Todos os Clichês de Amor
2 Capítulo 1 (Parte 1)
O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou.
~ Relicário — Nando Reis
A primeira coisa que a acordou pela manhã fora o toque do telefone vibrando na cômoda ao lado da cama. Ainda sonolenta, Jules bateu nele várias vezes, como se fosse um velho despertador que tinha quando criança, já quase se perguntando se estava atrasada para a aula do ensino fundamental.
Foi só quando o som parou com um baque surdo no chão que ela conseguiu acordar na escuridão de seu quarto. Era o seu quarto, no seu apartamento — ou quase seu — com 27 anos e precisava acordar para ir... bem, procurar um emprego e parar de viver da boa vontade dos melhores amigos e de algum bico de confeitaria que surgia vez ou outra.
Por sorte, não era o despertador para 3 aulas seguidas de matemática!
Se esticou pelo colchão, Abóbora murmurou irritada de algum lugar ali perto e então afastou o corpinho quente. Jules não se preocupava com a gata naquele momento.
Puxou o fio do carregador, sentindo celular fazer tensão na outra ponta, podia senti-lo levitando no ar, muito perto da borda da cama. Ela se esticou um pouco mais para pegar o aparelho e então o pior aconteceu.
Um desastre de proporções magnânimas que poderiam se comparar com uma invasão alienígena ou ao impacto de um cometa.
Ao menos era o que parecia quando tocou a parte de baixo do telefone e o sentiu escorregar por entre seus dedos e tombar com o chão novamente.
Com o suspiro de desapontamento, Jules deixou que o corpo caísse sobre os muitos travesseiros da cama, aceitando que até o seu celular estava com preguiça demais para se levantar naquela manhã.
Contou até dez e se forçou a erguer o corpo outra vez. Esticou-se até que seus dedos tocassem os pés e a coluna estalou e rangeu algumas vezes como se fosse um móvel velho enquanto ela gemia com a dor preguiçosa que se espalhava pelo corpo, só então conseguiu se levantar de verdade.
O que não era um sinônimo de estar acordada.
Saltou da cama e abriu as janelas antes de pegar a péssima influência que chamava de celular. Se estivesse um pouco mais acordada, teria estranhado o fato de o céu ainda estar negro e salpicado de estrelas brilhantes, mas sua mente sonambula não registrou esse detalhe.
Dobrou os joelhos — que reclamaram e estalaram como uma bolacha de água e sal — para pegar o telefone rebelde, mas conseguiu. Ascendeu a tela para ver que horas eram e se surpreendeu ao ver o letreiro escuro informando que não passavas das 3:30 da manhã, uma agressão — não mais — apenas às suas retinas como ao bom humor matinal.
Que já não era o seu humor matinal normal.
Uma raiva sem igual se instaurou em seu ser ao perceber que poderia dormir por mais 3 horas. Alguém havia a acordado, de livre e espontânea vontade, no meio da madrugada.
Luca. Maldito Luca, ela pensou abrindo a mensagem que o irmão mais velho de Regina havia deixado para ela. Esperava que tivesse alguém morrendo para aquela intromissão, do contrário ela mesma se encarregaria de providenciar o defunto.
“Ei! Sei que é tarde, mas estive pensando em você. Como vai? Que tal um café na quarta?”
Jules podia sentir a rosto esquentando e se tornando mais vermelho enquanto uma palpitação começava a crescer em seu peito, as mãos tremendo com a ansiedade e tudo isso era alimentado por um único sentimento, tão antigo como a existência humana.
Ódio.
O ódio mais puro de todos, aquele que só pode ser sentido pelas pessoas que em busca de vinganças por suas famílias e honras ou por aquelas que são retiradas de seus justos sonos por uma mensagem que poderia ter sido enviada no meio do dia.
“São três horas da manhã. Por que, CARALHOS, você acha que eu estaria BEM DEPOIS DE SER ACORDADA A ESSE HORÁRIO?!?!?!?!”
Poderia parecer uma mensagem agressiva, mas qualquer um na sua situação entenderia. Porém algo superior tocou seu ombro antes que pudesse envia-la, quase podia sentir o cheiro de rosas no ar naquele momento.
Ela e Lucas eram velhos, bem... quase amigos, ela morava com a meia irmã dele no fim das contas e, o mais importante, ele estava começando um negócio na cidade e uma pessoa desesperada por emprego não poderia se dar ao luxo de xingar um possível empregador desesperado.
Apagou a mensagem, fechou a tela e olhou para a cama com ar decepcionado. Não conseguiria mais dormir de qualquer jeito. Pegou sua toalha e acabou indo para o banho quente, tentar se acalmar e quem sabe retomar aquelas 3 horinhas de sono.
Júlia acordou completamente perdida, a única certeza que tinha era que — dessa vez — era manhã, porque os olhos doíam ao ponto de machucar seus olhos fechados com uma luminosidade alaranjada.
As paredes laranjas de seu quarto ajudavam com a sensação de que estava presa em algum tipo de caleidoscópio solar em que os feixes dourados criavam manchas brilhantes na parede a frente. Era bonito, mas sempre sentia que não conseguia apreciar bem o show, já que sua cabeça costumava estar ainda meio nublada de sono naquele horário.
Bateu as mãos seu lado no edredom cor de carmim sobre o lençol azul e então chutou tudo para longe antes de colocar os pés contra o chão de azulejo frio.
Regina sempre a mandava colocar um tapete ou uma pantufa para não sair de pisando no frio logo cedo, aquele tipo de coisa que as pessoas começavam a se preocupar quando viravam mães, mas Jules nunca realmente se importara com isso, na verdade era a forma mais prática de afastar aquelas nuvens de sono.
Desceu as escadas, colocando os dois pés em um degrau por vez e escorando o corpo na parede para evitar escorregar e cair e então anunciou em voz alta quando chegou no último degrau.
— Me desculpa! — sua voz ecoou pela sala — Eu estou atrasada!
— Atrasada para que desempregada? — perguntou Regina que já estava meio vestida, com o cabelo preso em um coque alto e um lápis pontudo saindo do meio dos cachos.
Comia uma torrada que mais parecia carvão com manteiga e bebia uma xícara de café sentada no banco da mesa com as pernas longas e elegantes cruzadas.
Regina era aquelas pessoas que não precisavam de muito para serem espetacularmente elegantes. Com seu físico de boneca Barbie e o cabelo sempre rebelde e armado. Mesmo antes que fosse moda aceitar os cabelos crespos, Regina já os fazia parecer a coisa mais legal que alguém poderia ter.
Ela havia sido a grande percursora do fim das chapinhas em sua escola, mas ninguém lembrava desses detalhes.
— Você sabe... — fez uma pausa na fala enquanto cambaleava até a cozinha para pegar um balde de café preto sem açúcar. — Procurar emprego, pegar trabalho. Essas coisas.
Tinha noção da discrepância entre elas, começando que Jules sempre estivera mais para a Suzi do que para Barbie e realmente preferia assim. Sempre mantinha os cabelos presos em um rabo de cavalo apertado e, por mais que entendesse de moda e quisesse se vestir como uma das capas de revistas de moda, não tinha a menor vontade de dedicar horas do seu dia escolhendo uma roupa desconfortável para se atirar no sofá e assistir Trato Feito ou Cake boss.
— Boa sorte! — comentou ao passar por ela e lhe dar um beijo gentil nas bochechas redondas.
— Bom dia! — respondeu Isadora descendo as escadas, tinha um pouco mais de destreza do que a madrinha ou, pelo menos, menos dores nas pernas e desci as escadas com certa velocidade — Eu sei, eu sei eu to atrasada!
Suas mãos estavam erguidas ao redor do rosto assustado quando saltou do último degrau para o chão. Os sapatos de boneca fazendo um barulho delicado na madeira enquanto ela corria para comer suas torradas não-carbonizadas.
— Não foi por querer.
— Pelo menos isso...
Regina não conseguira terminar o que havia começado porque logo a campainha do apartamento tocou, apenas um segundo antes da porta abrir.
— Você sabia que é falta de educação entrar assim na casa dos outros? — comentou Jules, com metade do rosto coberto pela borda larga de sua xícara.
Mags não ignorou a sua provocação naquele dia. Havia algo diferente quando ele se aproximou dela e lhe beijou a testa, era como se estivesse mais leve e feliz. Não que fosse difícil estar feliz, mas naquele dia era como se caminhasse em nuvens e cheirava a rosas recém colhidas, ou ao menos o cheiro que Jules imaginava que rosas recém colhidas deveria ter.
— Eu sou dono do prédio e você não paga aluguel, — já havia se afastado quando completou — a menos que queira pagar de outra forma.
Júlia abriu e fechou a boca antes de procurar pelo olhar de Regina, mas a amiga apenas deu de ombros.
Não era estranho brincadeiras de subtexto sexual, mas normalmente elas aconteciam entre Mario Grégory e Regina e nem tangenciavam Jules.
— Dindo, — comentou a pequena enrolando os braços ao redor de seus ombros e recebendo um beijo estalado na cabeça — eu passei a noite vendo aquela série e...
— Nós precisamos conversar sobre Streamings — comentou Regina, cortando a filha e pegando suas coisas no aparador da entrada.
Todos os três shiaram quando ela passou e abriu a porta.
— Mas agora precisamos ir, porque eu estou atrasada.
Poder ficar sozinha em casa tinha mais vantagens do que desvantagens e ficar seminua assistindo Cake Boss enquanto comia sorvete direto do pote não era nem de longe a maior delas.
O silêncio sim.
Não que Jules não gostasse de Regina ou da sobrinha, mas os momentos em que elas não estavam eram o paraíso do seu dia. Com Regina no trabalho, podia ligar o som alto na televisão da cozinha — aquele presente extravagante que Mags havia dado a elas quando se mudaram — ou então fazer o barulho que quisesse na cozinha sem ser repreendida ou receber um sonoro "SHI!".
E com Isadora na escola o cenário era completamente diferente e envolvia não ficar ouvindo KPOP ou uma guitarra estridente, não que a afilhada tocasse mal, mas às vezes gostava de ficar sozinha com seus pensamentos e isso complicava um pouco as coisas.
Podia parecer tudo muito contraditório, mas aos 27 anos muitas coisas eram contraditórias ainda.
Como em um momento próximo, às 10 horas da manhã com Chris Isaak tocando alto nas caixas de som da tv com uma transição de imagens sensuais de algum comercial de perfume genérico enquanto Jules balançava o corpo de um lado para o outro no ritmo da música, lambia a colher e a travessa que havia acabado de usar para fazer o brownie que estava no forno.
E então a campainha tocou.
Outra vez.
Não conseguia entender como a sua casa podia receber duas visitas no mesmo dia e antes do meio dia.
Coincidentemente, no mesmo dia em que havia sido acordada pelo celular tocando as 3 da manhã.
Vestiu uma saia de pano, curta demais, que ficava no armário de tranqueiras para essas ocasiões quando passou para abrir a porta e aproveitou para marcar aquele dia com uma carinha vermelha o brava no calendário.
— Porque você ainda não está vestida? — perguntou a figura baixa e de aparência irritada parada na soleira de sua porta.
— São 10 horas da manhã.
Mas Hana não pareceu feliz com sua resposta direta. Como se não fosse o suficiente para explicar porque uma mulher adulta desempregada estava de pijama no meio da manhã, diferente de Júlia que parecia achar uma explicação perfeitamente plausível.
Hana não passava de um metro e cinquenta e oito de altura, mas tinha um olhar de águia que a fazia se lembrar de queixas assassinas, como se a qualquer momento pudesse puxar leques de metal e mata-la ali mesmo, por algum motivo que não sabia explicar sem parecer extremamente racista.
Então preferia apenas se xingar mentalmente e afastar a ideia da mente, primeiro porque era ofensiva e segundo porque leques de metal fazia parte do Tai Chi Chuan chinês e não de qualquer arte marcial japonesa.
— Eu tenho um bico para você, mas a gente tem menos de duas horas.
Sentia que seu corpo queria entrar em um estado catatônico. Não era todo dia que alguém aparecia em sua porta, no meio de uma crise econômica, oferecendo um emprego, mesmo que temporário.
Por sorte, seu cérebro tinha consciência de que havia encontrado algo similar a um pote de ouro no fim de um arco-íris e que milagres como aquele precisavam de uma resposta rápida e precisa.
— Eu vou correr para um banho rápido, desço em cinco minutos — apontou de forma displicente para o sofá — Pode esperar ali, eu não demoro.
E então, praticamente voou escada acima como se não tivesse um joelho ruim. Tomou o banho mais rápido da sua vida, agradecendo que Luca a havia acordado as três da manhã, o que lhe havia poupado de lavar o cabelo na correria.
Jogou um vestido florido e soltinho por cima do corpo, mais pela praticidade do que pensando em uma entrevista de emprego e então desceu as escadas na mesma velocidade, sentindo os pés, enfiados em uma sapatilha preta qualquer, derrapando quando pisava perto demais do limite do degrau.
— Podemos ir.
Sabia que estava empolgada demais, mas preferia acreditar que todos tinham aquele tipo de emoção quando recebiam um milagre.
Estava tão feliz que deixou o corpo colar no de Hana enquanto a moto cruzava as ruas movimentadas da cidade, fazendo manobras perigosas entre os carros e, quando pararam em um sinal vermelho, uma das mãos macias de Hana cobriu a sua que estava a apertando pela barriga e sentiu aquele cheiro de rosas recém colhidas que sentira quando Mags se aproximou mais cedo.
Deveria ter suspeitado ali, qualquer um teria, mas estava tão nas nuvens com aquela oportunidade de conseguir o dinheiro do aluguel que aceitara a caricia e até mesmo deitou a cabeça contra o ombro da garota.
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