você me vê como um galinha egocêntrico. Não preciso saber de mais. — James parecia realmente ferido — Sabe do que mais, Lily? Desisto de ir atrás de você. Eu corro atrás há dois anos e só levo toco.

James saiu marchando e Lily ficou atônita. Era a primeira vez que James a tratara daquela maneira. Miko e Remus puxaram Lily prum canto e a fizeram sentar.

— Depois eu falo com o James. Mas com uma condição. — Remus falou.

— Qual a condição? — Lily perguntou

— Você vai dar uma chance pra ele.

— De jeito nenhum. Desculpa, Remus. Eu sei que ele é o seu amigo e tudo mais, mas não posso dar uma chance pra ele.

— Lily, eu sei que ele te magoou quando disse que não iria mais correr atrás de você. E só te magoou porque você se importa com ele, mas não admite nem pra você mesma.

— Prometo pensar no caso, mas não garanto nada.

— Isso já é um primeiro passo.

Miko estava com o olhar distante. Tinha medo de que sua situação com Astrid se tornasse parecida com a dos amigos. Ele tinha noção de só tinha conhecido a alemã há alguns minutos, mas sentia como se a conhecesse há alguns meses. O que ele não sabia era que, do outro lado da cidade, a alemã também pensava nele. Ela também tinha se impressionado com o inglês.

Astrid, quando chegou em casa com o pai e a irmã, e ficou sozinha com o pai, comentou com ele sobre o menino, sem dar muitos detalhes. O pai riu quando soube do tapa.

— Você me lembrou de quando eu conheci a sua mãe. — Klaus comentou

— E como foi?

— Ela estava fazendo um curso qualquer lá em Munique. Eu, como um bom Hoff, estava conhecendo o lado artístico e histórico da cidade, tanto com os bruxos, quanto com os Muggles. A sua mãe estudava do lado do prédio que eu trabalhava como guia turístico e artístico. Um dia ela pediu, na agência que eu trabalhava, um guia. Meu chefe me indicou pra ela e, de início, a sua mãe foi fominha. Ela queria conhecer todos os museus e monumentos da cidade em muito pouco tempo e gritava comigo quando eu dizia que não dava tempo de conhecer esse ou aquele lugar. Depois ela foi acalmando e tomando gosto pelas coisas. Pouco tempo depois ela arrumou um emprego em Munique e nós começamos a namorar.

— Nunca entendi uma coisa.

— O que?

— Porque vocês se separaram.

— Sua mãe descobriu que sou bruxo. Não queria aceitar que o que eu faço não tem nada a ver com o conceito de magia que ela tinha em mente e que eu tinha escondido isso dela por tanto tempo. Ela se sentiu traída, mas tudo que eu estava fazendo era cumprir uma lei. Eu e Sarah só conseguimos concordar que você e a Leslie ficariam com ela e eu teria direito a algumas visitas supervisionadas. Mas antes mesmo de eu fazer a primeira visita, ela percebeu os primeiros sinais de magia em vocês, me impediu de visitá-las e algum tempo depois colocou vocês naquele colégio horroroso.

— Bote horroroso nisso.

— Por falar em escola, pra sua mãe, eu vou matricular você e a Leslie no St. Mary School For Girls. É lá no centro e é semi-internato.

— Semi-internato?! Tem certeza que ela vai aceitar?

— Claro que vai, Astrid. Nem que eu tenha que ir pra Manchester convencê-la, ela vai deixar. E ela vai ter que me deixar ficar com você e sua irmã. Ou ela me deixa assumir a guarda das duas ou ela vai ficar com um processo nas costas, e eu com certeza vou ganhar dela, já que vocês duas perderam contato comigo por causa dela.

— Você não vai processar a mamãe. — Leslie falou raivosa, dando um susto em Astrid e em Klaus.

— Realmente, Leslie, eu não vou, mas se ela me impedir de ver vocês, eu vou ser obrigado a processar ela e brigar pela guarda de vocês.

— E porque não brigou pela gente antes? A gente só passou a valer a pena agora que “provamos” que somos suas filhas?

— Não é isso, Leslie. Quando eu me separei da sua mãe, fui obrigado a vir pra Londres. Eu não tinha emprego, eu não tinha nada. Mal podia me sustentar. Como eu iria brigar na justiça por vocês, sabendo que nenhum juiz, em sã consciência, daria a guarda de duas crianças a um desempregado que nem tinha onde cair morto?

— E agora, magicamente, tem dinheiro o suficiente pra se sustentar e sustentar duas adolescentes.

— Não fale do que você não sabe, Leslie. Eu consegui um emprego no Ministério da Magia. Trabalho de segunda a sexta recebendo e enviando recados do Ministro pro Ministro da Alemanha. Isso todos os dias, fora fiscalizar se está correta a informação enviada pelo assessor do nosso Ministro, enviar pro chanceler da Alemanha informações convenientes a ele. Tenho condições sim de me sustentar e sustentar vocês duas, sem a necessidade de racionamento. Mais alguma coisa?

— Vou voltar pra Manchester. Não vou ficar aqui, nem vou praquela escola. Se a Astrid quer, que bom pra ela. Mas eu não vou jogar a minha vida inteira no lixo só porque chegou uma carta dizendo que eu tenho uma vaga numa escola que me torna uma aberração na sociedade.

— Você realmente quer discutir comigo, né? Pois volte pra Manchester, fique com a sua mãe. Volte praquele internato que ela te matriculou. Se é isso que você quer, vá em frente. Mas só digo uma coisa. Não me culpe toda vez que acontecer alguma coisa que, teoricamente, esteja fora do seu controle, não venha chorando pra mim. Hogwarts é a sua oportunidade de aprender a controlar o que você tem.

— Só isso?

— Só.

— Vou pegar minhas coisas e vou pra estação sozinha. Até.

Leslie saiu batendo pé e o barulho da porta sendo batida ecoou pela casa. Astrid olhou chocada pro pai e teve a dimensão exata do que estava acontecendo. A irmã tinha se sentido excluída por, finalmente, perceber que Hogwarts não se encaixava nos planos da mãe e que seu pai estava disposto a entrar na justiça pra conseguir a sua guarda.

Ela se levantou da poltrona e deu um abraço apertado no pai, agradecendo pelo que ele ainda iria fazer. Não que Astrid odiasse a mãe nem nada do tipo, mas preferia ficar com o pai, a pessoa com quem mais tinha afinidade. Astrid tinha noção de que o processo poderia durar semanas, ou até meses, dependendo do nível que a briga chegasse. E também sabia que a sua mãe tentaria manter a guarda das duas filhas a todo custo.