Todos os Erros
27 A tênue linha entre determinação e burrice
Ilíria não se orgulhava de sua repentina perda de dignidade, mas isso não importava, porque era a nova Capitã da Sonserina. Então não foi surpresa quando, durante cinco minutos, ficou encarando Adrian inexpressiva, já estavam preocupados quando ela simplesmente gritou. As duas amigas se apertaram em um abraço, isso até Ilíria juntar alguns pontos e falar nervosa:
—Nós vamos perder! —seu primeiro jogo como capitã e seria uma derrota, afundou o rosto nas mãos, os ombros tremeram levemente. O silêncio foi geral, ninguém sabia o que dizer.
—Não é culpa sua. —Heather sussurrou, acariciando as costas da amiga com carinho, sabia que não haveria consolo para isso.
—O jogo ainda não aconteceu, você não tem como saber. —Adrian tentou, mas ela o encarou cética.
—Com um jogador a menos?
—Dois. —Wood corrigiu, então arregalou os olhos ao perceber o que dissera, estava em seu modo automático.
—Um. —Ilíria devolveu seca.
—Você não vai jogar! —Heather exclamou exasperada, seu rosto ficou vermelho de raiva ao ver o jeito que Ilíria a encarou. —Fique em pé então!
—Não acho que seja boa ideia. —Adrian tentou intervir, mas nenhuma delas o olhou.
—Ela não está dizendo que vai jogar? Mostre que pode então! —estava furiosa.
Ilíria jogou os pés para fora da cama e engoliu o resmungo de dor, escorregando para os próprios pés. Sequer aguentou encostar um deles no chão, mantendo apenas a ponta dos dedos. Oliver sacudiu a cabeça lentamente, acreditar que poderia jogar naquele estado era no mínimo ridículo, e ficou um pouco mais quando ela simplesmente ergueu a perna, se equilibrando em uma só.
—Você está sendo infantil! —não sabia dizer como elas chegaram naquele nível de irritação tão rápido, talvez já estivessem um pouco descompensadas depois do acidente. Oliver não sabia o que fazer, era óbvio que Heather estava certa, e era ela que passara a noite inteira em uma cadeira preocupada com a amiga, mas entendia o que Ilíria estava sentindo.
—E você está agindo como se eu precisasse de permissão! —cuspiu enfurecida, mas quase caiu ao sentir sua cabeça rodar, a raiva da loira derreteu ao segurar sua amiga.
—O que está acontecendo aqui? —Madame Pomfrey surgiu em passos rápidos, apoiou Ilíria em um dos braços e a botou de volta na cama. —Vamos, saiam todos! Isso é uma enfermaria! Já está liberado, senhor Wood, vá também!
Ilíria passou o resto da tarde e a noite toda sozinha, Madame Pomfrey dissera que estaria definitivamente fora do jogo, o que não poderia tê-la irritado mais. Tentou respirar fundo, se sentia ansiosa, sua cabeça doía, mal conseguia pensar, parecia prestes a explodir, e nem sabia porque sentia tanta raiva. Levantou no meio da noite, desceu da cama e tentou andar, sua perna queimava, mas se manteve firme passo após passo, se preparando para o que faria. Quando o dia começou, se sentia exausta e dolorida, tomou a poção para dor que fora deixada em seu lado e esperou até o momento em que a mulher foi rever seu estoque de remédios para ficar de pé, tentou ser o mais rápida e silenciosa, pegou apenas a própria varinha e caminhou até o lado de fora. Encostou na parede com a respiração pesada, então recomeçou seus passos, precisava estar longe quando dessem conta de sua falta.
Conseguiu olhar as horas, faltavam poucos minutos para a partida começar e teria que andar até o campo, sua perna latejou. Se trancou em uma sala vazia, com um mexer da varinha conjurou seu uniforme reserva e a vassoura. Demorou mais do que gostaria de admitir para conseguir por as calças, quando terminou estava suando e se sentindo exausta, já nem tinha mais tanta certeza do porque estava fazendo aquilo, mas estava. Não aceitaria aquela humilhação, Flint destruira as chances do time e a largara no lugar para assumir a derrota, jogaria ao menos para que a diferença não fosse tão grande. Se sentia atacada, seu corpo murmurava de dor e precisava ocupar seu lugar ainda assim, estava a beira das lágrimas e nem sabia o motivo, parecia que tudo estava ficando estranho demais. Se considerava uma pessoa inteligente, mas estava além da razão.
Subiu na vassoura, não conseguiria caminhar até o campo, então disparou rente ao chão tão rápido quanto conseguiu. Os corredores estavam vazios, os alunos já deviam estar nas arquibancadas, o que pelo menos a ajudava a guiar a vassoura pelo castelo livremente. Bambeou para um lado, era muito mais difícil quando não tinha o suporte necessário de sua perna, então agarrou a vassoura com mais força, tentando compensar a falta com firmeza. Já estava quase lá, podia ver que seu time estava para entrar no campo, então engoliu a dor, os sentimentos e o que mais pudesse jogá-la para longe dali, assumindo então uma barreira dura que a deixou além das emoções, só tinha tempo para pensar no jogo, em alcançá-los antes que entrassem em campo, curvou o corpo fazendo a vassoura ganhar velocidade, ela inclinou para o lado, mas Ilíria a puxou de volta com tanta força que poderia ter sido arremessada para fora se não estivesse tão acostumada a treinar jogadas com impacto, ou se fosse alguém menos talentosa, forte e determinada.
Assistiu todos os garotos da equipe a olharem surpresos, quase como se fosse uma miragem, quando finalmente os alcançou. Parou a vassoura no ar, escorregando dela para o chão com mais força do que o necessário, a dor quase tomou sua expressão, mas se conteve, os olhando de cima para que não notassem o tremor em sua perna. Caminhou até a frente do time, encontrando Adrian Pucey parado ali, a vassoura frouxa entre seus dedos e o olhar tão perplexo que por alguns segundos Ilíria duvidou que ele estivesse realmente a enxergando, então quando abriu a boca, pronto para uma discussão sobre o que a levou a acreditar que poderia jogar, a voz dela saiu primeiro:
—Acho que você está no meu lugar.
Ilíria era a Capitã, e estava pronta para a partida.
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