Torta de limão

1 Capítulo 1: Presentes Amargos


O aroma de rabanada pairava no ar, misturando-se ao cheiro de maresia que invadia o apartamento de Fernando. A vista do Cristo Redentor, adornado com luzes natalinas, era um espetáculo que ele, no entanto, ignorava. Seus dedos ágeis deslizavam pelo teclado, destilando veneno em mais uma resenha impiedosa. "Clichê, previsível, sem alma…", ele murmurava, cada palavra um golpe cirúrgico.


Fernando era conhecido na cena literária online por sua língua afiada. Seus comentários, embora cruéis, eram incrivelmente perspicazes, o que lhe rendia uma legião de seguidores e, claro, uma avalanche de inimigos. Naquela noite, o alvo era Sofia, uma jovem aspirante a escritora, vivendo a montanha-russa de emoções dos seus curiosos dezenove anos, mas que ousara publicar seu primeiro romance online, apesar do receio, intitulado "Um romance de Natal em Natal".


Ao ver a capa delicadamente elaborada, a sinopse apaixonada e a divulgação do primeiro capítulo, Fernando não poupou palavras. Destrinchou cada parágrafo, apontou cada falha, massacrou cada personagem. Ao final, sentiu uma pontada de culpa, rapidamente abafada pela satisfação do dever cumprido. Afinal, seus títulos, acrescidos dos diversos livros publicados, davam-lhe o poder narcísico que validava tal comportamento.


Após o envio da mensagem — uma espécie de aula online apontando atos, ápice, construção e estrutura —, Fernando sentou-se em seu confortável sofá, admirando o próprio reflexo na televisão de 42 polegadas.. Era como se o gozo do dever cumprido escorresse pelos poros enquanto cruzava as pernas em sinal de autoridade. Um sorriso ladino nasceu imediatamente em seu rosto, seguido de uma sensação satisfatória e críticas mentais que povoavam sua cabeça, afirmando sua grandiosidade. Os enfeites de bengalas, biscoitos de gengibre, caixinhas supresa e estrelas, distribuídos em sua árvore de Natal não condiziam a serenidade do clima festivo de compaixão e reflexão.


Perdido em pensamentos, Fernando imaginava as possíveis reações de Sofia ao ler a análise crítica perfeitamente escrita. Até que seu telefone vibrou. Era Ricardo, seu melhor amigo.


- E aí, Venom? Vai encarar a ceia na casa da tia Ofélia esse ano? Prepare-se para os sermões sobre desencalhar!


Fernando revirou os olhos. O Natal era um fardo, uma obrigação social que ele preferia evitar a qualquer custo.


— Passo — respondeu secamente. — Inventei uma gripe.


A conversa foi curta. O convite para a ceia, negado com um corte preciso, fez com que Ricardo encerrasse a ligação alegando urgência. Com o fim da chamada, o silêncio no apartamento pareceu ganhar peso; Fernando sentiu-se, por um instante, mais sozinho do que gostaria de admitir. Lá fora, os fogos de artifício no céu do Rio de Janeiro anunciavam a chegada do Natal. Ali dentro, reinava apenas o farfalhar das páginas de um livro que ele, ironicamente, detestava.


Poucos minutos após a meia-noite, uma notificação iluminou a tela. Uma mensagem inesperada em sua caixa de entrada: Sofia.


— Olá, Fernando. Li sua resenha — escreveu ela. — Não o conheço pessoalmente, mas agradeço a honestidade. Feliz Natal.


Ele ficou desconcertado. Esperava fúria, insultos ou o bloqueio imediato. Mas o que recebeu foi uma gratidão genuína. Intrigado, os dedos de Fernando voaram para o teclado:


— Não precisa agradecer. Foi apenas uma avaliação honesta.


A resposta veio quase instantaneamente:

— Honesta e cruel. Mas honesta. Te desafio a ser menos cruel na próxima.


Fernando sorriu involuntariamente enquanto alcançava um pedaço de chocotone. Cada mordida parecia um teste para a atitude de Sofia. Aquela garota tinha fibra, algo raro entre os amadores que ele costumava trucidar. Seu ego fora cutucado, não pela ofensa, mas pelo reconhecimento de sua própria natureza, vindo justamente de quem ele acabara de tentar destruir.


Deixando o doce de lado, ele voltou ao brilho da tela — a única luz na madrugada do apartamento. Seus dedos hesitaram por um segundo — um evento raríssimo — antes de digitarem a tréplica:


— Aceito o desafio. Mas aviso: para eu ser menos cruel, o seu texto terá que ser muito melhor. Se quiser aprender a escrever de verdade, mande-me o segundo capítulo amanhã. Às nove.


Ele clicou em enviar e fechou o notebook com um estalo seco. O silêncio do apartamento parecia menos opressor agora, preenchido por uma curiosidade incômoda. Fernando não sabia, mas ao tentar ensinar Sofia a escrever um romance, ele acabava de assinar o contrato para protagonizar o seu próprio — e, desta vez, ele não teria o controle da narrativa.