Tomoeda High
11 Verdade
Ao longo da mureta havia várias formações rochosas, algumas no mesmo nível da calçada. Os dois desceram a mureta e, enquanto recuperavam o fôlego, contemplavam o mar diante deles. O rapaz então a levou a uma formação mais baixa, onde se sentaram.
– Os Li possuem uma obrigação de família– contou. –Temos que manter escondida do mundo a existência de certos seres que convivem com os humanos. Dizem que esses seres são filhos de demônios com humanos ou algo assim; eu realmente não sei de onde vieram. Você conhece esses seres como vampiros.
Sakura o ouvia, atenta. A brisa soprava no rosto dele, despenteando mais seus cabelos. Havia algo sério em seus olhos de cores diferentes, geralmente tão descontraídos, que fazia a jovem prestar atenção em cada palavra que ele dizia.
– Tokyo foi um dos primeiros lugares no mundo onde eles surgiram. Eles se espalharam então, e desde que começaram a existir, foram caçados pelos humanos. Hoje existem poucos deles, e eles precisam constantemente visitar a sua terra de origem para não enfraquecer. Eu e meu irmão somos responsáveis por manter a ordem numa das regiões de Tokyo, até que eles vão embora.
– Então... Ontem, na casa do Phantom-kun –ela disse devagar.
– Sentimos que algo perigoso ia acontecer, por isso fomos para lá– ele explicou. –Mas apesar de tudo, não houve mortos nem feridos... Bem, não feridos gravemente.
– Phantom-kun é um vampiro?
A pergunta o pegou de surpresa. Tsubasa tinha razão, ele pensou. Havia coisas demais naquele mundo a serem explicadas. Mesmo assim, estava determinado a fazer aquilo ele mesmo.
– Não, ele não é. Não exatamente... Sakura, o que você conhece sobre vampiros?
– Deixa eu ver... Eles bebem sangue de gente– ela estremeceu um pouco. –Não andam de dia e... São maus...?
– Foi quase –ele assentiu em sua direção. – Nem todos são maus. Eles podem viver por centenas de anos, e muitos deles só estão entediados. Mas eles podem andar de dia sim. Alguns, mais antigos, tem habilidades únicas. E eles bebem sangue de gente, mas muitos estão tentando substituir por sangue de outros animais. Isso deixa eles mais fracos, claro; e por isso eles precisam voltar pra terra de origem deles, pra recarregar as energias.
– Entendo...
Sakura absorvia as informações aos poucos, procurando não entrar em pânico. Talvez quando chegasse em casa, pudesse pensar com mais clareza, ou mesmo deixar que a descrença e o pavor lhe dominassem... Mas não agora. Precisava se mostrar forte, ou ao menos confiável o bastante para que Syaoran lhe contasse tudo.
– Vocês fazem isso há muito tempo? –indagou. – Seu irmão, você, a... Meiling-san.
De repente, ocorreu a Syaoran que ele ainda não tinha esclarecido a Sakura sua história com a prima. Olhou para ela, ansioso.
– Falando nisso, ela e eu somos só...
– Tsubasa-kun já me explicou– ela sorriu, deixando-o incrivelmente aliviado.
– Ah, ok... Enfim, nós somos treinados desde crianças. Como a linhagem dos caçadores costuma ser bem antiga, herdamos a força física e a agilidade de nossos pais e avós. Só precisamos nos aperfeiçoar no uso de uma arma específica, que acaba se tornando nosso instrumento pra lutar de igual pra igual com eles. Meu instrumento é a espada; Tsubasa usa armas de fogo e Meiling, adagas.
– Parece perigoso...
– E é. Nós começamos o treinamento assim que aprendemos a andar. Você não faz ideia do estrago que uma criança pode fazer com uma espada de quase dois metros nas mãos...
Ele então lhe contou que morou com o irmão e a prima no santuário dos Li, na China, desde seu nascimento. Só saiu de lá quando ocorreu uma nova divisão em Tokyo, onde mais um ponto de proteção foi criado. Kurogane se responsabilizou por chefiar a área, enquanto finalizava o treinamento dos dois irmãos.
– Ele nos ensinou muito do que sabemos– disse ele. – É um caçador bem experiente. Dizem que já foi responsável por eliminar várias criaturas desse mundo.
Sakura fitou-o, temerosa.
– ...Eliminar?
– Sim –ele notou o medo na voz dela. –Eram tempos mais perigosos. Hoje em dia os vampiros que vivem em Tokyo ou visitam a cidade sabem muito bem as regras daqui e não dão tanto trabalho. Mesmo Kurogane-sensei tá meio que aposentado. Ele nem pode sair do templo, na verdade.
– Por que não?
– Bem... Acontece que Kurogane-sensei quebrou uma regra dos caçadores. Antigamente ele tinha um parceiro humano, que foi atacado por um vampiro durante uma luta, e acabou sendo transformado. Pra que ele não saísse atacando outras pessoas por aí, o sensei virou a fonte dele. Isto é, ele passou a doar seu sangue, de um jeito que o amigo dele só pudesse beber dele e mais ninguém.
– Nossa– ela exclamou assombrada. –Não sabia que isso era possível.
– Eles fizeram uma espécie de contrato mágico ou algo. Só que um caçador não pode fazer esse tipo de coisa. Como castigo o contrato foi quebrado, Kurogane passou a viver preso no templo e o amigo dele foi banido de Tokyo pra sempre.
– Kurogane-san não pode sair de lá? Mesmo se ficar doente ou algo assim?
– Não– ele baixou a cabeça. –São as regras de Tokyo. Em outros lugares do mundo os caçadores devem tratar esse assunto de um jeito diferente. Como em Londres... por exemplo.
– Londres...? – O olhar dela acendeu. Sabia de quem Syaoran estava falando.
– É. Lá, vampiros de linhagem muito antiga têm alguns privilégios garantidos pela Coroa Britânica, ao mesmo tempo em que trabalham para a rainha. Também não existe nenhum tipo de proibição quanto ao contrato, e inclusive, a parte que serve de fonte de alimento pode fazer o contrário, bebendo o sangue do vampiro. Isso encurta a expectativa de vida da pessoa, mas dá a ela poderes sobre-humanos.
A confusão na mente de Sakura era grande. Agora assimilava o que sabia sobre Ciel, e só então se deu conta que havia um vampiro por perto, todo aquele tempo.
– Se o Ciel-kun não é um deles... Então é o Michaelis-sensei?
– Isso. Tsubasa e eu ficamos sem entender a relação deles, desde que chegaram a Tokyo. Então, sentimos a presença de sangue derramado, muito próxima a um vampiro. Somos treinados pra sentir esse tipo de coisa. Foi quando resolvemos ir atrás deles e descobrimos a verdade.
O céu, até então de um cinza claro, estava ficando mais pesado. Syaoran sugeriu que eles caminhassem um pouco ao longo da praia, antes que a chuva começasse a cair.
O vento frio e salgado agitava as roupas e os cabelos de ambos. Eles seguiam em silêncio pela areia molhada, enquanto a água roçava de leve nos tênis deles. Sakura fitava o horizonte meio absorta, meio perdida. Tudo aquilo era repentino demais e fantasioso demais. Ela não sabia ainda se podia entender, quanto mais acreditar no que Syaoran lhe dizia. E se tudo fosse verdade... E se ela acreditasse que, de fato, o mundo em que vivia era povoado por seres como aqueles...
Um arrepio de medo percorreu sua espinha. Lembrou novamente das cenas do combate entre os Li e os empregados de Ciel. Se aquilo era um confronto entre humanos, como devia ser entre vampiros?
Sentiu um calor repentino em sua mão, era Syaoran que a segurava. Tinha um sorriso meio culpado no rosto.
– Isso tudo deve parecer loucura– murmurou. – Loucura perigosa, ainda mais; mas eu não te contaria se não fosse verdade. Mas olha, não precisa acreditar de cara. Pense a respeito, e se sentir medo, lembre que os caçadores também existem nesse mundo.
Não havia como não confiar nele, Sakura pensou. Sem o ar alegre e zombeteiro ele parecia ganhar uns anos a mais. Com aquele jeito sério e firme, ele ainda conseguia ficar mais bonito. Ela sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar do rosto dele.
– Acho que preciso de um tempo, sim– murmurou. –Mas eu não acho que você esteja mentindo, Syaoran-kun.
O rapaz sorriu, aliviado.
– Que bom. Eu não queria parecer um maluco pra você, contando essas histórias de vampiros e tudo mais.
– Não, não pareceu.
Era nostálgica, a sensação da mão pequena e morna na sua. Como na primeira vez em que se encontraram. Por Syaoran aquela praia nunca devia ter fim, mas os primeiros raios cortaram as nuvens, e eles tiveram que subir a mureta novamente.
Almoçaram numa barraquinha de soba, enquanto a chuva caía pesada. Syaoran explicou que Ciel e Sebastian tinham seus motivos para estar em Tokyo, e aparentemente não queriam problemas com os caçadores.
– Também é melhor que as identidades deles sejam preservadas– acrescentou. –Faça o possível para que eles não percebam que você sabe quem são. Eles não te farão nenhum mal se perceberem, claro; mas é melhor que achem que você não sabe. No nosso ramo, quanto menos pessoas envolvidas, melhor.
– Claro –ela assentiu enfaticamente. – Eles não vão saber o que eu sei, a menos que... eles possam ler mentes.
Ela engoliu em seco, mas a expressão amena de Syaoran lhe tranquilizou.
– Até onde eu sei, Ciel não pode– contou. –E mesmo Sebastian-sensei sendo um vampiro muito antigo, ele só pode ter uma habilidade, e a dele é a de fazer pessoas desmaiarem.
– Ah –Sakura sorriu de lado– tem umas garotas lá da sala que ele nem ia precisar dessa habilidade. Elas já são meio “caídas” pelo sensei...
Os dois riram. A chuva desabava ao redor da barraquinha, mas eles nem percebiam.
Quase uma hora depois eles puderam sair de baixo da marquise onde estiveram abrigados com outras pessoas. Subiram de volta as ruas úmidas e frias e se enfiaram no metrô, de volta para Tokyo.
No estacionamento da Tomoeda, vários professores e membros da administração se dirigiam aos seus veículos. Não eram muitas pessoas, mas ainda assim, ter uma conversa particular naquele ambiente seria difícil.
Dane-se, pensou Tsubasa. Era o único momento em que podia pegar Sebastian e Ciel juntos.
– Sensei– chamou-o, enquanto o homem abria a porta do passageiro para Ciel.
Ambos voltaram-se para o rapaz.
– Algum problema, Li-san? –Sebastian indagou calmamente.
– Sobre a Kinomoto-san– Tsubasa murmurou, quando chegou perto o bastante. –Só queria deixar vocês avisados de que ela vai saber toda a verdade. Meu irmão e eu preferimos que fosse assim.
– Claro– Ciel sorriu com desdém. –Afinal, como vocês iriam explicar a ela o que ela viu naquela noite?
– Só achamos que contar a verdade causaria menos problemas que sustentar uma mentira– Tsubasa replicou friamente.
– Ele tem razão, jovem mestre– disse Sebastian, enquanto o garoto amarrava a cara. Voltou-se para Tsubasa. –Contanto que a decisão de vocês não nos traga problemas, não há com o que se preocupar.
– Então tudo bem. Kinomoto-san é uma pessoa sensata. E meu irmão está conversando com ela, nesse momento.
– Seu irmão? –o garoto fez uma cara de incredulidade. –Ele quem vai contar pra ela? E você ainda diz que está tudo bem?
Tsubasa queria muito defender o irmão, mas também estava em dúvidas se a decisão dele tinha sido a melhor. Resolveu não entrar muito no assunto.
– Enfim– pôs as mãos nos bolsos, preparando-se para ir embora. –Só vim dizer que está tudo bem, então, não se preocupem com a Kinomoto-san. Podem deixar ela fora disso.
– Nós já deixamos– Ciel retrucou. – Vocês é quem estão colocando ela dentro.
– Apenas não toquem nela– Tsubasa insistiu, começando a ficar impaciente. –Não vai haver motivos pra isso.
Sebastian e Ciel se entreolharam. O garoto entrou no carro e seu tutor foi para o lado do motorista.
– Li-kun –disse, antes de entrar. –Jamais tocaríamos na Kinomoto-san, sem que houvesse um bom motivo.
O veículo partiu, deixando Tsubasa para trás. Ele seguiu para casa, sentindo-se estranhamente desconfortável com as palavras de Sebastian e Ciel. Será que eles realmente manteriam a palavra? E torceu para que Syaoran estivesse se saindo bem com Sakura...
Em Tokyo não estava chovendo, apesar do frio, de modo que Syaoran e Sakura puderam voltar para a casa dela sem problemas.
– Obrigada– ela disse, quando chegaram ao pátio do condomínio. –Por ter contado tudo. Não deve ter sido fácil pra você.
– Eu que agradeço– ele respondeu. – Pra você deve ter sido pior, ouvir tudo isso de uma vez e tudo mais.
– Acho que não tem problema, eu só preciso pensar mais um pouco sobre isso. –Ela sorriu. –De qualquer forma, foi ótimo cabular aula com você.
– Digo o mesmo.
Eles se olharam por um momento, completamente desconcertados. Havia algo a ser dito, só mais uma coisa, mas Sakura não conseguia falar, mesmo que aquela coisa apertasse seu peito. E Syaoran sabia que tinha que ser agora, antes de voltar para casa, mas não tinha certeza. Tinha jogado muita informação de Sakura para que ela pudesse absorver num dia só. Então baixou os olhos, murmurando que já estava na hora de ir.
– Aqui– ele retirou o casaco, os braços se arrepiando de frio imediatamente. –Seu irmão pode sentir falta.
– Mas e você... Ah, espera– Sakura tirou o próprio casaco e estendeu a ele. –Tá muito frio. Vista até chegar em casa, pelo menos.
– Tá... Valeu– ele vestiu o casaco, que ficava ligeiramente menor nele, mas ainda aquecia o bastante. –A gente se vê amanhã, certo?
– Certo.
Sakura o observou deixar o portão e sumir de vista. Uma solidão enorme lhe assolou no mesmo instante. Queria que ele voltasse. Queria poder ter dito aquelas palavras. Sem perceber, havia abraçado o casaco de Touya, conseguindo sentir o cheiro de Syaoran nele.
Ia subindo as escadas para casa, melancolicamente, quando seu coração deu um salto.
Syaoran estava parado no portão, o rosto vermelho, a respiração curta. Devia ter voltado correndo até ali.
Ele foi até Sakura, que de tão surpresa sequer se moveu de onde estava. Subiu os degraus para alcança-la, e antes que ela se desse conta, ele tinha lhe envolvido num abraço forte.
– Desculpa– ele murmurou ao soltá-la devagar, as mãos sobre seus ombros, sua testa quase encostando na dela. – Tinha uma coisa que eu esqueci de falar...
Ela mal o ouvia. Era tão quente, o corpo dele junto a ela, sua respiração. Seus lábios rosados estavam agora rubros, talvez pelo frio; e ela finalmente se moveu. Juntou seus lábios aos dele, num beijo trêmulo.
Quando fitou-o novamente quase riu da cara que ele fazia, uma surpresa quase cômica. Mas ela estava emocionada também, não imaginou que tivesse tanta coragem. Agora seu rosto queimava de vergonha, e ela não conseguia fazer nada além de olhar nos olhos dele, esperando ansiosa por uma resposta.
– Sim– ele sorriu, piscando devagar, e tomou o rosto dela delicadamente entre as mãos. – Era isso mesmo que eu queria dizer.
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