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27 Resignados ao destino
Notas iniciais
Capítulo 27
“Resignados ao destino”
Loren Hannigan
♥
Eu estava parada diante da cama de hospital, fazendo o melhor para me sustentar em pé. A imagem na cama de hospital me doía tanto, que eu não consegui impedir os soluços subindo pela minha garganta. Minha visão ficou turva quando as lágrimas inundaram meus olhos, e eu chorei pelo que pareceu a milionésima vez no dia de hoje.
Jesus.
Chris não era o Heidy mais enérgico, nem de longe. Quando eu o conheci, ele já estava doente. Na maior parte dos dias, se fazia de forte e tentava se manter firme para seus irmãos, mesmo que custasse toda a energia que ele possuía no corpo. Mas eu tinha a certeza absoluta de que, diferente de Matt ou Calebe, Chris era calmo por natureza. Daqueles que gostavam de contemplar os momentos da vida, ao invés de se jogar do precipício sem olhar para trás. Assim como ele contemplava Rachel de longe, quando ela não estava olhando.
Ainda assim, ele era um Heidy, e como seus irmãos, ele era alto, bonito, forte e barulhento. Vê-lo tão quieto em uma cama de hospital, quase me fez entrar em colapso. Isso não estava certo, de maneira nenhuma. Ele parecia tão abatido. Havia perdido uma quantidade de peso enorme, suficiente para faze-lo parecer frágil, mesmo com sua estatura de 1,85cm de altura e a construção de ombros de um quarterback.
Eu tive uma epifania de injustiça ali mesmo, parada na porta do quarto de UTI, sem conseguir dar um passo para frente. Como pessoas como a minha avó eram autorizadas a andar facilmente pelo mundo, destilando sua amargura em quem entrasse em seu caminho, mas gente tão boa quando os Heidy tinham que sofrer cada tipo de estágio de inferno durante a vida? Porra!
Merda.
Eu questionava todas as formas de justiça no mundo, ainda parada na porta, sem conseguir para de chorar, de xingar tudo na minha cabeça, e ainda sem conseguir dar um passo para dentro da sala, quando senti um leve toque nas minhas costas.
Eu me virei assustada, e vi a pequena enfermeira mais velha que havia me trazido aqui. Seus olhos escuros estavam em mim, despejando paciência e bondade que eu sabia que faziam dela uma enfermeira muito boa. A mão dela passou das minhas costas e segurou a minha mão em um aperto gentil, e eu fiquei olhando para onde ela me tocava, em choque, reparando em como seu tom de pele da cor de chocolate contrastava com meus dedos pálidos, quando ela disse baixinho — Querida, — e esperou que meus olhos se voltassem para os dela — você tem cerca de dois minutos para vê-lo. Talvez você deva passar pela porta...
Ela tinha razão. Eu não tinha muito tempo, porque a UTI não aceitava visitas muito longas, nem múltiplas. E, de fato, eles haviam aberto uma exceção para mim, porque Calebe e Matt haviam perdido a compostura quando o médico informou que a cirurgia de Chris havia corrido tão bem quanto eles poderiam fazer, e que ele podia receber três visitas rápidas. Família apenas. Rachel quase bateu no chão, não sei se de alivio ou desespero pela parte do “família apenas”. Logan, que pela primeira vez em algum tempo, havia me soltado quando o médico veio para fora, passou um braço entorno dela e declarou: — Essa é a noiva do meu irmão, será que ela pode entrar?
O médico parecia um pouco em dúvida, mas não questionou a credibilidade da informação quando assentiu. Rachel soluçou alto, todo corpo tremendo no aperto seguro de Logan. Eu duvidava que alguém teria qualquer segundo pensamento sobre ela e Chris, olhando para a reação dela.
Eu fiquei no fundo da sala, dando a eles espaço e observando enquanto eles decidiam quem entraria.
Logan primeiro, e isso não foi questionado.
Logan era a única figura paterna na vida deles por muito tempo, para todos eles. Mesmo quando o pai deles era vivo, foi Logan quem cuidou deles, quem aconselhou e alimentou.
Rachel iria em seguida, porque Chris precisava disso, disse Matt. E ele estava certo. Ninguém questionou isso também. Mesmo que Chris e Rachel não chegassem a 5 metros de distância um do outro por meses, ela era pra ele e todo mundo sabia disso. Eles conheciam seu irmão, mesmo que ele andasse tão fechado desde que ficou doente; eles sabiam o que Rachel era para Chris e eles nunca questionariam isso, mesmo que todos eles estivessem morrendo vontade de ver Chris de perto, após esse susto.
E quando chegou a vez de escolher a terceira pessoa, Calebe sussurrou baixinho
— Deveria ser Loren.
Logan arquejou. — O que?
Para o que Calebe repetiu, mais alto, mais forte e mais incisivo: — Loren. Deveria ser Loren a terceira pessoa lá com ele.
A sala caiu em silêncio. Ninguém discordou ou concordou.
Eu peguei um vislumbre da expressão de Logan, de perfil para mim, e não consegui lê-la, mas supus que não poderia ser bom, desde que ele permaneceu imóvel após Calebe fazer sua opinião conhecida.
Eu dei alguns passos para frente, parando ao lado de Calebe e coloquei a mão no braço dele, quando gentilmente apontei em um sussurro — Querido, eu não sou da família...
Eu assisti os punhos dele se apertarem firmemente, quando ele se virou pra mim, e olhando nos meus olhos, soltou, já com a voz um pouco alterada — Que porra é família, se não quem está do seu lado quando você precisa, caralho?
E eu nunca me senti tão humilhada antes, e não porque ele quis me atingir, mas porque eu não me sentia digna dessa demonstração de afeto. Meu coração doeu. O ar na sala ficou pesado.
Eu ouvi um — Porra.. — sussurrado, que eu sabia que veio de Beth.
Senti meu irmão se mover desconfortável.
Assisti Logan tomar uma respiração profunda, e ficar rígido, ainda segurando Ray.
Ray suspirou afetadamente.
Matt se moveu para o meu lado, passou um braço nos meus ombros, ignorou o estado catatônico onde a declaração de Calebe havia me deixado, e declarou em voz alta e certeira — Calebe está certo. Deveria ser Loren. Não importa o que a política idiota do hospital diz.
E daí, foi só ladeira a baixo.
Porque eles não iriam se acalmar, nem por mim, nem por Logan ou Beth. Ou o médico, ou ninguém. Até que a mesma enfermeira gentil que falou comigo, disse a Calebe — Se acalme, querido. Eu vou deixa-la entrar. Ninguém precisa saber.
Eu não sabia quanto a parte de ninguém saber, porque os meninos não foram discretos em suas exigências, e o médico continuava bem ali, um pouco mais pálido do que quando entrou.
Mas ela ofereceu a Calebe uma piscadela, encerrando o assunto com uma autoridade calma. Tudo nela era gentil, apesar se sua constituição baixa, porém troncuda e redonda. Calebe assentiu e Matt a abraçou apertado e murmurou — Obrigado.
Então ela mostrou a Logan o caminho.
Não levou nem cinco minutos para ele voltar.
E eu assisti Rachel ir, assim que Logan pisou o pé de volta na sala.
Eu não sabia o que fazer então.
Logan veio andando calmamente. Eu podia ver que ver Chris apenas tinha aliviado um pouco do peso em seus ombros. Eu sabia que ele estava mais que aliviado, que tudo havia corrido bem; mas a tensão de tudo ainda não havia deixado seu corpo. Conhecendo Logan, não sairia por um tempo.
Eu queria ir até ele e abraça-lo. Tomar a sua dor, como ele tinha feito tantas vezes comigo. Mas ele não havia dito uma palavra pra mim desde que ele me colocou em seus braços e sussurrou um — porra... — no meu cabelo.
Nada.
Ele apenas me segurou, até que meu choro diminuísse para um soluço. Até que o médico havia entrado na sala de espera, para falar sobre a cirurgia de Chris. Então ele havia me soltado, e foi para o médico. Desde então, ele não havia nem sequer olhado na minha direção.
Então eu aguardei.
Logan parou no lado oposto da sala, olhando para seus pés e respirando profundamente. Ele não disse uma palavra aos meninos ou Beth; eles também não perguntaram nada. Qualquer um a uma milha de distância poderia dizer que ele precisava de um tempo. Estava na sua postura, na constituição definia em resignação dos seus ombros, nos punhos apertados, na cabeça baixa e na respiração difícil.
E ele o teve o seu tempo, antes de levantar a cabeça e pisar na minha direção com determinação.
Eu estava aterrorizada, mas ele apenas pegou a minha mão, em uma demanda gentil e silenciosa para segui-lo até o corredor vazio.
Uma vez lá, ele me soltou e se colocou na minha frente, não muito longe, não perto o suficiente e me olhou.
Eu não consegui sustentar seu olhar de volta. Minhas vistas baixaram para o seu peito. Minha respiração era tremula.
Eu sentia o peso do seu olhar no meu rosto, mas não encontrei seus olhos. Eu não podia.
Logan suspirou.
Então, na voz que eu conhecia dentro da minha alma, macia, profunda e gentil; ele me disse, em um tom que não era mais que um sopro — Eu não posso lidar com isso agora.
Eu solucei. Um soluço quebrado e doloroso. E então encontrei seus olhos e isso dilacerou qualquer parte inteira que ainda tinha sobrado em mim, por algum milagre.
Ele me olhava com dor e gratidão, mas também com uma resignação calma e alarmante.
Eu não disse nada, pois ele continuou.
— Eu não posso expressar o quanto eu sou grato pelo que você fez pela minha família hoje. Eu nunca vou poder, mesmo que eu consiga devolver cada centavo do dinheiro que foi tirado da sua conta bancaria e depositado neste hospital.
— Logan...
— Silêncio, baby — ele cortou —, eu preciso que você me escute. —Eu assenti, por mais que eu quisesse gritar que eu nunca queria ver um centavo desse dinheiro de volta, que ele fez muito mais por mim quando eu precisei, do que dar a porra de um monte de dinheiro que não significava nada para mim. Mas se ele precisava falar, eu o ouviria como ele quisesse. — Eu sou malditamente grato. Porra, eu serei sempre malditamente grato por isso. Mas eu não posso lidar com você agora. Eu não tenho em mim, Loren. Não tenho mais força, baby. Eu não posso assistir você andar para os meus braços e saber que eu não posso mantê-la lá. Eu não posso assistir a porra da dor que está gotejando para fora de você no mesmo ritmo das lágrimas que você tem derramado durante todo o dia. Eu não posso me deixar alimentar a esperança de ter você aqui, de te assistir com meus irmãos, como se você nunca tivesse saído. Eu não posso deixar a esperança crescer em nenhum de nós, porque isso iria nos despedaçar. E eu não posso permitir que isso aconteça novamente, querida. Eu simplesmente não posso. Precisamos estar inteiros, para Chris, para Thomas. Então eu te peço, pelo amor de Deus, entre na UTI, veja Chris. Veja Thomas também. Eu pedi a eles que deixassem você fazer isso, porque eu sei como vocês foram próximos, e ele gostaria de saber que você veio por ele também. — Eu ofeguei, meu coração sendo partido em pedaços cada vez menores com suas palavras e seu tom ainda gentil. Logan continuou — E então volte pra casa, para a vida que você estava vivendo nos últimos dois meses. E não volte aqui, a menos que você tenha a intenção de ficar, baby. A gente não pode lidar com isso. Eu não posso...
Esse ultimo foi um sussurro, como se sua força de vontade se esvairia se ele falasse um pouco mais alto que isso. Ele me olhou por mais um segundo, tendo a certeza de que eu o ouvi. E quando ele teve, deslizou um dedo suavemente pela minha bochecha, como se memorizando meu rosto. Então ele se virou e saiu.
Eu perdi o seu calor instantaneamente. Meu corpo inteiro ficou gelado. Eu cambaleei na parede e deslizei até o chão, colocando a cabeça nos joelhos e apertando eles contra meu peito. Tudo em mim doía.
Porra, doía pra caralho.
Eu era dormente nos últimos meses, havia me acostumado ao tipo de dor entorpecente, mas esse era Logan. Para ele eu sentiria cada momento disso.
Cada porra de segundo.
E quando não achei que eu pudesse mais sustentar a minha posição, eu levantei. Fui ao banheiro, limpei as lágrimas que derramei para ele, para a gente, as que expuseram minha alma. Respirei fundo, até que eu consegui colocar a armadura que eu fui forçada a dominar nos últimos meses, então caminhei para fora e fiz como Logan me pediu. Poque ele era um homem, não um menino, e ele havia admitido para mim os seus limites, mesmo que isso lhe custasse muito.
E porque ele era Logan, e ele fez muito por mim; e eu faria tudo por ele.
Então eu fui a UTI, eu vi Chris na cama, ligado a diversos aparelhos. Eu derramei as minhas lágrimas por ele, me permitindo baixar a guarda na solidão daquele quarto frio. Então eu fui a estação e pedi pela enfermeira gentil novamente. Pedi a ela uma caneta e papel e deixei aos seus cuidados uma nota para Chris. Então, ainda segurando a caneta, pedi que ela me levasse a Thomas. Meu amigo não parecia tão frágil quanto Chris, mas ainda pálido e muito imóvel pela anestesia. A enfermeira me garantiu que ele estava bem e teria uma boa recuperação. Eu assenti.
Então eu peguei a caneta que ainda estava apertada na minha mão, rabisquei o que eu queria na parte interna do seu braço, em um raro espaço vazio no meio do antebraço esquerdo. A enfermeira me olhou engraçado, mas não disse nada quando eu adicionei meu rabisco no braço já quase completamente fechado de desenhos de Thomas.
Eu segurei sua mão apertado, por um instante. Então passei meus dedos no cabelo dele. Por fim, dei um beijo na testa um pouco fria, e saí.
Do quarto.
Depois do hospital.
Do bairro.
E então da cidade e do estado.
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