Notas iniciais
Olá Cupcakes! Peço perdão pela demora. Eu comecei a trabalhar e ainda estou apanhando um pouco para ajustar os horários. Eu agradeço a todos que comentaram o capítulo passado, isso faz uma diferença enorme. Dedico esse capítulo à @chloerdcker que me mandou uma mensagem tão linda no twitter. Obrigada, mesmo. No mais, espero que vocês gostem e me perdoem por qualquer erro. Sem mais delongas, boa leitura.

Londres, 24 de dezembro de 2013.

Era véspera de natal.

Era véspera de natal e Londres estava repleta de luzes, enfeites e alegria. Cada canto da cidade era presenteado com o riso e o falatório de quem apreciava a época festiva. Cada mínimo canto, era a impressão que Cassandra tinha. Não bastava a dor de cabeça causada pelos dias sem dormir, ela também precisava lidar com aquilo. Havia chegado há pouco tempo. Passara uma boa temporada em Vancouver, mas precisou sair de lá. Às pressas, como sempre. Caminhava em silêncio, ouvindo e sentindo cada gota de euforia que vibrava dentro daqueles que cruzavam seu caminho. Músicas natalinas tocavam dentro das lojas, até mesmo nas de conveniência. Alegria demais, barulho demais, turbulência demais. Depois dos seus últimos dois dias, a Bruxa buscava por uma boa dose de silêncio e, indispensavelmente, uma boa dose de whisky. Ignorou os bons hotéis e buscou por uma área mais humilde. Descobrira, há muito tempo, que as mais belas intenções viviam dentro daqueles que não tinham muito a oferecer, mas que ofereciam tudo o que tinham quando alguém precisava de ajuda. Abriam-se para o diálogo, permitiam-se sorrisos fáceis e não desconfiavam de cada olhar. Ela precisava da simplicidade.

O entardecer já assumira seu turno durante aquele dia e, por causa dele, o céu ganhava tons cada vez mais escurecidos. Aos poucos, portas iam sendo trancadas e funcionários deixavam seus empregos para aproveitar o feriado e a alegria em família. Encontrou, escondida entre antigos prédios, uma pequena lanchonete que pouco prometia e que dificilmente seria notada em meio à turbulência. Cassandra não acreditava em natais e nem mesmo tinha o hábito de fingir comemorá-los, o recolhimento seria a sua melhor opção. Além disso, precisava de paz. Emagrecera tanto nos últimos dias que os ossos de seus ombros marcavam fortemente a pele, assim como os do seu rosto, que acentuavam os traços fortes e traziam ainda mais atenção aos grossos lábios da mulher. Usava o cabelo longo e castanho como um escudo para esconder a face, não queria atenção, mas ela era uma Bruxa, uma descendente de Morrigan, A Deusa do Amor e da Guerra. Até mesmo os seus piores dias poderiam ser lidos como os mais belos por aqueles que somente enxergavam a aparência. Desejava, ardentemente, passar despercebida por todos e, se conseguisse, talvez considerasse a veracidade dos milagres natalinos.

Enquanto procurava por uma mesa mais afastada, ela inspirou fundo e olhou ao redor, permitindo-se uma dose extra de atenção. Já encontrara com alguns caçadores ao longo dos anos e não gostaria de encontrar com outro ali, não naquele dia. Eles tinham o hábito de farejar a inquietude, de perseguir a fragilidade e, a Deusa sabe, Cassandra estava frágil. Seu corpo ainda carregava as marcas causadas pela força da magia que conjurou para fugir dos olhos da irmã. O local não estava cheio, pelo contrário. Permaneciam por ali apenas aqueles que estavam tão sem rumo quanto Cassandra e, por algum motivo, isso a confortou. Acomodou-se em um canto, quase tão escondida que pensou não ter chances de ser notada por uma das garçonetes. No entanto, havia apenas uma garçonete naquela humilde lanchonete e ela notara a Bruxa desde o instante em que o sino da porta, timidamente, tilintou.

Quando a jovem mulher se aproximou, os seus olhos analisaram com atenção o rosto de Cassandra. Cada linha foi lida e cada traço foi gravado como se precisasse ser fielmente reproduzido em algum quadro mental. Antes de chegar à mesa, deixou sobre o balcão a jarra de café que carregava para todos os lados. Acomodou-se no banco à frente da Bruxa e apoiou seus braços sobre a mesa. Nenhuma palavra foi dita. Encararam-se por longos instantes e Cassandra ousou invocar mentalmente um feitiço para rastrear magia. Não havia nada, ela era uma humana. Apenas uma humana, que conseguira desestabilizar a mais mal humorada das Bruxas.

— Deixe-me adivinhar... Você brigou com a sua família e não está no melhor dos climas para a ceia de natal. — a voz soou melodiosa, como se tomasse cuidado com cada palavra dita. Como se soubesse que a alma fragilizada precisava de acalento e não mais de dor. Mas ela era humana, apenas uma humana.

Cassandra se permitiu analisar o rosto da mulher à sua frente. Os cabelos finos e loiros estavam presos em um coque confortável e prático, que facilitava o trabalho a ser feito e não o atrapalhava. O nariz e os lábios eram finos, os olhos eram azuis — muito, muito claros. Não havia nada de absurdamente extraordinário além do simples e extraordinário fato de ser uma bela mulher. Uma humana, que não deveria ler Cassandra com tanta facilidade, embora existissem erros em sua suposição.

— Você quase acertou. — limitou-se a responder. Não desejava prologar a conversa ou abrir brechas para que isso acontecesse. Não poderia.

— Então, deixe-me tentar de novo. Eu vou lhe oferecer um café e você vai me dizer que não, não precisa do café. O café a manterá acordada e você não precisa disso, precisa apagar. Não dormir, mas apagar. Simplesmente apagar. Então vai me pedir um whisky, forte o bastante para que nem mesmo o mais feroz dos tornados seja capaz de te acordar. — semicerrou os olhos, como se tivesse lançado um desafio. Cassandra apoiou seus cotovelos à mesa, aproximando seu rosto. Esqueceu-se da proteção oferecida pelo cabeço e expos a face. Encarou, cruamente, a mulher. Por algum motivo, não desejava admitir que ela estava certa.

Antes que pudesse responder, a garçonete se levantou e caminhou até a parte de trás do balcão. Buscou uma garrafa que parecia antiga e continha um líquido escuro. A garganta seca de Cassandra protestou. Sim, desejava o whisky. Ele foi posto a sua frente e a mulher voltou a se sentar. Nada falaria, a Bruxa sabia. Aguardava uma resposta.

— Você quase acertou. — repetiu, pois era verdade. O whisky a ajudaria a lidar com alguns dos recentes acontecimentos. Na realidade, ele a ajudaria a esquecer, mas apenas por um instante. Seu abençoado organismo não permitira mais do que isso. É necessário que se tenha algo mais forte, muito mais forte, do que o álcool para apagar a mente de uma Bruxa. Ela nem ao menos poderia se dar ao luxo de apagar.

— O whisky está aqui. — indicou a garrafa. — Mas tenho uma proposta melhor, muito melhor. Você parece não estar se alimentando muito bem nos últimos dias e, para ser franca, acho que doses de whisky são as últimas coisas das quais você precisa. Então, se você abaixar a guarda por um instante e me permitir ajudar, eu posso preparar algo para você comer e, depois, pode me contar quais foram os erros nas minhas duas suposições.

Ela deveria negar. Deveria. Estava fraca, sabia disso também. Não resistiria a outro embate se Cora lhe perseguisse mais uma vez em um curto período. Encostou seu corpo no banco de couro e observou os olhos azuis, tão claros quanto o céu do amanhecer. Não havia medo, ou hesitação. Existia a enorme vontade de ajudar e, curiosamente, um inexplicável carinho. O suéter marfim que vestia e estava alguns números maior do que o seu tamanho lhe davam uma impressão de acolhimento e Cassandra não saberia explicá-la caso questionassem. Apenas imaginou, por um instante, como seria ganhar um abraço daquela desconhecida.

— Certo. — concordou e nem ao menos precisou explicar qual era a opção escolhida. Mal acabara de pronunciar a palavra e a mulher puxou a garrafa para si.

— A propósito, o meu nome é Linda. — levantou-se. Desta vez, ofereceu sua mão a Cassandra, em um convite para que a seguisse.

— Cassandra. — contou, quase como em uma confissão. Mal se lembrava da última vez em que revelou seu verdadeiro nome a alguém.

Foi no acolhimento do inesperado, na ajuda que nasce da mais inusitada situação e em uma lanchonete qualquer das ruas perdidas de Londres que Cassandra Mills descobriu que alguns humanos poderiam ser mágicos sem nem ao menos saberem sobre a real existência da magia.

Storybrooke, abril de 2015.

Quando Cassandra despertou, a surpresa lhe atingiu antes mesmo que seus olhos se abrissem. Não havia gritos ou desespero. Seu coração não estava disparado, suas mãos não tremiam e seus olhos não lutavam contra o queimar das lágrimas. Existia paz, uma imensa paz que a rodeava e acolhia, enquanto o sono se retirava, pouco a pouco. Suspirou, ainda descrente. Lembrou-se de seu sonho, aquele que era, na verdade, uma lembrança. O seu peito se apertou em saudade, mas não havia como responder a ela. Escolheu ir embora, escolheu deixar Linda para trás e repetia isso para si mesmo, ainda que soubesse a cruel realidade. Não escolhera nada. Aliás, foi a ausência dessas escolhas que a fizeram partir para longe daquela que foi o seu único ponto de conforto em longas décadas de solidão.

Encarou o teto, só então dando-se conta de que realmente havia dormido entre as sobrinhas, desfrutando daquela proteção tão inusitada. Era domingo, ela se lembrou. Durante anos, pouco se importara com a passagem do tempo, perdendo-se entre os dias da semana e os meses que se arrastavam como uma longa e infindável tortura. Mas era domingo e ela sabia que Zelena e Regina ficariam em casa. Por isso, tomou cuidado ao se levantar. O dia mal havia clareado, o céu ainda carregava um tom quase acinzentado causado pelo inverno e o sereno fino beijava as folhas das árvores. Antes de chegar à cozinha, ela sabia que encontraria a mãe por ali. O cheiro do café a abraçou e convidou a se acomodar.

— Você acordou cedo. — Perpétua afirmou, enquanto desenformava o bolo recém assado. — Olhe seu rosto. — a Senhora sorriu, aproximando-se da filha. Tocou-lhe a pele, com cuidado, como se esperasse pela reprovação que não veio. — É como se eu finalmente estivesse revendo seu rosto.

— Quem diria que uma noite de sono é um ótimo tratamento de beleza? — Cassandra ironizou, apenas porque não sabia o que fazer. Não desejava afastar a mãe, mas passara tanto tempo sem lidar com aquela simples interação que lhe faltavam ações. Perpétua sabia disso, sentira isso. — Então, você fez café?

— É claro que eu fiz café. — admirou a filha por mais um instante. Sim, admirou, como se a visse com outros olhos.

Em uma quase manhã, mãe e filha buscavam conforto entre as incertezas. Ambas temiam as palavras utilizadas e as ações escolhidas, já haviam passado por muito. Estavam cansadas. Acomodaram-se à mesa e tomaram, em silêncio, o café. Não era incômodo, não se sentiam deslocadas, não mais. A noite anterior servira como um importante fator para que a balança entre elas fosse posta em igualdade, ou para que, pelo menos, elas tentassem. O colo de Perpétua oferecera à Cassandra o abrigo que ela, há muito, buscara. Sabia, agora, que foi a magia da mãe que libertou sua mente das garras afiadas de Cora e permitiu o chamado de Bellizzia.

Em silêncio, a morena encarava atentamente a coruja de olhos rubi, posicionada no grande arco da porta. Seus detalhes eram fielmente talhados à madeira e seu olhar brilhava como o sangue dos Deuses. As penas tão reais poderiam facilmente ter sido colocadas sobre o tronco e cobertas por delicadas pinceladas de verniz, mas eram o resultado da arte. Nunca olhara o objeto com tamanha dedicação, mas o fazia agora, pois ele lhe parecia mais interessante do que o rosto atento da Senhora que a avaliava com infinitos acinzentados.

Cassandra desejava ver Linda mais uma vez. Uma última vez. Depois de tudo o que acontecera, depois do fim trágico que jogou cinzas sobre o início tão delicado e despretensioso, ela queria poder observar aqueles olhos azuis, guardiões de toda a paz. Sentia que poderia respirar aliviada se soubesse que ela está bem, oferecendo a todos o “bom dia” receptivo e o sorriso que abraçava sem tocar.

— Darei o que você deseja. — a afirmação de Perpétua roubou Cassandra de seus devaneios. A morena suspirou, cansada.

— O que foi? Agora você também lê mentes? — a acidez das frases não ofendeu a Senhora. Nem mesmo fora intencional, na verdade. Aquele era um terreno delicado, quase perigoso demais para que se arriscasse desbravar.

— Eu não leio mentes, Cassandra. Nem mesmo previ seu pedido. Imagino que ainda não tenha realmente se decidido sobre ele. — a mais velha serviu-se de mais um pouco do café. Seus olhos permaneciam acinzentados, porém leves. Quando falou, seu tom vestia empatia e compreensão. — Mas sei reconhecer um coração que sangra pelo amor perdido.

Desde sua volta, Cassandra lutara bravamente para esconder seus sentimentos da mãe. Perpétua enxergava além do que era exposto, ela desmembrava o não visto. Não somente por suas visões, mas pela experiência em ler almas. A filha sabia disso. Até agora, jurara estar fazendo um bom trabalho em nublar seu sentir, mas se enganava. Quando Cassandra calava, era a natureza quem revelava seus segredos. Sabendo disso, a mãe se colocou de pé e buscou, no grande armário de carvalho antigo, um pequeno frasco. Uma única lágrima correu por seu rosto e foi depositada ali. Colocou-o sobre a mesa, em uma oferta de paz.

— Não posso aceitar.

— Eu não quero cobrar por isso, nem mesmo quero que pense ser algo planejado e com interesses ocultos. — voltou a se sentar, contemplando o rosto confuso da menina-mulher que temia prosseguir. — Quando você surgiu por aquela floresta, sendo acompanhada por Regina e Zelena, eu soube que assim deveria ser. Vocês eram como uma. Antes que trocassem palavras, suas magias conversavam e se reconheciam. Eu fui tola, Cassandra. Estava tão preocupada com o que poderia acontecer que pouco dei atenção ao que estava acontecendo. Você, a minha menina, estava em casa. Insisti no erro, criei barreiras. Mentiria se dissesse que não me preocupo, mas não serei injusta ao ponto de dizer que o que está por vir foi causado pela sua volta. Cairemos, sabe disso. Cairemos por decisões tomadas há décadas, em consequência de séculos passados. Somos todas reféns, inclusive você. Em meio a tanto sofrimento e medo, não é justo que se martirize por aquilo que pode ser amenizado. Compreendo pouco do que realmente sente, embora possa ver em seu olhar, que por tantas vezes buscou conforto em meu rosto, a inquietude do amar rasgado. Seja como for, está aqui. — os dedos tocaram o frasco, empurrando-o pela mesa.

— Eu quero confiar em você, mamãe. — o lábio inferior preso entredentes era a reação exterior de quem lutava contra o choro que morava na garganta e, sem dó, machucava. — Nós já passamos por tanto, nós nos machucamos muito... Eu quero, mas não sei se consigo.

— Uma de nós precisa começar a tentar. Aceite. — arriscando, Perpétua buscou a mão da filha e depositou, sobre a palma gelada, o seu presente.

— Eu devo uma explicação a você. — Cassandra respirou fundo, buscando pelo controle necessário. Tocaria, espontaneamente, em uma ferida ainda aberta e dolorida cuja sangria lhe manchava a alma. — Uma explicação sobre como Cora entrou em minha mente.

Londres, 2 de janeiro de 2014

Quando Cassandra cruzou a porta daquele pequeno estabelecimento em uma cansativa véspera de natal, ela não imaginava encontrar o conforto que jurara ter perdido. De todos os seres humanos com os quais vinha esbarrando ao longo das últimas décadas, Linda era, sem dúvidas, a mais peculiar de todos. Respeitava os limites da morena, mas não cessava em sua busca por compreender. Jamais invadia, pressionava ou violava. Caminhava, a passos lentos, pelas ruas do entendimento. Naquela véspera de natal, ela ofereceu um quarto à Cassandra. Afinal de contas, também era dona de uma pequena pensão que ficava em cima da singela lanchonete. A Bruxa sabia que deveria negar. Aquela mulher guardava o mais doce dos olhares, como se jamais houvesse presenciado a crueldade do mundo. Linda se assemelhava a um ponto de paz em meio à turbulência. Sua áurea límpida abraçava e convidava ao aconchego. Ela era casa até mesmo para aqueles que não tinham morada alguma.

Cassandra carregava o caos em seu peito. Há anos, os caminhos percorridos por ela tinham como característica a mancha negra deixada pela sua partida. Ao contrário de Linda, a morena sabia muito bem sobre a crueldade e os males caudados por ela. A sua existência era, por si só, um lembrete. Mas como poderia resistir à sensação de acolhimento e paz? Jurou, por vezes, que partiria durante a noite, ou até mesmo na manhã seguinte, porém nunca conseguiu cumprir suas próprias promessas. Sem perceber, embrenhavam-se em uma conversa sobre o tempo, as flores e as árvores. Linda nutria uma enorme curiosidade sobre tudo àquilo que podia ser aprendido. Os seus olhos brilhavam em contemplação quando, por sorte, conseguia fazer com que Cassandra falasse sobre tudo o que sabia... E ela sabia muito! Mais do que qualquer outro. Não imaginava, é certo, que ouvia dos ensinamentos de uma Bruxa, que iam além da ótica humana. Assim, dois dias se passaram. Depois, passaram-se mais três e somaram quatro. Demorou mais um tempo até a filha da Deusa perceber que já não mais planejava partidas.

— Então, a Deusa é Tripla. — Linda afirmou, mas carregava um tom de questionamento que foi respondido pelo assentir divertido de Cassandra. — Na mitologia Irlandesa, temos Badbh, Morrigan e Macha. As vezes, Dana. — mais uma vez, a morena concordou. — É curiosa a forma como essas Deusas se misturam. Quase como se fossem apenas uma, na maior parte de seu tempo.

— Bem, a magia que corre entre elas é única e a ligação existente no Sagrado Feminino as torna irmãs... — explicou, enquanto os dedos atentos ocupavam-se em trançar o longo cabelo. Há tempos não o prendia. Há tempos não abria mão de seu escudo natural para o rosto. — Segundo as histórias, é claro. — lembrou-se de alertar, assegurando-se de que caminhavam pelo terreno protegido do que era tido como ficção, ainda que carregasse poderosas doses de verdade.

— E na última história que me contou, Macha era contada como “a terceira parte de Morrigan”. — os olhos claros contemplaram a luz que entrava pela janela e cortava, despretensiosamente, os tons mais escurecidos da sala. — Elas são todas uma, como se unidas formassem o mais incrível exército, mas, na verdade, formam uma única mulher, uma única Deusa. — admirou o espaço vazio e Cassandra perguntou a si mesma se Linda contemplava o próprio imaginário. — Uma Deusa, mais forte do que o maior exército de homens.

— Certamente, muito mais bela do que um exército de homens.

— Disso, eu não tenho dúvidas! — a loira permitiu-se o gargalhar enquanto abdicava de sua confortável posição no sofá e se aproximava dos longos cabelos da Bruxa. — Seus cabelos são tão macios. É como se eu estivesse tocando seda, ou algo do tipo. Veja só, ficará lindo se você trançar nessa direção. — uniu poucas mechas, demonstrando o que havia imaginado. — Seu pingente é lindo. — ela tocou a pequena corrente, fazendo com que o colar balançasse.

— É a pétala de uma margarida. — pensando sobre o quão difícil seria explicar todo o processo que envolvia aquele presente tão querido, ela optou por simplificar. — Ganhei há muito tempo. O ouro era novo, mas agora acho apropriado dizermos que ela é de ouro velho. — sorriu, causando uma leve gargalhada na mulher. Em um segundo de ousadia, decidiu por algo que, em outro tempo, julgaria extremamente inapropriado. — Eu quero que fique com ele.

— Oh! Eu não poderia, Cassandra. É seu! — as bochechas claras ganharam um tom avermelhado quando, ignorando a negativa, a morena lhe colocou o colar envolta do pescoço.

— Agora, é seu. — afirmou, sem brechas.

— Eu agradeço muito. — os dedos delicados buscaram a pétala tão bem detalhada. No instante em que o cordão lhe tocou a pele, aqueceu seu peito. Pensando ser bobagem revelar a curiosa sensação, calou. Voltou-se para suas mãos, que pairavam no ar. Cassandra se sentara mais uma vez, retornando à posição em que estava. — Como eu estava dizendo, se trançá-los nessa direção, seu pescoço ficará exposto. Você tem linhas tão belas para mostrar.

— Acredite, eu não deveria mostrar nada de mim. — a frase quase sussurrada saiu em tom de confissão e pareceria, para muitos, como um pedido de desculpas. Chegava perto de ser, na verdade.

Cassandra havia alugado o pequeno quarto que Linda lhe oferecera, mas seria tolice negar que durante todo o tempo em que estava ali, pouco dele havia passado só. A presença da outra mulher se tornou constante ao ponto da ausência lhe causar estranheza. Encontrara uma espécie de amizade inesperada e surpreendente, que lhe abordou de braços abertos. Aceitou o aconchego, mas sabia não poder. A cada dia que permanecia, que se acostumava e permitia a rotina ser criada, ela se colocava em risco. Mais do que isso, colocava Linda em risco.

— Tolice, Cassandra. Não diga isso. — a reprovação veio de forma doce, como se dita a uma criança. — Você tem partes tão belas. Eu não estou falando só do seu rosto... Toda sua sabedoria, todas as coisas que me conta e me ensina. É um crime que não mostre ao mundo partes tão sublimes do seu ser. — inevitavelmente, o olhar simplista encarou as cicatrizes que se espalhavam pelos braços da mulher-bruxa. Cassandra jamais se importou em escondê-las. Aproveitava-se do desgosto causado pela imagem para se afastar das pessoas. No rosto de Linda, ela não viu pavor. Nem mesmo repulsa. — Todas as suas partes são sublimes, para ser honesta. Cada detalhe que a compõe, cada vírgula que dá coesão à sua história. Não se vive moldando a essência para que ela caiba ao mundo, é o mundo quem deve abraçar a essência. É triste que se sinta tão despedaçada, meu bem. É triste, realmente triste, que queira encobrir sua verdade. Principalmente se é ela tão bela ao ponto de merecer a mais sincera contemplação.

— Não é tão bela assim, Linda. — inspirou, buscando no ar a coragem que lhe faltava o peito. Nunca se importou com mentiras ou omissões, mas jamais desejara tanto gritar a verdade. — Muitas coisas aconteceram, muitas coisas inevitáveis e outras que podiam, e deveriam, ter sido evitadas. Embora eu esteja aqui, existe uma parte de mim que morreu quando escolhas foram feitas e quando pessoas foram deixadas para trás. — suas palavras não foram planejas e talvez, por isso, doíam tanto ao sangrar em tamanha veracidade. Não se importou.

— É sobre sua família? — o questionamento feito em tom baixo, quase baixo demais para ser realmente ouvido, carregava cautela.

— Há muito sobre a minha família. — sorriu, sem que a felicidade mostrada em lábios chegasse aos olhos.

— Tenho uma teoria. — a loira arriscou, escondendo a risada travessa, como uma criança que apronta em segredo e depara-se com o momento de revelar os arriscados feitos. — Crio teorias desde que você chegou, na verdade.

— Pois bem, — a Bruxa se acomodou melhor, desistindo das tranças. Agarrou-se firmemente à leveza do ar trazida pela fala da mulher e ali se abrigou. — diga-me sua teoria.

— Abusando dos conhecimentos adquiridos em meus dois anos na faculdade de psicologia, — o indicador foi erguido, servindo de base ao seu monólogo bem planejado. — eu acredito que você sofre de abandono. Talvez não um abandono real, como se alguém tivesse te colocado em uma árvore mágica e lançado para um reino desconhecido. — suspirou, sorrindo. — Um abandono que te impede de retornar, porque é mais ligado ao sentimento e, bem, sentimentos vivem e pulsam por mais tempo do que nós imaginamos.

— Abandono? — a morena perguntou, fingindo achar graça. Tentando convencer a si mesma de que havia pouco sentido no que lhe foi revelado.

— Sim, abandono. Abandono emocional.

— Bem, eu acredito abandono demanda esperança. Não a tenho, há muito.

— Será? — a pergunta era retórica e abria, para Linda, novas abas de reflexão para novas teorias que dali seriam criadas. Ainda assim, permitiu questionar a si mesma. — Existe uma mágoa grande demais em você. — afirmou. A cabeça poiada em uma das mãos mantinha-se imóvel enquanto encarava o rosto falsamente neutro de Cassandra. — Mágoas não valem a pena, Cass. Elas pensam no peito enquanto, sem que percebamos, mata partes importantes de nós.

O silêncio que sucedeu sua fala abriu portas para lembranças que não eram visitadas há muito tempo e por isso, somente por isso, a Bruxa escolheu calar.

Cass? — sorriu ao destacar o detalhe que passara despercebido por Linda enquanto, tão naturalmente, falava.

— É o apelido que eu dei a você em meus pensamentos.

— Você anda pensando muito em mim, não acha? — provocou, despretensiosa. Caminhou até o feixe de sol, permitindo que ele lhe tocasse a pele. Os cabelos castanhos brilharam e as negras tatuagens escureceram. Virou-se, de forma que seu rosto fora tomado pelo tão bem vindo calor.

Não percebeu que Linda gravava cada movimento e detalhe da pintura inesperada que se colocou a sua frente.

— Seria um erro enorme não pensar em você.

Naquela noite, como havia se tornado costume, Cassandra lutou contra o próprio sono. Abrigou-se ao canto mais escuro do quarto, mas que ainda recebia uma boa dose do calor exalado pelo fogo que crepitava na lareira. Linda dormira há muitas horas. A Bruxa sabia que a mulher se preocupava com seu sono e com sua saúde. Era verdade que o tempo ali estava lhe fazendo bem ao ponto da aparência ter recuperado sua real forma, aquela da qual Cassandra quase não se lembrava. Melhoraria ainda mais se ela, por ousaria, permitisse que o sono a tomasse por um instante. Somente um cochilo rápido. No entanto, seria ousar demais. Brincar com o destino, atiçar o perigo. Enrolou mais fortemente a manta grossa entorno do seu corpo.

No fogo, as chamas dançavam em tons quentes. Se olhasse mais profundamente e deixasse sua mente voar para longe, para um tempo antigo, ela podia ouvir os cantos que eram entoados em torno das fogueiras de Beltane, enquanto o povo dançava e se divertia. Noites corriam enquanto, nos bosques, homens e mulheres entregavam seus corpos aos Deuses e contemplavam a magia. As árvores ganhavam cores mais vivas, o céu era do azul mais belo e os animais corriam livres. A natureza vibrava em alegria. Ela, ainda jovem de alma, perguntava-se sobre o futuro. Não o futuro visto por sua mãe, mas aquele que ainda não fora contato. O que havia de guardar a roda do destino? O que, por ventura, a Deusa trançava em suas mãos atentas?

Enquanto viajava por terrenos perdidos, a mente de Cassandra abriu portas para a fumaça negra que há tanto impedira. Enquanto o fogo ganhava brasas fortes e altas, o abraço da escuridão se esgueirava por cantos silenciosos e, com um grito, tomou a Bruxa.

— Irmã.

***

— Ela foi atrás de você. Mais uma vez. — Perpétua concluiu. Embora desejasse saber mais, a dor abrigada no rosto da filha fez com que a mais velha interrompesse.

— Ela fez muito mais do que isso. — suspirou. Os dedos inquietos tamborilavam em busca de um controle que já não podia ser tomado. Havia acontecido, não podia mais voltar atrás. — A amuleto que dei a ela, quando ainda éramos crianças, permitia que ela chamasse por mim aonde quer que eu estivesse e que me encontrasse. Cora queria mais do que isso, ela sempre quer. Obrigou-me a sangrar sobre a pena negra para que ela pudesse invadir minha mente. Eu recuperei a pena antes de retornar, mas não foi o bastante para quebrar o feitiço de sangue.

— Até ontem, quando eu interferi. — a mais velha se aproximou. Em um gesto impensado, mas que guardava muito do que desejava expor, segurou fortemente as mãos da filha. — Ela jamais voltará a roubar seus pensamentos, Cassandra. Tenho certeza que você resistiria bravamente, mas imagino que Cora tenha usado uma poderosa isca para lhe torturar.

— Ela é bem criativa com torturas, diga-se de passagem. — a ironia não foi o bastante para esconder o amargor que residia em seu peito. As mãos mantinham-se protegidas junto ao calor oferecido pela mãe.

— Linda está a salvo? — a preocupação de Perpétua surpreendeu Cassandra, que esperava uma séria reprovação pelas escolhas feitas.

— Sim... Mas não sei optei pelo melhor método. — insegura, confessou o que jurara guardar dentro de si.

— Você fez o que foi preciso.

— Bom dia! — a voz de Regina chamou a atenção das duas mulheres que, como se tivessem sido pegas em flagrante, separaram-se em sobressalto. — Dormiu bem? — afagou o ombro da tia enquanto, como de costume, beijava o rosto da avó.

— Não tão bem quanto eu. — Zelena adentrou a cozinha, abraçando exageradamente o corpo da irmã.

— Tenho certeza que sua mania em se remexer atrapalhou o sono dela. — a morena provocou, mesmo sendo mentira.

— Eu não me remexo!

— Foi a melhor noite de sono que eu tive em muitos anos. Fiquem tranquilas. — Cassandra se apressou em esclarecer, abrandando a preocupação das sobrinhas que, por terem sentido tão profundamente suas dores, relevou-se tão forte. — Aliás... Eu gostaria de me desculpar por ontem. Tenho certeza que foi mais do que perturbador ter sido pega de surpresa por aquilo que deveria ser mantido em mim, somente em mim.

— Não há o que desculpar. — Regina adiantou-se em esclarecer, embora sua mente ainda guardasse fragmentos tortuosos do que sentira.

— Realmente, não há. — a ruiva bagunçou os cabelos da tia, em um gesto que externava a mais intensa relação. Por um instante, Perpétua se perguntou como teriam sido todos os anos passados se Cassandra estivesse junto com elas. Afinal, agiam como se de fato tivesse acontecido assim. Ligaram-se tão profundamente que jamais poderia duvidar da força que as unia.

— Regina, talvez seja prudente conseguirmos uma cama maior para você, já que seu quarto se tornou o quarto de todas. — Perpétua comentou, provocando o revirar de olhos da morena.

— Nem me diga, vovó. Aproveite e derrube o quarto de Zelena, porque ela quase não o usa.

— Certo, pensaremos sobre isso. — a avó gargalhou solto, agradecendo aos Deuses pela agitação tão bem vinda que expulsava qualquer rastro de melancolia. — Agora, sentem-se e tomem o café.

— Depois disso... — Cassandra se colocou de pé, apenas para buscar mais da bebida negra que tanto lhe agradara. — Vocês se importariam de fazer algo comigo? — ela apertou firme o frasco que lhe foi dado pela mãe, guardando-o junto de si.

As três Bruxas caminhavam em silêncio e eram protegidas pela floresta que as rodeava. Havia tanto poder entre elas, que qualquer desavisado que contemplasse com um pingo de crença veria, em seus corpos, a própria Deusa. Zelena, como quando era criança, tocava cada árvore que estivesse ao seu alcance, como se cumprimentasse velhas amigas. Regina era beijada pelas asas de borboletas que dançavam junto ao vento. Sob seus pés, pequenos botões de flores se abriam, semeados pela magia. Em certo ponto, o ar se tornou mais pesado, quase difícil de respirar. O nevoeiro branco que as rodeou revelava que aquele era um local sagrado e poderoso, guardião de mágica antiga e de segredos do passado. As Bruxas pediram licença, mas pararam. As irmãs se mantiveram a um passo de distância da tia, enquanto ela, em um segundo de silêncio, invocava o feitiço necessário.

— Respeitamos o passado e não o corrompemos com o presente. Estamos sobre suas terras, caminhamos sobre histórias, contemplamos a vida e a reconhecemos. Não há interesses, apenas o pedido de que nos proteja em solo sagrado e que receba, como gratidão, a força de nossa magia.

Aos poucos, o espaço se abriu e o ar suavizou. A bruma se dissipou entre árvores e revelou o musgo escuro e esverdeado que cobria cada canto do solo. Sobre grandes pedras e ruínas antigas, a natureza cobria os mínimos pedaços e guardava, em si, o sagrado. Em um canto mais reservado, escondido por grandes folhas de árvores antigas, um singelo poço de tijolos desgastados mantinha-se firme, desafiando as leis do tempo. Dentro dele, a mais límpida água brilhava. Nenhum grão caíra dentro dela, ainda que superfície alguma a cobrisse.

— Em algumas histórias, o poço cuja água se conserva cristalina é uma ligação entre o plano terrestre e o mundo dos espíritos. É chamado de poço sagrado. Beber de sua água é receber uma grande graça e ser tocado pela antiga magia. Aquela que veio antes de todas nós e que se manterá após nosso desencarne. — Cassandra explicou. — Dê-me a licença. — arrancou de um grande galho uma folha curva e encheu-a com água do poço. Bebeu e deu às sobrinhas para que o fizessem. — Esse lugar é protegido, ainda mais do que qualquer outro. Não estamos em Storybrooke, ainda que tenhamos chegado até aqui por caminhos conhecidos. Ter penetrado às brumas é uma bênção concedida pela Deusa. Agradeçam.

Em silêncio, ela se aproximou. Escolhera aquele lugar para invocar a visão desejada, pois sabia que Cora jamais poderia encontrá-las ali. Ninguém jamais poderia. As trilhas que levam ao poço são tão incertas quanto a mais densa floresta em meio à escuridão da noite. Por vezes, confundem-se. As três mulheres se posicionaram em torno do círculo incerto. A lágrima de Perpétua, a lágrima de uma vidente, foi liberta ao vento, até que se juntasse à água do poço. Cassandra ofereceu suas mãos às sobrinhas, que uniram-se a ela como em uma única força. A magia viajou entre mãos e peles, entre sangue e energia. Abrigou-se no ventre daquela que conduzia o feitiço e que sussurrou para o vento o nome desejado.

Linda.

As águas borbulharam, como se o fogo do centro da Terra as fizessem ferver. O vapor mal havia se desprendido, quando foi puxado de volta. Do caos, nasceu a calmaria. Do fundo negro, onde o mistério fazia morada, germinou a clareza que, aos poucos, mostrou-se.

Ali, bem a sua frente, Cassandra via Linda, como no dia em que se conheceram. A jarra de café sempre a mão, servia um ou outro cliente que a chamava pelo nome e que recebia em troca o mais belo dos sorrisos. Linda conhecia a todos e, por um tempo, a Bruxa também conheceu. Ela caminhava entre mesas e cumprimentava com afagos delicados. Cassandra desejou ir até lá e chamar por seu nome, mesmo sabendo que a mulher não a reconheceria. Não mais. Por escolha sua, por um feitiço seu, fora totalmente varrida das memórias de Linda.

No entanto, fora no instante seguinte que as certezas da Bruxa se balançaram. Quando a porta se abriu e o sino, aquele maldito sino, revelou timidamente a chegada de um novo cliente, Linda buscou por alguém que não encontrou. Sorriu, mas não da mesma forma. Enquanto ia para detrás do balcão, inconscientemente, como se por costume antigo, os dedos buscaram afago no singelo pingente que mantinha em seu peito, ainda pendurado no mesmo colar.

O chão faltou para Cassandra.

Durante todos aqueles meses, jurou que Linda jamais lembraria nem mesmo de um fragmento. Tinha certeza de que seu rosto sumira de suas lembranças, tal como tudo o que lhe foi revelado. No entanto, existia a falta. Linda sentia em seu peito um vazio incompreensível e inevitável que causava o descompasse cardíaco a cada vez que o sino da porta avisava uma nova chegada. Só era cessado quando, por hábito, segura firme ao pingente cuja origem não se recordava, mas que jamais tirava de perto, jamais permitia ir. Ainda que não soubesse, ainda que não se lembrasse de nem um pouco, mantinha Cassandra consigo.

— Ela sente sua ausência, mesmo sem saber que você existe. — Zelena concluiu o inesperado, enquanto lágrimas grossas lhe manchavam a face. Por tão ligadas que estavam, ao chorar, ela fez com que todas chorassem. Em silêncio, lacrimejaram em dores distintas.

— É melhor que jamais volte a saber. — Cassandra decidiu, ainda que seu coração se rasgasse na mais cruel das dores. Na pedra grossa que revestia o poço, cortou a pele de seu dedo e, sobre a água límpida, gotejou seu sangue. Em um segundo, selou o feitiço que jamais poderia ser reaberto.

— Nós precisamos voltar. — Regina inspirou fundo, sentindo que algo não estava certo em casa.

Como chegaram até ali, retornaram. Agradecendo pela receptividade, foram embora. Em silêncio, com inúmeros questionamentos rondando a mente. Embora tivesse pressa, Regina escolheu a calma. Sua mão foi segurada pela da irmã e as duas observaram com atenção a tia, que estava mais à frente. Jamais questionaram seriamente os motivos de Cassandra, ou duvidaram do seu passado, mas ao sentir tão fortemente o amor que a preencheu naquele instante, perguntaram-se o que mais havia para ser descoberto sobre aquela mulher que agora era, indiscutivelmente, parte delas.

Ao chegarem à Mansão, Perpétua as aguardava na porta. Os olhos acinzentados e a feição neutra não revelavam nada, nem mesmo davam pistas do que se passava pela mente turbulenta da Senhora.

— Regina, não entre. Há uma visita para você, ela chegará logo.

O aviso dado foi simples, mas preocupante. Todas entraram, apenas Regina aguardou no jardim, que era preenchido pelo cheiro do alecrim jovem. Quando o vento dançou mais forte, trouxe junto a ele aquele cheiro, que ela sentira, mas não acreditara. Com cautela, atenta a cada passo, Emma surgiu em meio às arvores. A morena aguardou, parada em frente à grande porta de madeira. A loira, ao contemplar a enorme Mansão, mal acreditou no que via. Sua expressão era, em palavras simples, a própria descrença.

— Regina. — proferiu, como se precisasse confirmar que aquela mulher era realmente ela e não uma miragem. A morena perguntava-se o que viria a seguir. Não acreditando nos motivos que fizeram com que a avó abrisse os caminhos da floresta para a loira.

Enquanto Emma, naquele instante, chocava-se com a mais inesperada das realidades. Ao ver Regina ali, junto a mais densa natureza, ela percebeu que só então realmente enxergara a mulher. Quase poderia confundi-la como parte da mata que se fechava ao redor.

Agora, conhecia Regina, que era muito mais do que uma bibliotecária. Agora, via Regina, que ia muito além do que ela sequer poderia supor. Agora, contemplava Regina e, sem saber, admirava uma Bruxa.

— Emma.

Notas finais
Como dito no capítulo anterior, esclarecemos um pouco mais sobre o passado de Cassandra. A propósito, galera, a Linda é realmente humana. Não se preocupem com ela. No próximo capítulo tem bastante SwanQueen, não há necessidade de gritarem comigo nos comentários. Um beijo! Twitter: @aloritsor