Finalmente Eddard Stark chegara ao local onde Rhaegar Targaryen manteve sua irmã como prisioneira.

Os membros da guarda real que mantinham Lyanna na Torre da Alegria foram aniquilados em seu dever, assim como os seus homens. Apenas ele e Howland Reed continuavam vivos. Sob seu comando, o seu mais fiel vassalo o esperou no andar de baixo enquanto o Senhor de Winterfell subia pelas escadas de pedra polida até o quarto daquela que ele viera resgatar.

Seu coração palpitava em sua garganta. Havia passado por tantos obstáculos para chegar até ali e ainda assim tinha um mau pressentimento formigando dentro de si como se fosse um ninho de enguias em seu estômago.

Uma porta de madeira pesada e entalhada, reforçada por ferro era o que o separava de sua irmã. Eddard possuía ressentimentos pela atitude imprudente da mais nova. Ele deveria ser o único nos Sete Reinos que sabia que ela havia se voluntariado para ser levada por Rhaegar. O Príncipe Targaryen não a sequestrara como Robert Baratheon, o noivo dela, acreditava.

O amor entre o Último Dragão e Lyanna foi mútuo, surgido de modo simples durante o Torneio de Harrenhal. Maldito torneio, Ned blasfemou em pensamento. Fora uma má ideia ter levado a única filha de seu pai para o evento, mas Robert insistira para que ela comparecesse e o assistisse dando o seu melhor na arena de combate. Robert fora estúpido. Ele perdera não só o campeonato como também o coração de sua noiva. No fim, foi Rhaegar Targaryen quem venceu ao eleger Lyanna Stark como a Rainha do Amor e da Beleza com uma coroa de rosas azuis.

A atitude do príncipe podia ter sido vista como honrosa e galanteadora se nenhuma das partes envolvidas fosse comprometida. Rhaegar era casado com Elia Martell, tendo com ela dois filhos naquele momento, enquanto Lyanna era a prometida de Robert Baratheon, o melhor amigo de Eddard Stark.

O passado é passado, disse a si mesmo ao tomar a coragem necessária para romper a última barreira que separava os dois irmãos.

Rhaegar estava morto e os rubis de sua armadura espalhados pelo Tridente graças ao martelo de guerra de Robert. Era provável que Lyanna já soubesse do ocorrido a essa altura e tivesse consciência de que não poderia mais fugir de seus deveres. Era função de Eddard levá-la para Porto Real para que ela contraísse núpcias com o seu noivo e fosse coroada a Rainha dos Sete Reinos agora que a dinastia Targaryen fora extinta pela morte de todos daquela linhagem real.

Surpreendentemente a porta do quarto não estava trancada. Por garantia, Ned trazia em sua mão direita a espada de aço valiriano de sua família. A lâmina ainda estava coberta pelo sangue de seus inimigos, mas não era do sangue dos homens que matara que sentiu ao adentrar o aposento em que Lyanna estava.

Deitada sobre uma cama coberta por rosas de pétalas azuis sua irmã sorria entre lágrimas para o pequeno embrulho que trazia nos braços.

— Venha ver, Ned — Ela o incentivou — Ele é tão pequeno e se parece tanto com você...

Com esforço, o homem engoliu o nó que se formara em sua garganta. Seus olhos pareciam estar lhe pregando uma peça. Era impossível que aquela cena fosse real. Não tinha ideia de quanto tempo Lyanna passara fora de casa. Ele não contava os dias e sim as vidas que tirava. Pela sua lógica, não mais do que um par de meses haviam se passado, então como ela poderia estar segurando uma criança em seus braços? Pelos Deuses, Lyanna ainda era uma criança!

— Ele...? — Arriscou. Sua voz não soou tão segura quanto esperava.

— Sim — Ela concordou com um sorriso febril — É um menino; seu sobrinho.

— Meu sobrinho... — Repetiu em um murmúrio, dando um passo vacilante na direção dela.

Não sabia como lidar com aquela informação. Tantas coisas havia feito para garantir a segurança de sua irmã e mesmo assim, não poderia protegê-la da fúria de Robert quando ele descobrisse que ela tivera um filho de Rhaegar, ainda mais sendo um bastardo.

— Lyanna... — A chamou a modo de repreendê-la, mas suas palavras se perderam quando viu a fonte do cheiro metalizado no leito de sua irmã.

Misturado as rosas, uma poça de líquido vermelho colorira o lençol branco. No vão das pernas da mulher se encontrava um pedaço denso de carne e sangue que era ligado a criança que ela segurava. Pelo jeito, não fazia muito tempo que ela dera a luz. Provavelmente enquanto os últimos homens de Rhaegar morriam pelas mãos de seus próprios homens.

— Agora não, Ned — Ela pediu em um fio de voz e lhe estendeu a mão em um convite para ele pegá-la.

Ned como sempre cedia aos caprichos da irmã, a obedeceu sem questionar. A mão dela estava fria em contraste com a sua. Seus olhos se embebedaram da face dela. Suor escorria por suas têmporas pálidas e febris pela perda de sangue. Estivera tanto tempo envolvido com a guerra que Robert travara que se familiarizara com a sombra da morte, contudo não havia nada no mundo que pudesse prepará-lo para este momento. Com um soluço, derrubou a espada no chão e ajoelhou-se ao lado do leito dela, com o rosto escondido na mão dela.

— Está tudo bem, meu irmão — Ela garantiu, apesar daquilo ser uma terrível mentira.

O sangue não parava de escorrer de dentro dela. Robert podia ter ganhado todas as batalhas, mas perdera a guerra. Lyanna iria morrer, não tinha dúvidas sobre isso e o que era pior é que ela estava tranquila com isso.

— Me deixe chamar um Meistre — Pediu em meio ao choro.

— É inútil — Lyanna o consolou — Não há Meistres aqui perto e provavelmente estarei morta quando encontrar um. Fique ao meu lado, irmão. Veja o lindo legado que estarei deixando nessa vida.

Com certo custo, Eddard ergueu o rosto e pela primeira vez, contemplou o seu sobrinho. O menino era pequeno até mesmo para um bebê recém nascido, todavia fios negros apontavam no topo de sua cabeça. Os olhos da criança ainda estavam fechados e suas mãozinhas brincavam fora da manta que o envolvia.

— Qual... Qual o nome dele? — Perguntou, tentando não deixar suas emoções transbordarem tanto.

— Ainda não pensei em um — Lyanna mordeu o lábio inferior de maneira pensativa — Por que não escolhe um? Tenho certeza que não poderei chamá-lo de Rhaegar de qualquer forma — Ela riu com sarcasmo, escondendo as lágrimas que formavam em seus olhos.

— Lyanna... — Ele a chamou, tomando as dores dela para si — Eu sinto muito que tudo isso tenha acontecido.

— Não foi culpa sua — O informou — Se Rhaegar e eu não tivéssemos deixados sermos guiados pelas emoções, nada disso teria acontecido. Eu deveria ter sido mais como você, meu irmão. Eu sempre o admirei tanto, Ned... — Lyanna voltou-se para ele e trouxe a mão dele que segurava até os lábios, depositando nos nós dos dedos um beijo singelo — Por isso que eu preciso que me prometa, Ned... Prometa-me que você irá cuidar de meu filho como se fosse seu. Que irá dar a ele a sabedoria que você. E acima de tudo, prometa-me Ned que não permitirá que Robert faça mal à ele.

— Lyanna... — Tornou a chamá-la.

O nome da irmã era poesia em sua boca e no entanto, ela lhe pedia algo impossível para a sua moral. Ele não poderia trair o seu Rei e amigo, Robert Baratheon. Não de novo. Ele sabia dos sentimentos que Lyanna tinha por Rhaegar e na época não disse nada ao amigo e por culpa de seu protecionismo agora deveria esconder uma criança. Se Robert ou os Lannister soubessem da existência dela com toda a certeza o seu sobrinho morreria pelo aço de um de seus múltiplos vassalos que surgiam como erva daninha pelos Sete Reinos com o extermínio dos Targaryen.

— Prometa-me, Ned! — Lyanna ordenou em um esforço para elevar a voz. Aos poucos a mulher ia perdendo as suas forças.

Ele não podia concordar com aquilo e muito menos negar o pedido do leito de morte de sua querida irmã.

— Eu irei levar a criança, então — Separou sua mão da dela e pôs-se em pé.

— Ainda não — Ela pediu — Deixe meu filho comigo até eu partir.

— Como quiser — O cheiro do sangue que vinha da mãe o estava deixando tonto junto com tantos pedidos. Ele queria ir embora dali e os seus pés o traiam, recusando-se a dar um passo para longe dela.

— Fique comigo, meu irmão. Eu quero estar perto de você e saber que irá cuidar de meu filho — Lyanna sorriu para ele, piscando mais pesadamente a cada momento que se passava.

— Você deve descansar, Lyanna — Ele a informou, ajeitando o travesseiro que ela se apoiava — Eu irei ficar aqui o tempo que for necessário.

Lyanna o obedeceu e afundou sua cabeça no estofado de penas, segurando o bebê em seus braços. Lágrimas escorriam pelos olhos dos irmãos em dores que somente eles entendiam. Apenas o infante exibia uma expressão serena. Aquela criança era uma esperança. Depois de tantas mortes ele teve a chance de vir ao mundo para reparar o sangue que fora derramado, incluindo o da mãe dele. A Fé dos Sete tinha os dizeres que a morte vinha para os pecadores e Eddard se recusava a acreditar que depois de tudo o que passara sua irmã fosse de fato uma pecadora. Ela era pura, ingênua e feminina, apesar de ser uma rebelde sem tamanho. Ela era livre como o vento e ninguém culpava as ventanias pelas destruições que causavam, então como alguém poderia culpá-la? Lyanna era mais uma vítima. Uma Stark, no fim das contas. Não se importava com os sermões que levaria, ela seria enterrada nas criptas de Winterfell onde de fato era o seu lugar. Sua memória seria honrada. Nenhuma das histórias que ele sabia a respeito dela seria proferida. Que o amor de Robert por ela cegasse mais olhos além dos do Rei.

Determinado a não ver mais aquela cena de mãe e filho agarrados pelos braços da morte, Eddard caminhou até a estreita janela da torre. O dia lá fora começava a ser substituído pela noite. Sem casas ou estradas ao redor, apenas o barulho dos pássaros e do farfalhar das folhas das árvores podiam ser ouvidos. Ned fechou os olhos perante aquilo, deixando-se ser envolvido pela natureza.

Dentro de si uma dor sem tamanho o consumia. Ele amara Lyanna, era verdade, mas não como um irmão ama a sua irmã e sim como um homem ama uma mulher. Ele a admirava, a achava bela e desejava possuí-la. Ela era o oposto dele de todas as formas possíveis. Já tinha aceitado o fato de nunca a tê-la. Estava satisfeito por ela se tornar a esposa de Robert ou de Rhaegar que fosse, porém estava longe de seu alcance aceitar entregá-la para a morte. Era triste conviver com o fato dela nunca ter descoberto os seus sentimentos e devastador ter de ser ele a entregá-la para um mundo que ele não tinha alcance. Um dia irei encontrá-la, disse a si mesmo de modo a se reconfortar, todavia não havia conforto no pesar.

— Lyanna... — Sussurrou o nome dela ao vento que invadia o aposento e ricocheteava o seu rosto.

A poesia da palavra ecoada em sua mente foi substituída pelo choro do bebê. Em instinto, Ned voltou-se para a cama. Sua irmã estava em silêncio com os olhos fechados e o peito estático. Ela havia morrido e o infante chorava pela ausência de calor da mulher que o trouxe ao mundo. Com determinação, ele se aproximou de seu sobrinho e o retirou dos braços da irmã. Com o punhal que tinha na cintura, cortou o cordão que o ligava a mãe.

— Eu prometo, minha irmã — Disse por fim a sua resolução.

Não iria permitir que nenhum mal chegasse até aquele pequeno pedaço de carne. O bebê seria tratado como o seu filho, ele era afinal de contas o elo de ligação que teria com Lyanna. Em sua cabeça poderia viver a fantasia de que se o mundo fosse diferente de fato a criança seria sua com sua irmã.

Protegendo o infante com a manta que o envolvia, deixou o aposento, dando um beijo de promessa nos lábios frios de Lyanna.

Na entrada da torre, Howland Reed esperava por ele.

— Onde está Lady Lyanna? — Ele perguntou em desespero.

— Morta — A palavra foi proferida em puro ódio — Quero que faça os preparativos para levá-la para Winterfell. O corpo dela será depositado na cripta da minha família e uma estátua deverá ser erguida em sua homenagem.

— Sim, Senhor... — Howland concordou, tendo os olhos fixos no embrulho que seu senhor trazia nos braços — Isso é...?

— Meu filho — Adiantou — É isso o que dirá se alguém perguntar — O alertou.

— Qual nome irá dar à ele? — Questionou com curiosidade.

— Jon — O nome lhe viera com facilidade aos lábios. Jon Arryn se provara um grande amigo quando ficara hospedado no Ninho das Águias e ninguém o culparia por fazer tal homenagem ao seu primogênito, fosse ele legítimo ou não.

O seu cavalo permanecia no lugar em que o deixara, se alimentando das gramas que ali cresciam. Eddard subiu com cuidado em sua garupa, mantendo seu sobrinho em segurança em um braço enquanto o outro se ocupava com as rédeas.

— A sua espada, Senhor! — Howland o recordou.

— Traga-a com você. Eu não tenho necessidades dela agora. Robert conseguiu a paz que ele almejava.

Dando uma última olhada sobre os ombros para o local que Lyanna encontrou o seu fim, percebeu que não havia nome pior do que Torre da Alegria. O nome ideal deveria ter sido Torre das Promessas e dos Segredos. Batendo com força com o calcanhar no garanhão, trotou em direção à Correrrio, pensando nas desculpas que daria à senhora sua esposa que a qualquer momento daria luz ao seu primeiro filho. Com certeza não poderei chamá-lo de Jon agora.

Notas finais
Queria escrever uma fic Lyanna x Eddard já tem um tempo e isso foi o melhor que eu consegui, rs.
Espero que tenham gostado.
Comentários são bem-vindos. ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!