Todos os Segredos da Rua Cornélia
1 Capítulo 1 - a rua dos jacarandás
Foi uma semana depois do meu aniversário de dezoito anos. Meu pai tinha deixado claro que "ajudar em casa" não era mais uma opção, mas uma obrigação de que eu não podia mais escapar. Não que eu gostasse de ficar em casa, pelas minhas razões e contrarrazões próprias, sempre preferi estar bem longe de lá. Mesmo assim, acatar aquela ordem maquiada de sugestão, num tom excessivamente passivo-agressivo, foi chateador. Por sorte, minha tia tinha ouvido de uma amiga na missa de domingo que uma prima distante e reclusa estava precisando de um assistente e eu tinha a idade e a "postura" necessária.
"Postura necessária", minha irmã debochou quando comentei "não conhecem ele o suficiente". Minha tia deu-lhe logo uma cotovelada e garantiu que o emprego era do meu mais completo interesse. Eu, pelo contrário, me limitei a erguer os olhos do que quer que eu estivesse lendo no momento e questionasse:
— Assistente de que?
Minha tia, por sua vez, deu uma risadinha e respondeu:
— Gente velha precisa de assistente pra tudo, Gustavo.
Suspirei, mas acatei. Não que eu tivesse algo melhor pra fazer — e desde que meus amigos foram pegos pela polícia e acabaram indo parar pelos lados da FEBEM, eu realmente não tinha —, mas ocupar minha mente com algo produtivo parecia interessante. E toda insistência da minha mãe e ingerência do meu pai foram suficientes para me convencer. Pedi à Tia Monalisa que avisasse a senhora que tinha interesse na vaga. Tamanha minha surpresa quando no dia seguinte à minha aceitação, chegou em casa uma cartinha envolta num envelope branco, selada com um adesivo católico e cheirando à arruda.
Na carta, extremamente formal, havia uma pequena introdução cheia de delongas e pormenores, numa letra muito formosa e agradável, em que a Senhora Ana Padilha se apresentava e me convidava a conhecer o lugar onde poderia vir a trabalhar, caso fosse do meu interesse. Foi uma situação engraçada, afinal, quem mandava carta em pleno século vinte e um? Ou melhor, numa situação dessas? Ou, ainda, tão rapidamente? Mas tia Monalisa garantiu que estava tudo na normalidade e incitou minha visita à casa da sra. Ana. Então aceitei.
A casa ficava na Rua Cornélia e para chegar até lá precisava pegar um ônibus. Era, definitivamente, o último ponto em que o ônibus parava, quando não havia ninguém lá dentro além de mim e do motorista. A casa de isolava num vasto campo de pastos e loteamentos, rodeada por floreios rurais e plantações de milho, além de uma charmosa e convidativa mata virgem, onde cresciam as mais belas e verdejantes árvores da flora tropical, corriam os animais mais misteriosos da mata selvagem e onde passeavam os espíritos mais esquecidos do mundo dos vivos. A viagem para a Rua Cornélia era quase uma viagem no tempo: atravessando da cidade grande, onde erguiam-se prédios e construções modernas, e adentrando no passado vivo e presente, onde casas de arquitetura senhoriais resistiram às intempéries do tempo e continuavam vivas e eternas nas zonais rurais do município.
Costumava viajar ouvindo música nos fones de ouvido, com o rosto colado ao vidro do ônibus, observando cada traço de cidade se esvair e dar lugar aos campos e pastos, onde corriam gado, e aos céus azuis safira, onde pássaros gigantes cruzavam em bando e dançavam sob a luz do sol escaldante.
Foi ali, então, que eu vi pela primeira vez na vida, meio a luz cínica de verão, naquele clima intempestivo, em que o sol significava chuva e a chuva significava sol, a luz que corria entre os vivos como se gente fosse, dançando amigavelmente no meio das árvores na mata que contornava a estrada. Ela, tão ágil e tão magnífica, numa amabilidade palpável e surpreendente, parecendo que acompanhava o ônibus e lutava para ser percebida em meio a vastidão verde que lhe rondava. Eu a percebi. E ela me percebeu. Eu sorri, inesperadamente tocado, mas um pouco assustado. Então ela desapareceu e eu pude voltar para meus pensamentos, acreditando não se tratar de nada além de uma visão provocada pelo calor.
Quando desembarquei na Rua Cornélia, o motorista me encarou como se perguntasse "tem certeza?" e se surpreendeu ao perceber que eu realmente não tinha, mas não havia outra escolha. Dei um meio sorriso contrariado e desci.
Me encontrei rodeado por mata em ambos os lados da rua. A entrada era coroada com um arco natural feito por um bambuzal enorme, que se curvou sobre si mesmo, regendo um aspecto mágico e encantador. O caminho era mal iluminado por conta das árvores que dançavam e roubavam para si todo o sol. A estrada era de terra batida. Um vento ígneo soprava as folhas e provocava uma sinfonia estranha, mas agradável, que ornava com o som dos passarinhos e das cigarras. Havia um aroma doce e florido por todo o lado. Pétalas rosadas caiam do céu e voavam com a brisa.
Apertei a mochila nos ombros e fui caminhando para observar a magnificência da Rua Cornélia, absurdamente tocado por aquele pedacinho de mundo meio à maluquice da cidade. Aqui não havia o estrondéu de carros trafegando para lá e pra cá, barulhos inquietantes de construções se erguendo, de pessoas brigando e motocicletas cortando o asfalto. Era tudo tão silencioso que meus passos sobre a terra batida faziam um barulho tão alto que chegava a ficar envergonhado. Estava envolto numa aura de magia e sonho, vivendo, pela primeira vez, a sensação de entrar em um lugar de sonhos, estando acordado.
Haviam algumas casinhas flanqueando ambos os lados da rua Cornélia. Eram de traço senhorial, antigas, mas elegantes, rodeadas por cerquinhas de bambu e brindada elegantemente por enormes árvores, que davam às fachadas aspectos místicos e agradáveis. No fim da rua que que não tinha saída, erguia-se a mais magistral das casas, onde um corredor de jacarandás rosas em flor emoldurava a imagem amarelada do casarão de dois andares, tão antigo que parecia ter saído de uma pintura do século 19, mas tão formoso e irredutível que podia ter sido construído ontem.
O casarão no fim da rua ostentava elegância e humildade, ornado por um agradável jardim rente à entrada, onde uma placa de ferro azul — provavelmente a coisa mais "moderna" ali — enunciava alegremente: Rua Cornélia.
Pétalas de jacarandá se juntaram no meu cabelo enquanto atravessava o corredor florido, mas estava tão absorto pela imagem que mal percebi. Era tudo tão místico e encantador que parecia irreal, férico, fantástico, mas ainda era realidade, ainda era a vida que conhecia, ainda era um pedacinho da cidade onde eu vivia.
Cheguei junto ao portão de ferro, onde um arco de gesso se erguia, com telhinhas de barro e algumas rachaduras, e procurei por uma campainha, mas não encontrei nada. Olhei através da cerca de aço para a casa, tão calma e silenciosa que parecia fantasma. Suspirei e bati palmas.
— Dona Ana! — chamei algumas vezes, até que ouvi sons de outros passos.
Quando olhei novamente vislumbrei uma senhorinha simpática, com um avental enrolado na cintura e o cabelo branco preso num coque, com alguns fios rebeldes caindo sobre a testa. Era tão rosada quanto um porquinho, mas com uma expressão amável e fraternal, típica de uma avó. Trazia consigo uma colher de pau enorme e um molho de chaves que tintilava como um instrumento musical.
— Boa tarde, eu sou o Gustavo, sobrinho da Monalisa, eu...
— Xiu, xiu — ela disse, meio áspera, e parou o que quer que estivesse fazendo para olhar para cima, em silêncio absoluto. Olhei para onde ela olhava e não percebi nada além de folhas farfalhando. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela deu um sorrisinho e afirmou — Vai chover hoje. Melhor tirar a roupa do varal — e voltou a procurar a chave do portão no molho de centenas de chaves.
Dei um sorrisinho desconfiado.
— Como a senhora sabe? O céu tava bem azul quando eu estava vindo.
Ela riu.
— Os passarinhos me contaram — afirmou. Ergui uma sobrancelha, desconfiado, mas nada disse. Ela encontrou a chave e rodou na fechadura do portão — Eles contam coisas o tempo todo. É só se atentar.
— A senhora é a dona Ana Padilha? — questionei. Ela riu.
— Não. Você é?
Dobrei as sobrancelhas, confuso.
— Não.
Ela riu.
— Eu sou a Dita. Benedita Padilha.
— A senhora trabalha aqui?
— Que nem uma escrava! Mas sou irmã dessa tal "dona Ana" — afirmou, num tom de deboche, abrindo-me passagem pelo portão de ferro. Dona Dita era baixinha, com um tom espevitado. — Vem meu filho, entra antes que a chuva comece.
— Não acho que vá chov... — e, antes que eu pudesse terminar de falar, uma gotinha solitária de chuva caiu bem entre meus olhos e salpicou por todo meu rosto. No mesmo instante, um vento cálido soprou as folhas dos jacarandás e levou consigo todas as pétalas rosadas, numa brisa colorida e gélida. Não demorou muito para que outras gotinhas se juntassem à primeira. Dona Dita deu um sorrisinho debochado de "eu disse" e me puxou para dentro da propriedade no fim da rua.
Antes que a chuva tomasse por completo a rua Cornélia, já estava na varanda do casarão. Havia um banquinho de madeira acolchoado com uma estampa florida e algumas redes dispostas sob samambaias e outras plantas rasteiras. O chão era de ardósia verde, extremamente bem polida. Havia uma corrente de formiguinhas saúva contornando um vaso com espadas-de-são-jorge próximo à parede, que fez dona Dita praguejar um xingamento "formigaiada maldita!".
Dona Dita abriu a porta do casarão e indicou o tapete no chão, onde deixei meus sapatos sujos, entrando na casa descalço, pisando no piso gélido com padrões de listras e retângulos. Chegamos à sala de estar, onde dois sofás cobertos com xales de xadrez vermelho se detinham ao redor de um aparelho de televisão de tubo, coroado por um paninho de crochê branco cheio de rosinhas de corda. Nas paredes havia uma dúzia de quadros dos mais diversos formatos: algumas pinturas extremamente realistas, daquelas que se encontram em qualquer casa de avós, retratando paisagens e casas antigas; fotografias antiquíssimas de familiares engraçados e imagens sacras dos mais diversos aspectos. O aroma era de café recém coado e alguma coisa muito saborosa que assava em algum canto.
Dona Dita suspirou.
— Ana! O moço chegou para te ver — ela gritou e indicou o sofá para que me sentasse — Vou lá olhar o bolo. Pode ficar à vontade, mas não demais — e se conteve antes de ir, fazendo uma mesura desconfiada — E não fica com os pés no chão muito tempo. Capaz de dar friagem em você. Pisa no tapete.
Não passou muito tempo desde que ela saiu para a cozinha, a casa mergulhou no mais profundo silêncio. Olhei ao redor, curioso, e observei atentamente cada detalhezinho daquela casa no fim da rua. Haviam brinquedos de criança de épocas desconhecidas, que a muito tempo deixaram de ser brinquedos e tornaram-se objetos de decoração e de pura nostalgia, como bonecas de porcelana e trenzinhos de madeira. Através da janela a chuva continuava a cair, irredutível e insólita, num tom tempestivo e até um pouco preocupante. Num instante ouvi um som agudo e simpático, como uma flauta doce, convergindo-se em notas musicais convidativas e belas. A canção foi se aproximando, como se caminhasse pela casa, no andar de cima, e foi chegando cada vez mais perto do térreo, até que parou e o casarão voltou a mergulhar no mais profundo silêncio.
E então pude ouvir um risinho bem distante, mas não reconheci quem havia rido. Engoli seco, assustado, e tentei pensar em outras coisas menos... estranhas.
Ouvi sons de passos na escadaria. Ergui meus olhos de imediato e, pela primeira vez na vida, pude contemplar algo que não sabia explicar, mas tinha a certeza absoluta de que era tão parte de mim quanto meu próprio coração, meus próprios olhos ou o próprio ar que eu respirava. Tão íntimo e tão eterno, quanto o sangue que corria pelas minhas veias. Tão sacro e tão pecaminoso quanto os desejos que eu reprimia. Na magnificência dos olhos que encontrei ao olhar para a escada, pude me ver. E isso foi tão estranho, mas ao mesmo tempo tão reconfortante que perdi a compostura e fiquei boquiaberto.
Ele descia as escadarias num caminhar angelical, quase etéreo, como se seus pés sequer tocassem o chão e ele flutuasse há poucos centímetros dos degraus. Tinha a pele rosada, mas pálida. Cabelos tão escuros quanto se podia imaginar, com uma pequena barbicha rebelde ao redor do rosto. Cachos irreverentes despencavam sobre sua nuca, pedindo por uma carícia. Lábios vermelhos e olhos escuros, suplicando que fossem contemplados, num rosto angular e extremamente bem desenhado. Era alto, com um porte único. Não era magro, forte ou gordo, era do seu jeito, com um peitoral grande e ombros largos. Devia ter a minha idade, apesar da aura angelical lhe dar um aspecto mais juvenil. O garoto tinha um olhar curioso e lamentoso, mas parecia não olhar nada que estava no caminho, com olhos frígidos e julgadores, numa expressão de quase-nada assustadora. Ele parou no último degrau da escada, encarou o espelho diante de si e questionou, sem sequer me olhar.
— Quem é você?
E não havia ninguém além de mim para quem essa pergunta pudesse se dirigir, mesmo assim me calei, paralizado por aquela visão inquietante, que floresceu em mim sentimentos que eu mesmo não sabia mais que tinha — ou que podia ter.
Diante do meu silêncio, o garoto se atreveu a fechar a cara, irritado, e voltou-se à sala, meio a passos lentos e meio espaços, como se não tivesse muita noção de equilíbrio. Se aproximou do sofá, sem me encarar por sequer um segundo. Continuava atônito, hipnotizado, catatônico e todos os sinônimos possíveis.
— Eu consigo ouvir sua respiração.
E aquilo desarmou minha paralisia. Pisquei os olhos repetidas vezes e engoli seco, surpreso com aquelas palavras. O garoto parou diante do sofá, olhando através de mim, com uma expressão de pouquíssimos amigos.
— E não é legal fazer o que você está fazendo.
— O que eu estou fazendo? — questionei, confuso. Ele arqueou as sobrancelhas, como se o som de minha voz tivesse lhe surpreendido.
— Está aí zombando de mim.
— Não estou!
— Então por que não me respondeu?
— Eu... eu não sei.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, um aroma adocicado atravessou a sala, acompanhado de uma brisa gelada que levantou os cabelos do garoto, lhe impregnando com um aspecto mágico. Do topo da escadaria, uma senhora muito simpática, com aparência erudita e acolhedora acenou, com um risinho chamativo, atraindo minha atenção.
— Ah, que divertido! Você deve ser o querido Gustavo, não é?
Olhei dela para o garoto, meio surpreso, e suspirei.
— Sim. A senhora é a Dona Ana? — questionei, observando o caminhar lento e pacífico da senhora, segurando o corrimão com delicadeza, com um sorriso inapagável e olhinhos curiosos por trás de óculos meia-lua.
— Dona Ana. Adorei como isso soa. A única e própria — e, voltando-se ao garoto ao pé da escada, ela sorriu — Élio, terminou de ensaiar?
O garoto ainda olhava através de mim e, ainda que a brisa inesperada houvesse desaparecido, os cachos negros dos seus cabelos continuavam dançando com a ventania fantasma que só ele sentia.
— Sim, vovó.
Dona Ana deu uma risadinha amistosa e me estendeu a mão.
— Ana Padilha — ela disse, apertando minha mão com leveza e animosidade — E este é meu querido neto, Élio, que está um pouco sem modos, pelo que eu percebi — ela se voltou ao rapaz, com um olhar de reprimenda — Élio, aperte a mão do nosso convidado, por favor.
Élio, por sua vez, cruzou os braços, irredutível e torceu o nariz, desgostoso, o que causou uma péssima segunda impressão, que apagou, pelo menos naquele momento, toda a mágica e esplendor de sua visão quando ainda era um desconhecido. Dona Ana limpou a garganta, irritada, mas se conteve. Élio suspirou profundamente e saiu da sala, irritado, pisando profundamente, mas ainda num caminhar lento e meio desequilibrado.
Dona Ana indicou o sofá e esperou que eu me sentasse para que ela se colocasse ao meu lado, com toda curvatura e elegância de uma lady.
— Peço desculpas pelo meu neto. Tem momentos que ele fica... impassível.
Suspirei.
— Tudo bem eu... Eu só não entendi porque ele achou que eu estava zombando dele. Juro que não fiz nada.
Dona Ana coçou a nuca, preocupada, e suspirou profundamente.
— Os últimos anos têm sido difíceis para ele — afirmou e, com uma expressão forçosamente sorridente, ela se voltou a mim — Mas me conte sobre você. Soube que tem interesse no cargo de assistente que estou ofertando.
— É, isso mesmo — afirmei, voltando a mim ao recordar os motivos que me traziam ali, naquele cantinho escondido da cidade. "Ajudar em casa", a voz do meu pai ressoava eternamente nos meus pensamentos, como uma música que ecoa no fundo da sua alma. Abri um meio sorriso tímido, que pareceu surpreender a dona Ana. — Eu sou sobrinho da Monalisa e... Acabei de terminar o ensino médio. Como não tenho pretensão de faculdade por agora, resolvi tentar encontrar alguma coisa para ocupar a cabeça e, sei lá, encontrar uma vocação.
Dona Ana ouvia tudo com um olhar crítico e atento e, ao terminar da minha explicação, ela fez uma pausa finalizada por um "hum" pensativo.
Haviam coisas sobre mim que precisava omitir. Coisas que eu sabia que destruiriam quaisquer chances que existissem de ganhar aquele emprego e parte de mim sentia-se culpado, quase como um criminoso, por esconder daquela senhorinha que, por mais ignorante que fosse ao fatos, parecia conhecer tudo sobre mim só de olhar no fundo dos meus olhos. Coisas sobre mim que eu mesmo não entendia, que eram turvas, obscuras e vazias.
— Ótimo, ótimo — ela sorriu e deu uma risadinha — Soube que sabe lidar com flores.
Engoli seco e assenti.
— Meu pai trabalhava de jardineiro.
— Trabalhava? — engoli seco. Por um instante imagens distorcidas e assustadoras tomaram minha mente, atravessando meu coração e provocando a dor de mil cortes devastadores, que não durou mais que meio segundo, mas foi o suficiente para agonizar por toda uma vida.
— Sim. Ele trabalhava — e não havia nada mais que eu quisesse ou mesmo pudesse falar. Olhos marejados, sorriso trêmulo e sobrancelhas timbradas como papel revelavam minha emoção interna melhor que qualquer palavra. Dona Ana suspirou e colocou a mão sobre meu ombro, em compadecimento.
— Desculpe — ela disse — Preciso de muita ajuda no meu jardim. Também preciso de alguém que cuide e me ajude a reorganizar os livros da biblioteca... — o fato dela perceber meu desconforto em tratar de certos assuntos e rapidamente mudar o rumo da conversa acalmou meu coração e novamente estava pleno no meu objetivo de conseguir trabalhar. Contei das minhas virtudes, exagerei nas minhas qualidades e tentei não transparecer muitos defeitos. Não muito tempo depois, Dona Ana apertou minha mão e deu boas vindas ao emprego.
Dona Dita trouxe café fresquinho. Bebi pouco, ainda tímido e tentando causar boa impressão. As senhoras conversavam de memórias entre si, falando de dias no passado tão longínquo que nem as mais mirabolantes máquinas do tempo poderiam imaginar. Me distraí meio a conversação das duas e me peguei observando a casa. Era uma coisa tão colorida e encantada, que parecia tão viva quanto uma pessoa. Haviam flores, de verdade, de plástico, de gesso, em panos, cortinas e quadros; haviam animaizinhos por todos os lados, de cristal, de porcelana e até de aço e haviam os retratos, as lembranças que as duas tanto compartilhavam. Numa delas havia um garoto com um sorriso tempestivo, um olhar desconfiado, meio melancólico. Já havia visto e ouvido falar de olhares assim outrora:
"Olhar de mata. Meio desconfiado, meio triste, mas com uma beleza que você não encontra em nenhuma outra cara no mundo", costumava ouvir meu pai dizendo, se referindo ao olhar que minha mãe fazia quando ficava pensativa ao cozinhar, dançar ou escrever. "Um olhar que enxerga tudo, mesmo aquilo que pensamos que passa desapercebido".
Élio retornou a sala quando contemplava sua versão mais jovem no retrato, mas pareceu não perceber ou mesmo se incomodar. Ficou parado no umbral da porta que dava para o corredor, silencioso e observador. No mesmo instante fiz questão de disfarçar minha curiosidade e olhar para outro lado.
— Como ele é? — Élio questionou, inesperadamente. Olhei para as senhoras, confuso, à espera de uma explicação.
— Parece um pouco seu tio-avô Ernesto. Lembra dele? — Dona Dita disse. Dona Ana chacoalhou a cabeça;
— Não tem nada haver, Dita! Ele parece o Renato, isso sim!
— Renato? Mas é claro que não! Que bobagem.
Élio continuou em silêncio, enquanto as senhoras se digladiavam no eterno embate para dizer com quem eu me parecia. Só fui compreender a pergunta quanto Élio, aproximando-se sorrateiramente como um gato, colocou-se diante de mim, com olhos arregalados, mas enxergou além de mim, pelo menos foi o que pareceu no momento. Então ele ergueu a mão e tocou meu rosto com delicadeza. Seu toque era suave e energético, o que fez meu coração disparar em rompantes desesperados de ansiedade. Seus dedos percorreram meu rosto e se colocaram entre meus cabelos, quase numa carícia, mas embebidos de certa curiosidade inesperada. Pude ver um meio sorriso se formar no canto do rosto de Élio. E então, só então, percebi o que era óbvio: ele não estava me acariciando: estava me desenhando nos pensamentos, para saber como eu era.
— Élio, com quem ele se parece? Nos diga você — Dona Ana perguntou. Élio afastou a mão, torceu o nariz e disse, num tom debochado:
— Com certeza não com um dos mais bonitos.
— Élio! — ela gritou em reprimenda. Engoli seco, envergonhado, sentindo parte de mim murchar com o comentário.
Não respondi à altura. Mais pelo fato de que questões de aparência sempre foram meu ponto fraco. Élio não foi o primeiro — e nem seria o último — a tecer um comentário do tipo quanto a mim, o que foi minando pouco a pouco a confiança que eu tinha. Era sempre um ponto que me tocava e me machucava verdadeiramente e, apesar dele mesmo ter o feito, percebi que Élio se arrependeu em seguida do próprio veneno, com um olhar que suplicava por perdão. Só suspirei, com olhos tristes e um sorriso forçado, e me calei.
Dona Ana pediu milhões de desculpas pelo jeito do neto, que tinha gênio difícil, mas que era uma pessoa boa.
Ela me acompanhou até o portão quando a chuva parou, com passos lentos e uma conversa amigável.
— Como... aconteceu? — questionei num momento.
— Você diz... a visão? Bem... Tem menos de um ano que ele perdeu — ela afirmou, entristecida.
— Ele vive com vocês desde então?
Ela negou.
— Sempre viveu. Perdeu os pais muito cedo, num acidente com um ônibus — ela parou um instante e olhou ao redor da propriedade — Élio sempre foi um garoto enfermiço, sabe? Ele não está acostumado a se cercar de pessoas desconhecidas, então é sempre meio arredio com quem ele não conhece. Por isso o mau jeito.
— Tudo bem. Eu não levei pro coração — o que, por mais que eu tentasse me convencer do contrário, era mentira. Essas coisas sempre me machucavam.
— Posso contar com seu regresso amanhã? — ela questionou, com um olhar simpático. Forcei um meio sorriso e assenti, observando, ao fundo, o rosto de Élio diante da janela do casarão, o que fez meu coração acelerar e meus pensamentos voarem. — Então, seja bem vindo à rua Cornélia, Gustavo.
E, no mesmo instante, uma brisa faceira atravessou meus pensamentos, vinda da direção do corredor de jacarandás, trazendo consigo pétalas rosadas e o aroma adocicado das flores da Rua Cornélia. Após me despedir devidamente, deixei o casarão evitando olhar para trás e perceber Élio na janela novamente e, por mais que eu não olhasse, sabia que ele estava lá. Às minhas costas sentia as árvores de jacarandá farfalhando com o vento, espíritos faceiros dançando nas poças deixadas pela chuva e jovens sentindo pela primeira vez o que seria a ansiedade de um sentimento inexplicável e devastador.
Com meus fones de ouvido me desligando do mundo real, não percebi nada além daquilo que estava à minha frente e, a cada passo dado, a rua Cornélia ficava mais distante, mas a magia que nela havia continuava em mim... de alguma forma e por alguma razão.
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