Totalmente demais 2
15 Capítulo 14
Notas iniciais
Eu estava olhando para meu pai havia alguns minutos. Eu não fazia idéia de quantos. Eu apenas olhava. A verdade sobre o medo e o pânico: eles te assombram tanto que em alguns momentos você é dominada antes mesmo da dor invadir seu corpo. Porque ela já invadiu a sua mente.
''Está tudo bem e ele está vivo, ele só está dormindo. Ele vai acordar. Você não o perdeu''.
Eu repetia esses mantras várias e várias vezes e continuava olhando. Fabinho e Lili pareciam felizes em apenas estar com ele também. Jonatas estava mas preocupado que eu desmaiasse outra vez.
— Você poderia ao menos sentar Eliza — ele repetiu outra vez. Eu o assustei.
Eu me assustei. Porque eu estava apavorada e só ouvi o final da frase do médico. ''O procedimento foi muito invasivo. E eu sinto muito''. Não era de se esperar que o Jonatas não conseguisse se tranquilizar. Eu gritei e desmaiei e quando despertei pronta pra gritar de novo ele apenas começou a dizer repetidas vezes que ele estava bem. Eu só acreditei quando pude entrar no quarto e vê-lo com meu irmão e a Lili.
— Eu amo o meu pai — sussurrei mais para mim mesma do que pra qualquer pessoa ali. A única pessoa que importava ouvir continuava desacordado.
— É claro que você ama — Jonatas me apoiou em seus braços o desespero de me ver caindo ainda o controlando.
— Só que eu nunca disse. Eu não cresci com ele e quando o encontrei achei que estava tudo bem e que nossa relação era suficiente. Eu fui embora e nós ficamos bem, porque eu ia voltar. E eu voltei e quase o perdi. E eu não disse que o amava. Se eu disse eu não me lembro o que significa que nem foi importante.
— Então você pode dizer quando ele acordar Eliza. Você tem todo o tempo agora — Lili falou pela primeira vez em horas, provavelmente redescobrindo a própria voz — E ele sabe a propósito.
Fabinho sorriu pra mim e concordou e voltou os olhos para meu pai. Ele não acordaria agora, pois passou por uma longa cirurgia para desobstruir as artérias e eu realmente não sabia o que eu queria ser da vida, mas sabia que médica eu não seria jamais. Cada termo e situação exposta em uma única noite fora suficiente pra me deixar enjoada.
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— Muito obrigada por ficarem com os meninos — Gilda me abraçou e parecia ter envelhecido uns bons 10 anos em uma única noite.
— Bem, agora o que importa é que tudo está bem certo? E a Sandra? Eliza?
— Eliza, Cassandra e Jonatas quiseram ficar no hospital. Eu teria ficado também, só que não era justo com vocês meninos — Gilda esfregou a têmpora parecendo exausta.
— Isso filha, vai descansar. Você também Charles. Vou abrir o bar e as crianças têm que ir pra escola — meu pai não deixava transparecer o cansaço e eu o apertei em um demorado abraço de filha mais orgulhosa do mundo.
— Vou levar a Débora pra casa — Charles me puxou pela mão e caminhamos pela rua, ele parando pra me comprar um sorvete.
— Meio cedo pra isso não?
— Sabe o que eu descobri hoje? Ou melhor, ontem?
— Que tomar sorvete as 7:00 é absolutamente normal?
— Que a vida é curta demais. E a qualquer hora nós podemos deixar esse mundo. O que acontece depois? Um outro mundo? Um tipo de paraíso? Ou uma outra vida? Ou será que simplesmente acaba mesmo e nós nem sabemos por que já não existimos mais?
— Uau Charles isso é bem complexo.
— Não devia ser. Porque não importa. Eu não quero que o depois realmente signifique alguma coisa. Ele é apenas um questionamento. Mas o agora...essa vida Débora. Isso significa tudo!
Esse devia ser um daqueles momentos em que as pessoas ficavam assustadas por algum conhecido viver uma situação de quase morte e se sentiam motivados. Entretanto o brilho no olhar do meu namorado me fazia sentir um frio no estômago e eu não entendi o por que.
— Eu te amo Débora!
— Eu também te amo.
— Então a partir de agora vamos aproveitar cada dia e cada momento. Como se fosse o último. Como se fosse único — ele me entregou meu sorvete e de repente me parecia perfeitamente adequado para aquele momento.
— Combinado — sorri cúmplice como se já não vivêssemos cada dia intensamente.
Era perfeito pra mim.
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No final eu e Jonatas fomos embora apenas por que tínhamos uma missão: cuidar do Felipinho. Isto é a Euzébia era certamente capaz de cuidar do meu irmão, só que a Lili não queria sair de perto do meu pai e não parecia certo ela realmente estar em outro lugar. Ele despertou por alguns momentos apenas pra dormir incerto de onde estava e bastante debilitado. Ela não saiu do seu lado e eu entendia bem a dor dela já que eu quase perdi o Jonatas uma vez. Ainda que os relacionamentos fossem completamente diferentes, eu sabia como era aquele pavor.
Fabinho acabou com uma Cassandra adormecida no sofá e uma Lili que se recusava a sair do lado do meu pai e se desesperava de saudades do meu irmãozinho, e acabou que eu me ofereci pra ficar com ele algumas horas.
— Graças a Deus que vocês chegaram! A dona Lili me avisou que estava tudo bem só que eu precisava ouvir de alguém pessoalmente!
— Tudo está bem dona Euzébia — Jonatas se permitiu finalmente relaxar também, uma vez que eu, meu pai, a vida pouco a pouco recuperava a normalidade. Parecia que ele estava carregando esse peso sozinho e eu me senti mal por ele.
O bebê também parecia incrivelmente chateado, resmungando no colo da Euzébia. Estendi os braços pra segura-lo e ele deitou a cabeça manhoso no meu peito.
— Ele sentiu falta da mãe e do pai, porque ele praticamente nunca fica sem eles. E criança pressente as coisas ainda que pequenas.
Eu concordei e tentei tranquilizá-lo conversando carinhosamente com ele enquanto Jonatas e Euzébia me forçavam a comer alguma coisa pra não desmaiar novamente. Acabei levando-o pro quarto dos pais, deitando-o na cama na esperança de que ele pudesse dormir um pouquinho até que Lili pudesse vir até ele.
— Deita um pouco também Eliza. Você não dormiu direito, não comeu direito.
— Não vou desmaiar novamente Jonatas, foi o susto.
— Sinceramente eu estou mais preocupado que você possa quebrar em mil pedaços e eu não consiga te juntar novamente.
O choroso bebê parecia ter se acalmado, como se soubesse que se fosse paciente e esperasse um pouco, sua mamãe e papai voltariam até ele. Ele se concentrou em brincar com as mechas do meu cabelo que eu soltara, encantado com o novo passatempo e pouco a pouco ficando sonolento. Jonatas se recostou ao meu lado, nós dois olhando um para o outro, e o bebê entre nós dois.
— Eu estou cansada desses sustos. Sabe? Achei que tivesse passado. Que eu não passaria por essas coisas de novo.
— Acho que a vida tem um jeito estranho de sempre brincar com o destino ruivinha.
Felipinho dormiu e eu sorri triunfante me inclinando para beijá-lo na testa. Jonatas sorriu pra cena e levou a mão até o meu ombro, os dedos me alisando carinhosamente.
— Um dia vai ser a gente assim.
— Assim como?
— Assim. Com um bebê. Só que nosso.
Eu me senti entorpecida pela ideia, porque talvez eu estivesse realmente cansada, talvez minha mente estivesse tão abalada que demorava a processar as informações, ou talvez porque eu realmente nos visualizei em uma cama com uma criança. Eu via uma menina de cabelos negros e com o sorriso dele correndo pela casa, e eu sabia que no dia em que ela chegasse eu perderia uma parte dele porque ele ficaria louco por ela e viveria por ela. Só que eu também me imaginava completamente alucinada por ela, e por qualquer criança que fosse dele. Meu cérebro lutava pra se manter acordado, e eu não queria perder a imagem formada na minha mente de dois garotos brigando e eles eram uma cópia do Jonatas. Eu os amava e eles nem existiam. Talvez Josephine estivesse certa e o amor de mãe era tão grandioso que já te consumia antes mesmo dos filhos chegarem. Era o único amor que eu não havia experimentado. E o que de súbito eu mais senti falta, como se sempre estivesse dentro de mim.
— Você quer isso não quer? Uma família? Um filho nosso?
— Eu quero — sussurrei pra ele.
Eu quero, sussurrei pra mim mesma. Umas 100 vezes antes de me perder no caminho dos sonhos. Sem pesadelos dessa vez. Sem temores, sem a escuridão pra me aterrorizar. Não porque eu havia esgotado cada força do meu corpo, e sim porque eu finalmente estava em paz.
Sonhei comigo e com o sapo cercados de crianças em um parque, com um cachorro e toda nossa família por perto. Eu não sabia o que eu queria da minha vida em vários sentidos, porém eu simplesmente soube que aquilo eu queria. Como se estivesse escrito desde o início dos tempos. Como se estivesse marcado em mim.
E eu me senti segura em um futuro que eu esperava que não demorasse a me encontrar.
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