Torneio das Legiões

6 6# - Kin Vs. Kirakage!


6# — Kin Vs. Kirakage!

Do outro lado do planeta, entre as maiores e mais íngremes montanhas de todas, um grupo de quinze competitivos retalhadores decidiu se reunir após ficar claro que, individualmente, nenhum deles era páreo para a filha de Yume e que o único guerreiro capaz de igualar-se à ela a estava enfrentando agora. A torcida pedia em coro que os dois terminassem mortos, mas todos pareciam saber que a vantagem era dela. Talvez até seu adversário soubesse disso, e de fato era bom que soubesse mesmo porque para vencer um inimigo superior, de acordo com Arashi, o primeiro passo era reconhecer a sua inferioridade e todas as suas desvantagens diante dele.

Refletir sobre seus pontos fracos e conhecê-los, é torná-los sua força — foi o pensamento que uniu os quinze, que ao redor de uma pequena tumba na qual foram gravados alguns poéticos dizeres, sepultavam uma das vítimas de Kin. Mas eles não a culpavam, tampouco a odiavam, sua revolta se voltava às bases do torneio: uma competição que obrigava seus participantes a matar os seus semelhantes era não só contraditória, mas tóxica. Ela ia contra os valores alegadamente pregados pela Terra de Áries, o problema era que gente como a Kin e o Kirakage não entendia isso e se fosse preciso matá-los para haver uma mudança, perder duas pedras tão preciosas, que assim fosse.

Seus ideais eram puros, ao contrário dos de uma garota em particular ali presente, pois os dela foram impregnados com a lama do ódio.

— Eu sei onde ela está... — A fala de Akane atraiu para a interlocutora as atenções de todos os presentes. — Eu imagino que já saibam com quem ela tá lutando agora e que dessa ela não vai se safar tão fácil, nós só precisamos ir até lá e matá-la depois que a luta terminar.

— Quem é você? — O novo líder do time interrompeu seu luto para ouvi-la, chamando-a para o meio do círculo formado em torno do túmulo do rapaz que idealizou aquela união.

— Sou alguém que acabou de ver o seu último ente querido vivo morrer graças às ações da primogênita de Yume.

Na hora ele entendeu qual era a dela. Vingança. Estava em seus olhos.

— Olha, sentimos muito por você. De verdade. Conhecemos a sensação, perdemos muita gente importante para nós só hoje, mas não estamos atrás de vingança. Nosso objetivo é acabar com as diretrizes dessa competição para sempre, porque a ideia de empunhar nossas essências e apontar os nossos instintos assassinos para os nossos irmãos vai contra tudo o que Yume ensinou.

— Isso é louvável. Meu irmão também pensava assim, mas Kin, não. E eu sei que vocês sabem que, como ela é mais poderosa do que todos nós, a única forma de acabar com isso é matando-a. Não importa o que queremos, mas o que temos que fazer. Posso levá-los até ela, mas têm que me garantir que não a deixarão viver.

Queria encontrá-la mas não para matá-la, desejava, antes de tudo, ouvi-la e ser ouvido, persuadi-la a adotar a sua linha de raciocínio porque já teve a chance de conhecê-la e sabia que Kin não era uma má pessoa.

— Tudo bem, temos um trato. — Suspirou. Aceitou os termos dela porque era conveniente no momento, ainda não desistira de conversar pacificamente com Kin e de tentar convencê-la a parar de matar.

...

Kirakage se tornou um só com as sombras de sua precavida adversária, movimentou-se para a retaguarda dela e tentou apunhalá-la com a faca que carregava; Kin, por sua vez, usou sua espada de luz para se proteger e destruir a única lâmina que seu oponente portava, recuou um passo e tentou chutar o rosto dele, que voltou a se fundir à sombra dela e surgiu ao seu lado, desferindo contra a sua face dela um direto de direita.

Confiante, segurou o punho dele, que por alguma razão sorriu. Ela ouviu e sentiu um movimento suspeito em seu ponto cego, mas no instante em que se virou para checar, levou um soco tão forte no nariz que saiu voando pelo ar até seu corpo colidir com as árvores e parar, onde ela caiu sentada.

Kin sabia que foi sorte ter desintegrado a espada dele antes disso, que se não tivesse feito isso, muito provavelmente estaria morta agora. Ele lhe lançou o seu olhar mais arrogante, um do tipo que ela costumava atirar aos outros. A intenção dele não era matá-la, ela soube. Pelo menos não com aquele ataque. Não. O que ele queria mesmo era que ela visse do que ele era capaz.

— Eu admito que te subestimei... — Reergueu-se devagar. — Parece que vou levar mais de três segundos para acabar com isso. — Sorriu, massageou o rosto e levantou a guarda.

— Não desmonte sua postura arrogante agora. Isso ainda não é nada, foi apenas um truquezinho barato que eu costumo usar para eliminar retalhadores imprestáveis, eu só queria que você o conhecesse para não cair na tentação de te matar quando perdesse a calma.

— Muito bem. Não vai se repetir... — Sorriu. Num segundo falava com ele e no outro, estava com a ponta da espada a meio milímetro de sua garganta, o tinha completamente rendido. Abaixou a arma, recuou e disse: — Não me olhe desse jeito, isso ainda não é nada, é só um truque barato que eu uso para não perder muito tempo com retalhadores imprestáveis... Eu só queria que você o conhecesse para não cair na tentação de te matar quando você me irritasse.

Saber que já estaria morto se ela quisesse o enfureceu, o frustrou. Teve a infância inteira construída ao redor de uma crença: a de que era um prodígio, o tipo de ser que nasceu para se destacar naquilo que fazia, um em um bilhão. Ao que parecia, estava enganado. Sequer era um em cinquenta mil.

Não, não estava errado. Não podia estar. Jamais experimentou o gosto da derrota antes, não será hoje a primeira vez. Kirakage levantou o pé esquerdo, elevou a sombra até a loira e uniu-se à ela para surpreender a sua oponente, a atacando com a enxurrada de socos dos quais Kin se protegeu com muito mais dificuldades que teria para defender-se de Arashi.

Ele é rápido... — Desviou-se de um cruzado, segurou o chute dele e se apercebeu de mais um fato: — E forte...

Kin queria mostrar-lhe um pouco do que realmente podia fazer e deu no rosto dele um cruzado de esquerda, outro de direita, enterrou o punho em seu estômago e o olhou desesperar-se, mas a expressão na cara dele de repente se alterou: Kirakage fez a sombra que a seguia desprender-se da terra, tomar a forma de uma enorme mão fechada e imediatamente socá-la. A resposta de Kin foi instintiva, mas instantânea como o golpe, porém não tão consistente e ainda que com a guarda levantada, ela foi arremessada para longe dele.

— Conheça agora minha melhor técnica: O reino das sombras. — A mão, agora, assumiu a forma de um grande monstro. Três outras criaturas idênticas surgiram logo em seguida e juntos eles cercaram a loirinha que, intimidada, recuava sem tirar os olhos de suas pavorosas figuras. — Sinta-se lisonjeada... é a segunda vez em toda a minha vida que uso essa habilidade contra alguém, a primeira foi meu pai. Eu o matei.

Ela não acreditou no que ouviu.

— Que... tipo de pessoa é você?

— O tipo que não gosta de se conter enquanto luta. — Afirmou, movendo os dedos em um gesto que ordenou a primeira investida de seus lacaios, mais especificamente o do meio, que com um só soco e mover de pés, reduziu toda a floresta adiante a pedaços.

Os tremores preocuparam Nari. Fez o que Kin mandou e se escondeu, no entanto não estava satisfeito. O seu refúgio se encontrava no fato de que pelo menos não a atrapalhava, mas estava infeliz. Não parecia certo. Antes do início do torneio tinha muito medo de morrer e foi precisamente para superá-lo que decidiu participar, só que repentinamente tal temor sumiu, ele foi substituído por um orgulho que estava sofrendo danos irreparáveis.

Estava liberto da escravidão à qual sua covardia o condenou e devia isto à Kin, tirando o fato de que ela era a sua única aliada dentro daquele mundo, portanto se a loira morresse jamais se perdoaria, seria totalmente incapaz de conviver com a culpa. Estava pronto para lutar e morrer não só em gratidão ao que ela fez, mas em prol da vitória.

— Impressionante... — Kirakage estava estupefato. Tinha a mais absoluta certeza de que Kin não se esquivara do último e primeiro ataque, que a tinha atingido em cheio, podia constatar isso pelos ferimentos que ela tinha, mas ela ainda estava bem viva. Agachada, sem a mesma disposição do começo do combate mas consciente e respirando. — Você é mesmo fora do comum. Estes monstros têm poder para destruir montanhas inteiras com os ventos dos seus socos, mas você sobreviveu ilesa ao ataque direto de um deles. Você é feita de ferro?

— Se me conhecesse saberia que o surpreendente mesmo não é eu estar viva, é você ter conseguido me ferir. — Sorriu com superioridade. Notou uma coisa: a falta de prática que ele tinha com aquela habilidade. Isso o levará a derrota.

— Não perde a pose nem diante da morte. Que seja. — Aprontou os seus monstros. — Eu não sei como você conseguiu resistir aos meus ataques mais poderosos, mas posso garantir que isso não vai se repetir.

Ela ficou de pé.

— Vem pra cima. — O desafiou, abriu um par de asas amareladas e voou, saindo da frente do primeiro golpe. No ar, segurou o grande punho da criatura que se localizava no centro, montou nele e tomou impulso para o salto que lhe possibilitou escapar do cruzado de direita do ser que, até então, estava inerte.

As sombras envolveram seus olhos, ela estava temporariamente cega, quase vulnerável mas ainda contava com os reflexos que a mandaram pôr os braços na frente do soco do gigante mais poderoso do trio. Como consequência, por um longo segundo ela sentiu como se uma manada de elefantes tivesse pisoteado seu braço direito.