Totalmente clichê
2 2ª página: O Gigante Brasileiro
Notas iniciais
01/01/2014
Ainda não havia voltado para casa, dormiria na casa do meu padrasto que sabe-se lá porque não mora com Paola. Talvez seja porque ele concorda que ela é insuportável. Bom, antes isso que voltar para casa e dar de cara com a bruxa em duas rodas.
Ah, sim, já contei? Paola é cadeirante.
Enfim. Pensei em várias coisas que poderia escrever enquanto assistia ao noticiário, como; o barulho e como sou sensível a ele, o clichê do Ano Novo que nunca canso de viver... Mas aí, uma notícia chamou minha atenção e afastou todos os meus pensamentos.
Desci as escadas sem pressa. Fim de tarde, céu alaranjado tingido por nuvens cor-de-rosa, um calor infernal e pouco vento. Aparentemente, Eduardo convidara alguns de seus amigos. E estavam todos desmaiados no chão, provavelmente de tanto beber. Eduardo ainda estava sóbrio, sentado numa cadeira em meio à garagem e bebendo. Peguei uma cadeira e me sentei em sua frente.
"Em quanto aumentaram o salário mínimo mesmo?" comecei.
"Hum..." pensativo, ele coçou o pescoço "Acho que em setenta e dois reais... Não me lembro.”.
"Pois é" falei "Mas acredita que aumentaram o IPI na compra de automóveis?”.
Ele ficou quieto, esperando que eu continuasse.
"Do que adianta aumentar o salário mínimo sendo que aumentam o IPI? Foi tipo quando abaixaram o valor da conta de luz, mas aumentaram a conta de água!" exclamei deixando clara minha indignação na minha voz.
"Pois é, Carol. Você sabe: o governo dá com uma mão e tira com outra."
Então, nem preciso dizer muito, não é mesmo? Essa cena que descrevi já fala por si. Ou melhor, grita. Que o governo rouba, todo mundo sabe. Porém, nem todo mundo percebe que eles estão todos os dias esfregando isso na nossa cara. Eu não consigo me contentar, não consigo! Muitas das pessoas que percebem isso, apenas ignoram! Posso não estar fazendo nada além de escrever no meu diário, mas bem que queria. Se pudesse, saíra às ruas e me juntaria aos protestos que, apesar de terem perdido parte aquela força, continuando acontecendo. Entretanto, não posso. Paola não deixa, e o que eu menos quero é um peso na consciência por ter matado do coração uma cadeirante da qual eu nem sequer gosto.
Fiquei um tanto decepcionada quando os protestos perderam a força. Fiquei muito contente quando começaram, sério. Até cheguei a fugir de casa uma vez, daí, quando voltei, descobri que Paola havia enfartado e estava no hospital.
Eduardo diz que os protestos só diminuíram porque a Copa das Confederações acabou, e que, durante a Copa, eles retornarão com toda força para chamar a atenção da mídia internacional. Estou bastante otimista quanto a isto.
O Gigante acordou. Agora tem que se levantar.
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