Totalmente demais 2
14 Capítulo 13
Notas iniciais
Eu estava tentando. ‘’Tentar’’ era realmente a palavra. Estava incrivelmente difícil, pra não dizer impossível, lidar com o Gabriel esses últimos dias. Toda sua energia e alegria se dissipou, e meu coração pesava uma tonelada.
— Fiz seu macarrão favorito. Com bastante queijo do jeito que você gosta! — ele fez beicinho e se virou pra televisão abraçando a almofada — Gabriel isso é uma ordem, você vai se levantar e comer!
— Não tô com fome não mamãe.
Ele sempre tinha fome. Ele sempre sorria. Ele sempre chegava da escola com diálogos intermináveis de sua aventura diária. Se bem que ele não ia mais a escola.
Aquela maldita escola! Se aquilo não tivesse acontecido a normalidade ainda se faria presente entre nós. Meu filho estava destruído. Eu prometi quando o adotei que faria dele a criança mais feliz do mundo. E olha só como eu me saía grandiosamente bem.
— Filho...olha só, você precisa comer pra ficar forte.
— Porque eu estou doente? Ninguém fala o que eu tenho mas eu estou doente não é mamãe? Por isso não posso mais ir pra escola. E por isso que o tio Arthur não vem mais aqui. Ele não quer mais ficar perto de mim pra não ficar doente também.
Daria pra escutar os pedaços do meu coração despedaçado caindo no chão.
— Eu já te disse que não é nada disso meu amor. Olha você e os seus primos vão pra uma escola nova. E o Arthur viajou pra trabalhar eu já te disse.
— É mentira — ele disse magoado — ele nem ligou pra mim como costumava fazer quando viajava. Ele não quer falar comigo.
Ele saiu correndo pro quarto deixando seu prato intocado. Meu peito doía, minha cabeça doía, meu corpo inteiro estava dolorido. Porque afinal eu não podia deixar o Arthur falar com ele? Eu nem atendia seus telefonemas e meu filho pagava por isso. Pagava por algo que ele não fez.
Pagava por um passado que deveria ficar no passado. Por uma história que eu não podia apagar e que não conseguia esquecer. Acho que deveria ser assim afinal. As lembranças boas serviam pra aquecer o coração. E as ruins pra lhe assombrar e te mostrar que a dor sempre persistiria. Acho que de alguma maneira bizarra, elas deviam ser realmente cultivadas juntas dentro da gente, para que algum dia no futuro, ou no presente mesmo, eventualmente elas lhe deixasse ver tudo com clareza. O que eu e o Arthur fizemos não iria embora. As dores, os erros, as maldades, as lágrimas, tudo aquilo de algum jeito estranho estava dentro da nossa mente e não devia ser esquecido. O tempo não apaga, ele apenas corre. E um dia você desperta, e a dor passou. Você superou, e está de pé.
Claro que agora eu estava quase no chão destruída.
Peguei o telefone, disposta a acabar com a palhaçada que eu fiz com o Arthur, quando bateram a porta.
— Pelo cheiro, eu acredito que cheguei em uma excelente hora — ele estava escorado no batente da porta com uma garrafa de vinho e uma caixa nas mãos. Estava absurdamente lindo, entretanto seus olhos deduravam o cansaço, e a mágoa. Antes que pudesse dizer uma só palavra os gritos animados do meu filho ecoaram pela casa.
— Tio Arthur! Tio Arthur você voltou! Você não foi embora pra sempre — ele se jogou nos braços dele completamente alucinado. Ele não era meu filho biológico, entretanto parece ter puxado de mim a capacidade de amar aquele homem incondicionalmente. Suspirei derrotada.
— É claro que eu não fui embora ora essa campeão! Eu só estava com muito trabalho só isso! E aquela mesa ali? Vocês iam comer sem mim?
— A mamãe fez macarrão com queijo tio!
— Parece ótimo, será que eu posso comer também?
— Pode — ele disse sorrindo e arrastou o Arthur até a mesa os dois atacando o macarrão enquanto eu ficava parada no meio da sala como uma idiota.
— Não vai comer também mamãe?
— Não — eu disse controlando minha voz pra não denunciar o ciúme. Apesar de tudo eu estava feliz. Era a primeira vez que ele comia de verdade em dias sem ser obrigado — agora quem ficou sem fome sou eu.
Arthur me observava da mesa, entre uma garfada e outra, contanto histórias pra um completamente recuperado Gabriel. Esse lhe disse que eu estava procurando uma escola pra ele junto com a Dorinha, e imediatamente Arthur se intrometeu dizendo que iria ajudar. Eu bufei e fui até a cozinha beber água. Quando voltei os dois estavam no sofá conversando cúmplices.
— Bom Gabriel, lembra do que conversamos — ele disse e eu me perguntei o que esse imbecil disse pro meu filho.
— Promete que não vai embora? — sua vozinha se reduziu a um sussurro e eu quis me bater por deixá-lo nesse estado.
— Prometo! Agora vai lá — ele entregou a caixa pro meu filho que saiu disparado pelo corredor.
— Ei Gabriel! O que é isso? O que você deu pra ele?!
— São alguns jogos novos só isso! Assim podemos conversar enquanto ele se distrai — ele abriu o vinho e serviu uma taça me oferecendo. Virei de uma só vez.
— Nossa! Bom, ultimamente também tenho virado copos assim rapidinho — sua voz saiu carregada de amargura e eu me irritei — o que foi?
— Você não avisou que viria!
— É bom, depois de você não atender meus 138 telefonemas, eu percebi que tinha que vir pessoalmente.
— Droga Arthur! Não quero que você machuque os sentimentos do meu filho!
— E afastar o garoto de mim é a melhor solução sim — ele disse sarcástico — viu como ele ficou feliz? Viu como somos uma família...
— Não somos uma família Arthur.
— Somos sim! Eu, você, nossos filhos! Meus pais malucos, sua irmã maluca...somos nós! Não ficamos bem separados Carol. E você sabe disso só está com medo.
— Eu estou sim. Eu sei que posso ter errado em te evitar esses dias Arthur, mas o coração do meu filho é precioso demais pra eu permitir que alguém o machuque. Só que...acho que quem acabou machucando fui eu. Eu amo você. E eu sei que você me ama, é que não somos só nós. É diferente desta vez.
— Eu amo ele também. Eu quero ser o pai dele também — senti um estalo na minha cabeça. Eu ouvi direito? — eu sou bom nisso de pai sabia? — ele sorriu e veio até mim, segurando nossas mãos — não quero que você sinta medo. Eu só quero fazer você, vocês dois felizes. Eu jamais magoaria qualquer um de vocês. Não mais.
Eu já estava disposta a aceitar ele de volta, assim que o vi na porta parado. Ou até antes disso. Acho que nunca o quis longe de verdade.
— Esse é um passo bem maior do que jamais demos antes — sorri pra ele.
— E tudo que eu posso dizer é que demoramos demais — ele colou nossas bocas e foi só aí que eu percebi o quão eu estava morta de saudades. Ouvimos uma risadinha abafada e nos separamos, eu me virando e encarando um travesso Gabriel sorrindo pra nós.
— Só queria ter certeza que o tio Arthur não iria embora de novo.
Se dependesse de mim ele não iria embora nunca mais.
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O tempo é uma fato impossível de se lidar. Em alguns momentos ele passa tão depressa que mal sentimos, mal compreendemos até que nos damos conta que aquele acontecimento ficou pra trás. Em outros, ele nos tortura, demorando segundo a segundo, como se estivemos de braços abertos pra uma eternidade interminável.
Eu não reagi quando Jonatas me falou sobre meu pai. Mal senti quando entramos no carro, ou quando chegamos no hospital. Só soube realmente que estava lá, quando Fabinho me abraçou e senti seu rosto molhado pelas lágrimas.
Isso era muito injusto. Tão injusto. Eu ganhei meu pai agora. Eu esperei por ele a vida inteira. Eu não conseguia digerir esse fato, eu não consegui lidar com isso.
Então eu chorei também. Pela primeira vez naquela noite.
Quando as pessoas começaram a chegar, minha mãe e Hugo, a mãe do Jonatas, Zé Pedro, eu tentei desligar a minha mente, e esperar pelo momento que o médico apareceria pra dizer que estava tudo bem. Só que isso nunca acontecia. E os minutos intermináveis pareciam correr mais devagar, como se estivessem gostando de triturar nossos sentimentos, nos sufocando em uma longa e desesperadora espera.
Eu olhei pra Lili apenas uma única vez aquela noite. E resolvi que não olharia mais, não até que tudo estivesse bem. Vai ficar tudo bem, eu sei. Ela não parecia saber. Toda a vida dentro dos seus olhos desapareceu. Ela parecia mais um corpo vazio, sem alma, sem respirar, sem entender onde estava, agarrada no Fabinho como se sua vida dependesse disso, o olhar morto e desfocado incapaz de derramar lágrimas. Eu sabia que era porque ela já perdera tanto que provavelmente era incapaz de chorar. Ou então ela estava em choque. Não importava. Eu me recusei a olhar pra ela, porque a dor que emanava dela era tão grande, que apenas de olhar doía fisicamente. Pensei em meu irmãozinho que não estava em parte alguma, e agradeci por isso. Ele provavelmente estava com Euzébia, seguro e longe de toda aquela energia ruim. Débora e Charles ficaram com meus irmãos, e eu sentia as mãos da minha mãe sobre mim, algumas palavras sussurradas que eu mal conseguia ouvir. Ou queria.
Ela me afastou dele. Ela nunca contou. Ela me levou pra perto do Dino, enquanto eu poderia ter passado todos esses anos perdidos com meu pai.
Eu estava muda. Porque se eu falasse, eu sabia que não seria agradável.
Jonatas estava calado também. Quieto, ao meu lado, quase como eu. Percebi o quanto aquilo era injusto, porque ele gostava muito do meu pai, ia além de qualquer relação comigo. Era algo só deles, tão grande que até meu irmão teve ciúmes antes. E Jonatas não tinha pai. Agora a figura mais próxima de um estava...
Eu chorei novamente. E o tempo passou.
Só que ele não parecia passar. Porque permanecemos ali, por horas.
Ele foi pra cirurgia Eliza. Foi o que alguém me falou. Eu não absorvia as informações. Apenas me culpava, por ter ido pra Paris, e ter passado doze meses longe. Eu tinha acabado de encontrá-lo. Eu passaria os próximos anos sempre ao seu lado, eu prometi uma dezena de vezes ali naquela sala de espera.
Quando a mão do Jonatas apertou a minha mais forte, meus olhos se levantaram, buscando novamente a Lili que estava em pé em cima do médico com Fabinho e Cassandra ao seu lado. Eu me levantei depressa, sem soltar a mão do Jonatas que veio juntamente comigo, desesperada pra ouvir o que o médico estava lá falando pra eles e não pra mim.
— E eu sinto muito — o médico falou de maneira fria demais. Eu soltei a mão do Jonatas e gritei, sentindo tudo ficar escuro e mãos me segurando enquanto eu caia.
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