Touches You

23 Capítulo 22


Godric’s Hollow, 03:20PM, 20/12/2012

— O que foi isso no seu pulso? — Miko virou o braço da namorada. O pulso estava marcado de um lado a outro com uma cicatriz fina ainda um pouco rosada.

— Erro de aparatação. — Astrid explicou puxando o braço com cuidado de volta pra si — Eu tava tendo uma última aula só pra ter certeza de que faria direito antes de fazer o teste de vez com um representante do Ministério. Não me concentrei o suficiente e a minha mão quase ficou pra trás, mas não sem me deixar essa bela cicatriz. Minha mãe ainda fica nervosa toda vez que eu aviso que vou ter que aparatar em algum lugar, depois do que aconteceu.

— Isso significa que você conseguiu uma licença?

— Significa. Também significa que meu próprio namorado não presta atenção em mim.

Miko puxou a namorada pela cintura e a beijou.

— Ok, entendo que a festa tá boa, que a pegação é legal, mas daqui a pouco as crianças vêm brincar na praça. — James interrompeu

Tanto Astrid quanto Miko ficaram vermelhos.

— Não, não são os futuros filhos de vocês. É que uns primos pequenos do Remus tão vindo.

— Pequenos lobinhos correndo pela praça. Que lindinho. — Miko brincou

Os três se sentaram na beirada da fonte quase congelada, Astrid no colo de Miko.

— E aí, James? Como tão as coisas com a Lily? — Astrid perguntou

— Olha, guria, a situação é um pouco delicada. — James começou a explicar — Ela não quer voltar pra mim, como você sabe, mas ao mesmo tempo ela ainda tá muito amorosa pra só uma amiga. É estanho.

— Já tentou explicar a situação por completo pra ela? Talvez ela se convença de que você é o cara certo pra ela. Antes dessa confusão toda, vocês tavam muito bem.

— Você sabe que a ruivinha é cabeça dura. E admito que não fui um dos melhores namorados do mundo, então tá complicado pra mim.

— Até parece que você não confia nos métodos Astrid Hoff de convencimento. Se você me disser qual foi exatamente a cagada que você fez e porque, talvez eu consiga explicar pra ela e tentar fazer ela ver que você é um cara legal, apesar de convencido.

— Eu não sou convencido! — James protestou

— Claro que é, James. Me poupe. Posso ter as minhas várias falhas no quesito inglês, mas me lembro perfeitamente de ter visto e ouvido você se gabando de ser um ótimo apanhador para umas meninas da minha casa logo depois do último jogo contra a Hufflepuff.

— Eu não me gabava, só me auto elogiava. — Astrid arqueou uma sobrancelha — Tá, eu tava me gabando. — James pareceu entender o que tinha acabado de falar — Obrigada, menina chucrute, por me fazer admitir que só sei me gabar das coisas. Mas saia da minha cabeça, por favor.

— De nada. E eu não estou na sua cabeça. Não sou Legimiens e teria que ser muito poderosa pra poder fazer você confessar esse tipo de coisa só por invasão mental bruxa. Apenas adotei o bom e velho método Muggle.

James revirou os olhos, como se estivesse, silenciosamente, pedindo pra que fosse poupado da explicação.

— Voltando ao assunto original, como você pretende fazer a Lily entender que eu não sou o grande babaca que ela acredita piamente que eu sou?

— Primeiro você tem que me explicar o que você fez de tão grave. Depois eu vou falar com ela e tentar botar um pouco de razão naquela cabeça dura. Ela vai acabar cedendo, acredite. Mas o que você acabou fazendo pra irritar tanto ela?

— Você lembra aquele jogo de Quidditch entre a Ravenclaw e a Slytherin?

— Claro que eu lembro. Eu tava lá.

— Então. Eu, estando nas minhas funções de chefe dos Prefects, fui para o vestiário da Slytherin conferir se nada estava fora dos conformes. Só que acabei escutando uma conversa entre o Malfoy e a prima do Sirius, que falavam em alguma coisa sobre alguma ordem que alguém tinha dado. Pelo pouco que eu consegui pegar da conversa, tinha a ver com arte das trevas e todo o resto. No fim, acabaram citando o Snape e que ele teria que fazer alguma coisa aparentemente importante. Obviamente, não fui pro jogo pra caçar ele e descobrir o que ele iria fazer. Só que ele me viu antes de fazer qualquer coisa e tentou me azarar. Óbvio que eu não ia ficar parado esperando que ele me atacasse até alguém aparecer e me defendi. Só que a Lily chegou na hora que eu fui desarmar ele.

— Ou seja, ela acha que você tinha voltado aos velhos hábitos de azarar o Severus? Vou ser bem sincera com você, James, você, muitas vezes, é um completo idiota. Você, como chefe dos Prefects, deveria ter ido atrás de alguém como a McGonagall, ou até o Slughorn, que é chefe da casa deles. Mas a cagada já foi feita, né? Então, o jeito vai ser argumentar com o lado racional da Lily.

— Boa sorte, porque, da última vez que ela sequer olhou pra minha cara, ela só faltou me matar.

O celular de Miko começou a tocar. Quando ele tirou do bolso do casaco e viu o nome no identificador, arqueou a sobrancelha.

— Acho que vocês estão com sorte. É a Lily ligando. — ele comentou

— Então diz pra ela expulsar a irmã da casa pra que eu possa aparatar lá e falar com ela. Não quero ter que gastar uma fortuna de táxi pra aparecer por lá.

Londres, 4:10PM, 20/12/2012

— Lily Marie Evans! Você tem que me ouvir! — Astrid gritou

— Não tenho que ouvir nada se for pra ser sobre o idiota do Potter!

— Agora é que você vai me ouvir. — Astrid agarrou o braço da amiga que saía do quarto batendo pé — Você não sabe o que eu vou dizer. E eu não vou te forçar a voltar com o James. Até porque, essa decisão é só sua. Mas você tem que ouvir o que eu tenho pra dizer.

Lily bufou e revirou os olhos, mas concordou em ouvir. Astrid soltou o braço da amiga e explicou a história de James.

— Sabe qual o seu problema, Lily? Você não consegue admitir que está errada.

— Você fala como se não tivesse o mesmo problema.

— Falo como se não tivesse esse problema porque eu realmente não tenho. Eu não confio em pessoas que tem grandes chances de me magoar. Não acreditei no Miko quando ele disse que não contou a ninguém sobre a minha ida pra Durmstrang porque sempre espero que as pessoas me magoem. Você é diferente. Sempre tem uma imagem das pessoas e tem a tendência de manter essa imagem.

— Eu não sou assim! — Lily protestou

— Claro que é. Eu, uma novata estrangeira qualquer, tive que esfregar na sua cara que James é um cara legal uma vez e to tendo que fazer esse trabalho de novo. Mas não posso fazer isso pra sempre. Só posso te dizer uma coisa, como sua amiga e amiga dele. O James fofinho e legal que você já namorou ainda existe e tá ligeiramente desesperado pra te ter de volta, além de ter ficado meio deprimido. Nós duas sabemos muito bem que não é todo mundo que tem a oportunidade de ter alguém disposto a mudar pra ficar com a gente.

— Podemos não falar na minha falta de relacionamento com James? Passei o semestre quase inteiro ouvindo Remus, Sirius, Dorcas e Marlene falarem que eu deveria dar uma segunda chance a ele.

— Você é quem sabe. Saiba que se quiser falar alguma coisa sobre isso, eu estou aqui.

— Mas e você e Miko? Soube que vocês voltaram.

— Quem foi que contou?

— Digamos que não é propriamente difícil me manter informada sobre você. E eu passei o último semestre inteiro estudando na mesma escola que vocês dois. Além do que, apareceu uma nota no Daily Prophet um dia desses.

— Ah, maravilhoso. Esqueci que sou uma subcelebridade na comunidade bruxa da Inglaterra. A gente tá dando um tempo antes de deixar oficial porque a gente não quer fazer estardalhaço e ver se vai realmente dar certo dessa vez. Mas tanto os meus pais quanto os dele, mais especificamente nossas mães, querem uma posição oficial, mesmo que seja pra ficar só entre a família.

— E aquela tua avó que tu tava morando com ela? O que ela fala sobre isso?

— Oma Hoff? Dona Constanze é a maior incentivadora de relacionamentos não oficiais e abertos que eu conheço. Ela nunca casou com meu avô, apesar de gostar de usar o sobrenome dele.

— Sério?!

— Mais sério impossível. Quando tive que ficar com ela, Leslie e a minha mãe em Munique, toda vez que a minha mãe tava fora por algum motivo, Oma Hoff criava uma oportunidade pra soltar o discurso de “não faça a mesma burrada de se casar pra ser monogâmico que o seu pai fez. Você é jovem e tem que ficar com quantos rapazes você quiser”.

— Sua avó deve ser uma figura. Além do que deve ser maravilhoso falar com ela sobre como era ser bruxa na Alemanha dividida.

— Acredite quando eu digo que ela não fala sobre o assunto Alemanha dividida. Parece que ela teve muitos problemas em criar meu pai e meu tio nesse tempo, já que meu avô tava na Berlim Oriental quando subiram o muro. Ou seja, isso é quase um tabu na casa dela.

Lily ficou quieta. Parecia meio constrangida.

— Nossa. Que triste.

— Mudando de assunto completamente, você vai passar o Natal aqui?

— Vou, apesar de não ser tão legal quanto o bruxo...

— Seus problemas acabaram, dona Lily Evans. Natal, na minha casa, com Miko, Max, os pais deles e os meus. A senhora está intimada. E não aceito não como resposta.

— E o seu tio? Ele vai passar o Natal onde?

— Ele vai passar com a Claire e a Anke. Que, por sinal, é linda, Lily. Sério. Qualquer dia você tem que conhecer Anke.

— Imagino que ela seja linda. Mas onde vai ser essa festa de Natal? Na sua casa?

— É. Vai ser lá em Godric's Hollow. — Lily fez uma cara de estranheza — Esqueci de comentar que meu pai arrumou uma casa em Godric's Hollow pra família, não esqueci?

— Esqueceu, Astrid. Me explique isso.

— Meu pai decidiu que a casa que a gente morava em aqui em Londres era meio perigosa, porque as pessoas já tinham marcado como nossa. Minha mãe concordou e pediu para que ele fosse atrás de um novo lugar enquanto eu, ela e a Leslie estávamos na Alemanha.

— E seu pai achou a casa em Godric's Hollow.

Astrid assentiu e deitou de costas na cama da amiga com um suspiro.

— Meu pai e meu tio passaram um tempo indo e voltando da Alemanha pra ficar um pouco com a gente, mas quando eu decidi voltar, meu pai veio pra ficar direto, só pra não me deixar sozinha nos finais de semana e pra facilitar a vinda pro Ministério. Logo depois meu tio voltou por causa da Anke. Às vezes eu sinto falta de toda a família junta, sabe? De ter que ouvir a minha mãe reclamando com o meu tio quando ele bebia demais, ou minha irmã falando que alguma coisa dela sumiu, quando na verdade ainda tá lá...

— Asta, vai ficar tudo bem, fica tranquila.

— Racionalmente, eu sei que vai ficar tudo bem, mas alguma coisa me diz que não vai ser bem assim. É uma sensação ruim. Como se nunca mais a minha família fosse ter dos mesmos velhos dramas, envolvendo o sangue mágico meu, do meu pai e da minha irmã, ou as bebidas do meu tio.

As duas amigas ficaram em silêncio até a mãe de Lily bater na porta e abrir uma brecha.

— Astrid, você fica pro jantar? — perguntou a sra. Evans

— Acho que sim. Só vou ter que falar com meu pai. Obrigada pelo convite, senhora Evans.

— Ah, Lily. A Petunia ligou avisando que os pais do Vernon nos convidaram pra passar o Natal com eles.

— Bem, mãe, a Astrid acabou de me chamar pra passar o Natal com a família dela e a de Miko. — Lily deu um sorriso amarelo — E você sabe que a Tuney não vai ficar muito feliz com a minha presença. Ela não me quer por perto há anos.

— Você que sabe, filha. Só quero uma resposta até amanhã, ok? Tenho que dar uma resposta aos Dursley.

— Mas eu já tenho a minha resposta. Eu vou passar o Natal com os Hoff e os Thompson. A Petunia não vai nem se importar.

— Você quem sabe. Vou avisar ao seu pai e à sua irmã.

A mãe de Lily saiu do quarto da filha.

— A tua irmã ainda te odeia? — Astrid perguntou curiosa

— Ainda. Mas acho que lido melhor com isso hoje do que quando ela começou com essa história. Só que meus pais ainda sofrem com isso. Eles ainda têm esperança de que algum dia a gente faça as pazes.

— Olha, Lily, vou ser bem sincera de novo. Deixa a Petunia de lado. Ela vai casar com esse cara, não vai? — Lily concordou com a cabeça — Então que eles se casem e sejam muito felizes. Assim como você vai ser feliz no lugar que você pertence. Seja aqui em Londres, trabalhando pro Ministério, ou em Godric’s Hollow sendo medibruxa no St. Mungus ou seja lá onde você queira morar e fazer no mundo bruxo.

— Você não presta atenção em nada a não ser os próprios estudos, né, Astrid Hoff?

Astrid fez uma careta.

— Assim, não vou negar que ando meio desesperada no quesito estudos e escola no último semestre pra prestar atenção no que os outros tão fazendo. Porque eu to tendo que fazer o meu sexto e sétimo ano num só, não sei se você sabe.

— Não, tudo bem. É só que eu ia te lembrar que eu to estudando pra ser auror. E admito que também não lembro pro que você está estudando.

Astrid deu um suspiro pesado.

— To complementando o treinamento que a minha avó me deu e cumprindo o mesmo que o meu pai fez. Vou ser caça recompensas e fazer as pontes nas relações Muggle-bruxos. Em outras palavras, eu vou poder trabalhar pro Gringotts ou pro Ministério daqui. Só que eu não sei o que eu realmente quero fazer. Não sou feito você ou o Miko que já sabem o que querem fazer da vida.

Lily olhou pra amiga com um misto de pena e compreensão.

— E quem disse que o meu plano inicial era ser auror? Eu pensava em ser medibruxa. Foi o Remus e o James que me convenceram de que seria uma boa eu trabalhar com esse tipo de coisa.

— A diferença, Lily, é que você é o que eu gosto de chamar de uma natural. Alguém que tem uma vocação pra alguma coisa no sentido profissional. Eu não tenho, eu não sou uma natural. Ou melhor, eu tenho um enorme talento pra fazer besteira. Mas isso não conta como opção de profissão.

— Ah, claro. Maior causadora de problema de Hogwarts, você. — Lily ironizou — Se brincar, meu histórico de detenção é maior que o seu. E olha que o meu histórico tá limpo.

— Lily, você me entendeu.

— Tanto te entendi que acho que caça recompensas é o típico trabalho pra você. Ou é isso ou você vai ser uma impronunciável. É só o que eu consigo te imaginar fazendo.

— Miko disse praticamente a mesma coisa. O ponto é que eu não tenho certeza sobre toda essa questão de ser caça recompensa, sabe como é? Porque sempre me parece que deram um nome bonito para uma pessoa mercenária.

— Então seja mercenária. E aproveita que o Gringotts paga bem para mercenários. Você é uma pessoa qualificada pra sair pelo mundo catando coisa que vai ter algum valor. Pelo amor de Deus, quem é que praticamente invadiu a minha casa pra falar de James Potter mesmo?

Astrid jogou um travesseiro na amiga, sabendo que ela tinha razão. Teria que levar a sério o treinamento de caça recompensas assim que as aulas voltassem.