Notas iniciais
Olá Cupcakes! Espero que me perdoem pela demora, esse capítulo foi difícil. Agradeço a todos que comentaram, vocês são muito importantes para mim. Mesmo. Dedico esse capítulo à @parrillaschilli. É sempre um prazer conversar com você, meu bem. Sem mais delongas, boa leitura.

Há um enorme problema em guardar segredos.

Nós não nos damos conta disso. Mal temos tempo para assimilar com exatidão o momento em que um ponto é costurado na teia da vida e nos faz seguir por esse caminho. A omissão nasce, às vezes, a mentira. Inevitavelmente, segredos. Enterramos dentro de nós a verdade inimaginável, aquela que não pode ser descoberta e nem sequer pensada. Fingimos não acontecer, criamos justificativas para nós mesmos e argumentamos contra a possível culpa. Eles são necessários. Repetidos tantas vezes que, em um deslize, acabam por se confundir com a realidade.

Perpétua pisou sobre aquele solo há muitos anos, quando as árvores ainda cobriam todo o território e a natureza era a principal inquilina da terra. Mudou-se para lá com sua avó e algumas irmãs Bruxas, fazendo daquela terra sua morada. A magia nasceu do pequeno lugar tocado pelas Bruxas se espalhou por todo o espaço. Das madeiras derrubadas pelo tempo, construíram sua casa. Um lugar simples, que não chamaria a atenção de qualquer um. Naquela época, o homem ainda não tinha capacidade de dominar como hoje. Restringiam-se aos seus próprios espaços, pouco exploravam do mundo. Ali, no meio da floresta, um lar foi construído.

Mas há algo que nasce junto à magia e precisa ser esclarecido: a atração. Talvez não pelo poder, mas pelo o que vem junto a ele. Pouco a pouco, pequenas famílias se amontoaram por ali ao descobrir que aquela terra era fértil, extremamente fértil. Pensaram se aquilo era obra da vegetação, dos rios ou se aquele lugar fora abençoado por mãos divinas. Sem saber, estavam certos. A força da terra provinha do sangue mágico que residia ali. As Mills, como eram chamadas, logo foram descobertas. O povo pobre que mais necessitava não se importava com a verdade daquelas mulheres e, a Deusa sabe, ele era a maioria. Sorriam em gratidão quando, em época de colheita, as Bruxas distribuíam alimentos pela cidade. E, graças aos céus, sempre era época de colheita quando a semente germinava naquela terra. Aos doentes, jamais faltava o remédio feito sob a luz da Lua e abençoado pela magia. Eles eram felizes, todos eram muito felizes. Não existia a vergonha ou o medo, apenas a crença e a gratidão. Admiravam o poder, os Deuses e a Deusa. Agradeciam à Grande Mãe pela comida e pelas noites bem dormidas. Durante os solstícios, dançavam ao redor da fogueira e cantavam aos Deuses. O mundo parecia um lugar bom.

Acontece que, em algum momento, a ambição humana tomou a paz que residia em cada canto do mundo. Fogueiras foram acesas, inocentes foram queimados e milhares de Bruxas foram mortas. Vendaram-se os olhos da justiça, esconderam a compaixão e assassinaram o amor. A terra tornou-se o palco do caos. Perpétua perdeu muitos naquilo que chamaram de inquisição e que se alongou para além do que os livros datam. A dor ainda queimava o seu peito. Quando retornou à Storybrooke, anos depois, ela sabia que aquela pequena cidade era o único lugar em que estaria realmente protegida: uma terra abençoada por suas ancestrais. Uma cidade fundada pela magia. Com Zelena caminhando ao seu lado e Regina em seu colo, adormecendo com o cansaço de um recém-nascido, ela adentrou à floresta e buscou pela casa que fora seu lar durante tantos anos. Toco-a, fez com que crescesse em estrutura. Atenta a cada detalhe, manchou a terra com seu sangue e um laço protetor foi colocado em torno de todo aquele lugar. Cora jamais a encontraria, não importa quão forte e negro fosse o poder empregado.

Naquele mesmo mês, a cidade entrou em uma forte euforia. As colheitas se mostraram mais proveitosas, o solo estava cada vez mais rico e um ar de proteção os rondava. Sem saber, eles eram guardados pelo escudo indestrutível de uma feiticeira.

Quando a visão sobre o corrido dia de Zelena atingiu os olhos da avó, ela decidiu que não iria interferir no destino. Tinha para si a sensação de que já interferira demais, não podia prosseguir com aquele perigoso jogo. Não havia escolha e Perpétua era a maior conhecedora de sua ausência. O destino caminha para nós como bem deseja, abre suas próprias portas, mesmo quando insistimos em tentar fechá-las. Sendo assim, ela se levantou mais cedo naquela manhã e, antes de preparar o café, foi até o jardim. Colheu belos galhos de Artemísia e preparou uma poderosa infusão. Separou com cuidado o que seria necessário e colocou sobre a mesa. O seu dia estava apenas começando, mas ela sabia que ele seria longo demais. O chamado feito por Regina na tarde anterior necessitava de explicações e a sobrinha não calaria até consegui-las. Perpétua já fugira demais, sabia disso. Pagaria o preço pelos caminhos percorridos e há de ser caro.

Há um enorme problema em guardar segredos, porque, veja bem... Às vezes, eles não são tão secretos quanto nós imaginamos.

Zelena cruzou as enormes portas do museu com um simpático sorriso em seus lábios. Não estava tendo dias muito fáceis, mas convenceu a si mesma de que não permitira se abalar por aquilo. Tempos mais difíceis se aproximavam. Cumprimentou seus funcionários, perguntou aos mais conhecidos sobre suas famílias e sobre como estava sendo os seus dias. Certificou-se de tranquilizar aqueles mais preocupados, cujos pensamentos revelavam o que as palavras calavam. Estabilizou energias, regulou áureas, curou dores de cabeça com simples cumprimentos. Decidiu, bravamente, que aquele seria um bom dia.

Quando escolheu trabalhar no museu, o seu maior objetivo era construir o lugar perfeito para que as pessoas não perguntassem demais. Lendas, histórias e artefatos estavam conservados naquele lugar, que deveria ser procurado por qualquer um que resolvesse investir em curiosidades. Expor o maior conjunto de evidências possível protegia a verdade, aquela que jamais deveria ser contada. Além disso, estar ali e receber todas aquelas peças tão antigas impedia que as realmente valiosas fossem levadas para locais perigosos. Foram inúmeras as vezes em que ela encontrou relíquias mágicas pertencentes a clãs antigos e muito poderosos. Conservava-os em segredo, longe de mãos humanas. O mesmo acontecia com a irmã, que constantemente encontrava livros com fragmentos históricos perigosos demais. Tudo isso era guardado, o plano era mantido e a verdade era segredada.

A ruiva estava recebendo um enorme carregamento de pinturas rupestres quando a mulher cruzou, às pressas, o longo salão central. Ela segurou as mãos da Bruxa e a puxou para o canto mais reservado. Não havia tempo. A urgência clara em seu rosto fez com que Zelena expandisse sua mente, mas tudo o que encontrou foi o vazio. Naquele momento, o primeiro choque lhe tocou: os pensamentos daquela senhora eram fechados.

— Granny! — bradou após ser arrastada até as salas dos fundos.

— Eu preciso que me ajude. — a respiração descompassada fez com que a ruiva tivesse o impulso de salvá-la do que fosse preciso. — Uma menina... Eu estou ajudando uma menina. Ela engravidou cedo e é muito nova. O parto se complicou, eu preciso de ajuda. — repetiu o pedido, dessa vez, com mais clareza.

— Claro, claro! O meu carro está ali, nós podemos levá-la ao hospital e...

— Zelena Mills. — o nome dito em tom calmo fez com que os olhos de Zelena se arregalassem brevemente pelo esclarecimento. Antes que a frase fosse concluída, ela sabia ao que Granny se referia. — Ela precisa de magia. Precisa de uma Bruxa.

Apenas por um segundo aquilo lhe pareceu um empecilho, mas o coração de Zelena era puro demais para colocar suas próprias preocupações à frente da necessidade que lhe era apresentada. Correu até sua bolsa, encontrando a Artemísia deixada pela avó, que deveria ser entregue a uma das mulheres da cidade. Naquele momento, existia um destino para ela, um que não poderia aguardar. Segurou a mão de Granny como se tivesse medo de perdê-la para o vento e, juntas, correram pela cidade. Ao chegar à pensão, as duas mulheres foram direto para o sótão. Em uma pequena cama improvisada, uma jovem menina suava e tremia em sua própria dor. Aquilo seria difícil, muito difícil, mas Zelena poderia ajudar e o faria, negando-se a pensar nas consequências daquela escolha. O seu segredo, o segredo de toda a sua família, estava sendo posto a prova, mas uma menina sangrava em lençóis brancos e duas vidas poderiam ser comprometidas pelo medo. Na verdade, não havia escolha a ser feita.

Sem que precisasse pedir, Granny se aproximou com água e algumas toalhas. A Bruxa imergiu sua mão no líquido gelado e, na fração de um segundo, fez com que se aquecesse. Prendeu seus cachos acobreados em um coque feito com a rapidez de quem não tinha tempo e pouco se importava com a aparência. Aproximou-se da menina cujo rosto era o abrigo do pânico.

— Olá, meu bem. — pousou sua mão sobre a testa pálida, vendo em si todo o pavor que era sentido. Seu corpo foi tomado pela dor que não era sua. Não importava. — Eu vou cuidar de você. Permita que eu o faça? — a menina assentiu freneticamente, como se ansiasse pelo alívio que um copo d’água dá à boca ressecada.

A Bruxa arrastou suas mãos até a barriga, rasgando a fina camisola branca vestida. Os longos dedos brancos tocaram a pele repuxada pelo volume que carregava no ventre. Efetuando o inacreditável, Zelena ligou-se, também, à mente da criança. Naquele instante, ela sentiu o vazio de quem não sabia o que aguardar do mundo. Não havia nada, exceto o contrário do que existia ao seu externo. Dentro daquela límpida mente, residia a paz inalcançável para qualquer outro ser. Sua mão dançou em movimentos que tocaram o que estava dentro. O cordão umbilical prendia-se ao pescoço da criança, fazendo de sua fonte de vida a forca de sua morte. Mas os sussurros de Zelena invocaram a magia, a voz da Bruxa tomou o espaço e manipulou o tempo. Quando seus olhos tornaram-se brancos, o laço inesperado abriu passagem para a luz. Dando forças à mãe, o impulso dado deu passagem ao nascimento.

Venha em paz. — suas mãos serviram de berço para o pequeno bebê que, sem nem ao menos imaginar, era acolhido nos braços da Deusa. Ele estava bem. Dando ao mundo o canto da vida, chorou.

No entanto, a luta travada pela mãe durante aquele longo período revelava os danos outrora ocultados pelo medo. Enquanto Zelena retirava a criança, o sangue se espalhava como névoa que toma a noite. Tocou a mulher, mais uma vez. Tomou um pouco de sua dor, amenizando a dificuldade daquilo. Sentiu seu útero revirar-se, sentiu sua própria pele ser preenchida pelo suor. Uma Bruxa estava ali, tudo ficaria bem. Sem pronunciar sequer uma palavra, ela permitiu que sua magia expandisse e reparasse o que precisava ser reparado. Os olhos da jovem menina se arregalaram quando o clarão nascido das mãos de Zelena transcenderam seu ser. Ela brilhava como a mais bela de todas as luzes. Naquele momento, não era mais mulher, ou sequer era uma Bruxa. Era o receptáculo que conservava em si a essência, o poder e a divindade. A Deusa.

— Descanse, menina. — tocou, pela última vez, a pele que aos poucos ganhava cor. — Que a Grande Mãe a tome em seus braços e a proteja. Você tem um filho agora e ele será seu, sempre seu. Uma extensão de sua vida. Garantirei que mal algum o toque, nem mesmo a você. Agora, descanse. Permita que o medo vá embora, abra passagem para a paz.

Seu tão bem passado vestido estava amarrotado e sujo. Ela nem ao menos se dera conta disso. Levantou-se, aproximando-se da senhora que embalava a criança. Tomou-a em seus braços, encarando os belos olhos claros de quem contemplava o mundo pela primeira vez. No desconhecido, suas mentes se reconheceram. Desejou que todo o mal fosse afastado daquele pequeno ser tão cheio de promessas, que seu destino fosse guiado e protegido pela Deusa, que não lhe faltasse, jamais, a esperança. Puxou de seu coque já quase desfeito um único fio de cabelo que, ao ser tocado, transformou-se em uma fina corrente de ouro avermelhado. Pertencia à criança, somente à criança. Jamais seria vendida ou perdida. Sempre voltaria às mãos de seu dono. Residia ali um fragmento de magia. Lavou a pele fina com a água morna, limpando-lhe o rosto. A criança não chorava, ou resistia de qualquer forma. Conhecia pouco do mundo, mas conhecia muito da verdade e da inocência.

— Está aqui. — Zelena entregou-lhe já adormecido ao colo de Granny, que observava em silêncio.

A ruiva buscou em sua bolsa o frasco com a infusão de Artemísia. Aproximou-se da mulher, que permanecia entregue a um profundo sono. Espalhou por toda a extensão de sua barriga, sussurrando pequenos feitiços de cura.

— Eu vou deixar com você. — ofereceu o frasco à Granny, limpando suas mãos em uma das toalhas brancas. — Há o bastante para auxiliá-la na recuperação. Não sentirá dor, não há mais nada que cause isso, mas seu corpo ainda está cansado e precisa de cuidados. A Artemísia irá ajudar com tudo aquilo que envolver o útero, mas não deixe que beba chás, pois isso poderá prejudicar a amamentação. Trabalhe apenas com infusões, ou com a folha. Ela também terá leite o bastante para alimentar a criança, certifiquei-me disso. Trarei hoje mesmo alguns galhos de açafrão para intensificarem os feitiços de cura. Talvez algumas bromélias, também. — suspirou. Seu rosto começava a expor traços de cansaço pelo esforço feito.

— Fique tranquila. Irei certificar-me de que ela não se lembre bem do que aconteceu. — Granny tranquilizou-a. Passado o estado de urgência, as preocupações retornavam ao seu posto.

— E você? — o questionamento sincero fez com que Granny desejasse sorrir. Zelena estava tão envolvida à sua história e mal se dava conta disso.

— Zelena, Ruby nunca foi adotada. Ela é minha neta de sangue. — a revelação fez com que a ruiva arregalasse os olhos.

— Você sempre soube. — concluiu. — Ruby foi embora para encontrar sua alcateia, mas a deixou aqui. Por quê? — a ruiva cruzou seus braços, só então sentindo o melado do sangue que ainda se espalhava por seu corpo.

— É uma longa história e eu não sei até onde posso revelar aquilo que lhe foi escondido. — Granny deixou que o bebê repousasse em um delicado berço que parecia tão antigo quanto a própria casa. — A magia me foi tomada há muito tempo, mas a de Ruby permaneceu conservada pelo sangue. Sim, eu sempre soube. Sei de muitas coisas, mas não cabe a mim lhe dizer. Saiba que seu segredo está a salvo aqui. — o ombro de Zelena foi afagado por instante.

— Como sabia que eu iria te ajudar? — buscou brincar com seus próprios receios. — Eu poderia simplesmente te chamar de louca e pedir aos seguranças que te tirassem de lá. — uma gargalhada foi dada pela senhora, fazendo com que a mulher também sorrisse.

— Você tem um bom coração, menina. Sempre teve. Lembro-me de te ver correndo pela floresta, tão rápido quanto o vento. Seus cabelos brilhavam e você sorria. Há uma pureza muito bela em você. — outra toalha lhe foi oferecida, conservando o singelo momento por alguns instantes. — Venha! Preciso te oferecer um chá depois de tudo isso.

Enquanto caminhava de volta à pensão, Zelena enfrentava um turbilhão de pensamentos que nem mesmo sua notável clareza em administrá-los conseguia sobrepor ao caos. Dentre todos eles, o incômodo maior era imaginar se a avó sabia sobre o conhecimento de Granny. Inevitavelmente, questionava-se sobre quais eram os outros segredos escondidos por Perpétua. Caminhava às cegas sempre que lhe era dito para fazê-lo, confiava sem questionar, acreditava quando necessário, mas algo mudara há alguns anos. Trincou-se a inocência quando segurou o corpo sem vida de sua irmã e encontrou, naquele fatídico momento, as primeiras incoerências na história contada.

— Zelena? — o tom surpreso fez com que a ruiva fechasse os olhos enquanto virava seu corpo em câmera lenta. Preocupou-se tanto em ajudar a pobre menina que se esqueceu de quem também morava naquela pensão, da pessoa que deveria esconder qualquer traço de diferença, qualquer fragmento de magia.

— Emma! — sorriu, fingindo uma simpatia que não lhe era verdadeira naquele momento. — Olha só! Eu não imaginava encontrá-la por aqui. Claro que eu a abraçaria se pudesse, mas imagino que não queria ficar tão imunda quanto eu. — indicou sua própria roupa. Mentiras, mais mentiras. — Tivemos um acidente com tinta óleo no museu. Felizmente, Granny estava passando por lá e me propôs vir até aqui para tentar melhorar um pouco a situação. Está ai um dos maiores problemas em morar no meio da floresta e trabalhar na cidade. Se acha que está ruim agora, precisava ver há alguns minutos. Eu estava exatamente como Carrie, A Estranha. — bombardeou-a de informações ao ponto da loira precisar piscar algumas vezes enquanto assimilava tudo o que era dito. Deixara-a tão confusa que certamente não teria de lidar com mais perguntas. Ao menos, era o que esperava.

— Bem, eu... — o olhar de Emma era confuso, mas ela parecia buscar uma brecha. Por fim, suspirou. — Céus, você está péssima mesmo. Ao menos essa tinta não tem o cheiro tão forte, geralmente elas são insuportáveis. Acho que vestimos números próximos, eu posso te emprestar alguma roupa se não quiser correr o risco de sujar seu carro.

— Seria ótimo, meu bem. — sorriu, desta vez, em alívio.

— Bom, tudo está resolvido! — Granny manifestou-se, metendo-se entre as duas mulheres. — Querida, vá até o banheiro e se lave, tome um banho se quiser já que terá roupas limpas para vestir.

— Você quer que eu vá até a biblioteca avisar Regina ou algo assim? — a pergunta feita por Emma carregava enormes dubiedades e Zelena, que tentava não ter que lidar com outros pensamentos além dos seus, pode facilmente notá-las.

— Não, não. Veja só, não foi nada demais, imagine. Regina acaba se preocupando muito com as coisas e eu não quero causar nenhum desconforto. — deu de ombros. — Exceto se você realmente quer ir até lá e está precisando de uma desculpa para fazê-lo. Nesse caso, não me importo de ser usada, mas tente minimizar bastante as coisas quando for contar. — o olhar claro ganhou uma dose de malícia antes que ela se permitisse gargalhar. — Vá logo, Emma. Nós não precisamos tornar isso mais delicado do que já é. Além do mais, tenho para mim que seu rosto irá explodir se ficar um pouquinho mais ruborizado.

Fechou a porta, aproveitando-se da timidez de Emma para encontrar uma fuga. Não queria prolongar o assunto, falar sobre como o suposto acidente com tinta acontecera ou qualquer coisa próxima disso. Zelena odiava mentir, para quem quer que fosse. Ironicamente, vivia rodeada por segredos que deveria respeitar e proteger. Carregava consigo uma linhagem poderosa, cuja história fora brutalmente banhada em sangue.

No centro da floresta, protegida pelas grandes árvores e pela força da natureza, a mansão Mills mantinha-se imponente. Dentro dela, Cassandra servia-se de mais uma xícara de café, já tendo perdido as contas de quantas consumira naquele mesmo dia. Estava exausta, extremamente exausta. O seu corpo protestava a cada movimento feito, sua cabeça pesava pelas noites de insônia, os seus olhos revelavam as olheiras que nem mesmo o mais completo feitiço para boa aparência poderia esconder. Ela precisava descansar, mas não se permitia fazê-lo. Não ali, não onde as consequências poderiam gerar preocupações demais. Sendo assim, deixou que o líquido quente descesse por sua garganta, pedindo à Deusa que lhe desse forças para aguentar por mais algum tempo. Sabia que, em algum momento, não suportaria levar aquilo adiante, mas já passara por coisas piores, muito piores. De todas as torturas as quais foi submetida, aquela não parecia tão dolorosa.

Quando a mãe se aproximou, tomando a xícara de sua mão e salpicando pequenos grãos junto ao café, ela mal pode protestar.

— Isso vai ajudar com o sono. Há muitos anos, quando os castelos ainda existiam e a monarquia predominava, muitas servas usavam desse pó para conseguirem dar conta do trabalho pesado. Os castigos eram tortuosos demais para que riscos fossem corridos. — devolveu-lhe a caneca, afagando sua mão por um instante.

— Certo. — concordou, colocando-se de costas, mas sabia que algo mais viria. Sua mãe nunca fora muito boa em fantasiar intenções.

— Cassandra, eu preciso lhe fazer uma pergunta. — afastou uma das cadeiras, acomodando-se ali. — Nós não começamos muito bem, acredito que nem sequer começamos algo, apenas intensificamos os erros já cometidos. Uma de nós precisa abaixar a guarda, uma de nós precisa tentar. Não irei pedir que perdoe-me por todos os erros que cometi com você, minha filha, mas precisamos nos unir para o dia que está se aproximando. Eu quero que fique aqui. Independente do quão complicada possa vir a ser nossa convivência, não suportaria vê-la partir mais uma vez por um caminho desconhecido. — a mais velha encarou suas próprias mãos, engolindo seu orgulho. Cassandra continuava de costas, não poderia demonstrar a fraqueza que lhe tomava o peito. Secou a lágrima que escorria por seu rosto, respirando fundo. — Eu preciso saber se você está com ela.

— Está aqui. — virou-se, retirando o cordão que levava em seu pescoço. Nele, como um pingente, uma pena negra mantinha-se reluzente. — Cora não pode me encontrar, não mais. Eu jamais viria até aqui se ela ainda o tivesse, mamãe. Pode pensar o que quiser de mim, faça suposições sobre o que eu sou ou o que me tornei, mas naquela noite, três décadas atrás, eu prometi proteger Zelena e Regina. Eu prometi proteger você! Enquanto foi embora, eu caminhei em direção à Cora e contive sua fúria, deixei que ela me levasse à linha tênue entre a vida e a morte para que você tivesse tempo de partir. — a caneca foi esquecida e Cassandra, em um gesto único, arrancou sua blusa, fazendo com que botões pulassem pelo chão de madeira. — Está vendo? — sorriu, enquanto lágrimas desciam livres por seus olhos. — Eu jamais colocaria minhas meninas em risco, porque sei o preço que se paga quando Cora está por perto, quando ela não consegue aquilo o que quer. — abrindo seus braços, ela permitiu que Perpétua enxergasse as marcas espalhadas por seu corpo. Cicatrizes lhe marcavam, desenhando traços de dor por toda a sua pele. Virou-se de costas e ali, junto aos riscos negros de sua tatuagem, rasgos brancos ainda eram vistos.

— Cassandra... — o chamado saiu baixo pelos lábios da mais velha. Um sussurro, apenas. O nome verbalizado carregava o pesar de um pedido por perdão. Colocou-se de pé, a poucos centímetros de sua cria.

— Não me toque. Por favor, não me toque. — o suspiro pesado embalou a dor não contada. Ela se abaixou, recuperando a blusa já tão castigada. — Cora fez muito mais do que isso, mamãe. Ela fez muito mais, ela cruzou todos os limites possíveis. Você não imagina... — sorriu, negando com a cabeça. O pranto que a tomou fez com que seus ombros tremessem. A fragilidade destruía sua força, sua petulância em negar. Lá fora, nuvens negras tomavam o céu claro.

Perpétua nada disse, nem mesmo buscou por argumentos. Ignorando o pedido feito, acolheu a filha em seus braços e levou-a até o grande sofá. Como fazia quando ela era apenas uma menina, soltou seus longos cabelos negros e pôs a penteá-los com os dedos. Deixou que Cassandra chorasse, deixou que suas lágrimas escorressem e levassem embora o sofrimento contido. Não era o momento certo para conversas ou discussões, era a hora do silêncio e a Bruxa permitiu que ele entrasse e fizesse o seu trabalho. Cantarolando uma antiga música que lhe foi ensinada quando menina, ela retirou o peso das responsabilidades, o medo e a resistência. Sem se dar conta, enquanto os soluços ainda vibravam em seu corpo frágil, os olhos de Cassandra se fecharam.

Adormeceu, enquanto a voz de sua mãe criava fortes barreiras entorno de sua mente, impedindo que qualquer mal a atingisse. No entanto, Perpétua pouco conhecia do grande pavor existente no coração de sua filha. Enquanto o sono curava suas feridas, ela vislumbrou os cabelos loiros e o sorriso da mulher que amava. Linda. Tão singela em cada detalhe, tão preciosa em seus pequenos gestos. Recordou-se de como parecia perfeito ser enlaçada por seus braços e ser contemplada por seus olhos. Ela quase se permitiu sorrir, mas não poderia. Como um veneno paralisando as entranhas, a névoa negra que se aproximou trazia consigo a gargalhada de Cora. Trazia em seu interior o olhar odioso, as promessas de morte e a impudência de quem não sofria por destruir. Antes que Perpétua pudesse prever o ocorrido, o corpo da filha se virou em seus braços, caindo ao chão. Contorcendo-se em uma dor única, Cassandra queimava. Os seus olhos foram tomados pela negritude e ela libertou o mais ensurdecedor dos gritos. O céu espelhou seu sofrimento, junto a ela, a natureza chorou a mais forte das tempestades. Suas unhas marcavam o piso de madeira, enquanto lutava contra um adversário invisível. Revirava-se, enquanto lábios trêmulos balbuciavam pedidos de socorro.

A mãe a segurou, virando o rosto para si. Diante de tamanho desespero, recorreu ao mais forte e mais perigoso dos feitiços de banimento, implorando às divindades que fosse o bastante.

Eu recorro ao bem para que se dissipe o mal. Eu ofereço à luz para que se corrompam as trevas. Entre céu e terra, que a força se alimente do meu sangue. — rasgando um pequeno corte em seu dedo, ela tocou à testa de Cassandra.

Quando os olhos se abriram, ainda perturbados, já não havia mais pavor. A respiração descompassada aos poucos buscou por controle. Os braços de Perpétua prendiam firmemente o corpo da filha, como se temesse perdê-la a qualquer instante. A mulher, sempre tão forte, encolhia-se em busca de conforto. Quem a visse agora pensaria ser o mais frágil dos seres e não uma das mais fortes guerreiras. Permitiu-se a fraqueza, permitiu-se o medo e a incerteza. Deixou que o embalo carinhoso do colo materno lhe desse segurança. Quando voltou a adormecer, já não mais existiam chances de que pesadelos a tomassem. Ainda assim, sua mente dançava com as ameaças ouvidas há poucos instantes, ditas por aquela voz que lhe era tão conhecida.

Eu lhe encontrarei, eu sempre estarei olhando por ti. Derrubou-me uma vez e fugiu de mim em outra, mas nós nos encontraremos de novo, minha Cassandra. Eu selarei a sua morte, doce irmãzinha.

Cora.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Estarei disponível para responder às dúvidas, ou qualquer outra coisa. Encontro vocês nos comentários, ou no twitter: @aloritsor Beijos da titia.