Together
16 Chapter 15 — The End Of What Started.
Notas iniciais
Levei a caixinha púrpura assim que possível. Desci as escadas lentamente e coloquei-a na mesinha de centro logo após remover da mesma os restos mortais do almoço... Cass e Sam ainda dormiam no sofá, e isso facilitou um pouco as coisas. Coloquei junto ao presente três cupcakes com as iniciais de nossos nomes...
Eu já poderia até mesmo ouvir Sam falando de como tudo isso era gay, mas acho que pela primeira vez, eu não me importava... Tudo ocorreria bem; eu entraria na faculdade no próximo semestre, e faria psicologia... Logo após eu faria literatura, numa tentativa de começar uma carreira como um escritor. Pretendia ainda fazer veterinária, mas repensei sobre isso e decidi me ater a coisas mais concretas e com mais garantias de sucesso. Eu iria começar a procurar por um emprego na próxima semana e com certeza conseguiria algo digno para me manter em um nível aceitável de vivência.
Eu só queria saber de ali, e do agora que me era proporcionado pela vida. Mas deveria devanear sobre tais assuntos outrora. Agora era o momento dos dois homens mais importantes de minha atual existência... E de presenteá-los com algo que — eu espero — exprima todo o significado e peso de suas respectivas existências na vida de uma personalidade afundada em danos irremediáveis. Ou melhor, que pareciam ser irremediáveis, pois com a dose certa de amor e de compreensão, estas duas figuras inigualáveis e inatingíveis conseguiram penetrar minha mente e me tirar de um antro de demônios que me entrincheiravam em minhas próprias mazelas; era uma alma condenada e a eles competia a escolha de tirar-me deste sofrimento ou deixar-me apodrecer em meio a meus fantasmas...
Eles me salvaram.
Sem mais delongas nós festejamos, choramos e rimos, dei a eles os anéis e expliquei suas respectivas histórias... Éramos três personalidades irremediavelmente companheiras. Castiel, Sam e Dean... Estávamos no ápice de nossas respectivas felicidades juntas... Foi um dia longo aquele. Subimos no carro e decidimos ir até a praia, afinal, o relógio marcava seis horas da tarde, e o sol começava a se prostrar ante ao oceano para que a lua tenha suas horas de glória; embalando o sono dos miseráveis e as mazelas dos abastados.
O sol tinha pouco menos do que sua metade escondida no horizonte, tínhamos o que desfrutar ainda. Trouxemos geleia de morango e creme de amendoim, pão fatiado e torradas. Compramos suco natural de laranja no caminho e sentamos na areia da praia com uma toalha em baixo de nós. Os anéis em nossas mãos reluziam em um roxo límpido e puro; o anel, com sua pedra de Safira, resplandecia com o laranja-avermelhado que os raios do sol nos proporcionavam cruzando nossa atmosfera e banhando a bela praia.
— Sabe Dean — Sam principiou enquanto acariciava minha mão com o anel — acho que eu nunca estive tão feliz...
— Sabe Sam — Juntei-me a ele em seus dizeres melancólicos — acho que eu também nunca estive tão feliz.
— Tenho medo — Espantado, olhei para Sam. Castiel, uma pessoa superficial e impenetrável, dava indícios de abrir seu coração — Está tudo muito perfeito. Perfeito demais. — O que ele dizia fazia sentido, mais do que deveria, mas fazia... E era isso que me assustava... Castiel observava os céus e se calou o resto da noite, mas antes, deixou um pesaroso pensamento que guardava para si — Será que já não aprendemos tudo que viemos aprender?
O que isso queria dizer? Eu não saberia responder isso nem em um milhão de anos. Castiel sempre foi um ser recluso, porém de substancial importância. Ele era a cola que juntava qualquer grupo no qual se enquadrava... Ele juntava e mantinha desse jeito Meg e Kevin, o casal mais estranhamente improvável da escola toda; e mantinha unidos eu e Sam, além do que guiava-nos pelos escuros corredores sombrios da vida... Castiel era, sem sombra de dúvidas, uma inteligência superior, algo que não poderia ser descrito, não, pelo menos, naquele dado momento.
Não por mim.
Mas eu sabia que algo em suas palavras fazia total sentido: nós, em geral, já tínhamos passado, em alguns meses tudo ou até mesmo mais, do que é esperado de uma pessoa em sua plena existência. Eu percebi, mais tarde, já em casa, enquanto tomava banho, que nossa existência era completa... Tínhamos aprendido a amar e a perder um amor. A recuperar o mesmo e a nunca mais o ver voltar para casa. Aprendemos a lidar com o ódio devido ao preconceito e à intolerância, e aprendemos a nunca revidar de mesma forma. Éramos espíritos evoluídos, se colocados em um contexto maior. Tínhamos sofrido, aprendido a sofrer, aprendido a receber bem-vinda a felicidade novamente e a nos preocupar com todos; seja esse grupo tão vasto composto por pessoas que nos amam ou nos repudiam. Sobretudo, tínhamos aprendido duas das mais poderosas e importantes essências universais; aprendemos a perdoar. Nada é alguma coisa sem o tudo do perdão.
Tínhamos um legado, pois nossa marca já fora deixada. Aprendemos tudo o que deveríamos? Ou deveríamos reaprender a aprender o novo? E o que isso significa? Eu não saberia dizer, nem se tivesse mil anos para pensar nisso... Meu aprendizado estava acabando, e com ele, o meu tempo para pensar nas perguntas que ainda não tinha respondido.
*
Os dias que vieram após isso se passaram da mesma forma com a qual eles sempre passam para mim; rápido, imperceptível, furtivo... Era vítima do latrocínio temporal da vida: primeiro, é levado de mim o tempo e depois, é morta a vontade de reaver este mesmo.
O ventilador de teto rodava lentamente acima de minha cabeça... Com os braços abaixo de minha cabeça e com as pernas cruzadas, eu estava deitado na minha cama com minha barriga para cima e ainda refletia sobre as perguntas que eu nunca responderia enquanto olhava o teto e o ventilador; o jogo de luzes que valsava correspondendo ao movimento das hélices e os movimentos lentos que as mesmas faziam.
Fechava meus olhos e me transportava a outro lugar... Eu ainda não saberia dizer que lugar era esse, mas se eu tivesse que o definir em uma cor, esta cor seria “esmeralda”. Pois as paredes, as colunas, o piso, o teto e até mesmo a água, não tinham muitos tons de diferença na cor esmeralda que ostentavam. Mesmo com toda essa desnecessária exasperação em esmeralda a luz do aposento comprido era roxa, o que fazia reflexos dançantes na superfície da água cristalina que pulava nas fontes de parede.
Eram anjos, digo, nas fontes... Dois anjos segurando um vaso que derramava a infinita água — também esmeralda — que se acumulava em pequenas cascatas até o chão, onde, por sua vez, era represada em uma grande estrutura de cerâmica. De primeiro, não consegui constatar detalhes sórdidos, como os rostos dos anjos, ou suas asas, ou as cores de seus olhos — que eram pintados com a mais perfeita gama de detalhes que eu já vira em terra — ou seus dedos, mas eu consegui ver uma coisa.
Ao fim da sala, comprida como um corredor, todavia larga como um auditório fazia-se presente um portão dourado, com colunas de esmeraldas e dobradiças de brilhantes. O portão brilhava com uma intensa luz cor de platina que banhava parte das esmeraldas, mas não tirava a imponência natural do Roxo que ainda permeava o aposento.
Algumas janelas iluminavam a sala, mas suas luzes eram inexplicavelmente inócuas quando o assunto era iluminar. Tinham suas limiares barradas, no entanto era impossível ver o que havia para fora daquela janela, ou da outra, ou de qualquer coisa que mirasse outro lado que não fosse o de dentro.
Abri meus olhos após longos segundos em que eu estava preso naquele quarto. Fechei meus olhos novamente e a luz roxa agora era um vermelho cintilante. Mais um piscar de meus olhos e tudo era preto... Por um instante pensei que as luzes apenas tinham se apagado, no entanto, percebi que não estava mais naquele quarto, ou em qualquer outro...
Sentia meu corpo leve... E cada vez mais leve...
Até que não o sentia de forma alguma.
Fui acordado algumas horas depois, eu permaneci na mesma posição durante o sono — com o braço atrás de minha cabeça que por sua vez estava acima de meu travesseiro, com as pernas cruzadas e mirando o ventilador retardatário — e estava com meu corpo doendo. Sentei-me na cama e olhei no relógio. “Duas e meia...” resmunguei enquanto via as vestes de Castiel se arrastar pela porta do quarto. Ele vestia novamente o seu sobretudo.
Sentei na escrivaninha, pretendia estudar um pouco de física... Mesmo fora da escola eu dava uma olhada nas apostilas de Sam para matar a saudade do colégio, e eu sou um ávido amante de física, por mais que eu não tenha muito talento para exatas e prefira as línguas. Ao lado do meu pequeno porta canetas eu vi a foto que há muito havia sido tirada; eu, sorrindo, ao lado de meu pai que segurava uma grande vara de pescar com um peixe enorme enquanto eu segurava o peixe...
Lembro-me muito bem daquele fim de semana...
Até então eu não tinha a mínima noção de nada que acontecia... Sabe, a vida tem essas pequenas coisas, pequenos truques, que ela prega em cada um de nós. São estes pequenos detalhes, sórdidos, leves, quase imperceptíveis, que no final de um dia, ou um ano, podem fazer toda a diferença... O que importa é que nós nunca sabemos.
Desta vez foi este o detalhe... Foi a vida me mostrando, uma vez mais, que eu tinha passado por mais aqui do que deveria. Foi um toque me dizendo que algo deveria acontecer comigo — ou melhor, que algo iria acontecer comigo... —, dizendo que eu fui longe demais... Concordo... Mesmo não sabendo no que isto implica. Eu concordo piamente que todos já passamos do limite...
E aos que não passaram: O faça! Pois para atravessar a rua você precisa cruzar o meio-fio.
*
O tempo continuou a passar, desta vez de forma menos desigual, até porque não narro aqui um acontecimento muito distinto do que anteriormente fora descrito. Foi na tarde seguinte. Ou dois dias depois... Eu não lembro com certeza; no entanto lembro-me muito bem do que aconteceu logo em seguida.
Os meninos me convenceram a visitar o túmulo do meu pai. Eu relutei em ir, até porque eu sabia perfeitamente o que aconteceria lá. Eu tenho bloqueado meu pai de qualquer parte da minha mente desde que acordei. Todos aqueles sonhos que tive enquanto estive em coma. Todas aquelas coisas. Foram vívidas demais, foram ilusões, eu sei, mas ainda assim são reflexos que inexoravelmente criaram-se da minha mais profunda necessidade de ter um bom relacionamento com meu pai.
Agora isso não seria mais possível.
E isso me desesperava.
E foi isso que me fez bloqueá-lo, ou bloquear qualquer parte de mim que gritasse por ele, que ansiasse por meu pai. Ele era minha única família, meu último laço de sangue, meu último igual. Era, em sumo, o último que me restava. Todo aquele tempo me deu tempo para pensar. Claro que esse tempo passava de formas completamente diferentes das quais ele passa agora, mas ainda assim...
Eu o perdoei. Eu o perdoei e ele nunca saberia disso. Eu o perdoei e nunca mais poderia o abraçar. Eu o perdoei e ele nunca iria me perdoar por ter feito isso tão, tão tarde...
O carro parou. Abaixei o vidro da janela. Longe dali pessoas andavam pelos caminhos tortuosos da colina verde onde eram enterrados os mortos. Longe dali viam-se crianças ansiando por suas mães, viam-se viúvas e viúvos. Ali, enterradas, por muitas vezes, só lia-se um nome da lápide: Esperança. Pois era isso que aquelas almas representavam. Era isso.
Olhei para minhas mãos e para meus dedos, que usava para agilmente brincar com meu anel-de-saturno que usava no polegar. O antagonismo rondava minha mente, permeava meus medos e cultivava minhas mazelas. Era um ciclo no qual eu entrava e ficava preso.
— Querido, quer que eu vá com você? — Perguntou-me Sam.
— Ah, obrigado Sam, mas eu preciso fazer isso sozinho, você sabe... — Olhei mais uma vez para Sam e para Castiel... Repentinamente me sentia diferente; preparado. Não sabia dizer se era autêntico.
Abri lentamente a porta e desci do carro. Olhei para a pequena colina verde; o vento assobiava ao longo do ar. Era palpável. Fechei a porta e continuei a andar. Andei sem rumo. Continuei andando até que vi uma árvore... Ela estava recostada no canto direito de uma pequena estrada pavimentada de cimento cinza. Era por esta pequena estrava que tinha vindo. Nela as folhas balançavam e silvavam.
Larissa, Leonardo, Lucas, Luciana, Lurdes... Não queria continuar antando... Depois da árvore li em uma lápide o nome “Marcelo” ... Ele estava perto... Mais alguns passos... “Marcos”. Nomes repetidos, diferenciavam-se pelo sobrenome apenas. Mais passos... Mais passos...
Caí em meus joelhos.
Seu nome estava em dourado, em letras desenhadas, onduladas, caprichadas... O mármore preto estava quente devido aos raios de sol que ali bateram no decorrer do dia agora tinham minhas mãos em si, e minhas lágrimas...
Pequenos cristais, fragmentos de alma. Eram películas de minhas dores, partículas de meus sofreres. Não era mais uma alma forte. Meu pai havia morrido e eu estava em coma. Eu fui o motivo, e por mais que eu soubesse que isso não era a verdade, era como eu me sentia. Meus olhos tentavam focar aquelas letras já disformes à minha vista devido aos sofreres que me invadiam de dentro pra fora em forma de água, mas não conseguia. Estava cego com minha tristeza, e isso era, pela primeira vez na minha vida, literal e verdadeiro... Eu realmente não podia ver, eu não queria ver... Nenhuma das verdades; tanto a objetiva quanto a analítica.
Eu sabia que ver o que estava na minha frente, literalmente, iria me cortar o coração, novamente. Eu sabia que enxergar o quadro maior que dizia respeito a meu sofrer direto, a minha vida como um todo, a ausência que meu pai faria e que nunca seria suprimida, completada, enchida. Nada nunca preencheria esse vazio. Ele havia ido... E nunca voltaria.
O colapso emocional aumentava. Meu corpo prostrei ao chão, e minha alma dobrei a oitava vez. Não parecia haver dor maior. A ficha que caiu veio com um peso exorbitante, maior do que eu pensei que pudesse existir, quanto mais ser capaz de carregar... Estava, não só debilitado, como doente, por dentro... Minhas epifanias nada significavam, minha inteligência e intelecto não tinham quaisquer significâncias. Eu era apenas mais um, mais uma dor, mais um sofrer, mais um a ser esmagado por uma terrível consequência ocasionada e gerada através de reações em cadeias que não podem ser previstas; quanto mais evitadas.
“Pai”. Meus lábios mal se moveram, mas o som fora emitido. A mensagem passada e uma reflexão espontânea fora feita. Eu, antes, nunca havia o chamado por este nome. Algo tão simples, não? Claro que já falei sobre ele, ou dele, usando este codinome, no entanto o peso emocional que esta forma singela teve nunca fora empregado em nenhum outro caso... Pai...
Agora era inútil. Ele havia partido para nunca mais voltar e assim eu nunca mais o veria. Só me restaram as fotos que dele guardei, tais como as que guardei de minha mãe. Era órfão agora, não de pais, mas sim de esperança. Afinal, passei tanto tempo lamentando o fato de que perdi minha mãe e nunca pude mostrar para ela o quanto eu a amava que esqueci de mostrar para o meu pai que ainda estava aqui logo do meu lado, que eu também o amava. Ele poderia ter seus defeitos — e acredite, ele tinha! —, no entanto meu pai era quem estava lá por mim. Mesmo que de seu jeito torpe, preconceituoso, intolerante... Eu acredito que ele sempre soube. Sobre mim, sobre quem eu sou, sobre minha sexualidade... E mesmo assim me amou.
Eu não sei dizer se tudo isso no qual acredito é verdade, mas é como eu me sinto no momento e se é assim que me sinto, no que isso difere da verdade sobre a qual eu deveria ser ciente?
O vento agora gélido varria minhas lágrimas... Pequenos pontos que escureciam o já preto mármore. Aos poucos outros pontos se formaram e demorou até minha deformada visão conseguir identificar o fato de que aquelas já não eram minhas lágrimas, mas sim a chuva que começara a cair.
Levantei-me.
— Adeus, Papai. — Meus olhos ainda estavam molhados e as lágrimas ainda brotavam de meus orbes. Girei em meus calcanhares, corri pelo caminho que antes vim, passei pela árvore que tinha seu sons doces e melódicos substituídos por uma terrível ventania que só piorava.
A chuva aumentava conforme eu corria, minhas vestes estavam encharcadas e vi o carro de Castiel no mesmo lugar que antes, as luzes internas acesas e os faróis dianteiros ligados, penso que para sinalizar... Cheguei à porta e abri-a. Entrei e me sentei no banco. Sam me olhava estático. Seus cabelos castanhos pareciam repentinamente mais perfeitos, abracei seu corpo, senti seu calor, sua companhia...
Não estava mais sozinho. Não estava mais solitário... Estava com quem importava, com quem eu amava. Estava seguro. Acalmei meus próprios ânimos e recostei-me no banco. Castiel deu partida no carro e começou a andar. Estávamos andando há algumas horas, já. O cemitério onde meu pai foi enterrado ficava realmente longe da cidade...
A chuva só se intensificava, outrossim para o vento, que estava infernal. Eu estava com minha cabeça recostada sobre o ombro de Sam que dormia profundamente, seus braços por trás de meu pescoço acalentava meu corpo... As minuciosas situações formam um quadro maior, mais amplo, disso eu sempre soube... É um dos pequenos-grandes truques da vida.
Ali o truque também foi pequeno, mas foi o ponto final para todo o quadro de acontecimentos que estavam se formando... Meus olhos se fecharam e quando os abri novamente pude ver pelo vidro extremamente embaçado com o efeito gélido da chuva um par de colossais faróis amarelos.
Nosso carro, em uma curva fechadíssima bateu em outro carro que havia perdido o controle. Meu corpo chacoalhou algumas vezes no automóvel antes de eu perder a consciência, Sam acordou apenas a tempo suficiente para ver pouco menos do que eu.
O carro deu três voltas no ar, e desceu barranco abaixo. Capotou pelo desfiladeiro e não parou até bater em uma árvore grande e imponente que, por pouco, não me empalou com seus galhos. Não sei quanto tempo durou tudo, até porque não sei quanto tempo fiquei desacordado.
Do outro carro eu nunca soube o paradeiro.
Uma peça metálica do carro partiu-se com o impacto e perfurou meu abdômen em seu lado esquerdo. Consequentemente perfurou, também o lado direito de Sam, com a outra ponta da bifurcação. Sam me acordou, chamava meu nome e tentava tirar o objeto de seu corpo.
— O que... Ai! — Antes que pudesse acordar propriamente dito, senti meu corpo queimar. Vi a ponta ensanguentada e senti o metálico gosto de sangue em minha boca. O sangue estava por todo lado. — Sam, o que aconteceu?
— Batemos! — disse — Castiel? Castiel? — Reiterou Sam a procura do amigo.
Ele continuou a chamar... Incessantemente, porém de igual forma, inutilmente. Castiel simplesmente não respondia. Meus visão ainda estava muito embaçada e não conseguia distinguir direito o que via, mas forcei um pouco os olhos mais à frente e pude avistar o grande buraco que estava no vidro na frente do banco do motorista; ele voara pelo vidro... Não tinha mais esperanças de vê-lo vivo...
Não tinha esperanças de, sequer, sair vivo daquele lugar.
Já não conseguia formar pensamentos diretos, só sabia que precisava sair dali a qualquer custo e Sam era o único capaz de me motivar a fazer isso naqueles dados momentos e situações.
Conseguimos, após algum custo, remover por completo o metal que nos ferroou. Nos arrastamos para fora do carro e nos arrastamos pelo chão cheio de lama. Ele verbalizou sua dor em forma de murmúrios. A minha eu expressei de formas mais sutis...
Jogamo-nos lado a lado na grama enlameada e suspirávamos exasperadamente... Sentíamos dor.
— Sam... Nós vamos morrer, certo? — Perguntei de forma apática. — Quero dizer, eu não quero morrer. Não mesmo... Não quero deixar tudo isso; essa vida. Esse mundo... Sabe? Ainda tenho muitos livros para ler. — Continuei — e eu não posso te deixar sozinho, digo, eu acabei de te encontrar! Não é justo! — Tirei alguns segundos para cuspir fora o sangue que se acumulara em minha boca. — Eu... Eu não quero te deixar...
— Dean; não, meu Dean. Eu não vou te abandonar, nunca. Estaremos sempre, sempre...
Ele segurou minha mão após dizer isso. Eu sentia a poça sob nós mas não havia, realmente, reparado que era composta não só por água, mas também por sangue. O sangue vertia de nosso peito e encharcava a camisa tingindo-a de escarlate. As translúcidas gotas de nada adiantavam; estávamos fadados a uma sangria sem fim.
Morreríamos?
— Você tá vendo a lua, Sam? Ela é nossa, cara... Nosso meio de comunicação, nosso walkie-talkie divino, ou seja lá como você queira a chamar. Onde quer que você esteja, quando quer que for; apenas olhe para ela, que lá estará, e fale comigo por que eu com toda certeza deste mundo estarei fazendo exatamente o mesmo. Ela é o que nos manterá juntos. — Reuni meus últimos sopros de vida para falar com a pessoa que eu mais amava. Não saberia dizer se eram, realmente, meus últimos sopros de vida. Mas eu estava contando com essa possibilidade e precisava dizer tudo que tinha a ser dito.
— Não... Não fala assim... Você vai sair dessa, Dean... Eu juro que vai! O Castiel vai ligar para alguém. Ele vai sim... — Sam interviu, mas eu já precisava falar, precisava continuar... E continuei.
— Olhe para ela. Ela não é linda? Igualzinha aquele dia na igreja. Tá lembrado? Brilhando e resplandecendo como um diamante recém lapidado. — Tossi meu sangue mais uma vez, ele estava se acumulando cada vez mais rápido na minha boca, seria esse o fim? — Nós estamos juntos, sabe? E tenha certeza que aqui, sob a sua luz, seremos eternizados e nossos sentimentos um pelo outro que já são imortais seguirão nossas almas e na próxima vida, Sam, seja ela qual for e onde for, nós ainda nos amaremos. Próximos um do outro ou não, estaremos sempre juntos. Este é o nosso pacto não é? Deste anel que eu te dei... Este é o nosso pacto...
“Até porque, nosso amor é tão forte que ele realmente ultrapassou minhas expectativas e até a lua, em toda sua exuberância, virou seus olhos para nós, neste exato momento ela nos vê e ela sabe o que estamos fazendo aqui. O que somos. E ela fez do nosso amor um só; e assim permanecerá por todo o tempo e espaço... E nós nadaremos pelo universo um com o outro... Para sempre, meu anjo. Sabe o que isso significa? Que estaremos juntos. Para sempre e eternamente.”
“Você lembra daquela pergunta que você fez? Eu nunca te dei uma resposta apropriada, na verdade eu coloquei no bolso da sua calça. Você me perguntou se eu iria te amar na manhã seguinte... Meu amor, eu vou te amar em todas as manhãs seguintes desta vida e da próxima e de quantas vierem a mim... Eu não quero um amanhã se eu não tiver você nele.”
Nossas palavras se tornavam fracas e o frio dominava nosso corpo. Os espasmos cessaram, mas isso só me mostrava como o fim estaria próximo. O sangue continuava a verter e nada o pararia, mas de mesma forma nada me pararia. Juntei-me a Sam, quem eu amo, apertei sua mão e com muito sacrifício juntei-me a ele.
“Não sei se morreremos aqui, mas não importa o que aconteça, estaremos juntos, sim?” Perguntei para ele, olhando em seus olhos e beijando seus lábios que também vertiam o sangue que deveria estar dentro de nossos corpos.
“Sim.” Ele respondeu com lágrimas nos olhos, nossos lábios selaram-se mais algumas vezes, mas era algo custoso. Deitar de lado, como eu estava, também era, mas não havia muito que eu pudesse fazer. Estava com ele e de perto dele não sairia.
“Juntos, ok? Para todo o sempre.” Minha voz estava como ébria. Não tinha mais firmeza e meus olhos não viam mais formas muito definidas. Lentamente a vida sairia de mim, e logo, ela não seria mais vista em meus olhos.
“Sim, para todo o sempre...” Ele respondeu chorando em meio soluços e tosses de puro sangue. “Você tem que resistir.” Completou com dificuldade para respirar. “Alguém tem de olhar pelo Castiel”.
Eu não consegui completar minhas próximas sentenças. Só conseguia exprimir murmúrios desconexos e vazios de significado. A última coisa da qual me lembro foi ver os olhos de Sam se fechando e luzes muito fortes nas cores vermelhas e azuis oscilando no fundo. Meus olhos também se fecharam. Tinha de me juntar a meu amado, fosse onde fosse.
*
Castiel, que não foi tão ferido quanto os outros dois, conseguiu chamar uma ambulância. Ele fraturou sua perna e não conseguiu andar, tão logo não avistou o casal enquanto este definhava. Dean Singer e Samuel Winchester faleceram pouco antes da ambulância chegar ao local. A causa da morte foi hemorragia interna e falência múltipla dos órgãos.
Já Castiel conseguiu permanecer acordado até a chegada da ambulância no local. Ele sobreviveu ao acidente e teria um futuro e este seria grandioso... Embora esta seja outra história e deva ser contada outrora, aqui digo, dentre a ampla vida do Miller, o que eu penso que diga respeito a essa história que você, caro leitor, está prestes a terminar.
Ele, Castiel, se casou com Fernanda — uma brasileira que ele conheceu em sua faculdade. “Fernanda”, como dizia Castiel, “era uma das únicas três mulheres que ele já amou, e a única que o conquistou, realmente.” — três anos após a morte dos dois amigos. Ele teve dois filhos e uma filha. Para os filhos ele deu o nome de Samuel e Dean Miller, assim como o pai, e para a filha ele deu o nome de Meg.
O amor transcendental de Sam e Dean permanece vivo. A lua vela por essa união e todas as noites eles são amantes nas estrelas. Estas são parte de sua cama e seus travesseiros são os diversos planetas. Este amor tocou os astros e foi eternizado assim em vida como em morte. Tudo estava bem no final das contas. Sam e Dean estavam juntos. Juntos como planejavam estar.
Não foram juntos que Sam e Dean nasceram. Mas para juntos ficarem foi que nasceram, e acerca disto não havia dúvida alguma.
Fale com o autor