Notas iniciais
Oi gente. Perdão pela demora. O capítulo já estava planejado há algum tempo, mas eu acabei ficando extremamente desmotivada para qualquer coisa diante de acontecimentos recentes. Agradeço a todos que comentaram o capítulo passado e/ou falaram comigo pelo twitter. Vocês são incríveis. Em especial, eu quero dedicar esse capítulo ao Victor Separovic. Talvez, um dia, você saiba o quanto me motiva a escrever. Gratidão é a palavra. A quem interessar, alguns esclarecimentos estarão presentes nas notais finais. Sem mais delongas, boa leitura.

Durante todo o dia, existe um momento exato em que é possível ouvir com precisão a maioria dos sons da natureza. Não os sons óbvios, não. Os sons que são escondidos pela correria, pela vida urbana e, é claro, pela falta de interesse em ouvi-los. O som que nasce da magia presente em cada raiz, cada grão de terra e folha seca. No centro de uma floresta, há a conexão única entre os quatro elementos que regem a vida. Na água, o fluxo das gotas se unem em grandes cachoeiras, rios e mares. Em dias quentes, a evapotranspiração empresta aos céus gotículas quase imperceptíveis, que serão devolvidas em chuvas de liberdade. Na mágica presente, há dentro desse elemento seres que há muito são contatos como lendas. Seres que durante muitas épocas foram chamados de Ondinas. Escondem-se em riachos, lagos e musgos. Suas formas são tão diversas quanto se pode imaginar. São elas as filhas da água, daquilo que não é visto.

A terra também tem seus elementais. Por vezes tratados como gnomos, duendes e ninfas da terra, eram protagonistas de incríveis histórias contadas em noites longas de inverno. Sua esperteza, força e dom para fazer com que a natureza se curasse. Escondem-se entre árvores, correm junto às flores e fazem morada no mais inusitado galho de alecrim. Observam, de longe, àqueles que pensam não serem observados.

Salamandras são as mães do fogo e, também, suas filhas. Donas do poder invisível, controlam a mágica que os homens acreditam dominar. Sem elas, não haveria luz nem calor. Irritadiças, é verdade. Correm tão rápido quanto o próprio vento. A aproximação traz respostas na mesma medida em que traz prejuízos. É melhor que as deixem em paz, no núcleo do grande geoide. As flamines se arrastam pelo espaço em seus formatos diversificados, influenciam emoções e expandem sua energia para o mundo.

Sócrates revelou muitas coisas à humanidade durante longos anos, uma delas foi que acima da terra, existiam seres vivendo em torno do ar. Raios luminosos que cortam o espaço e o tempo, feixes de luz que carregam em si toda a energia de uma vida. A beleza é clara. Escutam cada sussurro dado ao mundo, enxergam aquilo que escondemos tão bem de todos os outros olhos. Jamais dos deles. Eles são o ar e o ar está em cada lugar que permite sua entrada. Contam há muito uma lenda de que são os responsáveis por revelarem as poesias aos poetas. São eles, que confessam segredos da natureza e fazem a obra se tornar verbal. Sílfides, em toda a sua graça. As fadas, que guardam em si a união de ar e terra.

Quando olhado de perto, o mundo é magia.

Regina não estava tendo o melhor dos seus dias. O chamado sem explicação da avó ainda ecoava por sua mente, lutando junto à inquietude de quem já não mais aguentava viver no escuro. Tolerara por tantos anos aquilo que não cabia à sua compreensão, mas a tarefa se apresentava cada vez mais difícil. A avó via o que não era visto por mais ninguém, o que somente a Deusa sabia e compreendia. Deveria, então, temer Emma? Mas como poderia fazê-lo se sua alma vibrava em uma paz nunca conhecida quando estava perto daquela mulher. E está ai uma coisa para se achar curiosa. Emma ia contra tudo aquilo que Regina acreditava. Ela era, por si só, a definição da descrença. Maniqueísta e cética, a morena já aceitara aquilo. O que deveria mesmo era ficar feliz com isso. Contemplar a ausência de motivos para pânico e para preocupações. Aceitar que a descrença de Emma era o necessário, o essencial e o que elas, Bruxas, precisavam naquele momento.

Mas existia aquela fagulha dentro de si.

A fagulha inquietante de quem desejava defender a verdade.

Continha a enorme vontade de dizer a Emma que sim, a maioria das lendas eram verdadeiras. Bruxas dançavam nuas em torno de fogueiras durante noites de solstício. Fadas, duendes e gnomos escondiam-se em meio às árvores da floresta e provocavam abalos sísmicos. Ninfas moravam em cascas de carvalho e à beira de lagos e riachos. Salamandras traziam energia e calor ao mundo. Sílfides rodeavam o ar. A magia mantinha o mundo ainda que o mundo desconhecesse a magia. Tornava terras mais férteis, curava àqueles que a ciência não conseguia alcançar. Desde muito antes, eram as Bruxas que manipulavam poções e transformavam plantas em poderosos antídotos e remédios nascidos da alquimia sagrada. E sim, Filhas da Deusa, mulheres inocentes foram mortas, queimadas, condenadas por simplesmente existirem.

O ar lhe faltou por um instante.

A biblioteca estava vazia. Geralmente, aqueles eram dias tristes. Regina exalava felicidade quando via pessoas entrando e saindo dali. Nada compensava a alegria de observar livros serem lidos e a surpresa que tomava as expressões diante de reviravoltas ao longo das páginas. Hoje, o dia estava acinzentado, em muitos aspectos. Recolheu-se em sua mesa, não havia muito a ser feito. Decidiu dar a si mesma algumas horas de aventura em um lugar distante. O livro escolhido narrava uma antiga história sobre um pequeno vilarejo, protegido por um forte Rei.

Há muito os católicos já haviam tomado àquelas terras e feito com que todos se tornassem fieis ao Deus Uno. Exceto as mulheres. Elas sabiam que uma força curiosa se mantinha dentro da floresta. Calavam, porque viram muitas das suas serem queimadas em fogueiras públicas. Mantiveram-se assim, até a chegada da peste. Rodas de oração eram feitas, clamores eram gritados aos céus e as pessoas, as mais humildes, não compreendiam porque Deus as castigava tanto. Estaria ele se virando contra os seus? Longe dali, cercada por fortes árvores, impenetráveis pelo exercito, a cabana de uma Bruxa exalava um adorável cheiro de sopa fresca. A peste não a atingira. Por todo o reino, árvores secavam e flores formavam amontoados de morte, mas não no terreno dela. Em sua terra, os alimentos cresciam e as frutas eram colhidas todos os dias. Afastara-se do mal humano quando não mais lhe deram alternativas. Sua solidão era um luxo. Um luxo que lhe foi roubado quando o choro sofrido de uma mulher interrompeu sua conversa com os pássaros. A camponesa que a encarou possuía longos cabelos loiros, mas parecia ter quase a mesma idade da Bruxa. Pedia ajuda, implorava por uma salvação. Sua irmã, de apenas sete anos, estava adoecida. O caos era tamanho que o Rei abandonara o povoado, fechara seu castelo e negara ajuda. Precisava proteger a corte enquanto os pobres morriam na miséria. A Bruxa sabia que aceitar aquilo seria brincar com a ceifadora, seria, em muitos aspectos, dançar com a morte. Mas a menina-mulher a encarava com olhos suplicantes e como ela poderia lhe negar ajuda? As palavras que lhe eram dirigidas guardavam o respeito dos antigos, não havia medo. Não, a Bruxa não viu medo naquele olhar. Viu, na verdade, uma centelha de admiração.

Regina entregou-se a história como uma criança entregue ao mais fantasioso dos contos. Enquanto lia, distraidamente, seu dedo girava ritmado, movendo por uma ligação invisível a colher de seu café. Sua mente estava longe. Seus olhos brilhavam em momentos de coragem, seu peito saltava diante do romance iminente. Seria mesmo um romance? Questionou-se por um instante, sem que seus olhos abandonassem as linhas. Pensou estar enlouquecendo. Como poderia existir um romance tão perigoso entre uma humana e uma Bruxa? O caos estava perto, o medo da descoberta poderia as enlouquecer. A Bruxa estaria colocando tudo em risco. Fechou o livro. Não leria mais.

Sem querer, pensou em Emma. Lutou por ignorar as imagens que lhe vinham à mente, lutou por ignorar a sensação de conforto que lhe abraçava quando estava perto daquela mulher. Emma era descrente, absurdamente descrente, mas a bibliotecária via admiração em seus olhos quando as histórias lhe eram contatas. Acreditar é algo tão importante. Seja lá no que for, a crença nos permite a esperança. Se Emma não acreditava, teria ela perdido a esperança? O coração de Regina se revirou em um aperto que roubou dela um suspiro pesado. Estava tomando as decisões erradas, sabia disso. Lembrou-se do que lhe foi dito pela tia e por um instante, permitiu-se acreditar que não havia mal em sentir. Perdoou a si mesma pelo descompasso cardíaco causado por aquele olhar esverdeado, pelo desejo de provocar o rubor que tão facilmente tomava o rosto claro. Havia, realmente, alguma culpa? Era uma Filha da Deusa. Seus instintos regiam suas vontades e era certo que eles, selvagemente, remexiam-se.

Sorriu ao ouvir os passos que eram cuidadosamente dados atrás de si. Não precisava se virar para saber que era ela. Logo ela e logo agora. O cheiro lhe invadiu as narinas e seus olhos se fecharam por um instante em contemplação silenciosa. Suplicou à Grande Mãe que lhe enviasse orientações, pois estava perdida, essa era a verdade.

— Esse livro é ótimo. — a frase dita em um tom mais alto tinha o intuito de surpreender Regina. Não o fizera, mas ela guardou isso para si. Arregalou seus olhos, girando a cadeira para encarar o rosto de Emma.

— Céus! Você me deu um enorme susto! Ninguém lhe ensinou a bater antes de entrar? — a reprovação dada trouxe consigo o falso semblante estressado que fazia saltar a veia em sua testa.

— A porta estava aberta. — apontou distraidamente para o grande portal que dava acesso ao primeiro salão da biblioteca.

— Bem... Isso não justifica. — os cabelos negros foram jogados para trás, por puro hábito. Voltou sua atenção para o livro que minutos atrás a levara para uma viagem mais profunda do que o esperado. — A história não é das piores. A Bruxa acabará se metendo em problemas por ajudar aquela mulher. — confessou, sem nem ao menos se dar conta.

— Ela se apaixona pela mulher. — o rosto de Emma foi apoiado em uma das mãos e ela se aproximou do longo balcão. Quando falou, seu tom era mais baixo, como se confidenciasse um segredo. — Certamente, a mulher já estava apaixonada por ela. — roubou a fala de Regina, por um instante. Não se deu conta disso. Distraidamente, prosseguiu em seu monólogo. — Histórias assim sempre me incomodam muito. Tantas pessoas foram mortas naquelas fogueiras e é um absurdo, elas foram mortas por nada. Mortas por fanáticos doentios. — uma centelha de esperança se acendeu em Regina, provocando a fagulha. Aquela fagulha. — Condenadas como Bruxas... É absurdo, para dizer o mínimo. Não é possível que eles realmente acreditassem na existência em magia. Não percebiam que a maioria dos males era, em grande parte, causada por suas próprias ignorâncias? Estamos falando de séculos atrás, o mundo era outro, de fato, mas ainda assim... Mesmo hoje, as pessoas ainda levam isso a sério. Tudo isso me parece surreal demais e pensar que algumas pessoas realmente acreditam é absurdo.

A morena suspirou, mas seu ser ardia. Se naquele momento, Regina Mills estivesse em sua pura forma felina, ela atacaria por instinto. Suas mãos agarravam com força a madeira rígida, os seus olhos se fecharam em busca da calma que era necessária. A faísca crescera e queimava. Quando falou, seu tom trazia uma seriedade que escondia mágoas.

— As pessoas acreditam em muitos absurdos, Emma. O tempo todo. Dizem defender um Deus punitivo em busca da liberdade para a alma e condenam aqueles que são, ou deveriam ser, seus iguais. Colocam o ódio à frente do amor e nem ao menos se sentem culpados por isso. Se estivermos falando de coisas surreais demais para a sua mente cética, trabalhemos então com a realidade crua. Homens matando por puro prazer e sem nem ao menos saberem o real motivo que os leva a isso. Pessoas que lutam por seus direitos sendo massacradas, executadas, apagadas e silenciadas enquanto um enorme público bate palmas para o horror e se acha evoluído por justificar o injustificável. Cegando a justiça com suas próprias mãos, eles assinam contratos de paz com sangue. Esse é o mundo em que nós vivemos. As pessoas acreditam nisso, as pessoas acreditam em muitas coisas. Dentre essas coisas, muito absurdos. — os seus dedos tamborilavam em um ritmo único e calmo, como se contassem segundos sem pressa. O olhar castanho ganhara um tom amarelado, quase imperceptível. — Nós pensamos que muitos acontecimentos ficaram no passado, mas a inquisição não acaba quando se fecha um livro sobre Idade Média. Só porque não acendem fogueiras, não significa que pararam de queimar vidas. Sinceramente, dentre todos esses problemas, magia deveria ser a menor das suas preocupações.

— Regina, eu...

Antes que Emma pudesse responder, Regina se colocou de pé. Já não mais ouvia nada ao seu redor, quase não era capaz de enxergar. Seu interior se revirava em dor e caos. O grito que ouvira não alertara a cidade, mas vibrara em seu sangue. Quando, com certa dificuldade, chegou às portas, Zelena já estava ali. Sua expressão calma escondia de muitos a preocupação, mas não de Regina. A morena lia seus traços, seus gestos e, por muitas vezes, a sua alma. Bastou um olhar para que o esclarecimento fosse feito.

— Eu preciso ir. — informou. Sentia a preocupação de Emma, mas não poderia ficar. Nem mesmo Zelena, que era sempre tão atenciosa, importou-se com explicações.

— Está tudo bem? É algo com a sua avó? — as perguntas corridas atropelavam-se enquanto a loira tentava entender a curiosa interrupção.

— Não se preocupe, Emma. Está tudo bem. Inclusive, faça-me um favor. A Senhorita Kathryn voltará para cá em três minutos, ela nunca se atrasa. Entregue estas chaves a ela e peça que feche a biblioteca.

Em um instante, como se o tempo tivesse sido acelerado por um assopro do destino, elas partiram. Emma ainda permanecia parada no mesmo lugar enquanto observava o carro desaparecer pelas ruas, em direção à floresta. Dentro dele, Regina questionava-se sobre o que estava acontecendo em sua casa, mas, ainda assim, uma parte de si mantinha-se inquieta pelo que acontecera na biblioteca. A descrença de Emma lhe cortou o peito, mas, ao sangrar tão puramente nas palavras ditas, ela pode enxergar, no olhar esmeralda, a admiração. Enxergara outra coisa, mas, nesta, custava a acreditar. Embora ela tivesse certeza e não pudesse duvidar dos seus instintos, existia um vislumbre de esperança no infinito esverdeado de Emma Swan.

O carro foi parado a alguns metros da Mansão, porque somente os pés junto ao solo responderiam ao desejo de chegada das Bruxas. Ao tocarem a natureza, ela as tocou de volta. Perceberam o caos inesperado, a inexistência de explicações. Algo havia acontecido, algo perturbara as árvores e o vento. Os raios que rasgavam o céu e traziam consigo uma tempestade sem avisos apontavam a dona das lágrimas em gotas de chuva. Cassandra.

Só quando cruzaram, em passos rápidos, o corredor principal e finalmente adentraram a sala de estar, um suspiro de alívio foi dado e a pressa abriu caminho para a compreensão. Ainda sobre o tapete, Cassandra adormecia nos braços de Perpétua, que cantarolava sem cessar um desconhecido mantra. A paz tomava cada canto do cômodo antigo, impregnando-se nas frestas do piso de madeira. Não haveria espaço para o ódio, não ali. Não sobre os olhos atentos da Senhora.

— O que fazem aqui, minhas meninas? — a pergunta era sincera, embora ela desconfiasse do motivo. Era certo que as Bruxas poderiam ter sentido as mudanças no clima, mas seus rostos carregavam o pavor.

— Nós sentimos. — Zelena se acomodou ao lado da avó, sendo acompanhada de Regina. Sua mão buscou a de Cassandra, cujos longos dedos se acomodaram no conforto oferecido. — Eu ouvi os gritos dentro da mente dela... Nunca havia ouvido a mente dela.

— Eu senti a dor... O caos. — Regina tocou a testa da tia, que permanecia em um estado de semiconsciência. Ouvia, ao longe, tudo o que era dito. — Senti o medo tomar cada parte do corpo dela.

— Não... Não pode ser. — os sussurros de Perpétua eram voltados para si mesma, mas ela lidava com questionamentos ainda maiores. Optou pelo esclarecimento. Devia a elas o esclarecimento. — Quando os clãs ainda prevaleciam, as Bruxas eram ligadas pelo sangue e, pelo sangue, sentiam como apenas uma. Há muito, esse dom foi perdido. Talvez retirado de nós pela Deusa... Abdicamos à nossa própria união. Bruxas, mulheres... Nós nos segregamos. Carregávamos o mesmo sangue, mas não mais tínhamos o elo que nos ligava como uma força única. Mas vocês sentiram Cassandra, como apenas uma. — concluiu, encarando os rostos que estavam a sua frente. — Ela voltou para casa, ela voltou para a família, ela voltou para o seu clã. Vocês a aceitaram. Sem medo, sem julgamentos, sem indiferença, a trataram como igual. Cassandra, tia, mãe, irmã, Bruxa... Deusa.

— Isso não é possível. — a rouquidão de Cassandra chamou a atenção das três mulheres. Ela se virou, mas com cuidado. Permaneceu delicadamente deitada nos braços da mãe, aceitando a proteção dada por eles. — Sempre tivemos o mesmo sangue, isso nunca aconteceu. Há séculos, isso nunca aconteceu.

— Sempre tivemos o mesmo sangue, Cassandra, mas há quanto tempo deixamos de ser uma família? — Perpétua perguntou à filha, mas questionou a si mesma. Em silêncio, agradeceu à Deusa por aquele sinal. Era ele o sinal pelo qual pedira há tanto tempo e que, talvez, estivesse sendo cega demais para entender.

— Vocês... Vocês sentiram o que eu senti, vocês sentiram a minha dor? Eu não consigo acreditar. — a mulher se sentou. O corpo magro parecia ainda mais frágil, mas sua alma carregava a força de uma guerreira. Os olhos avermelhados pelo pranto doloroso ainda contavam fragmentos do que não seria esquecido. Agora, as lágrimas que caiam deles não eram, nem de longe, causadas pela tristeza. — Mesmo quando eu gritei... Por todas as vezes que eu supliquei por ajuda. — os olhos caíram sobre as cicatrizes que se espalhavam por seus braços. — Ninguém nunca sentiu a minha dor.

— Nós sentimos. Nós estamos aqui. — Zelena não calculou a força quando, em impulso, tomou a tia em seus braços.

— Você não está mais sozinha. — Regina lhe segurou a mão, apertando-a em um pacto silencioso.

Cassandra chorava e não se envergonhava das lágrimas que marcavam seu rosto. Estava assustada, era verdade. Desconhecia, há muito, a segurança do acolhimento. Por vezes caiu sem ter um colo que a segurasse, por vezes falhou sem receber palavras de consolo. As duas sobrinhas a acolhiam agora. A mãe lhe tocava as costas em um carinho contido de quem tinha certo medo em cruzar as linhas bem colocadas. Ah... se Perpétua soubesse que o maior desejo de Cassandra era extinguir essas linhas. Se soubesse que há muito aquela Bruxa cansara de lutar sozinha e pedia à Deusa pelo repouso nos braços da Senhora. Cassandra era uma órfã do amor e são esses os que mais sofrem. Ao ser acolhida, desacreditou, mas a crença, insistente como só ela, abriu as portas logo em seguida e deu passagem à esperança. Uma esperança que, há muito tempo, ela não sentia.

Em um momento exato do dia, quando o céu ainda dividia espaço com o fim da noite e os pássaros, pouco a pouco, despertavam para o amanhecer, Cassandra ouviu um chamado já conhecido. Conhecido, mas que há tempos não era feito. O chamado nada mais era que um som delicado que poderia — e seria — ignorado por muitos. Não por ela. Abriu seus olhos, que outrora tentavam descansar. A inquietude espantava o sono com o qual lutou por dias. Caminhou descalça pela casa, mesmo tendo a certeza de que a mãe saberia de sua saída. Não se importou. Sentiu a umidade do gramado molhar a pele quando os pés desbravaram o verde. Adentrou a floresta que seria pavorosa para qualquer desconhecido. A Bruxa tinha certeza do caminho que seguia. Sabia, com exatidão, a trilha que a levaria até seu destino.

Após andar por alguns minutos, pois negara a pressa, ela chegou a um campo mais aberto, onde a copa das árvores abria espaço para a luz que beijava a face de sublimes flores. O cheiro adocicado invadia o ar e viajava junto ao vento para longe dali. Ela encontrou, em um canto mais escondido, a entrada que procurava. Abaixou-se, tomando cuidado com o vestido leve que era, unicamente, o que a separava da nudez. Os transparentes fios d’água que desciam pelas paredes rochosas, encontravam-se no centro da gruta, como se fosse ele o centro do mundo. Formavam ali, ingenuamente, um paraíso líquido, brindando à vida com a beleza que somente a natureza poderia pintar. Do outro lado, uma pequena pétala branca guardava em si o líquido que, Cassandra sabia, daria sentido àquele chamado. Retirou seu vestido, deixando-o em um canto seco. A frieza da água acordou sua pele, pouco a pouco. Atravessou o pequeno lago, até a pedra que lhe aguardava. Ergueu o pequeno receptáculo, deixando que a singela gota pousasse em sua língua, sendo recebida de bom grado. Ao lado da pétala, fora colocada, também, uma delicada margarida branca.

A Bruxa segurou a flor com cuidado, assoprando-a no vento. Como se feita de luz e apenas luz, ela se fragmentou, formando um feixe que correu por todos os cantos, iluminando tudo aquilo que era escuridão. Concentrou-se bem à frente de Cassandra, sobre uma rocha arredondada. O feixe luminoso tomou formas, muitas formas, e cresceu até que uma mulher estivesse ali. A pele negra que se formou ainda carregava resquícios do brilho que há pouco era tudo. Longas asas douradas batiam atrás de si, adaptando-se ao novo molde, o ser sorriu.

Cassandra.— o tom melodioso poderia ser ouvido como uma música e era tão baixo quanto o sussurro do vento.

— Bellizzia. — a Bruxa abaixou sua cabeça por um instante, como em uma reverência. Há tanto não via aquele rosto que por vezes lhe trouxe paz. — Obriga-me a molhar a pele, mas nega-se a molhar suas belas asas?

Vejo que não tens problema em umedecer as tuas. — indicou as tatuagens de Cassandra, que brilhavam pelas gotas deixadas.

— Houve um tempo em que eu compreendia suas palavras em qualquer língua, em qualquer espaço. Agora, você me deixa gotas de compreensão, como se fosse eu uma ignorante. — a morena suspirou, sabendo que a repreensão voltaria para si como em um reflexo. Aquilo era, também, culpa sua. — Por que me deixara sozinha por tanto tempo, Bellizzia?

Não poderia deixar-te. Jamais poderia, minha menina. Foram escolhas tuas que formaram mãos enegrecidas e fecharam às portas da nossa união. Por vezes, tentei cruzar os planos e chegar a ti, mas uma mancha negra me impedia. — a fada se aproximou, chegando mais perto da borda. Suas mãos seguravam firmemente a rocha como se fosse, e poderiam ser, uma só. — Sei que foi ela. Foi ela. Impedia-me de chegar ao seu espírito, pois sabia que eu lhe contaria o que precisa ser dito. Somente há pouco, quando sua Mãe Bruxa expulsou-a, as portas foram reabertas e meu canto chegou aos teus ouvidos. Ouça-me, portanto, pois é de um risco enorme permanecermos aqui. Não estamos seguras, minha Cassandra. Não estamos. Nenhum de nós. Aquela que um dia foi sua irmã, tomou para si o poder de muitos elementais. Não sabemos como fez isso. Nem mesmo as filhas do fogo conseguiram escapar. Ela não está longe.

— Sei que Cora está por perto. Ela tenta, há anos, mas não consegue penetrar o feitiço de sangue. Mamãe renegou sua origem, condenou sua existência. Enquanto ela estiver aqui, Cora não entrará. — declarou, tentando convencer a si mesma.

Ela virá. Nós lutaremos ao lado das Filhas da Deusa. Sabes bem, não há como fugir do destino. A roda gira atrás de nós e extingue os que pensam poder fugir dela. — a fada calou, por um instante. Seus olhos se tornaram dourados como ouro puro. Quando falou, Cassandra sabia que era mais do que um aviso, era uma profecia. — Eram três e hoje são uma. Eram três e hoje o legado corre manchado por sangue de iguais. Eram três. A primeira vive à sombra de uma maldição, a segunda foi corrompida pelo fogo, a terceira guarda o peso da traição. Eram três e ainda serão três. Serão três e se tornarão uma.

— Bellizzia? — chamou, movendo-se com cuidado e causando pequenas ondas que dançaram em reflexos pela parede da gruta.

O desejo de Cassandra era questionar mais a fundo o que acabara de ouvir, mas sabia ser tolice. Bellizzia apenas falava, mas, por muitas vezes, não sabia. Daquela vez, a profecia veio acompanhada de um aviso.

Não há tempo, doce menina. Não há. Una-se a elas, una-se àquelas que são suas iguais. Um clã de Bruxas unido é infinitamente mais forte do que o mais poderoso dos exércitos. A separação é a única coisa que pode lhes destruir. — pela primeira vez, a mão de Bellizzia abandonou a rocha e se esticou. Cassandra aceitou o gesto, segurando-a junto a sua. Um aperto forte que guardava toda uma história.

— Voltaremos a nos ver antes que mais meio século se passe? — sabia que aquela era uma despedida. Já passara por muitas.

Nem mesmo a mais negra força fará com que eu deixe seu espírito outra vez. — prometeu, dando toda a certeza às suas palavras. — Permita-se voar, Cassandra.

— Que a luz te guie, Bellizzia.

Quando as asas douradas voltaram a bater, o clarão que se espalhou pela gruta tornou-a, por um instante, branca. O mais puro dos tons. Cassandra retornou à Mansão, em silêncio. O trajeto fora feito com cuidado e com calma. Seus pensamentos trabalhavam. Desta vez, dando prioridade à delicadeza, mais do que à pressa. Guardara muito medo dentro de si, durante longos anos. Agora, não o sentia mais. A casa estava silenciosa, mas sabia que aquilo pouco significava. Bruxas nunca dormem, não completamente. É preciso mais do que isso para desligá-las do que se passa.

— Zelena. — a sobrinha caminhava com cuidado pelo corredor. Não se assustou ao ouvir a voz da tia. Já havia sentido a presença dela por ali.

— Eu ia mesmo te chamar. — confessou, mesmo sendo uma mentira. Sabia que Cassandra não estava na Mansão. — Sei que saiu. Não é da minha conta se você não quiser que seja.

— Talvez amanhã, não hoje. Eu estou cansada e, curiosamente, com esperanças de conseguir dormir.

— Certo, certo. Mas não ai. Venha comigo. — como se fizessem aquilo todos os dias, durante anos, Zelena segurou sua mão e a guiou pelo corredor, até a porta de Regina. Abriu-a, sem bater. Como sempre.

— Ah Zelena, você já estava demorando. Pensei que teria a graça de dormir em paz esta noite. — a reprovação de Regina fez com que Cassandra, sem perceber, sorrisse.

— Não seja mal educada. — a ruiva chamou a atenção da irmã que, em meio à sua sonolência, só então se deu conta da presença da tia.

Embora Cassandra estivesse assustada com tudo aquilo, não recuou quando, em um gesto mais do que carinhoso, Regina chegou para o lado e permitiu que ela se deitasse no meio. Não sabia bem como fazer aquilo. Estava acostumada com a raiva, o ódio, a inquietude e tudo o que lhe roubava a calmaria, mas pouco sabia sobre como lidar com amor. Desaprendeu e fora obrigada a desaprender. No entanto, quando as duas sobrinhas se aconchegaram ao seu redor e, bem baixo, sussurraram um acolhedor mantra, ela se sentiu em casa. Ignorou seu estranhamento e aceitou o sono como um bom amigo.

Após anos, Cassandra adormeceu sem que nenhum pesadelo a acordasse.

Notas finais
Há uma possibilidade do próximo capítulo ser sobre o passado da Cassandra. O nome da fada, Bellizzia, é originado de Bellis que denomina o gênero das margaridas, cuja espécie é Bellis perennis. Eu espero que vocês tenham gostado. Essa postura mais rígida da Regina a respeito da Emma foi intencional. Lembrem-se de que essa história é sobre Bruxas mais do que sobre qualquer casal. Eu me nego a limitar todo o planejamento de enredo à SwanQueen. Eu realmente me nego. Não importa quantas mensagens desrespeitosas me enviem. É isto, pessoal. Twitter: @aloritsor