Todos os Erros do Mundo

2 Eu não existo sem você


Notas iniciais
Obrigada a quem leu tudinho e gostou e aos comentários incentivadores. Vocês são muito gentis. Esse capítulo foca em Snow e Emma - e seus sentimentos pela nossa rainha. No próximo teremos Regina-amorzinho-da-vida. Isso, claro, se vocês desejarem um próximo.

"... Todo grande amor só é bem grande se for triste, por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer (...) não há você sem mim e eu não existo sem você"

— Vinícius de Moraes

Snow sente sua cabeça girar, o som desaparecer aos poucos e a visão desfocar. Entre um borrão e outro ela enxerga Emma entrelaçar os dedos aos de Regina; vê Henry gesticular exageradamente, arrancando gargalhadas de suas mães; vê Regina sorrir gentilmente para ela e depois acariciar o rosto de Emma, exibindo uma aliança dourada na mão esquerda.
— Mary?! Mary, tudo bem querida? Mary?! — David segura o braço da esposa preocupado, trazendo-a para perto.
Snow sente-se sendo puxada violentamente de volta para a Terra, como se estivesse flutuando pelo espaço e, repentinamente, a gravidade resolvesse agir.
— Estou bem, meu amor. Apenas me distraí.
Nada estava bem. Ela não estava contando com isso quando saiu de Storybrooke garantindo que traria sua filha de volta. Agora tudo havia mudado, a estratégia que havia traçado com David precisaria ser repensada e, consequentemente, precisariam de mais tempo do que haviam planejado. A expressão de David também demonstrava confusão, mas, diferente dela, ele parecia encantado com tudo aquilo. Snow pode ver, nos olhos do marido, uma satisfação tão bem disfarçada que passaria despercebida por qualquer pessoa, exceto por ela. Até que a princesa é arrancada novamente de seus pensamentos:
— Vai canela no da senhora também? — Henry sorri com expectativa, tendo o dedo indicador apontado para ela.
— Por favor. — Snow responde sem ter certeza do que exatamente ele estava falando.
— Só a senhora não toma com canela, mãe. — Henry bagunça o cabelo de Regina, como Emma sempre fazia com o dele, e a puxa pelo braço ao mesmo tempo em que ela geme de dor. — Desculpa, eu esqueci.
David se prontifica a ajudar e segue Henry e Regina pelo corredor, deixando Snow e Emma sozinhas na sala.
— Está tudo bem? — Emma pergunta mais curiosa do que preocupada. Esse era um defeito que a loira assume ter, é cheireta demais, como Regina costuma dizer.
— Sim. Está tudo bem. — Snow tenta seu melhor sorriso. — O que aconteceu com o braço dela?
A expressão da loira se fecha imediatamente. Seus olhos verdes, antes tão carregados de sentimentos, nublam. Ela encara Mary seriamente, mas sem enxergá-la, tudo que via era fumaça. Instintivamente fecha os olhos com força, afastando aquela visão, e volta a olhar a mulher.
— Eu não devia ter perguntado. Me desculpe. — Snow repreende-se. Percebe que aquele é um assunto delicado e teme que a filha se feche para ela. Emma rapidamente se recompõe e força um sorriso.
— Regina sofreu um acidente de trânsito há algumas semanas. — Responde ignorando as desculpas de Mary e pisca algumas vezes afastando as lágrimas que ameaçavam cair.
— Eu realmente não devia ter perguntado sobre isso. Eu sinto muito.
Mary repete pedidos de desculpas, mas Emma já não ouve nada do que ela diz. Apenas volta a falar, mais para si do que para a ouvinte, como um desabafo que precisa ser feito:
— Quando vi o carro de Regina sendo jogado para a outra pista até atingir a calçada e tombar, meu coração pausou. Eu não sei como isso é possível, mas eu tenho certeza que ele parou de bater. Eu fiquei paralisada. O carro estava em chamas e minha visão foi bloqueada pela fumaça. Eu não conseguia me mover. Queria correr até ela, arranca-la de lá, abraça-la e curar todos os ferimentos que ela pudesse ter, mas eu não conseguia tirar o meu pé do chão. Parecia que ele estava preso a toneladas de chumbo. Soube, depois, que isso durou apenas alguns segundos, mas para mim foi uma eternidade. Dizem que quando encaramos a morte, nossa vida passa diante dos nossos olhos. Regina disse que isso não aconteceu com ela. Engraçado. — Ela riu sem humor. — Isso aconteceu comigo durante esses segundos em que permaneci estática. Não pensei apenas em meus momentos com Regina, mas na minha vida inteira, então, eu pude constatar, tão claramente, como existe uma Emma antes da Regina e uma Emma pós Regina. Eu não tinha sentido, não tinha graça ou cor antes de conhecê-la. Você não imagina como é triste viver em preto e branco. Regina me deu razões para desejar acordar todos os dias, me ensinou a força do amor e sua capacidade de realizações, me mostrou a beleza e a importância dos detalhes. Ela é a razão, ela é a minha força e os detalhes dela são o que há de mais belo.
Com o dedo, Emma enrola alguns fios de cabelo soltos em seu rosto, o prende atrás da orelha e suspira antes de continuar:
— Quando finalmente consegui correr até ela, já era possível ouvir sirenes em nossa direção. Não processei imediatamente que a ajuda estava chegando e me atirei dentro do carro através do vidro quebrado. Seu rosto estava quase completamente coberto por sangue. Toquei sua bochecha tentando conseguir sua atenção, a sacudi, mas tudo foi em vão. Seus olhos estavam semiabertos e vazios. Ela estava distante, perdida, longe demais para que eu pudesse alcança-la. De repente eu fui puxada para fora do carro e bombeiros passaram a trabalhar nele para resgatar Regina. Não sei quanto tempo isso durou, também não sei quanto demorou para que chegássemos ao hospital, para mim o tempo havia congelado. Já dentro dele, ouvi de longe um homem gritar que havia perdido o pulso dela. Começaram a reanimação ali mesmo, no corredor, sob dezenas de olhares curiosos. Eu vi Regina morta. Eu vi os olhos sem vida da mulher que eu amo e eu nunca pensei que era possível sentir uma dor daquela dimensão. Tudo voltou a ser preto e branco. Não havia a menor possibilidade de eu resistir caso a perdesse. Não há!
E nesse momento, enquanto lágrimas descem livremente pelo rosto de Emma, Mary sente o peito apertar ao perceber que tudo que Emma mais teme pode se tornar realidade assim que o trio recuperar suas memórias. Fica em choque e sem ter certeza de que pode aceitar aquilo. Tenta apegar-se a ideia de que tudo é efeito da poção do esquecimento, que também garantia uma nova vida, mas ao tornar a pousar os olhos na mulher a sua frente, soube, de imediato, que o que Emma sente é genuíno, puro e mais forte do que qualquer poção ou maldição. No entanto, devido ao passado de Emma e Regina, não consegue prever como será a reação de ambas quando souberem quem exatamente são. Rende-se e liberta as lágrimas que prendia ao se dar conta de que nunca havia enxergado tanto sentimento nos olhos da filha e suspira sôfrega pela possibilidade de, assim que pisarem em Storybrooke novamente, nunca mais voltar a vê-los tão brilhantes. Aperta os lábios com força afastando qualquer pensamento sobre o futuro e permite-se esquecer, por um momento, o real objetivo daquela visita.
— Isso não vai acontecer, você não vai perdê-la, e mesmo que perca, vocês sempre vão se encontrar.
Mary diz a Emma como se estivesse lhe dando o anel de noivado que ganhou de David para que fosse passado adiante como uma herança de família. E é exatamente isso que ela está fazendo, está dando a Emma e Regina a promessa que ela e seu príncipe sempre fazem um ao outro. A promessa do amor verdadeiro.

Notas finais
Ideias, considerações, críticas positivas, abraço de urso e beijinho de esquimó são bem vindos.