Torre do Relógio

1 Guardião do Tempo


Notas iniciais
Essa foi uma ideia meio maluca que apareceu assim do nada, mas eu gostei do resultado. Era para ser uma coisa, mas acabou que tomou vida própria e quando vi deu nisso ^^
Esse é o primeiro tempo, o presente, a primeira oneshot de um conjunto da saga Temporal.
Tenham uma boa leitura.

Em um campo de rosas vermelhas localizado em lugar nenhum, existia uma torre cujo as portas não existiam somente uma única janela demarcava que a mesma possuía um interior habitável. No topo da torre podia-se ver um enorme relógio com seus números dourados belamente esculpidos em alto relevo em algarismos romanos, sempre marcando a mesma hora.

Não sabia-se quando ou por quem fora construída, dizia-se que aquela torre estava ali desde os primórdios. Nunca se desgasta, sempre permanecia intacta, imponente, forte, imbatível a qualquer mudança temporal. Assim como o seu guardião, um pequeno rapaz no auge da sua juventude tão belo quanto o jardim que o cercava e tão inalcançável quanto a torre que guardava. Apesar de sua juventude aparente sua existência perdurava a tanto tempo que não saberia-se dizer o quanto.

O jovem sempre era visto às seis da tarde com os braços sobre a janela e o rosto sereno a admirar o pôr-do-sol. Os cabelos de um azul claro único balançando levemente com a brisa de fim de tarde, os olhos tão azuis quanto o céu no verão brilhando com as nuances alaranjadas, violetas e vermelhas que caracterizavam o pôr-do-sol, a pele tão branca quanto marfim e tão macia quanto seda reluzindo exposta aquele show de cores. Uma pintura perfeita eternizada a cada dia no mesmo pôr-do-sol, na mesma torre, com o mesmo rapaz. Apenas um olhar seria o suficiente para inspirar um artista, mas nem mesmo o mais talentoso dos pintores conseguiria fazer jus a tamanha beleza. Nem todas as cores do mundo poderiam destacar com precisão a cor daqueles olhos que carregavam os mistérios do mundo. Nem mesmo a torre poderia ser fiel a original, cada detalhe milimetricamente calculado com uma precisão sobre-humana quase celestial, e o jardim de rosas que jamais poderia ter seu vermelho exuberante gravado em uma tela, pois não existia tal tom ardente e delicado de vermelho que lhe fizesse jus, simplesmente não existia essa cor no mundo.

Por mais belo que fosse o pôr-do-sol, não durava por muito tempo. O sol se ia, dando lugar a lua, o dia a noite e o belo rapaz recolhia-se a torre, não denunciando sua presença até que o próximo pôr-do-sol viesse e novamente aquela cena se repetisse como um looping infinito ao qual seu término jamais foi escrito e sua existência jamais confirmada.

Mais ao longe coberto pela grama de um verde resplandecente uma criança com observava a torre do relógio e seu guardião com os olhos brilhando em admiração, sonhava em um dia poder falar com tal preciosidade que mais parecia um anjo ao seu ver de tão surreal que o belo rapaz era. O pequeno admirador todo fim de tarde observava o jovem da torre em sua eterna contemplação do pôr-do-sol, mas por mais que observasse não entendia o porquê de tanta melancolia estampada naqueles olhos cristalinos. Talvez fosse a solidão a qual estava destinado. Mas contra isso não poderia fazer nada, apenas admirar a beleza daquele ser inalcançável com seus olhos infantis. Todas as tardes o pequeno fielmente admirava o belo jovem assim como o mesmo admirava o pôr-do-sol, poderia-se que era a sua sina. O jovem guardião do tempo fadado a contemplar o poente e seu admirador a observá-lo em tal ato. Duas almas destinadas à uma existência, interligadas por algo inexplicável. Aquilo nunca mudava e jamais deveria até que…

Em um ato destoante da sua rotina sem sentido o belo jovem da torre vira o rosto avista ao longe, além do seu belo jardim de rosas em meio a grama que jamais tocou um pequeno dente de leão a balançar com o vento, mas não… Não era um dente de leão e sim alguém, uma criança com belos cabelos brancos a balançar, a postura do belo jovem mudou e ignorando o pôr-do-sol pôs se a focar seus olhos cristalinos naquele pequeno ser. Foi quando o sol se pôs e o céu escureceu que a criança lhe encarou. Olhar com olhar. O azul cristalino preso ao azul nebuloso, tão escuro quanto a noite, ambos surpresos se encaravam, a distância parecia não existir pois os mesmos conseguiam ver até o mínimo detalhe do outro. A lua começou a subir e iluminar os cabelos brancos da criança que reluziu um prateado sobrenatural, o belo jovem da torre notou que algo mudou nunca havia presenciado a noite e ao dar-se conta disto… Tudo se foi.

***

Bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip

O som repetitivo e irritante ao seus ouvidos preencheu o ar. Vagarosamente foi abrindo os olhos e deparou-se com um lugar branco, rapidamente fechou os olhos com a claridade a irritar sua retina, abriu-os novamente desta vez distinguindo móveis e pessoas. O que estava acontecendo?. Vários estranhos se aproximavam com os rostos cobertos por máscaras brancas deixando-lhes apenas os olhos visíveis, estava confuso e não conseguia se mexer, queria falar mas algo em sua garganta o impedia. E aquele som irritante não parava de soar.

Ao olhar para o lado viu duas pessoas vestidas de forma diferente daqueles que mexiam consigo, estranhamente familiares, a alegria era evidente em ambos devido a forma como um deles em particular parecia pular sem se caber em si.

Logo depois foram retirados de lá, ao que parece estavam fazendo barulho demais e ele se viu olhando o teto branco daquele lugar novamente.

— Eu ainda não acredito nisso! Eu sabia que ele ia acordar! — Fora do quarto hospitalar onde seu amigo acabara de acordar de um coma, Milo comentava animado com Shura, amigo de ambos que balançava a cabeça afirmativamente. Ele também estava feliz, mas era mais contido que o loiro a sua frente, e também havia um pequeno problema que teriam de resolver.

— Mas… — Fez uma pausa até que o loiro o encarou entendendo apenas pelo tom em que tal palavra fora proferida do que se tratava.

— É… Isso vai ser difícil. — O loiro bagunçou os cabelos mostrando que estava preocupado enquanto olhava pela janela de vidro da porta do quarto para seu amigo deitado com o olhar confuso a fitar o teto enquanto os médicos faziam os procedimentos necessários.

— Como vamos contar para ele que estava em coma por seis meses depois de um acidente de carro e que… — Hesitou relembrando dos fatos ocorridos.

— O Afrodite morreu…? — Reuniu força para terminar a frase. O rapaz citado, era noivo do que acordou do coma e amigo de ambos, Milo e Shura, que estavam fora do quarto. O jovem acabou falecendo em um acidente em que o outro ficou em coma.

— Vai ser complicado. — Shura como sempre de poucas palavras aproximou-se de Milo observando seu amigo pela janela.

— Ele o amava muito. — O pesar pode ser notado na frase do moreno e o loiro soltou um suspiro com a próxima etapa que viria logo à seguir e teriam que enfrentar.

— Sim, amava.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!