Too Close For Comfort

3 Capítulo 3: Incidente aparentemente planejado


Não foi amor à primeira vista. Também não foi amor que floresceu de uma intensa amizade. E muito menos a metamorfose do ódio em amor. Não foi nada tipicamente familiar ou previsível.

Éramos apenas duas almas aleatórias, que tiveram suas vidas interceptadas... uma pela outra. Não sei ao certo o tamanho desse sentimento, visto que a imensidão é algo incomensurável.

(...)

Eu a notava sim, algumas vezes na escola, porque sempre gostei do jeito como ela sorri. Também olhava pras outras garotas, mas aquele sorriso era incomparável.

Também a via ir embora do colégio pra casa, todos os dias, às vezes com umas amigas, outras, sozinha. Não sabia nem o seu nome – e pra falar verdade, isso não costumava ser um problema, até porque ela tampouco sabia o meu, e ainda suspeito de que ela raramente tenha reparado em mim no colégio.

Fazendo o meu habitual caminho pra casa, depois de todo o tempo desperdiçado na Albert Einstein High School (AEHS), ia descendo de skate, mas diminuí a velocidade quando a vi parada na porta da casa dela. Meio sem jeito, parei diante dela e perguntei:

— Seu pai te pôs pra fora de casa? – depois fiquei sem graça por ter dito aquilo. Ela sorriu com gentileza, o que me fez pensar por que eu nunca tinha falado com ela antes.

— Minha mãe foi fazer compras e a habitual chave debaixo do tapete não está lá. O que não faz de mim expulsa da minha própria casa, mas sim abandonada e esquecida pela minha própria mãe.

— Não acho que você seja uma rara exceção... – rimos juntos.

Olhei nos olhos dela e vi quão profundo eles eram.

— Vi você descendo a rua de skate. Legal, você saber andar...

— O que a gente não faz quando precisa chegar mais rápido em algum lugar? Mas eu também gosto de sair por aí só pra andar mesmo. Eu curto essa minha peça de museu – apontei pro meu skate e sorri – e modéstia à parte mando muito bem...

Ela fez cara de: “Hum, convencido!” sorrindo e disse:

— Eu mal me sustento sob duas pernas sem tropeçar, quem dirá se eu fosse andar de skate.. – ela sorriu sem graça e eu sorri de volta.

— O que acha de irmos ao LongPlay Café, comer alguma coisa? Eu te pago um lanche, se você quiser... você deve estar com fome.

Como que parecendo mudar de assunto, ela disse:

— Acho que foi proposital a minha mãe me deixar de fora de casa...

— Por quê? Esqueceu de regar as plantas ou lavar a louça e ela está se vingando?

— Não... vai ver ela queria que eu conhecesse um certo cara legal, um skatista nada modesto... – ela olhou pra baixo, tímida – Só não conta pra ela que eu aproveitei da situação pra ganhar um lanche dele...

Ela me olhou nos olhos com um sorriso irônico.

— Só se você me deixar te trazer de volta, pra eu me certificar de que você não vai lavar a louça ou arrumar seu quarto. Vai ver assim ela te deixa de fora de casa do novo amanhã...

Ela esboçou um sorriso e olhou pro horizonte, e, como se tivesse se lembrado de algo, virou-se pra mim, estendeu a mão e disse:

— A propósito: Annelise Stuart – estendi a mina mão.

— Kurt Reagan.

Aí fomos pro LP Café, que não era muito longe dali. Conversamos qualquer coisa à toa mesmo. Mas só de estar perto dela, ver aquele sorriso de perto e aqueles olhos profundos já era o bastante pra me fazer sentir bem, como há muito tempo eu não me sentia.

Já estava escurecendo quando eu a levei de volta pra casa, onde já havia algumas luzes acesas. Paramos no portãozinho e ficamos nos olhando por alguns poucos segundos, até que ela disse:

— Bem... Obrigada, Kurt, por tornar um incidente chato em uma tarde divertida...

— Também me diverti...

Me aproximei mais dela, devagar, mas ela ficou imóvel e quando faltava pouco para nos beijarmos, ela se virou repentinamente, abriu o portãozinho e correu pra dentro sem dizer mais nada. Não sei o que me deu, foi impulso; não sabia que ela ia reagir daquela forma.

Notas finais
Por favor, comentem o que acharam!
Beijos