Totalmente demais 2
16 Capítulo 15
Notas iniciais
Despertei e ele não estava comigo. Levantei-me de súbito, jogando as cobertas longe e saltando da cama girando a cabeça de um lado para o outro desesperada sem encontrá-lo. Minha pulsação acelerou enquanto eu andava a passos largos pelo corredor da enorme casa em busca de algum sinal do meu marido.
— Não pode puxar o fio Felipe — ouvi a voz dele e simplesmente soube que podia voltar a respirar novamente.
Ele estava sentado na sala com nosso bebê no colo rindo de alguma traquinagem que Felipinho aprontara. Parecia tão feliz e despreocupado que resolvi que não o estrangularia por quase me matar de susto. Meu filho me viu e esticou os braços em minha direção gargalhando.
— A dorminhoca acordou filho — ele o ergueu no alto arrancando mais risadas.
— Germano, você deveria estar agradecendo por eu não estar caída e morta no chão agora. Sabe o que eu senti quando levantei e não te encontrei em nenhum lugar?
— Bobagem eu já estou ótimo! E bem, se você está chateada por não ter me encontrado na cama podemos resolver isso em um instante — ele me presenteou seu melhor sorriso sacana e eu me segurei pra não chacoalhá-lo porque ele estava se recuperando da sua cirurgia. Ele se virou pro nosso filho — Felipinho vai ser bonzinho com o papai não é? Vai ficar com a vovó Euzébia?
— Germano para com essas brincadeiras, as crianças estão chegando daqui a pouco!
— Crianças — ele debochou — já temos até um neto!
— Não comece! Espere, você não acha que a maluca da Cassandra vai trazer aquele bicho pra cá não é? — perguntei horrorizada demais pra seque conseguir imaginar o desastre que seria.
— Talvez, depende. Será que conseguiram arrumar uma babá a tempo? — ele zombou e eu não resisti e joguei a almofada mais próxima em sua direção, me esquecendo que ele apesar de não aparentar estava se recuperando de quase ter morrido e me esquecendo também do meu filho que estava junto a ele. Ele desviou o bebê do arremesso jogando-o para o ar e rindo junto com o bebê, enquanto a almofada passava direto.
— Vocês vão me enlouquecer — me joguei ao lado dos dois — Germano, eu sei que você está fazendo isso pra não nos matar de preocupação, só que está obtendo o resultado contrário!
— Eu só quero me divertir e aproveitar a vida! Não é todo dia que você quase morre. Apesar de que se fosse pra acordar com sua linda esposa todos os dias ao seu lado, preocupada e dedicada eu até poderia fazer isso mais vezes — o fulminei com o olhar — tudo bem chega de viver perigosamente.
Foi tudo tão rápido. Rápido demais. Como se um trem desgovernado nos atingindo em cheio e deixando o resultado do desastre pra trás enquanto continuava o percurso. Não tive tempo sequer de esboçar uma reação. Em um momento estávamos almoçando, no outro ele estava caído e eu perdida no meu próprio desespero. Ele não aparentou nenhum sintoma, e mesmo assim fiquei horas cega dentro da minha própria mente relembrando os últimos dias, as últimas semanas. Havia sido demais? Eu não cuidei dele? Ele se esgotou no trabalho, viajamos, e um milhão de coisas aconteceram. Comecei a buscar mais atrás com toda a nossa crise, a descoberta da filha, o terror que o padrasto dela nos impôs, e logo já estava me culpando por não ter percebido que fora demasiado pra ele. Pra todos, só que ele quase nos deixou. Quase me deixou. E uma vida sem ele não teria mais sentido.
De alguma forma tudo acabou bem, ele acordou naquela cama de hospital no dia seguinte, sorrindo e me dizendo que eu era a criatura mais linda da face da terra. Conseguiu até achar graça quando o médico explicou que o quão próximo ele esteve de nos deixar. Até aí estava tudo bem, só que depois de choros meus, do Fabinho e da Eliza, ele parou de achar graça, e resolveu provar que tudo continuaria igual, tentando retomar sua rotina, assim que recebeu alta dias depois. Tivemos de interdita-lo. Assim como seqüestrá-lo. Bem, essa idéia acabou sendo do Fabinho quando ele sugeriu que passássemos um dia na fazenda que tínhamos em Minas. Até o presente momento, ele estava se comportando apesar de tudo, só que com a chegada dos nossos filhos, eu realmente não sabia o que poderia acontecer.
Principalmente porque eles não viriam sozinhos.
E a Cassandra viria junto.
Talvez eu seja a próxima a enfartar.
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Nós estamos perdidos. Literalmente. É o que acontece quando você deixa as direções escritas em um papel. E entrega o papel pra Cassandra. Que carrega um porco consigo. E o porco come o papel.
— Nós devíamos ligar logo pros seus pais pra pedir ajuda Fabinho, estamos dando voltas tem horas — Jonatas havia finalmente cedido e perdido o orgulho. Porque sim, ele e o meu querido irmão mais velho resolveram bancar os machos sabichões inicialmente. Fabinho não estava disposto a dar o braço a torcer ainda.
— Eu sei que fica aqui perto. Eu conheço aqui bem, sempre que saíamos do aeroporto, meu pai vinha dirigindo porque o caminho é tranqüilo até a fazenda. Só levava uns 50 minutos.
— Nós estamos aqui já faz 3 horas Fabinho, e você disse que não vinha até aqui já faz seis anos. Vamos ligar logo! — implorei.
— Só estão ele, minha mãe e a Euzébia. Quem é que vai poder nos ajudar? Não vamos dar essa preocupação, eles já estão nos esperando, vamos chegar logo.
Bufei e olhei pra Cassandra que cobria o porco com a coberta enquanto ele roncava no lugar antes ocupado pela Débora. A coitada estava viajando sentada no colo do Charles, porque não tinha mais onde sentar, desde que o porco vomitou onde ela estava sentada. Ela estava bem irritada, e o Charles que se recusava a discutir nossa situação, apenas a confortava enquanto Fabinho dava voltas e voltas. O celular do Fabinho tocou e ele suspirou quando olhou.
— Oi mãe. Já estamos chegando sim — rolei os olhos — o avião se atrasou um pouco e nós já pegamos o carro. O almoço? Ah claro, vamos chegar a tempo — ele limpou a testa e sorriu amarelo pra mim — tudo bem com meu pai? Ah ótimo já estamos quase aí! Beijos!
— Vamos perguntar pra alguém pelo amor de Deus! Eu não agüento mais ficar nesse carro, está fedendo por causa do porco! — Débora gritou e Cassandra deu um pulo se voltando pra ela.
— O Cassinho toma banho todo dia! Ele usa óleo Johnsons Baby! Não fala mal do seu sobrinho!
— Eu te mato! — as duas se atacaram e o porco acordou gritando.
— Chega disso vocês duas! Eu vou pedir ajuda pra alguém não agüento mais! — Fabinho cedeu parando o carro — não tem quase ninguém aqui, por isso eu sei que já estamos chegando. É bem isolado.
— Eu não gosto de lugares isolados Fábio — Débora comentou e abraçou o Charles — se continuarmos assim, vai anoitecer e eu não quero ficar perdida no meio do mato.
— Fora que pode ter algum maníaco aqui — Jonatas zombou e depois olhou pra mim — desculpa ruivinha.
— Eu não tenho medo — mostrei a língua enquanto Fabinho abria a porta do carro.
— Pois eu tenho — Cassandra agarrou no namorado que olhava de um lado pro outro tentando encontrar sinal de vida.
— Nesse caso Cassandra, você deveria ficar preocupada com os fantasmas e zumbis — caçoei — aposto que tem zumbis na mata.
— Não para, para! — ela apertou o braço do Fabinho que gemeu.
— As bruxas também se escondem na mata — Jonatas entrou na brincadeira — elas ficam a procura de garotas assim como vocês — ele apontou pra nós e Cassandra gritou.
— AAAAAAAAAAAA NÃOOOOOOOO EU NÃO QUERO QUE A BRUXA ZUMBI ME PEGUE!!!
O porco se assustou com o grito da Cassandra e pulou do carro que estava com a porta aberta saindo em disparada estrada afora.
— Cassinho!! Nãooo meu filho! Socorro o zumbi vai comer ele! — ela saiu correndo atrás do porco que se embrenhou no mato e os dois sumiram.
Fabinho olhou feio pra nós.
E agora?
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