Todos nós e Apenas Você
6 Amarelo Pulsante
Notas iniciais
Lou continuou caminhando, sabia que era tarde demais para deter os próprios passos. Não iria voltar atrás, não iria fazer de seu casamento um erro por amor, restava apenas seguir em frente. Ainda assim ao deter o imbatível branco nevasca de sua mente todas as outras cores mudaram diante de seus olhos e ela desejou compreender como poderia lidar com o vermelho, o amarelo e o branco que se montava diante de seus olhos, contudo ela ainda assim caminhou. Caminhou rumo a Will Traynor esperando o que está para acontecer, aquilo que virá para transformar tudo diante dela no instante seguinte, porque sabia, mais do que deveria, que tudo mudaria. Havia um pressentimento pulsante dentro dela, como se estivesse a espera de algo muito maior do que o casamento ou Columbia ou qualquer outra coisa que sua mente pudesse prever.
Will Traynor, sentado naquela cadeira de rodas, compreendeu em absoluto que talvez houvesse algo nas flores, no castelo e nas vidas já vividas e esvaídas presas à aquele local que se parecia muito mais com a morte e um pouco menos como o amor. Ele soube que esses pensamentos repentinos, que percorreram sua mente confusa eram oriundos da culpa, da culpa representada por aquelas flores amarelas, pelo amor jogado em pétalas brancas por todo o espaço que lembravam sobre a paz inevitável da morte e da fatalidade terrível de amar alguém que já estava perdida.
Louisa Clark caminhava e havia felicidade, perca, confusão e expectativa em cada parte dela e Will Traynor sabia disso. Mas o rosto dele era cheio da paixão avassaladora e também do medo continuo do que suas próprias mentiras fariam. O que aconteceria no final? Tudo seria perdido? Como revelar uma verdade tão inconveniente?
—Will — Disse o pai de Lou quando chegaram ao altar, deixando a filha ao lado do homem de cadeira de rodas.
Lou sorriu amplamente para Will, subiu apenas o primeiro degrau e se posicionou de modo que pudesse segurar a mão do homem loiro durante toda a cerimonia. Eles estavam prestes a se casar e naquele momento, naquela única hora, nada foi amarelo, branco ou vermelho. Tudo foi aquelas luzes impressionantes oferecidas pelo jardim, pelo castelo e pelas inúmeras faixas de tecido que compunham o espaço. Tudo foi a beleza transcendental dos bancos de madeira, do altar em carvalho e das flores que possuíam suas cores espalhadas pelo espaço.
Will Traynor — que agora não podia mais colocar os olhos em Lou porque encarava o juiz diante deles — soube imediatamente que a própria mente ainda estava na futura esposa. Ele ainda podia vê-la caminhando com o vestido branco que em um degradê se tornava dourado, ainda podia ver os braços cobertos pela renda e o véu não muito grande, ele ainda conseguia sorrir enquanto o juiz falava porque o arranjo discreto no cabelo de Lou guardava as listras brancas e amarelas de uma abelha e porque os lábios dela vermelhos pelo batom pareciam dizer que eles ficariam juntos para sempre. Juntos mesmo que o para sempre não exista, juntos perante o fato de que o para sempre, sempre termina.
—Os votos — Pediu o juiz para Lou.
Lou Clarke sabia que vestia algo que nunca imaginou que usaria, a saia do vestido era volumosa e exatamente por isso ela se viu capaz de se inclinar e praticamente se sentar na escada de madeira onde o tapete vermelho usado para marcar o caminho se colocava. Ao se sentar ela estava frente a frente com Will e o vestido permanecia livre caindo sobre a escada e os deixando frente a frente, Lou segurou as mãos dele e sorriu respirando fundo.
—Durante toda a minha vida eu apenas existi — Começou Lou olhando nos olhos de Will, os olhos dele eram bonitos demais para que ela se desviasse — Passei pela minha adolescência e pela minha juventude ignorante as coisas que podiam ser importantes para mim mesma, vivi nas sombras de uma história não realizada incapaz de compreender o quanto o tempo era precioso. Teria continuado apenas existindo se não tivesse compreendido o que viver significa e você me mostrou isso, Will Traynor foi o único que não apenas olhou para mim, ele foi o primeiro que verdadeiramente me viu e nada poderia ter sido mais importante do que isso. Você me mostrou o que é viver e o fato de ter me amado por aquilo que eu verdadeiramente era, sou e queria ser foi um presente do qual nunca pensei ser digna, mas Will…Você me fez notar que eu era digna.
Você me fez perceber que eu podia ser brilhante e eu te amei muito antes disso e te amarei muito depois desse dia. Sei que há um mundo de coisas incríveis, contudo Will Traynor, apenas você já é um mundo absolutamente maravilhoso. Pretendo estar ao seu lado até o último dia de minha vida.
Will odiou a si mesmo por ter os próprios olhos cheios de lágrimas enquanto que Lou apenas tinha a voz cheia de esperança. Ela, com aqueles enormes olhos, parecia cada vez mais deslumbrante, ela tinha encontrado a si mesma.
—Clark — Começou Will em um suspiro fazendo Lou começar a rir e ele também riu em meio as lágrimas inevitáveis — Você me libertou, você me libertou de uma prisão da qual ninguém consegue sair e eu não poderia ser mais grato por isso, porque você está aqui diante de mim dizendo que eu a salvei, mas isso não poderia ser verdade se você não tivesse me salvado antes. Louisa Clark, eu perdi a fé, a esperança e viver não era mais o bastante; eu estava despedaçado pelas coisas que não podia mais possuir até que compreendi que jamais teria tido você se não tivesse perdido tudo antes. Você era um presente bom demais para o antigo Will Traynor, você continua sendo boa demais para mim e eu ainda estou aqui tentando compreender como pôde decidir passar a vida ao lado de um homem tão egoísta quanto eu. — Will respirou fundo mais uma vez diante das lágrimas de Lou — Você me fez querer viver novamente e esse é o maior presente que alguém pode oferecer a outra, a vida é um grande presente e eu a descobri novamente através desse amor que compartilhamos, o amor que eu sinto é muito maior do que eu pensei que alguém poderia sentir.
Will Traynor teria dito muito mais, mas não disse porque não podia dizer que ninguém se comparava a ela, não podia dizer que ele teme todos os dias o momento no qual ela deixe de existir. Will não podia revelar que fechar os olhos era temer que ela partisse antes que ele mesmo pudesse partir. Esse era o problema, o grande problema sobre estar em uma história sobre amor e não uma em uma história de amor.
—Eu vos declaro marido e mulher — Disse o juiz após as alianças serem trocadas e os papéis assinados por ambos — Podem se beijar.
Louisa beijou Will e então estavam casados. Exatamente como não poderiam imaginar que ocorreria, eles estavam finalmente juntos e felizmente não houve estranhamento por parte de Lou no momento em que ela colocou as alianças em ambos ou quando beijou o marido. Estava feliz demais por descobrir que agora Will já era capaz de segurar uma caneta e assinar o próprio nome, havia uma vitória impossível naquele pequeno e significativo ato.
O casamento prosseguiu com o buffet para que apenas no anoitecer o local reservado para a dança fosse aberto. Lou se sentou em uma das rústicas cadeiras de carvalho enquanto todos conversavam e parabenizavam os noivos, Will se colocou ao lado dela e estavam felizes. Conseguiam conceber o por do sol, o belo dia, o cenário que os cercava como um presente do destino, um daqueles presentes impossivelmente difíceis de serem obtidos.
—Obrigado pelo que disse — Garantiu Will quando finalmente não havia ninguém os cumprimentando
Lou apenas o beijou em resposta e em seguida se sentou nas pernas de Will como normalmente fazia envolvendo o braço no ombro dele.
—Aqui estamos nós, na última página — Assegurou Lou com um sorriso.
—Essa não é a última página Senhora Traynor — Assegurou Will beijando Lou mais uma vez.
Lou assentiu sorrindo e então Will a levou com a cadeira de rodas até o local reservado para a dança. Finalmente o sol havia partido e as estrelas estavam sobre eles, todo o local era iluminado com luzes douradas que brilhavam como vaga-lumes amarelos e o local reservado para a dança estava inundado daquelas luzes juntamente com todos os outros espaços. As mesas e cadeiras também de carvalho possuíam arranjos com uma pequena luz que cintilava.
Will e Lou ao dançarem a primeira musica em meio ao local construído em madeira e reservado para as danças e para as mesas não foram capazes de enxergar qualquer outra coisa. Naquele momento os dois se pertenceram completamente, nada poderia mudar isso. Ao menos naquele momento não houve nada além do amarelo pulsante das coisas que ainda persistiam em existir, não poderia existir nada além disso.
—Acha que estão falando de nós? — Questionou Will ainda com Lou em seus braços.
—Todos eles nunca pararão de falar sobre nós — Garantiu Lou sorrindo — Mas não se preocupe querido, estamos fora de perigo.
Will Traynor sorriu amplamente, mas sabia em meio ao amarelo pulsante das coisas que ainda persistiam, que não estavam fora de perigo. O perigo estava apenas começando.
Flash Forward — 6 meses depois
Lou Clark corria no jardim, corria em meio a um labirinto de coisas que ainda não era capaz de compreender, se viu respirando o ar pesado de um local antes desconhecido e que não deveria fazer parte de sua vida e questionou o peso irrefreável do amarelo efervescente que cada vez mais se tornava vermelho sangue. Suas mãos sangravam, seu vestido azul estava cheio de terra e seus pés sangravam devido ao jardim, ela chorava e queria acreditar que o sangue derramado atrás de si não era tão ruim quanto poderia imaginar.
—Lou, Lou — A corrida da garota foi detida pelo homem que agora segurava seus ombros.
—Ele…ele — Lou não não conseguia falar em meio ao choro desesperado — Ele está morto.
—Fizemos o que era necessário, estamos juntos nisso — Assegurou o homem.
Lou Clarke assentiu e o abraçou com força, nos braços daquele homem várias coisas finalmente faziam sentido. Ele envolveu os braços ao redor da mulher fazendo com que a cabeça dela pousasse em seu peito e então colocou os lábios nos cabelos da jovem. Os olhos azuis dele estavam preocupados, preocupados porque atrás de Lou Clarke havia uma trilha inevitável de vermelho sangue, exatamente em um mundo no qual tudo deveria ser amarelo pulsante.
Aquele era o problema sobre estar em uma história sobre amor e não em uma história de amor.
Fale com o autor