Notas iniciais
Dando uma surra em todos os que dizem que eu só atualizo uma vez por ano, cá estou. Um agradecimento especial a Olivia que recomendou a fanfic e me deixou toda bestinha querendo voltar. Gente, eu to trabalhando numa livraria me sentindo a própria Regina Mills, só me falta a transmutação e a belezaaaaaaaa

Energia.

Os seres humanos levaram anos e anos para compreender o mínimo que lhes era necessário à vida. E no entanto, ela pulsava em suas diversas formas. Todos os nomes e complementos usados nem de longe correspondem as suas facetas múltiplas e mutáveis. Talvez, Tales de Mileto tenha sentido o poder de seu vislumbre ao esfregar o âmbar e a lã¹. E ainda assim, ele pensou que água ― e apenas ela ― teria dado origem a todo o universo.

Magia é energia.

Cada gota de sua força que corre todos os cantos da existência vibra em pura energia multifacetada. A energia que alimenta plantas e se transforma à terra, a energia que fluí pelas águas e cada partícula de ar. A energia que nasce no útero da Grande Mãe ― transformadora e eterna ― faz morada no ventre de cada mulher. E talvez, Tales não tenha errado por completo em sua constatação iniludível: há vida em cada gota de água, pois é ela o sangue divino que alimenta a Terra.

Bruxas são, em cruas palavras, seres capazes de armazenar uma dose a mais de tamanho poder. Abençoadas ― todas elas ― por sua Mãe Eterna. Nascem do ventre detentor de toda glória, burlam as barreiras do tempo mundano, cruzam o espaço limitado de compreensões e ascendem ao Divino.

Cada ser vibra em uma frequência energética e essas frequências se unem, conversam e se afastam de infinitas formas. Não é errado dizer, portanto, que a frequência em que se vibra tem o poder de atrair outras similares, assim como o de afastar aquelas que se diferem. A primeira parte do ser que toca o outro é a energia, o rastro de essência. Quando se estabelece, portanto, uma conexão tão profunda e intensa, o contato extraordinário do sumo desejo de estar, o ser armazena, dentro de sua própria frequência, uma assinatura do outro que jamais será apagada. Nem mesmo pela insistente labuta do tempo.

Emma mal recordava do caminho feito até seu quarto. Caso precisasse descrever, não saberia como ou quando deixou o bar para trás, qual a rua tomada para chegar até à pensão ou se a porta estava aberta ou não. O corpo caiu pesado contra o colchão antigo, a mente vibrando pelo som imparável do bater frenético de seu coração. Ao fechar os olhos, tudo o que via era castanho-dourado. Se forçasse as pálpebras por mais um instante, conseguia revisitar a lembrança decorada dos rastros avermelhados que deixara pelo corpo da outra. A boca rosada pela fricção insaciável.

Levou os dedos até os lábios e contornou as linhas.

Sentia-a tão vívida dentro de si que jurava poder conjurá-la ali mesmo. Se mantivesse os olhos fechados, se jamais os abrisse novamente, não se separariam.

Mas ela havia se afastado, não Regina. ― a mente inquieta ricocheteou seu apelo pela presença.

E embora sentisse falta da outra, embora o arrependimento tivesse vindo em velozes galopes, não puniria pela decisão tomada. Escolheu ir embora, sim, mas escolhera muito mais para além disso. Escolhera prolongar a tortura cruel e deliciosa estabelecida entre elas. Escolheu a permanência ao invés do toque rápido. Cruel mesmo seria se permitir afogar de uma única vez. Pressentia, tão certo quanto a escuridão que se espalhava pelo céu, a sombra silenciosa da perda de Regina. Mal podia imaginar tê-la para si, mas o simples vislumbre de sua ausência a fazia temer demais.

Sorria ao lembrar do pânico espalhado pelo rosto da outra. O inefável existente em cada traço de descrença ao observar o afastar.

Emma gargalhou, virando-se entre as cobertas esticadas.

Regina a mataria, com certeza. Sabia exatamente o olhar que receberia. Seria aquele olhar devorador de espaços. O olhar que lhe roubava cada molécula de oxigênio e prendia o ar em sua garganta. O olhar que lhe esquentava o rosto em um milésimo de segundo e espalhava um aperto nervoso por cada músculo do corpo. O olhar que a faria arfar silenciosamente e ansiar por ser, sim, devorada.

Deixou que os dedos ansiosos corressem pela curva de sua mandíbula e sentiu ― realmente sentiu ― os lábios quentes ainda a tocarem. Podia reconhecer a presença de Regina por cada parte de si. Os lábios, as mãos, o corpo faminto pressionado contra o seu, embebedava-se ansioso do néctar provocado. E sua presença, tão forte quanto o próprio tempo, preenchia todo o espaço. Em silêncio, permitiu que a energia vívida em cada célula se espalhasse por lugares que Regina não tocou, mas cuja singela imagem lhe roubava o mais honesto arquejar.

E na Mansão Mills, do outro lado da floresta, Regina sorriu ao sentir o clamor.

Emma mal tinha consciência dos próprios movimentos. Deixava que as mãos passeassem, direcionadas pela fome insaciável e incompreendida. A escuridão das pálpebras fechadas se iluminava pela presença imaginada da outra mulher, sendo ela a bússola do prazer pretendido. Não pensou ao desabotoar a blusa ou quando apertou avidamente os seios cobertos pela renda preta, nem mesmo quando o limite imposto pelo cós da calça foi burlado e a virilha desbravada.

A Bruxa caminhou pelo quarto, libertando-se das peças que vestia e a separavam da nudez. Regina sentia em sua própria pele as mãos da loira ― que tocava a si mesma, tão longe dali. Mas não existia espaço capaz de separá-las agora. O que as ligava, mais forte do que qualquer barreira física, era o laço da magia, vibrando intensa ao ser alimentada pelo querer. Regina sentiu suas pernas falharem. O desejo que a devorava também a fazia sorrir em deleite puro, pois sabia que Emma caminhava ― passo a passo ― à beira da rendição. Livre de pudores, a Bruxa sabia o que a outra mulher ansiava. Deitou-se em seus lençóis resfriados pela brisa que entrava pela janela aberta, iluminada pela tímida luz da Crescente. Embora jamais tivesse, de fato, vivenciado um laço tão vívido, a morena não se assustou ou recuou. Deixou que os dedos corressem pela coxa, caminhando ao centro de seu desejo insano. O gemido sôfrego que lhe abandonou os lábios nem de longe expunha uma dose de vontade que a consumia.

E ao ápice de sua fome, afundou-se no próprio líquido quente e sentiu, no mesmo instante, o corpo de Emma se curvar.

Nem o mais extenso vocabulário seria capaz de explicar a sensação insaciável que atravessara o corpo da mulher, curvando-se vorazmente contra a própria mão. Emma não se deu conta de quando cravou as unhas contra a fina pele da barriga, arrastando-se pelo desejo de mais e mais. A cada movimento de seus dedos, a cada vez que se oferecia o além, ela jurava sentir o calor de Regina, como se a outra a tocasse em seu lugar. Naquele instante, ela não duvidou da conexão inexplicável ou do que vivenciava, nem mesmo poderia. Sua consciência caminhava, agora, a margem da existência, dando espaço ao que seria ― em qualquer outro tempo ― impossível. Mas ao sentir o mais honesto derramar de seu corpo, ao permitir o gozar intenso da verdadeira vontade, ela mergulhou.

E só então, arfando e completamente sem ar, permitiu-se o abrir das pálpebras.

Mas ela via os olhos castanhos.

Afundando-se no deleite de seu orgasmo, Regina relaxou, abraçando o travesseiro macio contra a pele acalorada.

A Bruxa sorriu.

***

As manhãs guardam dentro de si uma centelha de esperança que nos passa sorrateira e despercebida. A chegada de um novo dia, um pequeno recomeço, uma nova oportunidade de descobertas. Antes que a monotonia roube de nós as particularidades do inesperado, é sempre nos primeiros minutos do amanhecer que nos redescobrimos e tomamos ciência do mundo abandonado por nosso espírito durante o curto prazo de uma noite.

Regina ergueu os braços, espreguiçando-se enquanto afastava os rastros de sonhos do corpo desperto. Sonhara com belos olhos verdes, lábios borrados e marcas vermelhas por seu corpo. Lembrava-se também de um sussurrar pecaminoso em seu ouvido e da fumaça escurecida pelo desejo. Não costumava ser uma pessoa matutina, mas a felicidade pintava seus traços naquela manhã atípica. Ela tomou um longo banho e perdeu alguns minutos escolhendo o que vestir. Gostava de estar bela, mas não se lembrava de ter tido esforço em orquestrar a própria aparência. E no entanto, naquela manhã, queria estar. Queria estar mais do que bela. Queria, finalmente, sentir dentro de si cada centelha de beleza que diziam nela enxergar. Por isso, espalhou algumas pétalas de rosa vermelha na banheira e não se importou em exagerar um pouco na essência de banho. Crepitava dentro de si a mais deliciosa chama alimentada pela conquista, o desejo de ter para si o que ambicionava tanto. Depois de tantos anos e de tantos amores, Regina finalmente se importou em conferir a cartas de seu baralho antes de se sentar para jogar.

― Tranquem seus maridos dentro de casa: uma bruxa está solta e pronta para matar. ― a voz de Zelena rompeu o silêncio confortável e Regina a encarou pelo reflexo do espelho enquanto penteava os cabelos.

― Eu não pretendo roubar o marido de ninguém. ― a morena deu de ombros, pensando por um instante. ― Ou a esposa.

― Reformulando... ― ela limpou a garganta, erguendo a voz em um tom. ― Tranquem todas as loiras de olhos verdes, de mais ou menos 1,70m com uma belíssima bunda e que se chamem Emma Swan.

― Não fale isso perto de Granny. Ela é realmente capaz de trancar Emma na pensão.

― Nada que o pulo de uma gata pela janela não resolva. ― a ruiva bufou. ― Então... ― os dedos ansiosos tamborilaram contra a penteadeira enquanto furtivamente se colocava à frente da irmã. ― Tenho certeza de que Leo’s teve um baita prejuízo ontem com todas aquelas garrafas explodindo. Sem contar a jukebox, os vidros rachados, os espelhos...

― Eu não sei do que você está falando. ― a morena cantarolou, mal podendo esconder o sorriso voluptuoso que despontava no canto de seus lábios.

― Regina, eu sei que já te contei esse segredo há alguns anos, mas, vamos lá: eu leio mentes. Isso significa que eu sei muito bem o que você fez na noite passada. ― aproximou-se, como se estivesse prestes a confidenciar um segredo. ― Mas quero saber como foi! Qual é, eu estou sendo expectadora desse drama desde o começo. Vai contra às leis da Deusa me negar informações.

― Ah, Zelena. Por favor. ― Regina se preparou para negar e deixar a irmã para trás. Mas há quem estava querendo enganar, afinal? Queria, absurdamente, falar sobre cada instante passado. Queria reviver de novo e mais uma vez a lembrança divina do beijo ganhado, pois assim poderia perpetuá-la. ― Foi incrível. Muito mais do que eu poderia imaginar, realmente. Entenda... Eu sinto que não importa o quanto fale ou o quanto explique. Eu já estive com outras pessoas, eu já desejei antes, mas não como agora. Pensei que beijá-la poderia acalentar um terço do querer, mas não cheguei nem perto disso. Sinto agora que a quero mais do que ontem. Mais do que imaginei poder.

― Você irá até ela hoje? ― a ruiva sentiu uma barreira sendo imposta à mente da irmã. ― O qu- O que? Eu não estava vasculhando a sua mente. Ah! ― os olhos se arregalaram pela constatação. ― Aconteceu alguma coisa! Alguma coisa que você não quer que eu saiba. Pela Deusa! Diga agora!

― Não é da sua conta, Zelena. Aprenda a lidar com isso. É assim que a maioria das pessoas vive, sem xeretar na mente uma das outras. ― a morena deu de ombros, levantando-se e seguindo pela escada que levaria a cozinha. O cheiro de café fresco anunciava, mais do que os pássaros, o iniciar do dia.

― A maioria delas também não vira um gato, Regina. Você precisa me contar o que aconteceu. Se for algo absurdo e proibido, como poderei te defender sem saber? ― apelou à proteção tão valiosa entre elas.

― Não é nada proibido, embora tenha sido um pouco absurdo. Um ótimo absurdo. ― suspirou. Odiava ter de admitir que a resistência de Emma acordou um lado desconhecido de sua alma. Jamais havia sido negada ou deixada. Esse era o seu papel. ― Estou apenas... Inconformada. Não irei até Emma, ela virá até mim.

― Eu consigo entender agora... ― a boca rosada se abriu em surpresa ao unir fragmentos da noite anterior. ― Eu consigo entender! Regina Mills foi parada por alguém! Um espírito transgressor a esse ponto! Veja só, deveríamos refazer aquele teste de magia em Emma, tenho certeza que ela possuí poderes obscuros que permitem parar uma devoradora voraz! Ela não te deu tudo o que você queria!

― Não seja tola. Isso não faz o menor sentido. ― a morena bufou, irritada. O verbalizar das lembranças avivava sua própria incompreensão do fato em si.

― Não faz mesmo! Você deve estar tão furiosa. E ao mesmo tempo, imagino, deve ser incrível! ― recostou-se contra a parede do corredor, sussurrando como se revelasse um profundo segredo, mas a morena continuou andando em direção as escadas. ― Ela a quer tanto, tanto. Sinceramente, não consigo imaginar o que motivou Emma a isso. A não ser... ― Regina parou, virando-se.

― A não ser...?

― Está interessada agora, querida? Gostaria de saber o que vi passar pela mente de Emma? Pois fique sabendo que não contarei. ― ela sorriu, passando pela irmã enquanto sustentava o mais travesso dos olhares. ― Sabe, Regina, eu não posso te contar o que vi nos pensamentos dela. Não é justo. E além do mais... É assim que a maioria das pessoas vive: sem xeretar na mente uma das outras.

― Mas eu preciso saber. ― a morena recuou de irritação e a suplica em sua face se mostrou honesta. O desespero pela compreensão se justificava pelo medo da perda. ― Eu preciso entender. ― sustentou o olhar da irmã que, na contagem de um instante, tornou-se compreensivo.

A barreira, outrora imposta, abriu-se e Zelena contemplou a mais vasta insegurança. Regina poderia ter a mulher para si, mas não ambicionava simplesmente a posse momentânea. Queria ser escolhida por ela. Enxergada por ela. A resistência de Emma na mesma medida em que a provocava, colocava-a também em cheque. Poderia a descrença de Emma apagar a própria natureza de Regina ao ponto de não a querer?

― Regina, você entende que mais da metade dessa cidade nutre uma paixão inexplicável por você? Homens e mulheres, desejosos por mais uma chance. Isso, aos nossos olhos, não passa de mais um dia normal. Mas aos olhos humanos de Emma, acabam gerando uma dose de medo, não acha? O querer dela não se limita a sua carne, ela a admira muito. Só assim essa atração entre vocês se sustentaria por tanto sem envolver o prazer físico. Ela a quer tanto que dói. Mas a sua fama como amante não é das melhores. Imagino se Emma resistiu não por não a querer, mas exatamente por não querer apenas isso. ― confortou-a, pousando o braço entorno do corpo inerte da irmã. Chocado pela óbvia constatação que, furtivamente, fugiu de seus olhos. ― Tanto quanto você, ela também a quer por completo.

― Entende a crueldade deste desejo, Zel? ― a bruxa moveu os dedos, calmamente. Uma luz arroxeada dançou entre eles. ― Ela jamais me terá por completo.

― Então aproveite, eu acho. Há uma semelhança muito curiosa entre vocês, por isso parecem um desafio tão intenso uma para a outra. E se ela pode resistir, isso significa que não há nada além de pura genuinidade entre a atração de vocês, Regina. A sua magia não adoça a visão que Emma tem de você. Ela pode dizer “não”, então saiba que será de completa verdade quando disser “sim”. ― a ruiva pareceu se lembrar de algo e retirou um livro da bolsa que carregava. ― Você tem que estar preparada para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinza?² ― a morena contemplou a capa antiga de Assim falou Zaratustra. ― Eu me esqueci de devolver isto a biblioteca.

Você acabou de citar Nietzsche enquanto falava sobre a minha vida amorosa? ― Regina escondeu o riso em seus lábios.

Você acabou de admitir que tem uma vida amorosa? ― ela gritou enquanto descia as escadas, abandonando uma Bruxa confusa para trás.

***

O céu ainda carregava uma sobra escura quando Cassandra se levantou. As bebidas tomadas na noite passada não foram o bastante para fazê-la dormir, embora Zelena tenha colocado uma boa dose de magia em uma ou duas tequilas. Não se sentia cansada. A ansiedade que a consumia não deixava espaço para nada além do medo e da esperança.

Hoje, ela se encontraria com Marya.

O medo engoliu parte grandiosa de sua alma, pois temia ser uma grande decepção. Reconhecera nos olhos da médica a esperança, a certeza de que tudo caminharia bem. Ah... A esperança. Ela também roubara para si algumas migalhas do futuro. Se conseguisse ― a Bruxa torcia para que sim ―, não seria apenas um trabalho, um compromisso em sua rotina tão vazia. Não, não. Seria muito, muito mais. Seria uma oportunidade de estender a mão ao outro e, quem sabe, isso levasse luz aos olhos da Deusa.

Quem sabe, assim, Cassandra pudesse ter seu peito preenchido por algo além do vazio.

O rosto da Bruxa brilhou em genuína surpresa ao encontrar o tecido branco dobrado sobre o encosto da cadeira. Ela o vestiu frente ao espelho, contemplando o jaleco branco tão bem passado. Em seu bolso, as letras bordadas a fizeram sorrir.

MILLS

A Bruxa pulou, erguendo os braços em uma alegria silenciosa que não podia ser contida. Era isso. Ela era uma Mills. Os pontos singelos da mãe carregavam feitiços de proteção, sussurrados enquanto a agulha bordava seus desejos. Quando Cassandra cobriu o corpo com o jaleco, o abraço protetor a acolheu de tudo.

Ela secou uma lágrima insistente que rolava por seu rosto, ainda que tivesse tentado contê-la. Mas aquele abraço, aquele desejo de proteção e a afirmação de que ela era ― de novo ― parte daquela família, destruiu dentro de si qualquer barreira previamente imposta. Cassandra Mills estava protegida pelo poder da mãe e pelo laço firma de uma família que se colocava em torno de si.

Quando se afastou da casa, rumo ao encontro de Marya, ela carregava muito consigo. Carregava, sem dúvidas, a possibilidade do retornar caso tudo desse errado. E, sem dúvidas, a certeza do acolhimento quando tudo desse certo.

Sem perceber, a esperança ― outrora herdeira de migalhas ― reivindicou para si o que lhe era de direito. E o medo, agora, jazia abandonado e esquecido em um canto escuro de si.

Ela encontrou Marya na porta do hospital. O sorriso estampava seu rosto de orelha a orelha. Sua confiança em Cassandra preenchia cada traço, como uma criança que finalmente ganha o pirulito merecido.

― Você veio! ― ela abraçou a Bruxa. Não em um abraço rápido e sem jeito, mas em um longo e agradecido.

― Como prometi, afinal. ― a morena concordou, feliz.

― Eu imagino que você não saiba o quanto sou grata, Cassandra. O que vejo aqui, dia após dia... As vezes é difícil não perder a esperança. Nem sempre posso recorrer a sua avó, afinal. Pedir ajuda a ela naquele dia foi de muita coragem, pois eu sei o quanto Perpétua é recolhida. Mas tê-la aqui foi o que garantiu a sobrevivência daquela menina. Ter você aqui, agora, é mais do que eu poderia pedir a Deus. ― ela levou a mão até a cruz pendente em seu cordão. ― Ou a Deusa! É como chama, certo? Graças a Deusa, então. Obrigada a ela.

― Não é apenas sobre ser recolhida, Marya. Mamãe passou por muita coisa. O que você vê como milagre nos levou para a fogueira por mais de uma geração, não é? ― a Bruxa não pode conter o olhar que correu diretamente até o pingente da médica.

― Você se sentiria mais confortável se eu não usasse o cordão? Embora... Eu sei que entende, somos nós que moldamos a crença e a transformamos no que é.

― Não, não. Perdoe-me, você já se explicou antes. Eu... ― o sorriso fraco tentava esconder o desconforto em seus lábios. ― É apenas complicado. Mas é claro, você não precisa tirá-la.

― Bom, então, acompanhe-me. É hora de trabalharmos!

A Bruxa seguiu a médica para dentro do hospital. As paredes claras fizeram seus olhos arderem por um instante, ela não estava habituada a tamanha claridade. Mas a cada passo dado, uma sensação de autoconfiança tomava o coração de Cassandra, preenchendo-a de um conforto inesperado.

― Cassandra, venha até aqui. ― Marya segurou sua mão, guiando-a até uma mulher mais velha, aparentando não menos que sessenta anos. Os cabelos tingidos em vermelho estavam presos em um coque mal feito e o óculos de armação grossa pendia à ponta de seu nariz. ― Essa é Anjelica. Ela é chefe da enfermagem e te auxiliará quando necessário. Anjelica, esta é Cassandra, nossa nova médica. Ela está em período de experiência e irá me auxiliar em alguns procedimentos.

― Olá, Anjelica... É um prazer! ― a Bruxa tentou sorrir, esforçando-se para parecer simpática. Não lembrava-se da última vez em que precisou fingir formalidades enquanto estava rodeada de tantos humanos.

Os olhos da mulher, no entanto, correram para o nome bordado em seu jaleco e ela ajeitou os olhos para enxergar melhor.

― Mills... ― ela pousou o dedo no canto de seu queixo, como se tentasse buscar no mais secreto armário de sua memória. ― Mills. Como a Mansão Mills da floresta?

― Sim... ― a Bruxa limpou a garganta. Não era surpresa, afinal, que os moradores soubessem sobre a existência da Mansão. Afinal de contas, ela estava lá há muito tempo e, entre uma geração ou outra, histórias surgiam e eram esquecidas. A magia de sua mãe os impedia de entrar, mas não de falar. ― Minhas sobrinhas trabalham na cidade. Regina é bibliotecária chefe e Zelena é diretora do Museu de História. Você deve reconhecer o sobrenome.

― Claro, eu me lembro muito bem de quando Zelena Mills ateou fogo no cabelo de minha filha durante o primeiro ano escolar. ― limpou a garganta, contendo o desgosto. ― E a mãe daquela pestinha nem ao menos teve a decência de aparecer para a reunião.

― Oh, ela jamais poderia aparecer. ― Cassandra sorriu. O nervosismo transmutava-se em puro senso de proteção, irritando-se ao ouvir a reprovação na voz da mulher enquanto falava de sua menina. ― Minha irmã está morta. ― a surpresa que dominou o rosto da mulher, acompanhado pela vergonha de, aparentemente, ter tocado em um ponto pessoal da família.

Mas falar sobre a suposta morte de Cora não feria Cassandra. Desejava que as palavras tivessem poder ao ponto de torná-la realmente uma verdade. No entanto, a satisfação em constranger a outra criou um prazer cômico dentro de si.

― Então, agora que já estão apresentadas, vamos seguir adiante! ― Marya quebrou o silêncio constrangedor. O sorriso forçado repuxava todos os traços de seu belo rosto latino. Ela puxou Cassandra pelo antebraço, seguindo a próxima sessão. ― Céus, perdoe-me. Eu me esqueço de que embora as pessoas saibam sobre vocês, elas não sabem sobre vocês.

― Eu também estou me habituando a isso, não há problema algum.

― Aliás, eu adorei seu jaleco! Ficou incrível e muito melhor do que o provisório que eu havia separado. ― as duas caminharam lado a lado pelos corredores compridos.

Cassandra era bem mais alta do que Marya e, ela logo notou, a médica se segurava alguns segundos na ponta dos pés quando desejava lhe mostrar algo, como se quisesse equiparar o ângulo de visão. Passaram-se algumas horas enquanto a Bruxa era apresentada a todo o lugar e, também, as pessoas que lidariam com ela no dia a dia. Embora Marya tivesse prometido jamais deixá-la sozinha em algum procedimento. Elas seguiam em direção a sala de raio-x quando o celular da médica apitou.

― Céus... ― a mulher suspirou, antes de contemplar os olhos castanhos que aguardavam ansiosos. ― Bom, a sala de raio-x terá de esperar. Está pronta para o nosso primeiro caso juntas?

― Eu estou aqui por você. ― a Bruxa lhe ofereceu uma piscadela cúmplice que foi recebida pelo mais honesto e aliviado concordar.

Casos de violência não eram tão típicos em Storybrooke. Portanto, havia certa surpresa quando algo assim acontecia e ― quase sempre ― possuía a mesma origem. Marya respirou fundo antes de entrar na sala de emergência, sendo seguida por Cassandra. Na maca a sua frente, Leroy gritava a plenos pulmões, xingando a todos que tentavam se aproximar dele. Contudo, a blusa branca ensanguentada era um sinal de que não havia como deixá-lo partir. Para médica, significava também que ao fim da última dose de adrenalina, o corpo dele entraria em colapso.

― Leroy, Leroy! ― a médica se aproximou. Os braços levemente erguidos tentavam apartar uma briga onde apenas o homem participava. O seu nervosismo fora deixado do lado de fora e, agora, o seu rosto trazia a literal imparcialidade. ― O que aconteceu dessa vez?

― Afaste-se de mim, mulher! Saia para lá agora! Ordene que me soltem daqui, sua infeliz! ― a cada grito, o sangue parecia correr com ainda mais fervor para fora de seu corpo e, aquele ponto, o piso branco ganhava uma vermelha poça.

Cassandra não falou nada enquanto observava a tentativa falha de Marya. Compreendeu, no entanto, que pouco poderia ser feito enquanto o homem parcialmente amarrado lutava contra a própria ajuda.

― Leroy, eu preciso que me deixe te ajudar ou terei que amarrá-lo por completo. ― a voz calma tentou explicar, mas não existiam ouvidos dispostos a entender.

Até que o corpo de Leroy congelou.

― Ele está tendo uma parada cardíaca! ― abandonada pela calma, a médica gritava com urgência enquanto corria para fazer as compressões.

Cassandra olhou ao redor, encontrando dos enfermeiros empurrando o carrinho de reanimação, mas distante o bastante para que pudesse ajudar. Ela tocou a mão de Marya, que se movia insistente, lutando para manter os batimentos do homem. No mesmo instante, a médica a encarou, curiosa. A Bruxa pressionou uma única vez, sua mão direita presa ao pulso moreno, espelharam o movimento. Mas Marya sentiu quando o choque direcionado apenas arrepiou seus pelos, enquanto foi o bastante para fazer com que o coração de Leroy voltasse a bater.

― Está tudo bem! ― anunciou aos enfermeiros nervosos que já erguiam os desfibriladores. ― Eu consegui. ― ela encarou Cassandra, sem conseguir esconder a admiração em seu olhar. ― Nós conseguimos.

Leroy, como de costume, envolvera-se em uma briga no bar, o que acabou lhe custando uma facada profunda, mas Marya assegurou Cassandra de que, naquele caso, poderia ser facilmente resolvido com cirurgia. Ela não queria explorar mais do que estava sendo oferecido. Embora não pudesse dizer o mesmo sobre o alcoolismo. Não era a primeira vez que Leroy chegava ao hospital ferido por brigas no bar. Suas visitas eram tão frequentes ali quanto na cadeia.

― Bom, acho que isso não pode ser resolvido com cirurgia, certo? ― a Bruxa encarou a médica, esperançosa por uma oportunidade de fazer mais.

Elas aguardaram até que Leroy voltasse para o quarto. Marya trancou a porta, garantindo que ninguém as atrapalharia naquele momento. Somente quando se posicionou ao lado da Bruxa, uma dúvida surgiu a sua mente.

― Você... Você prefere que eu fique lá fora? ― o questionar hesitante estava carregado de receios.

― Claro que não! Você pode ficar aqui e assistir. A não ser... ― a Bruxa pensou por um instante. Embora visse o desejo no olhar da mulher, sempre existia outra alternativa. ― A não ser que tenha medo de estar aqui. Então, eu entenderia.

― Não, de forma alguma! Eu estou muito ansiosa para ver acontecer! Quando você salvou aquela menina, foi uma das coisas mais belas que já pude presenciar. Por favor, faça o que precisar. Eu estarei bem aqui em silêncio. ― ela se recostou na parede ao lado enquanto fingia passar um zíper pelos lábios.

A Bruxa respirou fundo, virando-se para o homem que dormia calmamente a sua frente. Agora, tão limpo e vestido em branco, ele não parecia tão feroz. Perguntou-se, portanto, o que o tornara assim. Qual amargor secreto era abrigado em sua alma e escondido pelo vício cruel. Ela retirou os sapatos ― precisamente escolhidos por Zelena ― e aprumou os ombros. Antes de invocar a magia, acariciou a barba penteada e sorriu. Faria um bom trabalho ali, convenceu-se.

Os afilados dedos pousaram nas têmporas enrugadas, movendo-se em círculos lentos. Por um instante, nada aconteceu.

Apenas por um instante.

Pois quando os olhos de Cassandra se abriram novamente, não existia nada além do branco alvo.

Para ela, o caminhar era sinuoso. Não há nada mais embaraçado do que as amarras da mente, tão bem colocadas que dificultam os passos da própria magia. As portas abriam e se fechavam, detectando o inimigo desconhecido e passivo que desejava persuadir. Vagarosamente, a Bruxa cantarolou uma prece cantarolou uma prece calma, como se desejava trazer paz a uma criança insone. Foi assim que ela encontrou as lembranças infantis, escondidas pelos traumas ecoantes.

A magia que fluía de suas mãos era azul, calma e compreensiva. Ela irradiou por todo o corpo adormecido de Leroy e, tão logo quanto podia ser notado, cada parte do homem era abraçada por uma camada azulada, quase transparente. Seus membros tencionados relaxaram, como se aceitassem o abraço oferecido. A magia, portanto, adentrou, livrando-se de cada amarra imposta.

Cassandra sentiu cada amargor escondido no coração cansado. Cada vitória e cada falha, cada medo enterrado a sete chaves e revestido em bravura estupida. E a cada dor cujo apenas o álcool era capaz de abrasar, ela ofereceu uma dose de paz.

Uma lágrima escorreu pelo rosto adormecido de Leroy.

Uma lágrima emergiu dos olhos brancos de Cassandra.

Ela despertou.

― Está feito. ― suas mãos ainda carregavam um azul cintilante e ela as esfregou, como se para segredar o poder. Ao notar que os olhos de Marya permaneciam estáticos, Cassandra preocupou-se. ― Marya, está tudo bem? ― ela ofereceu a mão para a outra, temendo ter feito algo fora do combinado.

A médica não respondeu de imediato, ela aceitou a mão de Cassandra e se pós de pé. Os seus olhos a analisavam com cuidado, correndo por cada parte do rosto bem marcado da Bruxa, como se desejassem decorar cada mínima expressão. Os corpos estavam próximos demais, mas nenhuma das duas se afastou.

― Eu tenho um namorado e eu o amo, de verdade. Eu o amo muito e jamais imaginei... ― ela limpou a garganta. A curiosidade ultrapassando qualquer sinal de timidez. ― É normal que eu esteja me sentindo tão atraída por você?

― Oh! ― a surpresa tomou Cassandra, permitindo que o riso descrente se libertasse de sua garganta. ― Pela Deusa, achei que tinha matado o pobre Leroy por acidente e você estava em choque. ― a mão pousou sobre o próprio peito e ela suspirou. ― É a magia, Marya. Ela faz isso com vocês.

― Vocês... Você quer dizer humanos? ― a confusão estampava a face curiosa. Ela conseguiu dar um passo para trás, mas ainda estava presa ao rosto da Bruxa.

― Sim. A magia é sedutora e convincente, ela traz um fascínio absolutamente tentador. ― Cassandra tentou tranquilizá-la. Para ela, não havia nada de extraordinário nisso, mas pôde vislumbrar o brilho nos olhos de Marya. Esquecera-se, no entanto, como era estar tão próxima de humanos. ― Como aqueles sapos super coloridos que são venenosos.

A médica assentiu. Ela caminhou devagar, mas, vez ou outra, olhava para trás, ainda imersa pela natureza atrativa da outra. Cassandra achava engraçado, embora se controlasse para não rir da situação. Gostava de Marya, mais do que gostou de qualquer humano em muito tempo.

Exceto, é claro, por Linda.

― Você está liberada por hoje! Parabéns pelo seu primeiro dia! ― ela ofereceu a mão a Cassandra, mas desistiu no meio do movimento e apertou em um abraço. ― Você foi incrível, Cassandra. Você fez muito por aquele homem, hoje. Não imagina o quanto.

― Bom, eu fico feliz em ter ajudado. ― a Bruxa aceitou o afeto, já tendo se acostumado com as demonstrações carinhosas. ― Espero que ainda me queira aqui.

― Claro que sim! Eu estava rezando para que você não desistisse! ― o gargalhar tranquilo foi compartilhado por elas e Cassandra se virou para partir.

Ela acenou uma última vez, mas, afastou-se pouco até ouvir o chamado de Marya.

― Cassandra! ― a Bruxa se virou. ― Você não é em nada como um sapo. ― ela ofereceu um último sorriso e se virou, adentrando o hospital.

Mas só naquele instante, a morena foi capaz de perceber que Marya já não usava mais o colar.

***

Os raios de sol já entravam pelas frestas da janela do quarto de Emma, mas ela ainda dormia. Não era normal que seu sono fosse tão profundo e durasse por tanto tempo. Normalmente, a loira acordava por diversas vezes durante a noite e sempre checava todas as fechaduras antes de conseguir voltar ao sono. Ser uma fugitiva durante tanto tempo custara muito de sua tranquilidade. Mesmo agora, quando supostamente não deveria ter do que fugir, ela ainda temia.

Em algumas noites, a loira acordava assustada ao ouvir a voz de seu ex-marido sussurrar seu nome ao pé do ouvido, tão próximo que o hálito quente ardia em sua pele mesmo depois que acordasse. Em outras, ela jurava ouvir os gritos da mãe e do pai em meio a uma briga que ele acabaria por ganhar. Emma se assustava com os sons de suas botas. Contudo, nenhum deles estava ali. Em todos os quartos que acordou, vazios e silenciosos, ela estava sozinha.

Mas enquanto o sol iluminava partes do quarto e revelava pequenos cristais de poeira contra a luz, a loira se virou entre os lençóis. Sua testa brilhava pelas recentes gotas de suor que brotavam em seus poros, sua respiração se tornava cada vez mais pesada e profunda. Ela se revirou uma, duas e três vezes.

Em seus sonhos, Emma caminhava em um quarto escuro e quente. As paredes brancas ganhavam manchas cinzas ao seu olhar, ela encontrou um berço de bebê. A fumaça parecia subir pelas tábuas incertas no chão e seu pulmão ardeu ao perceber o provável sufocamento. Emma tentou dar um passo à frente, mas seus pés afundaram nas madeiras frágeis e ela caiu ao lado do berço. Pela primeira vez, ouviu o som do choro da criança, insistente e desesperado.

Tentou se levantar, mas não podia.

Ao olhar acima, enxergou aquele teto já familiar sendo engolido pela fumaça negra. Sabia o que viria agora, ainda que estivesse presa em seu sonho. Sabia que estava na hora de acordar.

― Lembre-se de mim.

A voz feminina, calma e tenra, foi a última coisa que chegou aos seus ouvidos antes que o chão embaixo de seu corpo afundasse.

Emma despertou, sentindo sua pele quente e úmida. O lençol grudava em suas costas e não existia uma parte de si que não estivesse tencionada. Ela se sentou na cama, usando a camiseta para secar seu rosto. O cheiro de fumaça ainda estava impregnado em seu nariz e a garganta ardia. Levantou-se, ainda zonza, para ligar o chuveiro. A água gelada que bateu contra a sua pele lhe roubou alguns palavrões e ela abraçou seus próprios braços para não se curvar. Apesar de tudo, sentia-se descansada. Não fosse pelo pesadelo perturbador, Emma não reclamaria de ter excedido a hora de sono.

Mas quando saiu do chuveiro, ela já não se lembrava do que sonhara.

Enquanto descia as escadas, a loira pensava nos seus afazeres do dia que ― ela precisava confessar ― mais incluíam formas de ver Regina do que escrever sobre seu maldito livro. Honestamente, uma parte de Emma já havia desistido de produzir qualquer coisa que não envolvesse olhos castanho-dourados.

Talvez devesse escrever sobre Regina, afinal.

Ela mal havia chegado ao último degrau quando a campainha tocou. Mas antes que pudesse chegar à porta, uma Granny irritada passou a sua frente.

― Espero que seja aquele maldito garoto que prometeu entregar o leite há duas horas. ― mas ao atender, a surpresa cortou as falas irritadiças da velha mulher. ― O que está fazendo aqui?

A escritora não precisava que Granny abrisse a porta por completo ou que falasse o nome da mulher que estava do outro lado. O perfume que dominou suas narinas trazia consigo uma identidade muito bem estabelecida.

― Vim tomar um café com você, Granny! O que mais eu poderia vir fazer aqui? ― ela pode ouvir a risada da morena. ― Estou procurando por Emma. Ela está?

― Regina. ― Emma abriu o resto da porta. Foi a vez dela se colocar a frente de Granny. ― O que faz aqui?

― Eu tenho flores, biscoitos e um convite. ― os olhos pararam de imediato no belo buquê de girassóis, envolto em papel pardo simples. ― Gostaria de tomar um café comigo? ― Regina foi direta, mantendo o tom seguro, mas a ansiedade que dançava em seu rosto não se escondeu do olhar atento de Emma.

― Bom, se você me trouxe mais daqueles biscoitos, eu não tenho como negar.

A velha Granny observava atenta. O olhar curioso pulava de uma mulher para a outra, faminto por compreender cada palavra usada. Há muito, sabia sobre o interesse da jovem Emma na mulher que, segredava muito bem, era uma Bruxa. Desenvolveu por Emma um carinho especial, talvez pela dolorosa saudade que sentia da própria neta. Mas naquele momento, ao enxergar tão nitidamente a maneira como ambas ansiavam uma pela outra, soube que não havia retorno para Emma. Fosse como fosse, ela estava perdida.

As duas mulheres caminharam juntas para fora da pensão, depois de Emma deixar as flores e os preciosos biscoitos em seu quarto. Ela não pode deixar de observar a mensagem escondida nas pétalas amarelas dos girassóis. Eram muito mais do que apenas flores. Os girassóis foram testemunhas de seu primeiro momento a sós com Regina, talvez o mais íntimo deles. Um encontro não pretendido onde Emma pôde enxergar uma faceta jamais imaginada da morena. Ainda se lembrava da luz cada vez mais fraca batendo contra a pele lisa, os olhos brilhantes que a observavam com tamanha atenção, o toque singelo das mãos que buscaram uma pela outra.

Eram, sim, muito mais do que apenas flores.

Os girassóis, agora abrigados em seu quarto, eram uma confissão de importância. O reconhecimento de que ela também era muito mais. Ao notá-lo, um aperto se afrouxou em seu peito.

Regina usava botas altas, um belo sobretudo preto e cachecol. Enquanto andavam lado a lado, as pessoas observavam, atentas. Algumas apenas olhavam rapidamente, trocando um aceno de bom dia. Mas outras pareciam carregar genuína surpresa e as acompanhavam, atentas, por longos minutos. Emma não pôde deixar de notar quando uma velha e carrancuda mulher, ao sair da igreja e cruzar o caminho das duas, fez o sinal da cruz. Achou graça. O jornaleiro, já um pouco conhecido, acenou para a loira, mas se pôs mais sério ao enxergar a morena ao lado. Dentro de Emma, uma fagulha de curiosidade se acendeu. Regina, no entanto, parecia alheia a toda atenção.

A lanchonete ficava há poucos metros da pensão e, logo, as duas cruzaram a porta de entrada, fazendo com que o sino pendurado tocasse. A morena deixou que a outra passasse a sua frente, seguindo-a até a mesa escolhida. Emma sentou-se, portanto, próximo a grande janela lateral, de onde se podia os fundos da biblioteca. Lembrou-se de todas as vezes em que, sentada naquele mesmo lugar, esperou que Regina saísse para capturar um pouco mais de sua beleza.

― Este lugar te agrada? ― perguntou por mera formalidade. Estava ansiosa para falar, qualquer assunto bastaria.

― Agrada-me que esteja aqui. O lugar, pouco importa. ― a morena deu de ombros, ainda se acomodando. A fala esbanjava naturalidade, não sendo em nada planejada. A sinceridade atingiu em cheio o peito da loira, fazendo com que o rubor tomasse-lhe as bochechas de imediato.

― Olá, Emma! Bom dia! ― a garçonete surgiu. O sorriso brilhava em seu rosto, galante e atento à loira. ― O de sempre?

― Olá, Jess. ― Emma sorriu de volta e estava pronta para responder quando se virou para Regina. A mulher a sua frente, no entanto, parecia curiosa. As sobrancelhas permaneciam rígidas e atentas, analisava com atenção a garçonete que, alheia a tudo aquilo, pousava a mão sobre o ombro da loira. ― Na verdade... Regina, gostaria de me sugerir alguma coisa nova para provar? ― ela capturou a mão da morena, chamando sua atenção.

Nada que esteja no cardápio. ― a resposta foi dada em baixo tom, quase como um sussurro, mas foi o bastante para que a loira ouvisse. Roubou-lhe um sorriso, de imediato. ― Um cappuccino com doce de leite para você e um café preto para mim, por favor, Jess. ― o nome foi dito em tom azedo, mas acompanhado de um sorriso largo e gélido.

Quando a garçonete se foi, a mão de Emma ainda segurava a de Regina. Não a soltou, no entanto. O segurar se tornou uma carícia leve e ela ali permaneceu. Não temeu represálias ou a rejeição. Uma parte muito clara de si se sentia tão confortável que nem sequer cogitava o afastamento. Essa parte, tão clara quanto poderia ser, silenciava todas as outras que, em seu âmago, temiam.

― Agora que já estamos aqui, poderia me explicar o motivo do convite? ― a tom vacilante era claro, mas nem mesmo a hesitação foi capaz de conter a curiosidade crescente.

― Eu queria vê-la. ― a morena virou sua mão. A esse ponto, os dedos dançavam em uma melodia silenciosa, acostumados com a presença.

― Por quê? ― insistiu.

― Eu preciso de um motivo? ― os lábios de Regina dançaram em um sorriso.

― Acho que sou eu quem precisa de um motivo para entender. ― a confissão sincera nasceu da amarga insegurança. Mas confessá-la, tal como fez, não feriu. Foi, em verdade, um alívio.

― Eis aqui seu motivo: ― a mão da loira foi segurada agora, firmemente. Não havia espaço para a fuga de sua atenção, seu olhar fora aprisionado. ― Senti saudades de estar com você.

Emma suspirou. Uma ponta de raiva a atingiu. Não por maldade, nem sequer por raiva verdadeira. Apenas por não entender como aquela mulher a sua frente poderia ser tão sedutora. Frente a face tão verdadeira de Regina, ela não temia se revelar. Pela história que a precedia, deveria temer a sedução. Não sabia, no entanto, como havia sido com as outras pessoas, mas tudo o que tivera de Regina, até agora, havia sido cruamente verdadeiro.

― Então, não me odeia por tê-la deixado. ― o riso travesso ganhou sua face. Embora certa do feito, um rubor repentino a tomou. Não em virtude da vergonha, mas por lembrar de todos os toques espalhados por seu corpo na noite anterior.

― Oh sim. Está certa. Eu a odeio, profundamente. ― a morena respondeu, franzindo os olhos. ― Sugiro que esteja sempre atenta a partir de agora. ― inclinou-se sobre a mesa, aproximando o rosto para sussurrar sua ameaça. O coração de Emma acelerou. ― Posso roubar-lhe um beijo a qualquer momento.

― Vou permanecer atenta, então... ― pigarreou. ― Para garantir que consiga roubá-los. ― a esse ponto, o indicador desenhava pequenos círculos sobre a pele lisa da outra mulher. ― Eu estou surpresa, muito surpresa, que esteja aqui. Passei a noite pensando que, depois de ontem, você iria ser mais resistente em estar comigo.

Os círculos pararam por um instante, inseguros de continuar, mas o toque permanecia. Foi a vez de Regina tomar o controle das carícias singelas e, aquele ponto, o baile entre as mãos já havia sido compreendido: não se afastavam nunca, mas a dança era conduzida tal como a conversa. A fala de Emma se iniciou brincalhona. O riso fácil acompanhava seus lábios e tudo era leveza. Mas ao admitir tamanho medo, tão secreto até para as suas realizações, uma sombra antiga e construída brilhou em seu olhar. Foi rápido demais para que outro alguém pudesse notá-lo, mas Regina não era qualquer alguém. Em seu corpo, a energia de Emma fluía tão intensa quanto fluíra na noite anterior. Agora, contava-lhe sobre receios segredados, colocados ao peito por outro alguém.

― Por que eu iria resistir em estar com você? ― ela segurou a mão de Emma entre as suas, oferecendo-lhe o acariciar lento e seguro, protetivo.

Vacilante, o olhar esverdeado se ergueu. O recuo de Emma não se tratava apenas dela, mas de muitas histórias não contadas que construíram o que era agora. O presente, moldado a partir de tantas feridas mal cicatrizadas, tantos receios encobertos. A cada passo de coragem, uma nuvem de lembranças dolorosas a revestia, preenchendo cada espaço vazio pelo medo da recusa. Regina a encarou, paciente e honesta. Se pela manhã, ela não compreendia o desdobrar daquele cenário, agora, ele lhe era tão claro quanto o céu ao meio dia. A insegurança de Emma ― o sentimento que talvez nem ela reconhecia ― não era nem de longe resguardado a posse, mas ao singelo receio de se entregar ao vazio, depois de tanto vivido.

― Eu pensei que estaria irritada e com raiva. ― a loira negou com a cabeça, descrente de si mesma. ― É apenas uma bobeira.

― Não é uma bobeira se você a sente. Mas saiba que raiva é a última coisa que sinto sobre você. E o que sinto, não é pouco. ― piscou com um dos olhos, selando sua própria confissão.

A garçonete retornou com os pedidos. A bandeja equilibrada em umas das mãos carregava os dois cafés e uma grande jarra de suco para a mesa ao lado. Ela veio saltitante e feliz. O sorriso congelado em seu rosto mal podia se fechar ao contemplar o rosto de Emma. Enxergou as mãos dadas, mas as ignorou. Pondo-se ao lado de Regina, os botões da blusa ― abertos demais ― ofertavam a loira uma visão que certamente não era dada a todos os clientes.

― Aqui está Emma, um cappuccino com doce de leite. Se você não gostar, eu posso preparar o outro. ― abaixou-se, permanecendo um segundo a mais. ― E o seu café preto, sem açúcar. ― o tom oferecido à Regina já não carregava tanta doçura.

A pobre Emma parecia alheia a toda oferta desmedida. Enquanto a jovem Jess dava o melhor de si em chamar a atenção, ela mal podia fugir aos olhos castanhos, que faiscaram em um dourado intenso. Se algo chamou sua atenção, foi a veia saltar na testa de Regina, irritadiça.

A sorridente garçonete mal havia dado dois passos para longe da mesa quando os lábios de uma Bruxa estalaram ― sutis e imperceptíveis. O jarro de suco de laranja, fresco e belo, virou em seus braços, derramando-se por inteiro no sobre o uniforme.

― Por que você tem um café preto adulto e sério, enquanto o meu café é tão feliz e divertido? ― Emma chamou a atenção da morena que, discretamente, sorria ao assistir a rápida travessura.

― Da última vez em que levei biscoitos da vovó para você, eles acabaram em menos de duas horas. Você sempre carrega doces escondidos para a biblioteca, mesmo existindo uma placa enorme de que é proibido entrar com comidas. Nem o Henry, que é uma criança e passa praticamente o dia inteiro enfiado ali, faz algo assim. ― narrou, esforçando-se para manter uma expressão séria e esconder o zombaria, enquanto tomava um gole de seu café quente.

― Eu não levo doces para a biblioteca. ― a loira protestou. A boca aberta em surpresa lutava para não sorrir, desacreditada de ter sido pega em sua pequena contravenção. ― Eu posso ter um paladar adulto e sério.

Regina a encarou. Os lábios se apertaram, abrindo-se em um sorriso quando ela olhou de lado a mulher. Deu de ombros, divertindo-se com a disputa que parecia tão natural e rotineira. Nada disse, mas estendeu à Emma sua própria xícara fumegante, que foi aceita de imediato.

Um gole. Apenas um gole foi tudo o que Emma deu, antes de emendar sua postura desafiadora a uma cara de desgosto amarga e infeliz.

― É horrível, horrível, horrível. ― balançou a cabeça, tentando afastar o gosto amargo da boca. ― Não há nem sequer uma gota de felicidade dentro de mim depois disso. É horrível.

― Não é horrível! ― Regina gargalhou, não podendo se conter.

Ao redor, todos olharam, curiosos. Nenhum deles se lembrava de já terem visto a bibliotecária ― sempre tão séria e inacessível ― esbanjar felicidade genuína.

― Apenas esse café açucarado poderá me devolver a alegria. ― a loira lambeu os lábios, ansiosa, servindo-se de um generoso gole do cappuccino. ― Você quer saber... Se eu tive que provar essa coisa horrível e triste, você precisa provar esse aqui.

― Nem pensar. Zelena toma essa bomba todos os dias há anos e jamais conseguiu me convencer. Eu não vou ceder agora. ― a Bruxa negou com a cabeça veemente, certa de sua decisão. Mas o olhar ansioso que a aguardava do outro lado fez com que grunhisse em repreensão. ― Certo. Mas apenas um gole e você não pode contar para Zelena.

Emma concordou freneticamente, esticando sua xícara. Aguardou, atenta a cada mínimo movimento. Regina não parecia disposta e, diferente da loira, sua cara de desgosto precedeu à prova. Após o gole ― tão curto quanto poderia ser ― as sobrancelhas se curvaram frente à análise.

― Eu posso ter um gole, mas, definitivamente, não aguentaria uma xícara inteira.

― Então, isso significa que não é ruim e que meu gosto é melhor que o seu. ― simplificou, satisfeita com sua vitória.

― Mas foi eu que escolhi o seu café. ― a morena protestou, defendendo-se.

― Apenas porque reconheceu o meu notável e apurado paladar.

As duas permaneceram em silêncio por longos minutos. Ainda que o singelo encontro jamais houvesse acontecido, tudo parecia confortável e cotidiano. Emma tinha a mania engraçada de tamborilar com os dedos sobre a mesa, mas Regina já havia notado o hábito durante as muitas visitas à biblioteca. Por sua vez, a loira mal conseguia deixar de admirar a mulher a sua frente. Os traços de Regina eram tão certos que não pareciam obra do acaso. Era como se cada um deles tivesse sido milimetricamente planejado para desafiar a força de seu coração. Esse, atento a cada pequeno sentir, batia um pouco mais acelerado a cada toque compartilhado, a cada palavra de atenção.

Emma não se recordava da última vez em que seu estômago fora preenchido por tantas borboletas. Todas elas pareciam servir aos toques, olhares e falas da morena. Os arrepios que se espalhavam por seu corpo, a resposta imediata de seu peito, o conforto jamais imaginado. Ela queria beijar Regina, queria tocá-la, mas queria muito mais. O compartilhar de um ato tão simples como o café fez com que Emma pensasse em todos os outros atos simples que queria ― e queria muito ― experienciar ao lado daquela mulher. O seu ceticismo, tão forte dentro de si, não se limitava às crenças impossíveis. Não, não. Ele ia muito além e era muito mais cruel do que o imaginado. Emma não considerou, ao longo de sua vida, que a paixão era possível. Não para ela, na verdade. Todos os acontecimentos que vivenciou, tão alheios aos próprios desejos, a faziam imaginar que o apaixonar ― e até mesmo o genuíno amar ― estavam distantes demais da realidade. Talvez fossem destinados a alguns poucos sortudos, mas o que era a sorte em um mundo tão enraizado ao real?

No entanto, em todas as vezes que seus olhos cruzavam com os de Regina, que sentia suas carícias tão despretensiosas, que as palavras reafirmavam o desejo existente, que a mulher a sua frente deixava tão claro que a queria para além do que o corpo ansiava... Emma questionava se estava realmente certa no que acreditava.

E uma parte pequena de si, vivente ao âmago do ser, silenciada há muito, reacendia-se aos poucos com a questão que, por muito, ainda seria ignorada: se estava errada a descrença sobre a paixão e o amor, no que mais errava ao desacreditar?

***

Abgail era uma figura conhecida na pequena cidade de Storybrooke. A fama, no entanto, não era das melhores. A velha mulher carrancuda, conhecida pelo seu desgosto a própria vida e o fanatismo religioso, encontrava pecados a cada esquina virada. Mal havia excomungado a presença de Regina Mills quando, ao atravessar a rua em direção ao Museu da cidade, encontrou a maldita irmã de cabelos avermelhados. Dizia, a cada oportunidade encontrada, que não só as duas como toda a família eram nada mais, nada menos, que diabólicas.

Zelena, contudo, adorava encontrar com Abgail.

― Olá Abgail. Como está!? Que sorriso sincero, logo pela manhã. ― a Bruxa gargalhou enquanto acelerava seu passo para acompanhar a velha.

― Saia de perto de mim, demônio! ― o sinal da cruz foi feito, três vezes. Mas não serviu para afastar a outra.

― Não seja desagradável, querida. ― a Bruxa parou à porta do Museu, deixando que a oura seguisse. Mas Abgail se virou, cuspindo aos pés da ruiva. ― Oh, você...! Você não fez isso!

― O demônio mora em seu corpo, vadia!

― Não foi o que a sua filha me disse, velha maldita. ― bufou, batendo os saltos antes de entrar.

Zelena jurou que se divertiria provocando a mulher, mas a mancha de saliva em seu salto camurçado era um preço alto demais a se pagar. Ela passou direto pelos corredores principais, rumando aos fundos. Enormes caixas de madeira a aguardavam com listagens infinitas. Um carregamento de obras que ela, após muitas reuniões e feitiços, conseguiu trazer para Storybrooke. Não era fácil garantir peças tão importantes para uma cidade tão pequena, mas os argumentos de Zelena eram especiais. Alguns envolviam pequenos rituais mágicos, alguns não.

― Dani! Como é bom vê-la por aqui. ― a ruiva saudou sua auxiliar. A mulher morena de longos cabelos cacheados se virou, sorrindo. As mãos enluvadas sustentavam um crânio.

― Zel! Eu também estava com saudades. Foram férias merecidas, mas eu já estava sentindo falta desse lugar! ― ela balançou o crânio, gentilmente. ― Você conseguiu coisas ótimas por aqui.

― Sim! Eu estava tão ansiosa para mostrar. Os livros que estão em alguma dessas caixas vão para a biblioteca, Regina logo virá conferi-los também. ― a ruiva deixou a pasta sobre a cadeira do escritório enquanto voltava para o lado da auxiliar. ― Você está um pouco nervosa, o que está acontecendo?

Zelena mal pode conter as próprias palavras. Não era anormal que isso acontecesse. A maioria das pessoas do Museu que já eram de sua convivência, estavam acostumados e a consideravam uma pessoa meramente observadora. Mas foram os pensamentos de Dani que dançaram até os ouvidos da Bruxa, contando sobre medos e receios que a jovem mulher não possuía coragem para confessar.

― É sobre uma garota. ― confessou, o rubor crescente reivindicando cada parte do rosto para si.

― É assim que a maioria dos bons romances começam. ― a ruiva se sentiu em uma das caixas, ignorando o grande aviso de FRÁGIL carimbado à madeira. ― Você tem toda a minha atenção.

― Não há o que contar, na verdade. Ela mal sabe que eu existo. É neta da Abgail, aquela velha horrenda. A avó mal deixa que respire. ― suspirou. A indignação fazendo com que a voz subisse em um tom. ― Não é nada possível.

― É absolutamente muito possível. E caso não saiba, eu conheço muito bem a filha de Abgail. Tenho certeza de que não concorda com metade das repreensões que a mãe prega por ai. ― a Bruxa analisou as próprias mãos, como se de repente houvesse algo de interessante a notar.

― Ainda assim, ela mal sabe que eu existo. Não é nada importante, Zel. ― balançou as mãos, como se tentasse afastar os pensamentos para longe. Mas o brilho deixado pelo desejo ainda brilhava em ao rosto, sendo enxergado pela Bruxa.

― Tem uma coisa bem aqui no seu cabelo. ― a ruiva se levantou, puxando uma longa mexa do cabelo da outra.

― Aí! ― o protesto veio assustado, pois a menina mal teve tempo entre o aviso e o puxão que o precedeu. ― O quão encrustado isso estava?

― Não reclame, eu praticamente a salvei de ser devorada por um mosquito. ― a Bruxa escondeu os fios que guardava nas mãos, fingindo indiferença. ― Ei, o que acha de ir até a lanchonete e comprar dois cappuccinos bem quentinhos? Eu prometo que a espero para abrir as próximas caixas.

Dani não protestou e logo a ruiva estava sozinha. Ela foi até o escritório, encontrando a garrafa de vinho que escondia para os dias mais tediosos. Certificou-se de fechar a porta e, ao retornar, procurou por tudo o que precisaria. Um punhado de pétalas vermelhas foi roubado do buquê que ganhara de um admirador no início da semana e colocado ao lado dos fios de cabelo. Ela precisaria de um pouco de mel, também, e o encontrou em uma de suas muitas prateleiras. Escolheu um pequeno vasilhame de ferro, onde antes pequenos cristais ficavam reunidos. Feitiços emergenciais não poderiam ser muito exigentes. Para além do que organizava, era a sua magia que sussurraria todo o rumo do futuro.

Antes de começar, Zelena pensou na conversa que havia tido com a irmã. Era sim perigoso deixar sua magia fluir tão abertamente, mas o que poderia fazer? Ser uma Bruxa era tudo o que sabia. Estava além das mentiras e dos esforços para fingir ser normal. Afinal de contas, que virtude havia em ser como os outros? E em que grau a Deusa aprovaria que fingisse indiferença quando poderia, em tantos casos, ajudar. Adorava Dani com todo o seu coração. A menina era ainda mais nova quando veio trabalhar no Museu. Dentre todos os humanos, ela era uma das preferidas de Zelena. O seu olhar era sempre curioso e questionador, mas nunca desrespeitava as relíquias encontradas. Por vezes, os artefatos verdadeiramente mágicos passavam por suas mãos e, mais de uma vez, ela segredou desejar verdadeiramente que as bruxas fossem reais.

Não imaginava, no entanto, estar ao lado de uma.

Os cabelos furtados foram colocados no vasilhame, bem como as pétalas vermelhas e uma generosa dose de mel. A Bruxa olhou ao redor, buscando por uma taça ou algo próximo a isso. Encontrou, entre outras caixas deixadas, um cálice cristalino. Serviu uma dose generosa de vinho, bebendo um gole antes de retornar ao feitiço. Os dedos se remexeram, ansiosos pelo fluxo energético que vibrava pelo corpo. Nenhum feitiço decorado veio à mente de Zelena, mas isso nem de longe era um problema. Há tempos não dependia da magia escrita para fazer com que seus desejos fossem atendidos. Seria apenas um feitiço de autoconfiança, pois apenas isso poderia ser oferecido quando se tratava de um amor honesto. E uma pequena pitada de atração. Dani saberia o que fazer com o restante, Zelena confiava.

Como de costume, ela fechou suas pálpebras e, quando as abriu, os olhos brancos se tornaram maestros. As mãos se moviam como em uma dança ensaiada, reconhecendo as exigências do poder. Encantou o vinho, girando-o três vezes. O cálice foi virado e uma parte da bebida, entornada. Seus dedos se estalaram, invocando uma chama intensa que queimou forte, unindo tudo em um só.

Pela sala, o cheiro de rosas se espalhou, forte e intenso.

A Bruxa sorriu, satisfeita com o próprio feito. Ela deixou que a chama se apagasse sozinha enquanto se servia de mais uma dose de vinho.

― Eu sinto cheiro de rosas... Um feitiço de amor, veja só. ― a voz de Regina fez com que Zelena pulasse. Tão concentrada em seu feito, não ouvira a proximidade dos pensamentos da irmã.

― Olha só quem está aqui. Como foi o café da manhã com sua namorada? ― a Bruxa estendeu o cálice, sabendo que seria aceito. Vinho jamais seria negado por uma Mills.

― Incrível, embora ela não seja minha namorada. Foi muito prazeroso. ― a morena observou a chama que queimava fraca, o último ciclo sendo fechado. Inspirou fundo. ― Rosas, mel e vinho. Para quem?

― Dani está apaixonada pela neta de Abgail. Ela só precisava de um empurrãozinho, uma gotinha de autoconfiança. Eu dei. ― frente a confissão da irmã, a morena revirou os olhos. Já estava acostumada com as contravenções mágicas de Zelena.

O cálice foi devolvido a ruiva, que o completou com um pouco mais de vinho.

― Eu disse a Emma que precisaria passar por aqui antes de ir até a biblioteca. Pensei em trazê-la, mas temi que seus olhos curiosos encontrassem alguma coisa proibida. Já conseguiu abrir a caixa com os livros? ― a morena tocou o crânio que, outrora, Dani segurava.

― Não, ainda não. Prometi a Dani que esperaria por ela.

― Tem notícias de tia Cassandra? Hoje é seu primeiro dia no hospital. Ela estava ansiosa, mas acho que tudo irá bem.

― A Deusa permita que sim. Acho que será muito bom para ela. ― Zelena prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, pronta para garimpar pelos artefatos que Dani dispunha pela sala. ― Pode pegar a taça? Eu me esqueci.

― Não é uma taça, é um cálice. Há uma diferença. ― implicou, bebericando-o antes de devolver à irmã.

― Regina! ― a voz animada da jovem mulher chamou a atenção das Bruxas. Dani equilibrava dois copos com mais algumas sacolas. Ela nunca conseguia se conter ao visitar a lanchonete. ― Há quanto tempo. Como você está?

― Estou bem, querida! É ótimo tê-la de volta. Zelena estava fazendo uma bagunça por aqui em sua ausência. ― a morena aceitou o abraço oferecido, ajudando a mulher a colocar suas compras sobre a mesa.

Mas os olhos de Dani se arregalaram em surpresa ao perceber o que estava nas mãos de Zelena. Mais especificamente, o que ela estava usando para, satisfeita, beber de seu bom vinho.

― Você não está bebendo vinho em um cálice do século VI, não é?

― Não, não. Este aqui estava no meu escritório. ― Zelena tentou tranquilizá-la, mas só então se atentou as insígnias dispostas.

― Sim, porque eu o esqueci lá mais cedo quando fui atrás das fichas. Mas não há mal, no máximo você acabou de contrair uma doença que estava adormecida ai há milênios. ― a mulher se voltou ao grande fichário, onde todos os itens estavam listados com breve resumos das origens. ― O cálice tem origem na Europa e pertenceu à Agnnies Tremmera. Reza a lenda que após ser presa pelos guardas da Santa Inquisição, ela encantou o cálice do padre. Eles trocaram de corpos quando Agnnies foi levada à fogueira. O padre foi queimado no corpo de Agnnies e a bruxa conseguiu fugir no corpo do padre. ― Dani assobiou, assentindo em aprovação. ― Parece justo, não é? Ótima história. ― ela encarou as duas irmãs, ambas permaneciam catatônicas. ― Imagine ter poder para fazer algo assim, trocar de corpo com outra pessoa. Parece sombrio e magnífico. ― a mulher deu de ombros, saindo para os fundos da sala.

― Zelena... ― o chamado de Regina era lento e sombrio, ela se virou para a irmã.

― Não foi de propósito, não foi de propósito, não foi de propósito. ― a ruiva ergueu as mãos em rendição. ― Além do mais, veja só, nada aconteceu! Eu ainda sou eu, você ainda é a mesma rabugenta e no mesmo corpo de rabugenta. Nada fora do... ― ela engasgou, levando a mão ao próprio peito.

Foram as últimas palavras que Zelena proferiu por seus próprios lábios.

Notas finais
feliz dia dos mortos pra emma que morreu de tesão
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.