Torre de Névoa
19 Tempestade
Notas iniciais
Não há sequer um único som na natureza que não seja fruto da magia. Desde o farfalhar das folhas secas até o sopro do vento que canta entre o tronco das árvores. Não há uma gota de chuva que não conserve poder ou raiz de planta que não carregue a intensa força da vida. Diziam os antigos que no raiar da manhã, quando os primeiros sinais de sol cortavam o denso dossel e formavam feixes luminosos, podia-se ouvir o sussurrar da Deusa, ordenando que seu Mundo despertasse para o novo ciclo. Contudo, a mesma floresta que irradiava clareza durante o dia, era negra durante a noite. Um fino galho facilmente identificado à luz poderia assustar um desavisado com o som de seu partir seco.
Por isso, todo homem deveria temer uma floresta escura.
Era durante a noite que a floresta se tornava negra e os animais noturnos saíam de seus abrigos. Corujas entoavam seu canto melancólico e morcegos voavam por entre as folhas. Cobras rastejavam pelas raízes com suas línguas ligeiras absorvendo o ambiente ao redor e o veneno correndo por seu sangue gelado. Do outro lado do véu que separava Os Mundos, fadas negras espreitavam pela curva de um arbusto e salamandras atravessavam a escuridão, provocando em qualquer leigo a impressão de que vira algo passar depressa. Nenhuma coincidência é simples coincidência. Na verdade, pouquíssimas coincidências existem quando a realidade é compreendida em sua completude. E até mesmo essas, quando analisadas de perto, podem ser explicadas.
Coincidências não existem.
Seria, honestamente, de errônea ignorância imaginar a existência real de acontecimentos deixados à sorte quando a vida é ministrada por princípios de causalidades. As vezes, no entanto, a causa de um fato não está bem abaixo do nariz de quem procura a justificativa. As vezes, ele está um pouco mais escondido e não é enxergado por ausência de esforço sólido no procurar. As vezes, acaba sendo verdadeiramente difícil de ser identificado, até mesmo para os mais atentos olhos descrentes.
Por vezes, sua causa mora na fissura entre as existências e apenas é enxergada por aquele que vê além do que é normalmente visto ou vislumbrado.
Cegos não deveriam, jamais, entrar em uma floresta negra.
Nela, mais do que em qualquer outro lugar, as existências de todas as realidades vibravam pela singela liberdade de existir. A noite era sempre o palco da magia oculta até mesmo para o dia. De fato, fala-se muito sobre a energia do Sol e seus poderes indiscutíveis, mas uma noite de Lua Crescente carregava consigo o Sagrado pretendido por qualquer filha do Poder. Numa noite de Lua Crescente, as Ninfas dançam no meio das árvores e suas gargalhadas podiam ser ouvidas de longe, mas seriam dadas como simples barulhos da mata. As sílfides corriam pelo ar e fugiam vez ou outra para sussurrar poesia ao ouvido de humanos que jurariam ser aquela ideia inesperada o fruto de suas criatividades outrora adormecidas. As brumas se espalhavam por entre os galhos e folhas, ganhando a beira de um lago calmo e sendo o portal para outros centros de poder. Animais selvagens espreitavam silenciosos, prontos para a caçada de uma presa farta. A floresta vibrava, sempre viva.
E dentro dela, o homem não dominava. Ele era um invasor.
Contudo, existia, dentro dessa floresta negra, algo a ser ainda mais temido por qualquer desventurado dito corajoso. Algo que as Ninfas observavam em cumplicidade, as sílfides respondiam em risos baixos de simpatia, as brumas se abriam para permitir passagem e os animais se curvavam em reverência solene.
Uma Bruxa jamais temia a floresta negra.
Elas andavam descalças sobre a terra úmida, a grama rasteira e os musgos jovens. Seus dedos tocavam troncos antigos provocando uma corrente de energia poderosa, fruto do reconhecimento entre duas magias de igual origem, pois ambas eram filhas da mesma Grande Mãe. Todo sussurro dado pela natureza era, sem dúvidas, o canto de uma Bruxa entoando feitiços antigos e novos, nascidos e renascidos.
Não importava se pisava ao solo de um lado do mundo ou outro. Quando tocava-a ― e sempre a tocava ― tudo se tornava um. Sua energia cruzava cada grão de terra, gotícula de água e partícula de vento. E de repente, a noite se tornava ainda mais escura.
Uma Bruxa sempre será o ser mais temível em uma floresta negra.
Como de costume, Regina abandonou seus saltos e permitiu que seus pés tocassem às folhas gélidas que cobriam a trilha. A confusão em sua mente, pedia pela firmeza da terra. O calor, resistente em abandonar seu corpo, clamava pela brisa fria. Acostumada a andar pela mata escura, a Bruxa buscava pelo seu acolhimento. Na floresta negra, encontrava o colo do silêncio, do conformo e da magia.
As palavras confessadas à velha Granny ecoavam em sua mente como maldições sussurradas. O que faria, afinal? Qual seria o seu próximo passo? Ao verbalizar, revelara para si mesma a verdade, agora, indubitável. Entretanto, dizer que desconhecia por completo a plenitude dos sentimentos que nutria pela àquela mulher era, dentre muitas coisas, de enorme desonestidade. Sabia, há muito, que Emma Swan não seria apenas mais um caso.
A mais nova Mills carregava uma bela lista de corações partidos em suas costas. Não se orgulhava, mas, também, não se importava. Via no sexo uma conexão essencial e prazerosa, múltipla e mutável. Tão mutável que jamais poderia se comprometer ao ponto de limitá-la. Fosse o que fosse, seus amores eram sempre sinceros. Assim como eram passageiros. Entregava-se de corpo e alma à sensação. Vivia com maestria cada desdobrar do momento. Deveria considerá-los como errados apenas por serem breves? Trocava sorrisos, beijos, toques, abraços e todos eram, verdadeiramente, apreciados. Na mesma medida em que eram esquecidos.
Bom, ao menos por Regina.
Portanto, era certo dizer que a mais nova Mills também carregava uma bela lista de ansiosos amores em suas costas. Todos eles aguardando desesperadamente por uma nova chance de prová-la e serem provados. Perdidos. Estar com uma Bruxa no ápice da intimidade física-humana cruzava barreiras inimagináveis. Cada toque trocado jamais seria apenas um encontro de peles. Jamais. Quando o corpo gozava em deleite máximo, a alma suspirava em júbilo, corrompida pela mais intensa onda de prazer. E frente ao ato, os instantes preciosos que decorriam em lentidão sublime, eram elevados a mais divina obra. Cobertos pelo entusiasmo, embebedados pela luxúria. Não surpreendia, portanto, que fossem inesquecíveis para quem o vivia.
Entre o povo antigo, um ditado muito conhecido era sussurrado como verdade segredada:
“Sortudo seria o sujeito que brigasse cem vezes com o diabo se a ele fosse garantido jamais se apaixonar por uma Bruxa.”
Tão imortal quanto o tempo era a realidade de cada palavra que o compunha. Apaixonar-se por uma Bruxa seria, sem dúvidas, a maior aventura de uma vida.
Seria, em igual medida, sua ruína.
Mas o que sobraria à verdade e aos segredos quando, por ironia cruel, uma Bruxa se apaixona?
Regina inspirou fundo, permitindo que o ar gélido da noite a preenchesse. Esqueceu-se da saia de grife, da blusa de seda e do cabelo tão bem alinhado. Deixou que o corpo ainda quente ― herdeiro do calor da outra mulher ― pesasse às folhas úmidas. Lembrava-se claramente de quando a desejou pela primeira vez. Lembrava-se, inclusive, da saliva quente descendo por sua garganta, engolida à seco frente ao desejo de tê-la para si.
Lembrava-se de correr os olhos pela pele clara pintada por sinais perfeitos, tão bela quanto a mais trabalhosa obra de Bernini.
Lembrava-se de retornar ― uma vez e outras mais ― para admirá-la com mais calma, sendo a fome de decorá-la uma inimiga cruel do deleite calmo.
Lembrava-se de criar em sua mente uma previsão certeira de quando os lábios, línguas, braços e pernas se encontrariam em comunhão sagrada, escravos do mais vulgar desejo.
Lembrava-se de perceber, não há pouco tempo, que sua vontade nem de longe era escrava do corpo. Sabia, tão certo quanto o nascer do sol, que sua alma também a aguardava.
E contudo, surpreendera-se ao constatar que pela primeira vez ao longo da existência, corpo e alma se enlaçavam pelo desejo arrebatador, ansiando por ela.
Sorriu.
Os olhos castanhos encaravam a noite estrelada, mas nem de longe a enxergavam. Estavam longe dali, abrigados, ainda, pelas memórias passadas. Enxergavam cabelos loiros, olhos verdes e lábios rosados. Seguiam os movimentos das mãos claras e delicadas, do tencionar da clavícula ao primeiro toque, do riso escondido ao canto da boca.
A boca.
Céus, como a desejava.
A Deusa seria testemunha de seu delírio insano se não a tivesse logo.
O corpo concordou, queimando pela vontade conhecida. A alma, no mesmo instante, remexeu-se. Levou ao coração um aperto contido e ao estômago as borboletas curiosas.
Deixou que as pálpebras se fechassem, a fim de trazer à mente a tela de suas lembranças frescas. Nenhuma lagoa terna existente naquela floresta extensa poderia ser comparada a calmaria oferecida por Emma. Sua superfície era límpida e resplandecente. Persuasiva. Suas margens belas chamavam e chamavam, atraindo ao mergulho libertador. Sua água, surpreendentemente, era morna e aconchegante. Um passo e mais outro. Todavia, sua profundidade enganava. Ao primeiro sinal de desatenção, imergia.
E o fundo... Ora, ora. Ele era obscuro. Tão cheio de surpresas, tão repleto de nuances. Ainda assim, terno. Morno e aconchegante.
Estar com Emma nas últimas horas fez com que Regina se sentisse refém da mais insana tempestade. Seu corpo vibrava em desejo, sua alma agarrava-se a ele, concordando. Ambos a queriam, tanto. Regina pensava e repensava cada instante vivido. Já não temia, certamente. O medo, se tivesse um dia existido, estava esquecido. Encoberto pela necessidade. A necessidade, esta sim, não se deixaria sobrepor.
Sabia agora, indiscutivelmente, que a teria.
E seria dela.
Tanto quanto já era.
Tanto quanto poderia ser.
Enquanto os dedos remexiam inconscientes, revivendo o prazer de tocar a pele clara, a Bruxa trazia vida ao seu redor. Os caules finos que nasciam da magia, enrolaram-se em suas pernas e em sua cintura, florescendo em papoulas de vermelho intenso. Tanto quanto seu desejo. As papoulas vermelhas escondiam os segredos de um amor fora do comum, inimaginável. Floresciam, não somente nos caules que viviam ao redor de Regina, mas em toda extensão de terra próxima. Bastou um segundo para que a grama, as árvores e os arbustos estivessem cobertos pelo vermelho vivo.
Da magia, nascia o amor e a beleza. A delicadeza do sentimento, tão puro quanto o florescer.
Mas, no instante seguinte, a fúria.
A lembrança bem-vinda das horas passadas era agridoce. O presente de conhecer mais sobre a vida de Emma trazia consigo o castigo pela verdade. Ainda que Regina se sentisse grata ― e sentia-se ― pela confiança a ela ofertada, a fúria que queimou em seu peito não se importava com formalidades. Assim sendo, lembrar-se de cada dor vivida por aquela mulher a feria profundamente. Imaginar quantas vezes Emma teve sua verdade questionada, rebaixada e desvalidada a fazia ranger os dentes em nervosismo líquido. Tão grande era sua revolta que a simples tentativa de imaginar o rosto do noivo carrasco a enfurecia.
E a fúria de Regina era gloriosa.
Antes que pudesse se dar conta, seus olhos queimaram. O gemido sôfrego que abandonou seus lábios foi a resposta dolorosa às faíscas que se espalhavam pelos caules das papoulas. O vermelho das pétalas fora substituído, agora, pelo avermelhado fogo que queimava as flores. E assim como a beleza se espalhara ao seu redor, a fúria também reivindicou sua vez.
Regina precisou de um segundo a mais para compreender o erro cometido. Levantou-se, exasperada. Sua palma tocou o solo, impedindo que as chamas raivosas engolissem cada centímetro de mata fresca. Absorveu-as, sentindo o peito arder pelo calor. Suspirou, exaurida pela surpresa ingrata. Deixou que a magia corresse por seu corpo, trazendo vida ao que foi queimado.
Mas ainda que cada canto estivesse coberto, novamente, pela vida, as papoulas não tornaram a florescer.
― Regina? ― a voz de Zelena a trouxe ao despertar.
― Pela Deusa, Zelena! ― bufou, permitindo que o corpo tencionado relaxasse mais uma vez. ― Nunca te contaram que é perigoso assustar uma Bruxa?
― O que foi? Vai virar gatinho e fugir? ― o riso calmo não escondia a atenção nas palavras de Zelena. Ela não se esforçava em fingir. O olhar atencioso varreu cada canto e ainda que Regina houvesse escondido as queimadas, uma Bruxa reconhecia o rastro de magia fresca.
Regina, por outro lado, sabia que seu fluxo de pensamentos correra tão veloz quanto um cavalo de guerra. Sabia que sua raiva desatenta ultrapassara qualquer barreira imposta. Sabia que não seria difícil ser ouvida por uma mente atenta.
Sabia que Zelena a escutara.
― Eu não quero falar sobre isso. ― declarou, antes mesmo que a pergunta ansiosa aproveitasse a oportunidade para pular pelos lábios da irmã.
― Posso compreender. ― a ruiva estendeu a mão. ― Vamos. Levante-se rápido e eu fingirei que você não deitou no molhado com esse tecido delicado.
― Eu sempre prefiro me deitar nua. ― levantou-se, batendo contra a saia para se libertar das folhas presas. Eram perceptíveis os estragos deixados pelos caules em brasa, não somente em suas roupas como em sua pele, que carregava vergões avermelhados. Ela os cobriu com a mão por um instante e logo já não estavam mais ali.
― Juro que poderia dizer o quanto isso é deplorável e irritante, mas temo precisar de sua ajuda para uma importante missão. ― as mãos solenes apoiadas ao peito trouxeram uma dose única de seriedade às palavras de Zelena enquanto ela fingia prestar muita atenção a um tronco antigo, permitindo que a irmã oculta-se suas feridas.
Queria perguntar. Queria muito perguntar. Mas, mais do que isso, queria trazer acolhimento a mente de Regina que, há pouco, ouvira gritar em desespero.
― Zelena, você é uma mulher adulta. Compre sua própria bebida e pare de roubar a adega da vovó! ― a morena se lembrou de retornar pelos sapatos, mas logo seguiu ao lado da travessa Bruxa. Concordaram pelo silêncio e, em respeito, acolheram-se.
― Quem rouba é você, eu apenas compartilho do sangue de Cristo. ― as duas pararam por um instante antes que rompessem em gargalhadas larga, preenchendo o silêncio. ― Oh céus, perdoe-me! Eu não aguentei.
― Essa foi pesada até para os seus padrões de blasfêmia cristã. O pior é que vovó ficaria mais irritada de descobrir que você comparou o vinho dela a essa crendice do que pelo roubo. ― levou a mão ao peito em juramento teatral. ― Sou capaz de guardar seu segredo.
― Oh por favor, faça isso por mim, querida irmã. ― uniram as mãos, caminhando por entre as árvores como quando eram apenas duas jovens destemidas, fugitivas pela noite. ― Estou tão aliviada de tudo ter dado certo com o feitiço do lago. Não me entenda mal, confio completamente em seu poder, mas as histórias de desdobramentos que deram errado são inúmeras. ― bufou, ignorando o revirar de olhos da outra.
― Zelena, a respeito disso, acho importante fazermos algumas considerações. ― a morena limpou a garganta, preparando-se para enumerar os recentes acontecimentos. ― Vejamos bem, nós somos Bruxas, vivemos em uma casa escondida no meio de uma floresta e entre Os Mundos, nossa existência é segredada há milênios, ficamos preocupadas com as singelas curiosidades de Emma, pois representavam uma suposta ameaça aos nossos segredos, e vovó passou a vida nos aconselhando sobre o indispensável cuidado ao usar magia perto de humanos. Certo? ― interrompeu os passos, virando-se para encarar o olhar curioso da ruiva.
― Certo, estou acompanhando. Qual seu objetivo com isso?
― Não te causa nenhum estranhamento que em um curtíssimo período de tempo você tenha feito um parto impossível usando magia e, além disso, protegido o bebê com um feitiço que levou o pai desencarnado desse bebê em uma trilha perfeita de seus passos!?
― Bom... ― Zelena fingiu desinteresse, remexendo os pés pelas folhas. ― Não?
― Então, não precisamos mencionar que depois disso tudo, você ainda levou o espírito desse pai para visitar o bebê? ― Regina respirou fundo, empenhando-se em segurar o riso que comichava em sua garganta.
― Regina, por favor. ― a ruiva bradou, erguendo as mãos para interromper a análise de seus recentes feitos. ― É simples, você não está analisando as coisas pela minha perspectiva. ― o riso se desprendeu da garganta de Regina e sua gargalhada ecoou entre as árvores.
― E qual é a sua perspectiva, Zelena Mills? Estou tão ansiosa por ela! Por favor, conte-me.
― A minha perspectiva é a de que eu fiz o que foi preciso, quando foi preciso e, o mais importante, para quem precisava. ― deu de ombros, certa de suas palavras. Seguiu em frente, deixando para trás uma Regina perplexa pela constatação que era, em iguais medidas, simples e absurda.
― Você sabe que está errada, não é? ― a morena adiantou os passos para alcançar a Bruxa.
― Apenas se eu olhar pela sua perspectiva, pela qual não estou interessada. ― as irmãs finalmente cruzaram a marca que dividia a floresta e os pés tocaram o verde gramado da Mansão Mills. ― E além do mais, nós estamos realmente julgando aqui? Eu ajudo pobres humanos indefesos e você beija uma pobre humana indefesa. Quem está correndo mais riscos?
― Então, finalmente a beijou. ― a voz de Cassandra vinda do meio da escuridão, como parte das brumas, fez com que as duas Bruxas parassem em sobressalto.
― Divina Deusa, o que há de errado com vocês e essa mania estúpida em dar sustos? ― Regina bufou. As palavras se atropelaram, exasperadas. Cassandra sorriu, pondo-se entre elas enquanto seus braços as abrigavam em um casulo seguro.
― Regina, você é uma gata, seus instintos de sobrevivência não deveriam te avisar sobre a aproximação de um predador? ― a tia tocou a testa da sobrinha com o indicador, desfazendo a ruga irritadiça que se colocara ali. ― Ou será que uma jovem de longos cabelos loiros e olhos esverdeados a tirou dos trilhos ao ponto de desalinhar seus poderes? Afinal de contas, você finalmente a beijou?
― Sim, Regina, é sobre isso que todos os tabloides Bruxos estão falando! Por favor, dê ao público o que ele quer e não seja uma vadia promíscua. ― Zelena e Cassandra se colocaram a frente de Regina, impedindo que a morena seguisse o caminho até a casa.
Regina ponderou por um instante, avaliando as opções disponíveis. Por um lado, poderia apenas se transmutar e fugir para um canto repleto de paz e silêncio, mas, por outro, ela estava ansiosa para falar sobre as últimas horas ao lado de Emma. Salvo os detalhes que eram particularidades segredadas, dado que jamais trairia a confiança da mulher. Mal podia conter o desejo de falar sobre aquela que dominara boa parte de seus pensamentos.
― Eu não a beijei. ― confessou.
― Pela Tríplice, Regina! Você está quebrada ou o quê!? Foram horas e horas dentro daquele quarto e você retorna para seu público sem um beijo sequer!? Que espécie de sitcom sem qualidade nós estamos vivendo? ― a ruiva saltou por um segundo, sacudindo os ombros da irmã, que se limitou a rir da pirraça.
― Oh Deusa... ― Cassandra arregalou os olhos, a boca formando um perfeito “o” surpreso. ― Você não consegue, não é? Não consegue beijá-la. Ela quebrou seu instinto selvagem.
― É o fim da vagabunda. ― Zelena constatou.
― Eu apenas... ― a fala da morena foi interrompida pelo arrepio que cruzou sua espinha. Ela encarou as Bruxas por um instante, encontrando a compreensão em ambos os olhares.
A fronteira da floresta fora cruzada.
Um homem jamais deveria cruzar a fronteira de uma floresta negra.
Enquanto os sapatos caros marcavam o solo úmido, os pés ágeis de três Bruxas caminhavam sem marca alguma deixar.
Enquanto seu peso trazia o estalar de galhos e seus ombros largos batiam contra as folhas, as Bruxas se aproximavam como sombras silenciosas.
Enquanto ele invadia a mata, elas eram parte de cada árvore.
Edward Bealfire não imaginava o perigo que o rodeava enquanto, ousadamente, desbravava a noite.
***
Pouco antes do ponto alto da madrugada tomar os céus, Perpétua Mills assou sua última leva de biscoitos. Regina não estava em casa, havia sido enviada em uma missão compromissada ao seu coração. A Senhora temia, silenciosamente, estar agindo pelas intuições erradas, mas, sabia, não poderia cobrar de si mesma aquilo que não estava ao alcance de sua visão. Quando olhava para neta ― e a olhava por toda vida ― não enxergava outra coisa senão amor. Intenso e pulsante amor. Regina era a intensidade transcrita em magia antiga e, frente a isso, o que uma velha Bruxa poderia fazer? Quando amava ― amava agora ― não havia outro caminho a seguir. Que a Deusa protegesse seus passos, então.
Zelena saíra há pouco, também. A avó desconfiava de que a neta estivesse, outra vez, lutando com as trancas de sua adega e a possibilidade a alegrou. Renovara o feitiço recentemente e sempre se divertia com as tentativas frustradas da jovem. Perpétua sabia sobre as recentes aventuras de Zelena, mas optou por se calar. Não precisava se esforçar para enxergar que a Bruxa estava em seu limite, sofrendo silenciosamente por tudo o que segredava. Segredos que a própria avó confiou a ela, segredos que poderiam ser sua ruína.
Segredos que, nem de longe, abrigavam toda a verdade.
Ainda que a noite tomasse cada espaço ao seu redor e já não houvesse obrigações a fazer, Perpétua não desejava buscar o silêncio de seu quarto. A solidão que a consumia por vezes era dolorosa. Perguntava-se por onde estaria caso a roda do destino tivesse seguido por outro rumo. Teria retornado à acolhedora Storybrooke? Seu coração alcançaria o acalento da presença de Cassandra?
Teria matado Cora?
A última pergunta ― sendo a mais cruel de todas elas ― ainda ecoava no livro do destino, sendo passado e futuro.
Decidiu-se, por fim, que lamurias antigas não encheriam sua noite. Nem mesmo as lamurias futuras. Estava cansada, essa era a verdade. Cansada do peso de arrependimentos e da culpa, mas eram eles eternos. Assim sendo, outrora seriam sentidos.
O sereno fino salpicou a pele da velha Bruxa ao tempo em que a fraca luz da Crescente lhe banhou a alma. Não havia nada de importante a ser feito, a não ser todas as coisas que eram ― a sua forma ― importantes. Atentou-se que aquela era uma perfeita noite para algumas colheitas necessárias e ― como todas as outras ― perfeita, também, para ser abraçada pela natureza e pela Deusa. Deixou que seu indicador traçasse sigilos sob a testa, revelando a marca da Lua Crescente que há muitos anos fora gravada em sua pele. A marca que, no passado, indicava a importante linhagem e a herança de saberes. A marca que Perpétua precisou esconder para poupar a vida.
E valia a pena a existência que escolhera salvar? Questionava-se.
As netas se enganavam em muito quando pensavam que a Senhora se satisfazia em viver recolhida. O recolhimento era uma necessidade, jamais um deleite. Se pudesse ― e Perpétua clamava à Deusa pelo dia em que poderia ― escolheria caminhar livre pelo véu entre Os Mundos, usar de sua magia livremente e não temer por sua devoção. Se pudesse, como já pôde, jamais esconderia sua origem e sua força.
Chegaria o tempo, Perpétua sabia, em que as Bruxas ascenderiam mais uma vez. Fosse pelo bem ou pelo mal, o tempo das ocultações estava chegando ao fim.
Ela caminhou por longos minutos até encontrar o que desejava. Pediu licença, colhendo uma grande folha que seria usada como cesta para as ervas. No mesmo instante, o leve movimento dos dedos deu origem à vida, fazendo com que outra de igual forma e tamanho surgisse. A velha Bruxa colheu um punhado de Vetiver, atentando-se para que a raiz também fosse arrancada. Antes de posicioná-las em sua cesta, separou a extensão da gramínea, que seria usada para produção de óleos e incensos. A raiz, por sua vez, seria destinada aos chás e medicamentos. A ciência moderna já conhecia os usos da erva para o tratamento de doenças, mas não imaginavam que uma pequena dose poderia servir, também, como porção romântica, trazendo leveza e equilíbrio a um casal desarmonioso.
Mais à frente, Perpétua adicionou alguns galhos de lavanda à sua colheita e, também, cidreira. Sorriu ao se lembrar de que logo Zelena pediria por novas trouxinhas de lavanda, pois a jovem Bruxa temia aranhas como se temesse à Peste. Quando era apenas uma criança assustada, a avó jurou a ela que as trouxinhas de lavanda levariam para longe qualquer aranha, desde as pequeninas até as maiores. E Zelena acreditou. Acreditou tão profundamente que mesmo agora, sendo já uma Bruxa adulta e destemida, agarrava-se ao conforto de uma proteção tão singela.
Bom, a ruiva também fez com que Perpétua jurasse jamais contar à Regina sobre seu medo irracional.
Quando retornou à calma caminhada, bastou um segundo para que a Senhora percebesse a intensa bruma que se espalhava ao redor. Logo, já não era possível nem mesmo vislumbrar o chão da mata, ainda que o sentisse. O leve arrepio que cruzou seu corpo, tocou a magia e, Perpétua sabia, estava cruzando a barreira entre Os Mundos. Não por desejo intencionado, mas por vontade da própria Deusa.
A Bruxa fechou os olhos e continuou, sem vacilar em seus passos. Quando os abriu, as brumas já haviam se dissipado. A floresta ao redor ainda parecia a mesma, o chão sob seus pés em nada havia mudado, as árvores eram idênticas e o vento gélido ainda a tocava a pele. Mas Perpétua não estava em Storybrooke.
A árvore anciã que erguia-se, imponente, era uma velha conhecida. Imaginou que retornaria àquele lugar, mas não tão rapidamente. Séculos a separaram de sua última visita, mas, lá estava. Tomou um segundo do tempo para admirar cada inscrito antigo ali deixado, cada nota do tempo e runa ancestral. O peito bradou em saudade. Uma saudade calorosa e antiga. Mas logo o bom sentimento foi tomado pelo reconhecimento da urgência. Havia um motivo para sua última visita ter tardado tanto em acontecer e era simples: caminhava até lá por vontade própria, desde o início de seu tempo. Agora, pela primeira vez, Perpétua fora levada. Seus caminhos foram mudados, seus passos manipulados e as brumas se levantaram sem que palavras fossem proferidas.
As mãos firmes tocaram à grande árvore. A magia ardia às palmas em reconhecimento tanto quanto ardiam em sua alma. Por isso, os olhos da Bruxa vestiram branco.
― Cailleach Oidhche, mo charaid milis. Thigibh a m'ionnsuidh, a bhana-mhaighstir a 'ghliocais.¹ ― as ondas avermelhadas dançaram pela palma das mãos e penetraram o tronco grosso, brilhando intensamente a cada vibrar de magia.
Perpétua ouviu o bater das asas, mas não afastou as mãos. Por necessidade própria, tardou por um instante, sentindo o poder antigo preencher cada célula de sua existência
― Perpétua Mills, Segunda Descendente de Cailleach, a Terceira Filha da Deusa Tripla. ― ao ouvir o chamado, virou-se para o animal de olhos amarelados que guardavam o conhecimento de tudo. ― Permita-me contemplar seus olhos, Bruxa.
Como de costume e pela lei do tempo, Perpétua piscou, trazendo o cinza de volta às íris. Contemplou a grande coruja que, percebeu, parecia mais brilhante naquela noite. As penas brancas e pretas carregavam um brilho lustroso e vívido. A Lua Crescente trazia vida a cada nuance da existência.
― É um prazer revêlo, Ezag. ― a Senhora reverenciou o animal que, de imediato, espelhou-a de modo cortês. ― Ainda que, devo considerar, em condições diferenciadas. Imagino que saiba o motivo da minha presença neste Mundo. ― percebeu quando os olhos da coruja perderam o foco antes de retornarem ao brilho amarelado.
― Oh sim, sim, querida Bruxa. Temo que a Roda do Destino esteja girando e girando, rápido demais. Chamei-a hoje com o consentimento de nossa Grande Mãe, pois não tardará o dia em que tudo mudará para que nossa existência renasça, uma vez mais. Sabes disso, eu sei. Veja bem, minha Perpétua, o mal se aproxima agora. Perto, muito perto. Seu poder, ainda que ancestral, não será o bastante para aplacar o destino. ― a ave abriu suas asas, erguendo-as ao alto. Em resposta ao movimento, a copa da grande árvore se afastou, revelando o negro céu. ― O receptáculo da maldição, aquela que não deveria ter nascido, morrerá seis vezes mais. Será em sua última morte que a Lua Negra atingirá o topo de Nosso Mundo e a Escuridão Herdeira se libertará. Não há volta, Bruxa. Está escrito e assim será.
― O que está escrito pode ser reescrito, Ezag. Não dite as leis para mim, eu já as vi quebrar por vezes demais. ― a Bruxa inspirou fundo. Suas mãos ardiam em irritação ainda que soubesse, e Perpétua sabia, a ave estava certa. ― Eu farei o que for preciso para salvar Regina, ainda que pague com a minha existência.
― Cuidado com o que deseja, Perpétua, pois certamente lhe será concedido. ― as asas se fecharam e a coruja retornou a sua posição contemplativa. O amarelo curioso se remexia em busca de respostas secretas. ― Não tema a ausência de suas visões, elas retornarão. Quando retornarem, temerá pela presença. O futuro nada mais é do que o esboço do passado e presente. Ele é o que é, mas, ainda assim, não é nada. Aviso-te outra vez, tenha cuidado. Você deve ir agora.
― Que a Deusa o abençoe, Ezag. ― virou-se, mas antes que as brumas retornassem aos seus pés, um último aviso a estagnou.
― Mais uma coisa, criança. ― a voz rouca da coruja veio de longe. Ela já voava para o alto. ― É chegada, também, a hora. Prepare sua primogênita. Cassandra deverá reconhecer sua herança.
***
Edward Bealfire pensou que a noite seria de melhor momento para colocar em prática seu plano segredado. Há anos, a ambiciosa família lutava para obter o domínio das terras a beira do poderoso rio de Storybrooke. Edward via a si mesmo como um inteligente homem que ― ele tinha certeza ― finalmente levaria o nome Bealfire para além dos limites daquela promíscua cidade. Além disso, não era estúpido. Ouvia, desde muito pequeno, sobre as histórias antigas. Histórias que seus ancestrais passaram a diante, exigindo juramentos para que não fossem esquecidas. Sabia sobre as bruxas. E julgava de uma enorme tolice. Honestamente, pensava, quem em pleno século XXI teria medo de frear o crescimento econômico por medo do que era nada mais do que mítico?
Não, jamais alimentaria tamanha ingenuidade. E que seus ancestrais levassem as idiotas histórias para além túmulo. Aos olhos de Edward ― especialista em criar desculpas incríveis ― aquilo nada mais era do que um meio da família Mills manter o domínio. Houve um tempo em que os Bealfire dominavam a economia de Storybrooke. O povo nada mais era do que servente e, a esse tempo, devia toda riqueza acumulada ao longo de anos e anos. Do que dependesse a ele, a história seria revista e os tempos áureos retornariam. Tão logo quanto a chegada de uma nova brisa.
Precisava, no entanto, de uma amostra da água que ― ao seu ver ― carregava pilhas de ouro em cada gota. Não poderia passar pelo povoado à beira. Edward era o prefeito de Storybrooke, mas sua aprovação estava longe de ser algo considerável. Então, optou pela floresta, destemido dos avisos dados.
O descrente homem pisou ao solo da floresta negra.
Em seu centro, já cientes da presença invasora, três Bruxas caminhavam silenciosamente, sendo parte de cada pedaço de terra. Cassandra sabia que a mãe não estava por ali, pois seria ela a primeira a anunciar a presença do homem. Felizmente, não se importou com isso. Estava certa de que poderiam resolver a questão e de que seria, com certeza, muito divertido.
Regina, Zelena e Cassandra aproximaram-se da clareira conhecida, cuidando para que seus passos não cruzassem a barreira da magia. Aquela clareira, sabiam, era tão perigosa quanto se podia imaginar. Naquele espaço, a magia não funcionava como de costume. Ali, bem à frente de seus olhos, um massacre fora promovido e o chão amaldiçoado guardava a amargura. Nem mesmo uma erva daninha cobria a terra seca, repleta de rachaduras.
Enquanto Edward caminhava pelo solo estranho ― ao qual não deu atenção ―, elas esperaram. Pacientemente, observaram quando o homem vacilou nos passos e, Graças a Deusa, contornou o que as limitava.
― Quem fará as honras? ― Cassandra questionou, tendo como resposta o olhar ansioso das sobrinhas.
― Sabe, Regina... ― a ruiva remexeu os dedos, articulando em seus pensamentos ― Titia com certeza ainda não sabe sobre seus dons especiais para cantigas e eu estou com tanta saudade.
― Será uma honra. ― a mais jovem Bruxa sorriu, prazerosa. A ardência do poder queimava em suas palmas, ainda conservando uma dose das faíscas obtidas há pouco.
Regina tomou uma distância segura da borda das árvores, mas podia enxergar com clareza o homem a sua frente. Não que precisasse vê-lo. Antes que os ponteiros do relógio pudessem se mover para marcar a passagem de um segundo, os olhos da Bruxa foram do castanho para o amarelo e, então, o branco total. Ela se abaixou, tocando o solo e dele puxando uma faísca avermelhada que a ligou à terra. As mãos talentosas dançaram, como se coordenassem fantoches. O olhar perdido em algum ponto enxergava muito além do que podia ser visto. A floresta acordou, invocada pelo poder da Bruxa.
― O homem malvado à floresta entrou, entrou. Suas pegadas cruéis ao chão marcou, marcou. ― os dedos se moveram em dois e a luz bruxuleante imitou passos.
À beira do rio, Edward sentiu os pés vacilantes e sem firmeza.
― Foi quando ao seu lado um rugido irritado chamou sua atenção ― um riso dançou nos lábios de Regina antes que emitisse um rugido feroz, mas baixo, que imediatamente foi respondido do outro lado da mata pelo animal convocado ao feitiço. ― Olhou, amedrontado, agora emboscado por um feroz leopardo.
Enquanto a cantiga dançava fluente pelos lábios da Bruxa, Edward tremia em medo irracional. Entrara à floresta tão decidido sobre seu feito, mas, agora temia, Temia tanto que não se lembrava de já ter sentido algo tão ilógico e gritante. Ao ouvir o rugido feroz, a força deixou às pernas e ele caiu de joelhos. Não acreditou quando, ao olhar à direita, as presas pontudas de um leopardo brilharam, tão afiadas quanto um canivete suíço. Arrastou-se pelo chão, apavorado. Os joelhos fracos pareciam desconhecer a própria função.
― O homem malvado, agora com medo, correu, correu. Seus pés assustados no lago afundaram, tão fundo, tão fundo... ― Regina moveu as mãos com tamanho ímpeto que as luzes iluminaram todo o arredor, movendo-se tão rápidas em sua dança que Zelena e Cassandra se esforçaram para acompanhar. O fantoche luminoso foi erguido, formando um redemoinho cujo presságio era a desgraça. ― E jamais levantaram!
Edward mal pode acreditar quando os sapatos caros foram inundados pela água gelada do rio. A água que tanto cobiçara, agora o engolia pouco a pouco. Não importava, no entanto, o quanto lutava para se libertar da lama viçosa que pesava em seu terno de grife. Ele ouvia o leopardo, ainda que não mais o visse. Não havia escolha a não ser clamar por socorro e que Deus o salvasse.
― O homem apavorado gritou, gritou, mas ao seu chamado... Nenhum Deus retornou. ― o redemoinho dançava incessantemente, ministrando a cena que era assistida pelas outras duas Bruxas. Uma fúria silenciosa ganhava espaço no peito de Regina, ansiosa por seu ouvida. A cada minuto, o feitiço ganhava a identidade cruel de uma condenação e a morena não pretendia discordar disso. ― Se esticou, esticou, tremendo de medo. Agarrou-se aos galhos em puro desespero. Pediu socorro à natureza em gloriosa ironia. Os galhos se partiram, secos demais. Ao rio entregaram a vida do homem incapaz. ― Regina formou um círculo vertical com as mãos e a luz agora dançava em seu centro, mas ela a continha e a diminua a cada instante.
Assim como Edward desistia de resistir.
Os braços afundados à água não conseguiam se erguer e o peito pesava pelo esforço feito. Não havia escolha. Tentou gritar, mais uma vez, mas quem o ouviria ali? Ao optar por seguir aquele caminho, em meio à noite, sabia que ninguém o atrapalharia. Sabia que teria paz para executar sua cautelosa missão. Não imaginava, no entanto, que o plano bem orquestrado culminaria em sua ruína.
― O homem sem forças, já não via saída. ― a Bruxa apertou as mãos, deixando apenas um pequeno espaço para a luz, até que o espaço se findou, sendo embalado pela escuridão. ― Afundou, afundou, sem ar e sem vida.
― Regina, pare agora! ― a voz apavorada de Cassandra acompanhou sua corrida até a sobrinha, lutando para desunir as mãos apertadas que, a cada segundo, minavam a vida de Edward. ― Por favor, pare agora!
Mas não havia luz nos olhos de Regina. O branco brilhoso estava opaco e, Zelena poderia jurar, um pouco acinzentando. Contudo, os lábios da morena se esticavam em um sorriso cruel.
― Regina!
O chamado veio de longe, tão longe que poderia facilmente ter sido escondido pelas brumas. E no instante seguinte, a imagem de Perpétua se revelou, vinda de Outro Mundo. A mão tocou à terra, tão calmamente como quando colhia ramos de vetiver. A magia contida nas mãos de Regina explodiu, luminosa, fazendo com que a Bruxa se desequilibrasse. Os olhos piscaram retornando ao branco, ao amarelo e, finalmente, ao castanho conhecido. A expressão, no entanto, era confusa.
Zelena encarou Cassandra, temerosa. Não imaginou, nem por um segundo, que a travessura sempre tão divertida culminaria em tamanho problema. A tia, embora curiosa, sabia de uma urgência imediata. Contornou a clareira maldita, aproximando-se do lago. Sua mão afundou à água, puxando para fora o corpo tencionado de Edward. Sem formalidades ― e sem fazer questão por tê-las ―, pisou forte com o calcanhar no peito do homem, fazendo com que cuspisse toda a água engolida. Antes que os olhos assustados se abrissem, ela os cobriu, certificando-se de que nada saísse dali.
― obliviscaris omnia² ― o homem cochilou por apenas um segundo. O suficiente para que a Bruxa retornasse à mata e a proteção invisível do existir. Agora, ele não se lembraria de nada. Pensaria, talvez, que um escorregão quase lhe roubou a vida.
Regina já estava de pé, mas conservava a confusão em suas feições. A mão de Zelena se prendeu a sua, confiante. Foi sua ideia, sua sugestão. Não era culpa de Regina, não poderia ser. Ela apenas... Apenas se animou de mais. Afinal de contas, foi divertido. Ou ao menos, a ruiva tentava se convencer.
― Vamos para casa. ― Cassandra tomou o outro lado da sobrinha, firmando-a junto de si. ― Não é todo dia que um maldito quase tem o que merece, não é!? ― a brincadeira da tia quebrou o silêncio, trazendo de volta uma leveza perdida. Compartilharam de um riso rápido, mas ainda receoso.
Exceto Perpétua.
Perpétua não conseguia sorrir.
A Mansão Mills se apresentou, como em todas as vezes, imponente. A grande porta de madeira foi cruzada pelas quatro Bruxas, abrigando suas dúvidas, receios e frustrações. Regina estava quieta, não tendo dito nenhuma palavra desde o acontecido. Sua mente carregava confusões incompreensíveis e difíceis até mesmo para o verbalizar. Zelena, por sua vez, não estava diferente. Ela, ao lado da tia, observou quando o feitiço se iniciou, não tendo nada atípico em sua estrutura. Por muitas vezes ao longo da infância e adolescência, ela e a irmã manipularam alguns destinos com aquela forma de mágica. Parecia ser uma especialidade de Regina, como se ela carregasse um dom especial para as cantigas poderosas que narravam a realidade, mas a ruiva sempre atribuiu o dom como consequência dos inúmeros livros lidos pela bibliotecária. Afinal de contas, a criatividade sempre nascia através de algum ponto de causalidade. Assustou-se, no entanto, ao perceber que a forma mágica se elevou. O brilho que se espalhou por cada canto que as rodeava estava cheio de poder. Ainda que quisesse ignorar um pequeno detalhe, não pôde. Zelena, por um segundo, não conseguiu ouvir a mente de Regina. Por uma pequena fração do tempo, os pensamentos já conhecidos e o caminho decorado se tornou obscuro. Mesmo agora, quando caminhava ao lado da irmã e ouvia toda sua massa conflituosa de lembranças, entendia que nada mais eram do que o repassar de ocorridos. Mas, dentre as imagens, existia uma mancha, invisível até mesmo para a mente da morena.
Zelena desejava despejar todas as dúvidas, ansiava por respostas simples que acalentassem seu coração em uma dose de paz. Sabia que a ideia era, senão absurda, inalcançável. Contudo, existia algo de maior importância que sempre ― por toda existência ― seria sua prioridade.
Regina.
A mais velha das irmãs Mills seguiu ao lado da outra parte de seu coração, como se a simples possibilidade de soltá-la fosse ilusória. Enquanto a avó e a tia seguiram para a cozinha, Zelena subiu as escadas, rumo ao banheiro do quarto.
Não trocaram palavras, nem mesmo era necessário. Construíram, ao longo dos anos de irmandade sagrada, uma compreensão silenciosa que ultrapassava barreiras verbais. A ruiva deixou que a mais nova se despisse das roupas levemente serpenteadas pelas chamas invocadas ― e quase se assustou ao pensar que julgou ser aquele o evento mais curioso de seu dia, sem imaginar o que viria a acontecer. Deixou que a água quente enchesse a banheira, até quase transbordar. Regina odiava que seus ombros ficassem para fora da água, gostava de estar coberta pelo líquido quente até o pescoço. Ela salpicou lavanda por todos os cantos, inspirando fundo quando o cheiro confortável se espalhou por todo o banheiro. A morena deixou que os pés fossem cobertos antes de se sentar e relaxar. A água que escorreu pela borda seguiu, obedientemente, o caminho até o ralo, deixando um rastro úmido pelo chão branco.
Zelena se virou para o antigo armário de madeira. Os braços erguidos, prontos para pegar duas grossas toalhas, interromperam o movimento ao ouvir a voz vacilante da irmã.
― O que aconteceu? ― os olhos de Regina estavam avermelhados e a ruiva deixava pensar que fosse apenas pelo vapor de lavanda, mas Bruxas dificilmente eram suscetíveis às alergias.
― Eu não saberia explicar. ― a honestidade queimou aos lábios. Queria mentir para irmã e dizer que nada acontecera e que estava tudo bem, mas não poderia. Carregava segredos demais e, até onde fosse de sua alçada, seria sincera. ― Você se ajoelhou e iniciou o feitiço. Foi incrível de se ver, com certeza. Tão límpido e poderoso. Mas em algum momento, as coisas saíram do controle. Cassandra pediu que parasse, ela gritou, mas você não a ouviu. Talvez tenha se empolgado demais. ― a ruiva deu de ombros, bufando. Temeu que as dúvidas caminhassem para um terreno ainda mais perigoso, ainda mais difícil de ser explicado. ― Regina, eu não me sentiria mal se você o matasse. Ninguém a culparia por isso, ele estava em nossa terra. Muitas de nós foram mortas por menos.
― A questão é que eu jamais quis matá-lo. ― a morena observava as próprias mãos, atentamente. Ignorando o vento gelado que feria a pele. ― Não conscientemente.
― Você não o fez, está tudo bem. Nós já estamos em casa. Além disso, sei que não quer falar sobre o assunto e eu a respeitarei, mas já existia algo fora de equilíbrio em seu peito. Imagino que as chamas anteriores também não tenham sido intencional. ― ela caminhou até a banheira, sentando-se à beirada enquanto observava atenciosamente o rosto irritado da irmã. Antes que Regina respondesse, uma barreira foi imposta à sua mente e Zelena foi empurrada para fora.
― É algo pessoal, sobre Emma. Algo sobre sua vida. Uma coisa dolorosa. ― a insatisfação pintou cada traço da pele clara.
― Não vai ferver a água, certo? ― a pergunta arrancou um sorriso breve dos lábios tencionados e Zelena se sentiu um pouco mais aliviada. ― Eu imagino que tenha sido difícil, mas é um bom sinal se ela confiou lembranças tão dolorosas a você. É fácil falarmos sobre nossas alegrias, mas é na dor que realmente desnudamos as feridas da alma. Regina, você não pode proteger Emma de algo que passou, mas pode protege-la agora. Emma é muito, muito sorta por tê-la. E só a Deusa sabe o quanto ela a tem.
― Eu estou apaixonada por ela, Zelena. Não de um jeito breve e carnal, mas de um jeito terno e permanente. É como se o sol acompanhasse seus passos e a alegria estivesse guardada em seus bolsos. Sempre que a olho, eu penso que a Deusa a criou para me provar, uma vez mais, sua existência. Não é possível que algo tão belo e divino exista por mera causalidade. ― Regina deixou que a cabeça pendesse para trás, encarando o brilhoso lustre antes de se voltar para os olhos claros que a admiravam com atenção. ― Eu não imaginava ser possível sentir algo assim. Eu li sobre esse sentimento em tantos livros, sobre a paixão arrebatadora e inefável. Mas pensava ser um mito.
― Regina, você é um mito. A maioria das pessoas não imagina que Bruxas existam para além dos mitos, então, imagino que isso sirva para o amor.
― E para os vampiros? ― a morena deixou que um gargalhar alto ecoasse pelas paredes claras. Zelena a acompanhou, aliviada por sentir a preocupação se dissipar. Ela voltaria em algum momento, mas, por hora, que o riso dominasse cada espaço vazio.
― Bom, eu apostaria boas doses de hidromel para passar uma noite com uma succubo.
― Pobre vovó. Tentou criar Bruxas responsáveis, mas acabou conseguindo duas pervertidas.
― Você é uma Bruxa apaixonada agora, Regina Mills. Está fora da lista das pervertidas, terei que consultar titia para saber se ela irá me acompanhar no Beltane. ― as toalhas grossas foram recolhidas do armário e ela os colocou ao lado da banheira.
― Eu posso estar perdidamente apaixonada e ainda assim ser uma Bruxa pervertida, Zel. Há muitas coisas em Emma que me causam perversão, posso enumerá-las agora ou...
― Oh Deusa, poupe-me da bajulação desenfreada. ― a ruiva caminhou para a porta, mas, antes da sair, retornou para se certificar de que tudo estava bem. ― Eu estou a uma parede de distância. Sussurre por mim caso precise, tudo bem?
― Vá tomar banho, não preciso do meu olfato felino para dizer que você está fedendo.
Se no andar de cima, a leveza do amor abria espaço em meio a preocupação, o mesmo não poderia ser dito sobre a atmosfera que preenchia a cozinha. Perpétua conservava o silêncio enquanto as mãos ágeis se ocupavam de preparar o café. Aos poucos, o alvorecer reivindicava o céu, deixando para trás o negro céu. Como em todas as manhãs insones, deixava para trás a sensação incerta, como se a própria existência fosse abstrata. Mas para todas as manhãs insones, uma xícara de café era a ilusória solução para todos os problemas não resolvidos e, também, para os que nasceriam ao longo do dia.
Cassandra ocupou-se de arrumar a mesa, sem saber ao certo como deveria fazê-lo. Podia dizer agora que já vivia na casa há algum tempo, mas a regra silenciosa sobre o lugar certo para cada coisa ainda lhe era um desafio para a mente desatenta. Não sabia se as sobrinhas desceriam para o café e também não considerou perguntar. Sabia que Zelena e Regina precisavam de um tempo e que logo encontrariam o equilíbrio. Existia algo de engraçado entre as duas que Cassandra, de certa forma, invejava. A irmandade estabelecida entre as jovens Bruxas era sempre um lembrete do sofrimento que passara nas mãos da própria irmã. Àquele ponto da vida, Cassandra já não revivia o passado com esperança. O que estava escrito, estava escrito. Não poderia ― nem mesmo desejava ― imaginar o que deveria ter sido diferente. Não quando o assunto envolvia Cora. O amor que um dia sentiu pela irmã lhe custou muito. Tanto que, por pouco, perdeu sua própria existência.
Ela se serviu de uma grande caneca de café. Há poucos dias, percebeu que as xícaras delicadas da mãe eram, na verdade, um enorme desserviço. Sentiu-se mais do que grata quando Zelena a presenteou com uma caneca que facilmente servia o equivalente a quatro das inúteis xícaras. Ignorou quando os olhos curiosos da mãe reprovaram sua postura, analisando suas pernas cruzadas sobre a cadeira.
― Então... ― os longos dedos tamborilaram a madeira maciça, buscando uma forma de quebrar o silêncio desagradável. ― O que falará para ela?
― Nada. ― Perpétua concluiu, sem rodeios. Tão rápido que, Cassandra sabia, a decisão já estava tomada no momento em que deixaram a floresta.
― Perfeito. ― bufou, exausta. Desde que chegara ali, suas discussões com a mãe cruzavam sempre o mesmo caminho. Sempre. Insistentemente, a Senhora parecia ignorar cada sinal do destino. ― Espere que ela mate na próxima oportunidade.
― Cassandra, você estava lá, por que não a impediu? Por que agiu tão irresponsavelmente? ― o tom ameno não escondia a reprovação que ardia a cada palavra dita.
― Irresponsável? Eu sou a irresponsável, mamãe? Oh não, pela Deusa! Sou eu quem esconde segredos milenares? Sou eu quem segreda a maldição que explodirá bem em nossa cara e acabará com qualquer futuro planejado por Regina? Céus, tenha vergonha de suas acusações! Ela é uma jovem. Uma jovem Bruxa apaixonada. Sabe o quanto isso é cruel? Quando o pior acontecer, e acontecerá, não haverá futuro para ela. Tudo o que Regina pensa agora, tudo o que ama e tudo o que ambiciona, não haverá nada disso. Então, perdoe-me, mas não incentivarei que a aprisione em sua teia ilusória quando o futuro é inevitável. ― levantou-se, pronta para sair, mas retornando ao perceber que a caneca ficara para trás.
― Eu estou a protegendo. É o que fiz durante toda vida e o que farei até o fim dos meus dias. ― Perpétua declarou, impassível.
― Agarre-se a isso. Espero que suas ilusões sirvam de consolo quando Regina estiver morta.
***
O Leon’s era o mais badalado bar noturno de Storybrooke. A cidade sempre passava a impressão de pouquíssimos habitantes, até que a sexta-feira chegasse e as pessoas se juntassem para celebrar o fim de mais uma longa semana de trabalho. Pelo menos uma vez por mês, Zelena e Regina iam até o bar em busca de uma dose de diversão e breves amores. A presença das irmãs sempre trazia enorme alegria a Leo, o simpático proprietário. Percebera, há muito tempo, que suas vendas simplesmente disparavam quando as duas estavam ali e a energia do local se tornava outra. Os drinks vendiam como água em um dia quente, as fichas de sinuca eram zeradas por esperançosos homens tentando defender sua honra numa partida contra Zelena. Mas Leo sabia também que as Irmãs Mills dificilmente saiam perdendo. Naquele bar, ele assistira Regina partir muitos corações e Zelena deixar um ou outro jovem embasbacado. Ele viu, inclusive, muitos namoros ruírem por namorados ― e até mesmo namoradas ― não conseguirem tirar os olhos das curiosas mulheres. Como um bom homem de negócios, Leo pouco se importava com os corações partidos. A visita das jovens era sempre visto como o anúncio de boas vendas e, por isso, devidamente apreciada.
Mas a felicidade de Leo pela visita das Mills era o oposto da confusão de outra jovem mulher.
Emma Swan não sabia o que vestir. Para ser justa, não arrumou as malas para aquilo. Não escolheu roupas para encontrar uma bela bibliotecária, para se ver perdidamente envolvida e muito menos para um encontro despretensioso em um bar. As malas de Emma definitivamente não estavam prontas para metade das coisas que vivenciara em tão curto tempo. E contudo, lá estava a mulher loira com seus cabelos molhados e despenteados, encarando o próprio reflexo enquanto o corpo nu jazia coberto apenas por uma toalha. Bom, definitivamente não poderia ir até lá usando apenas a toalha e isso já descartava uma de suas opções. A ansiedade inquietante queimava cada célula e ela mal podia se culpar por senti-la. Desde a partida de Regina, não conseguia pensar noutra coisa senão na mulher.
Maldita seja, essa era a verdade. Emma a odiava tanto por não conseguir resistir a um olhar, um sorriso ou um toque sequer. Oh céus, a quem estava querendo enganar? Mal resistia a simples imagem da mulher. O mais simples pensamento a fazia arfar. Se nem mesmo a mente armava barreiras, poderia culpar o corpo por se entregar tão facilmente? Se caminhava pela honestidade, culpava-o por não se entregar. Culpava-o por ter ainda que imaginar o sentimento de tocar os lábios quase sempre avermelhados que decerto deixariam um rastro de batom em sua pele. Ansiava pelo rastro, também. Torturava-se agora ao se lembrar do toque aveludado dos tão delicados dedos e corava ao desejar que o toque desbravasse outros cantos de sua pele.
E os olhos.
Emma mal conseguia respirar quando pensava nos olhos de Regina. O ar fugia para longe de seus pulmões e a deixava frágil. Sabia, no entanto, que desistiria do ar, sem pensar duas vezes, caso pudesse admirar aquele olhar por intermináveis segundos. Sendo tão imparável o desejo de estar ao lado daquela mulher-diabo que a perturbava, Emma decidiu que a roupa pouco importava.
Desejava, em seus mais secretos e impuros pensamentos, que as roupas não fossem necessárias.
Passava das dezenove horas quando desceu as escadas da pensão, tão rápido quanto os pés podiam dar conta. O cabelo estava solto ― agora seco ― e caía em largas ondas pelos ombros. Depois de longas horas de indecisão, ela optou pela calça preta que julgou melhor se encaixar à blusa azul de botões. Tendo a escolhido primeiro, decidiu que não abriria mão de uma decisão que custara tanto tempo. Tirando a leveza da seda da blusa, não havia enormes diferenças em sua aparência, salvo por um detalhe.
Naquela noite, Emma também pintou os lábios de vermelho.
O local estava cheio e algumas mesas se espalhavam pelo lado de fora a bel-prazer. Emma mal havia entrado e o pensamento de um local com tantas pessoas a fez transpirar. Pensou se era a hora certa, se deveria mesmo ir até lá ou se ainda havia tempo para voltar a segurança de seu quarto. Bastou que os pés tocassem o piso de madeira envelhecida para que o chamado animado roubasse sua atenção.
― Emma! ― a cabeleira ruiva se revelou no meio de outros corpos que se revezavam entre dançar, buscar bebidas e jogar sinuca.
― Zelena! Que bom que você está aqui. Achei que era cedo demais. ― a loira teve a mão puxada pela outra mulher que sorria animada.
― Nunca é cedo demais para boas bebidas. Venha, nós temos uma mesa bem ali.
Como se não existisse outra opção em seu leque, ela seguiu Zelena, desviando habilmente de uma e outra trombada. Se viviam borboletas no estômago de Emma, elas voaram tão raivosamente que se chocaram contra as paredes. Mas a imagem que encontrou a frustrou em diferentes níveis. A mesa indicada por Zelena estava ocupada por uma bela mulher morena, sim, mas nem de longe a que Emma desejava encontrar.
― Ninguém nunca demonstrou tanto desanimo em me ver. ― Cassandra se esforçou para prender o riso que dançava em seus lábios, divertindo-se com a frustração estampada em cada traço do rosto da loira. ― Se eu não soubesse quem você estava esperando encontrar, certamente ficaria ofendida.
― Oh céus, perdoe-me! É um prazer te ver, Cassandra. ― ela se abaixou, abraçando a mulher em um cumprimento rápido que foi sinceramente retribuído. ― Eu apenas...
― Não se justifique, Emma. Jamais se justifique por isso. ― a Bruxa se moveu para o lado, abrindo espaço para que a outra mulher se sentasse. ― Você está linda. Acho que ainda nós divertiremos muito hoje.
― Certamente que sim! ― Zelena respondeu, piscando em cumplicidade.
― Eu vou buscar uma bebida antes de me sentar com vocês. Cassandra, preciso trazer algo especial para você como forma de desculpa, faça sua escolha. ― a animosidade retornou a cada palavra, abrindo brechas em meio a tensão.
― Bom, eu adoraria uma sangria, por favor.
― Zelena?
― Oh querida, não se preocupe comigo. ― ela apontou para além, indicando a jovem garçonete que se aproximava com a bandeja repleta de doses de tequila. ― Aquelas ali são todas minhas.
Emma precisou de um segundo para ser preenchida pela energia da noite. Era impossível, definitivamente impossível, não se sentir extasiada pelo cheiro do álcool, a música e o calor humano. Existia algo mais, uma sensação que a tomava e era simplesmente inexplicável. Um desejo desenfreado de sorrir, um empurrão para a gloriosa felicidade. Ela chegou ao balcão e se apoiou, sinalizando ao barman que logo retornou com um aceno. Enquanto aguardava, olhou ao redor, ansiosa por encontrar a mulher que a levara até ali.
― Olá! ― o sorriso fácil do rapaz ao seu lado fez com que Emma desse alguns passos para o lado. ― Eu sou Neal! Nós já nos conhecemos?
― Olá Neal! Nós não nos conhecemos. ― a resposta sucinta não abria brecha para que a conversa se alongasse, mas Emma conhecia o espírito dos homens. Principalmente o espirito dos homens bêbados.
― Você está sozinha, não é? Nós podemos fazer companhia um para o outro, não é ótimo?
O braço de homem se levantou e, céus, Emma sabia o que viria a seguir. O abraço não-consentido que todo bêbado insuportável julgava ser bem vindo. Ela mal teve tempo de reagir e se afastar, então, sabia que aconteceria. Mas não foi o braço suado que sentiu sobre seus ombros. Na verdade, foi o aperto em sua cintura e a calor da voz rouca tão próxima ao seu rosto que a ofereceu o mais prazeroso despertar.
― Ela não está sozinha.
Ela.
― Senhorita Mills, perdoe-me. ― o jovem rapaz arregalou os olhos. Emma teve a impressão de que todo vestígio de álcool deixara seu corpo, como se evaporasse pelo choque. Ele travou entre um cumprimento, uma reverência ou seja lá o que seu cérebro em pane tentava fazer. Por fim, afastou-se aos tropeços, perdendo-se em algum lugar na multidão.
Emma não saiu do lugar. Na verdade, mal tinha coragem de mover um músculo sequer. O seu corpo, abrigado pelo toque ― agora suave ― das mãos de Regina em sua cintura, protestava. Podia, ainda, sentir a respiração quente tão próxima a sua pele. Mas mais prazeroso do que estar daquela maneira nos braços de Regina seria poder observá-la enquanto escolhia permanecer. Por isso, virou-se, tomando o cuidado para que seu corpo girasse dentro dos limites da outra. Agora, Emma ainda sentia o peso das mãos de Regina em sua cintura e o calor do corpo que discretamente tocava o seu. Mas, como se a tortura não pudesse ser mais intensa, podia, também, admirar o entreabrir dos lábios vermelhos ao encarar seu rosto.
― Então, eu não estou sozinha? ― a pergunta se libertou de sua garganta e Emma agradeceu aos céus por ter conseguido manter a voz firme.
― Oh não, senhorita Swan. Você não está sozinha. É uma pena se frustrei seus planos solitários, pois não pretendo declinar de sua presença. ― o lábio inferior pendeu dentre os dentes e a sobrancelha foi erguida, acentuando a provocação que viria a seguir. ― A menos, é claro, que não queira ser acompanhada por mim. Se assim for, posso chamar o simpático rapaz, ele parecia muito interessado. ― a acidez nas palavras de Regina não fez questão de se esconder. Emma precisou conter o riso, deliciando-se com a provocação que transbordava em pretensões.
― Na verdade, ele também parecia muito atraente. ― a loira conservou sua pose séria, dedicando-se ao jogo. O esforço para não transbordar pelo desejo e ceder à Regina a consumia por cada instante, mas não havia preço para a diversão em ver os olhos castanhos queimarem em faíscas amarelas.
― Sabe... Eu acho que você está certa. Definitivamente não posso chegar aos pés do belo Neal. ― a Bruxa se afastou por um centímetro e essa foi a medida exata da resistência de Emma.
Antes que as mãos de Regina pudessem se soltar, ela as segurou, mantendo-as no lugar. Agora, podia observar o profundo decote que cortava a blusa, como um convite ao inferno. Emma não acreditava em demônios, mas pendia fortemente a admitir que Regina era o mais profano deles. A pele sedosa convidava ao inferno, regado a luxúria.
Arfou.
― Não. ― a loira concordou, por fim. Relutante, os olhos subiram pelo pecaminoso rastro, encontrando o maldito sorriso vitorioso dançando nos lábios demoníacos.
― Seja mais específica, Emma.
― Eu não estou sozinha. ― confessou.
― Perfeito. ― a Bruxa se aproximou, vitoriosa. Um beijo singelo foi plantado no rosto da loira, tão provocativo quanto poderia ser. ― Eu espero por você na mesa, pode pedir um bourbon para mim?
― Claro.
― E Emma, ― Regina retornou, mal tendo se afastado da outra. Os verdes olhos ansiosos a encontraram, questionadores. ― eu estarei na mesa desta vez.
O rubor tomou cada centímetro do rosto da loira, em nada se parecendo com a natureza provocadora que respondeu à morena há poucos minutos. Já deveria ter se acostumado, Emma sabia. A curiosa bibliotecária carregava o dom específico de acender sua face mais feroz e, em igual medida, desmontá-la.
Do outro lado do bar, Regina encontrou uma movimentada mesa. Zelena e Cassandra pareciam se divertir enquanto homens e mulheres ofereciam bebidas como troca de uma gota de atenção das Bruxas.
― Veja só, eu aposto que aquela ali virá até aqui também. ― Cassandra apontou para a jovem alta de cabelos trançados. Os braços exibiam músculos definidos e belas tatuagens.
― Pela Deusa, que venha. Tenho um enorme fraco por mulheres tatuadas. ― Zelena confessou, virando uma dose de tequila. ― Mas eu sairei perdendo se ela curtir outras mulheres tatuadas. ― apontou para as enormes asas que desenhavam as costas nuas da tia.
― Oh não, não. Definitivamente, não. Eu estou fora da pista. ― Cassandra declarou, roubando uma dose de Zelena, o que lhe gerou um olhar de reprovação ainda que várias outras estivessem disponíveis na mesa. ― Eu entendo agora que mamãe tranque a adega, pois não restaria uma garrafa sequer se você tivesse livre acesso.
― Eu não bebo demais, apenas o suficiente. ― a ruiva deu de ombros. ― E como assim você está fora da pista? Não celebrará o Beltane?
― Oh querida, existem outras formas de celebrar o Beltane além do sexo selvagem na floresta, acredite.
― Existem outras formas tão prazerosas quanto o sexo selvagem na floresta? ― o questionamento veio acompanhado do riso contido.
Cassandra foi salvo pela Deusa quando uma Regina ofegante se sentou à mesa. As mãos se abriram e fechavam, inquietas, e um sorriso lascivo contornava os lábios vermelhos.
― Emma a encontrou? ― a pergunta de Cassandra era ansiosa. Ser espectadora do desenrolar daquela história estava tomando boa parte de seu tempo.
― Eu a encontrei. ― existia uma pontada amarga na afirmação de Regina que não foi perdida pelas outras e, sabendo disso, adiantou-se em explicar. ― Ela e o bêbado Neal, sendo incômodo como sempre.
― Ele nunca mais foi o mesmo depois que você partiu o pobre coração. ― Zelena fingiu pesar, recebendo o já esperado olhar reprovador da irmã.
― Homens idiotas que não conseguem sobreviver a uma rejeição definitivamente não estão prontos para viver em sociedade. ― a Bruxa bufou, irritada. ― Zelena, eu gostaria de te pedir uma coisa, por favor.
― Eu estou ouvindo. ― os olhos claros aguardaram, atentos, enquanto a ruiva limpava a tequila do canto dos lábios.
― Não leia a mente de Emma, por favor. Há algumas coisas que...
― Tudo bem. Não precisa explicar. ― ela apertou a mão da irmã, demonstrando seu entendimento. Zelena havia obtido uma amostra da confusão de Emma em sua visita ao museu. Imaginava que o desdobrar de cada memória deveria ser doloroso. Até onde podia, respeitava a privacidade de cada um.
Regina não precisou se virar para sentir o inconfundível cheiro da mulher que se aproximava. Mesmo no ambiente cheio, ela conseguia distinguir com maestria o aroma adocicado que fazia seu corpo arder em imediato. Emma equilibrava nas mãos a sangria de Cassandra, o bourbon de Regina e sua cerveja. Acomodou-se à mesa, libertando um suspiro de alívio.
― Eu estou em Storybrooke há um bom tempo e posso afirmar com certeza que jamais vi tantas pessoas reunidas.
― As noites no Leon’s são sempre muito movimentadas, mas não é como se existissem muitas opções por aqui. ― a ruiva se adiantou em explicar, curiosa para saber mais, dentro do natural de uma conversa. ― Não me lembro se já te perguntei de onde veio, Emma.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!― De Boston, principalmente. Morei em outros lugares, mas foram estadias rápidas. Nada que me rendesse uma proveitosa permanência. ― a explicação leve foi acompanhada pelos olhos atentos de Regina, que se preocupava em despertar qualquer sentimento ruim na loira. Mas não havia receios e Emma parecia animada em conversar, como se não o fizesse há muito tempo.
― Eu morei em Boston durante uns anos. ― Cassandra tomou um gole da sangria, fechando os olhos em doce aprovação. ― Costumava frequentar um bar que ficava bem no centro, ele era todo preto com enormes janelas de vidro. Consegue se lembrar?
― Sim, eu acho que me lembro de algo assim. ― Emma bebeu sua cerveja, pensativa. O movimento questionador das sobrancelhas foi acompanhado de um riso descrente. ― Mas ele fechou nos anos 70, se eu não me engano.
― Exatamente! ― a Bruxa sorriu, animada. Esquecendo-se de que definitivamente não aparentava ter a idade que realmente tinha. ― Mas eu era jovem, muito jovem. Menor de idade, com certeza. ― adiantou-se em fantasiar a verdade.
― Emma, antes de firmarmos uma amizade sincera, eu preciso te desafiar a uma partida de sinuca. Se eu ganhar, seremos boas amigas. Se você me fizer perder, eu nunca mais quero ver a sua cara. ― Zelena se levantou, oferecendo a mão a loira, o que deixava claro que não existiam brechas para uma negativa.
Regina se surpreendeu com o quão confortável estava se sentindo. Geralmente, suas interações amorosas duravam pouco e definitivamente não se estendiam a uma permanência tão amigável ao lado de sua irmã e, agora, sua tia. Mas Emma parecia naturalmente carismática e o jeito vez inocente, vez provocadora, proporcionava altos e baixos de extremo deleite. Para a partida entre Bruxa e humana, foi decidido que Cassandra seria a juíza da partida, pois Zelena declarou que Regina não era confiável, nem mesmo se pudesse ler sua mente trapaceira. Mal entendendo a origem literal da piada, Emma concordou. No entanto, foi dado a cada uma o direito de pedir auxílio em uma jogada, caso necessário. Obviamente, a ruiva, prepotente como só ela poderia ser e certa de sua vitória, dispensou.
O que Emma não sabia ao aceitar o convite de Zelena era que ela carregava, há anos, o título com mais vitórias na sinuca do Leon’s. Simplesmente não existia em Storybrooke alguém capaz de vencê-la. Isso também lhe rendia boas provocações da irmã, insistente na possibilidade das vitórias da ruiva se valerem do poder que tinha em ler a mente dos adversários, adiantando-se na partida. Mas dado que Zelena jurara não ler a mente de Emma, Regina concordou que a partida seria ― dentro das limitações ― justa.
E no entanto, Emma perdeu duas rodadas seguidas.
― Como sou uma ótima jogadora, nós concordaremos com o seguinte: se você ganhar essa rodada, eu irei desconsiderar as duas anteriores. ― a ruiva provocou, percebendo a veia raivosa tencionar na testa de Emma. Descobriu, em meio a partida, que a loira era uma feroz jogadora. Mesmo ganhando, precisava admitir que foram, de longe, as rodadas mais dificultosas em muitos anos.
― Certo, certo. Eu concordo. ― a loira preparou o taco em sua mão, atenta.
Deveria também ser levado em conta de que, para Emma, o desafio era dobrado. Era humanamente impossível dedicar toda sua atenção a partida quando Regina caminhava de um lado ao outro com seu decote pecaminoso e sua apertada calça de couro. Muito mais difícil era observar pelo canto dos olhos tantos aventurados se aproximando para tentar alguma coisa com a mulher. O ponto alto de seu incômodo foi vislumbrar Daniel caminhando em meio as outras pessoas. Os olhos fixos na morena à frente não deixava dúvidas sobre seu destino.
Emma bufou, irritada.
― Certo, eu quero ajuda. ― declarou, chamando a atenção de Regina, que observava atentamente o desenrolar da partida.
Cassandra assistiu cada movimento. O olhar descontentado de Emma, a aproximação de Daniel e a decisão da loira. Ela sabia o que estava acontecendo ali e aprovava.
― Regina, vá até lá. ― a juíza concordou, mas nem de longe se tratava da partida.
A morena, alheia a presença do homem, cruzou a mesa. As mãos, mais uma vez naquela noite, pousaram na cintura de Emma, tendo decorado o caminho a seguir. Ela estudou o jogo disposto, reconhecendo as últimas três bolas a serem encaçapadas. Concedeu a si mesma o privilégio de usar de seu dom especial, pois nada, jamais, superaria a precisão felina. Ela pressionou seu corpo contra o de Emma, cautelosamente, exigindo que a loira se abaixasse.
― Mire naquele canto e bata forte, bem no centro da bola. ― as mãos abandonaram a cintura, apenas por um segundo, e dedicaram-se a reposicionar os braços da loira. ― Agora.
Emma obedeceu, ainda que nem de longe sua atenção estivesse na jogada. Esqueceu-se completamente do jogo, da competitividade e da vitória no momento em que Regina cruzou a mesa. Mas quando as três bolas foram encaçapadas e o aperto em sua cintura se intensificou, Emma soube que ganhara duas vezes. O olhar de desagrado no rosto de Daniel a fez sorrir.
Ela não estava sozinha.
Ela estava com Regina.
O calor que tomou seu corpo exigia espaço. Quando as outras mulheres voltaram para a mesa ― uma Regina provocativa, uma Zelena irritada e uma Cassandra risonha ―, Emma seguiu para o banheiro. Encarou o reflexo de seu rosto corado pelo álcool. Boa parte do batom fora deixada nas garrafas de cerveja e a pele carregava uma fina camada de suor. Ela ergueu os cabelos, pronta para prendê-los em um coque que libertasse a nuca.
― Deixe-os soltos.
Emma sorriu.
Era a segunda vez naquela noite que a voz já conhecida ― e desejada ― a surpreendia. Em ambas as vezes, a sensação que se espalhava pelo seu ser era igualmente prazerosa. A presença de Regina era, para ela, sempre o ponto alto da luxúria. No reflexo do espelho encontrou a os olhos famintos que a observavam. Agora, carregavam tantas faíscas amarelas que se firmavam em um misto perfeito.
Os olhar de Regina traduziam a mais desejosa forma do querer.
Naquele momento, a Bruxa deixou de lado todas as ressalvas já tidas. Ela se permitiu o deleite de devorar cada centímetro do corpo vestido de Emma, imaginando-o cruamente despido. Aproximou-se, vagarosamente. Tão calmo quanto um predador que vislumbra a possibilidade de uma presa.
Mas a Bruxa sabia, tão certo quanto o brilho da Lua, que Emma nem de longe lhe era uma possibilidade. Era, tanto quanto podia ser, uma certeza. E a vontade que alimentava a cada dia ardia em seu âmago, não mais suportando ser mascarada ou contida. Posto a sua frente, estava a encarnação do acaso absoluto. Não sabia quais eram os planos da Deusa para o destino, mas sabia o que queria e ao que não conseguiria mais resistir.
Encarou a lagoa calma e, com os pés à beira, decidiu mergulhar.
Emma por pouco se esquecia de que o respirar era essencial à sobrevivência. Enquanto a morena se aproximava, ela se perdia em imagens que não conseguia ordenar. Via a tempestade nos olhos de Regina. Nem de longe pela cor escura, mas pelos raios. Regina guardava raios dentro dos olhos. E quando a olhava, podia vê-los brilhar. Soube, no silêncio daquele espaço, que qualquer vida sem aqueles olhos seria uma maldição.
A Bruxa ergueu as mãos, tomando as de Emma para junto de si. Aos poucos, libertou os longos cabelos loiros, deixando-os cair em ondas. No reflexo do espelho, ela enxergava a volúpia dançar por cada traço do rosto claro. Os seus dedos desceram, calmos. Não existia pressa no deleite da caça. Existia apenas o prazer pela captura.
Emma fora capturada e sabia disso. Não havia saída. E ainda que houvesse, não a desejava.
Cada centímetro tocado por Regina deixava para trás um rastro quente, sôfrego por não mais ser o foco de sua atenção. Mas sua vontade não aceitava o aprisionamento de um reflexo que parecia, de muitas maneiras, como um sonho. Emma necessitava da realidade palpável. Regina sabia disso. Ela virou a loira e seus braços, encontrando-a mais uma vez.
Emma suspirou.
As mãos firmes se prenderam à morena, ansiosa por uma comprovação de que a queria bem ali, o mais perto possível. Puxo-a para si, sentido seu próprio corpo se chocar contra a parede pelo encontro caloroso. Os dedos contornaram o cós da calça, tocando a pele quente.
O banheiro espaçoso se tornou pequeno demais para a energia conflituosa que corria pelo ambiente. Dentro de si, a Bruxa sentia a própria magia flutuar em ciclos intensos, ansiosa pelo contato. Cada onda de sentir que a invadia trazia consigo o elo da reciprocidade e, por isso, Regina se enchia de um prazer inenarrável e nunca antes conhecido.
Foi a vez dos lábios, ansiosos, se roçarem, mas nenhuma das duas fechou o espaço por completo. Os olhos, no entanto, se encontraram. Conversaram, silenciosamente, como se soubessem que aquele momento findaria qualquer dúvida ou possibilidade de outro caminho. Sabiam, muito antes dos corpos ansiarem, que não havia outra opção senão o encontro. O que vibrava dentro delas era muito mais do que a ânsia pelo descobrimento, era um reencontro de almas.
Os dedos de Regina retornaram ao cabelo loiro, puxando-o para trás e expondo a pele alva. Inspirou-a, centímetro por centímetro. Um beijo faminto foi deixado no queixo de Emma, como se pedisse passagem para além. A imagem daquela mulher, tão dolorosamente entregue, transbordava na mais densa volúpia.
― Seja minha. ― a Bruxa implorou em um gemido sôfrego.
Do lado de fora do banheiro, onde a realidade tumultuada preenchia o bar, três garrafas explodiram na prateleira.
― Oh Regina, como pode não perceber quando é tão óbvio? ― Emma a puxou para si, findando qualquer espaço existente entre os corpos. A sua boca dançou pelo rosto da outra, pondo-se ao ouvido para a mais sincera das confissões. ― Não há nem sequer uma parte de mim que já não pertença a você.
E quando os olhos já não podiam carregar todo o peso de abrigar tamanho sentir, os lábios reivindicaram seu direito.
Regina a beijou.
E ao beijá-la, sua magia transbordou pelo encontro de si mesma em um fluxo tão cíclico de trocas e respostas que não pôde ser contida. Não queria ser contida. Queria, verdadeiramente, transbordar. Espalhar-se por cada canto de vida, por cada espaço. Por cada grão de ausência e preenchê-las. Preenchê-las pela presença de Emma.
O céu, até então calmo, foi cortado pelo mais luminoso raio que toda Storybrooke já viu. A noite calorosa, trovejou. E a tempestade que se iniciou não tinha nada de normal. Era, na mais pura verdade, a tempestade libertada por Regina.
Segurava o rosto de Emma tão firmemente que temia perdê-lo. Temia que ao abrir seus olhos, descobriria que tudo não passara de um sonho, pois tantas foram as vezes em que sonhou em tê-la para si. Tantas foram as vezes e que fantasiou sobre o macio de seus lábios e a firmeza de suas mãos lhe marcando o corpo. E no entanto, nem mesmo a mais detalhada criação de sua mente chegara aos pés da obra pintada pela realidade.
Emma era o que Regina jamais esperou.
A escritora, em irônica dificuldade, sofreria para encontrar as palavras que descrevessem o que sentia. Não se surpreenderia, no entanto. Seu sentimento era incontido demais para ser limitado aos substantivos, adjetivos ou verbos.
O voraz beijo que a devorava a cada instante era faminto e terno, ansioso e passivo, selvagem e delicado. Abrigava tantos paradoxos que só poderia pertencer a ela. Tinha consciência de suas unhas cravadas a pele de Regina, puxando-a para si tão intensamente que logo se fundiriam em uma. Não imaginava se separar daquela mulher, nem ao menos poderia.
O ar quente e ofegante era a tradução do que, internamente, queimava. E diferente do que Emma imaginava ― e ansiava ―, não fora apenas a sua boca marcada pelo vermelho batom de Regina, mas seu pescoço e toda a extensão de sua clavícula. Arfou quando os ágeis dedos libertaram dois dos botões de sua blusa, tão lentamente que Emma precisou se controlar para não abrir por si mesma. Os dedos de Regina se arrastaram pela superfície de seus seios, cobertos pelo rendado sutiã negro. Abaixou-se, plantando um único beijo à pele rosada, responsável por espalhar um arrepio imparável que a atingiu em cheio. Quando os lábios de Emma foram novamente reivindicados, ela mal podia conceber a própria realidade.
Entendia agora o desespero de todos os outros. Entendia como ansiavam pela presença de Regina, como pareciam perdidos senão enxergados por ela. Agora, sabendo como era pertencer a ela e desejar morrer ao findar o tempo que as unia, podia entender. Sorriu.
A morena se afastou dos lábios risonhos, apenas para apreciar a imagem posta à sua admiração. Poderia dizer, sem dúvidas, que Emma era a mais bela mulher que seus olhos já contemplaram. E ainda que fosse descrente, ainda que não acreditasse tão severamente na existência da Deusa, a imagem de Emma Swan a teria tornado uma fiel devota. Era impossível, decididamente impossível, que tamanha beleza não fosse divina. Se uma fagulha de seu ser ainda duvidava, convenceu-se.
Beijo-a.
De novo e mais uma vez.
Poderia beijá-la por toda a eternidade e ainda assim se sentir carente de seu transbordar.
E a cada vez que Regina trasbordava, sua magia explodia em sentir. Do lado de fora, Zelena e Cassandra viram garrafas explodirem, uma moderna jukebox estourar, prateleiras caírem e, como se não bastasse, o pânico se instalar quando o mais alto dos trovões bradou no céu. Trazendo consigo a mais inesperada tempestade.
Nada disso era ouvido dentro do banheiro. E se era ouvido, não obtinha atenção.
Mas de algum lugar entre a coragem e a tolice, Emma Swan tirou uma dose para si. Com os lábios ainda colados aos de Regina, parte de sua blusa aberta e mãos ansiosas reivindicando cada canto de seu corpo, apertando-lhe a coxa e lhe corrompendo a sanidade. Emma conteve a fera da qual era presa.
― Você é a mais irresistível das mulheres, Regina Mills. ― o sussurro vacilante interrompeu o beijo, revelando pesadas respirações. ― E cada parte de mim pertence a você. Cada parte de mim cederá a você. Mas não assim. Não como todos os outros. Não aqui.
E sob o olhar descrente da Bruxa, Emma se afastou. Pacientemente, selou os dois botões violados, o colo carregando manchas avermelhadas dos lábios e dos apertos. Fechou a porta atrás de si, deixando para trás um misto de surpresa e admiração.
Regina confessou para seu reflexo bagunçado ― enquanto sorria para as marcas em sua própria pele ― o que lhe era ainda mais óbvio.
Não existia, dentro de si, uma parte sequer que não pertencesse à Emma Swan.
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