Todos Necessitam Fumar
1 Capítulo único.
Notas iniciais
Cigarros são proibidos para menores de 18 anos, mas a história não.
"Vou só entregar essas flores como agradecimento e ir embora. Só isso! Sem sentimentos maiores." Ingenuamente mal esperava que ficaria lá por horas e horas conversando com estranhos. Sabe, a senhora com que eu falei era muito gentil. Me contou algumas verdades e me deu alguns tapas na cara que eu precisava. Bom, ela dizia que nem sabia o que estava fazendo. Mas eu também não sei. Nós sabemos?
O sol estava prestes a se pôr. O cemitério fecharia as seis e meia da tarde e com o inverno rigoroso do sul logo a noite tomaria conta das centenas de tumbas e corpos que ali apodreciam. Mas a missão era simples, só entrar, entregar as flores de agradecimento ao meu pai e ir embora.
"Pai, eu nem sei o motivo de estar aqui. Nem sei se realmente é um agradecimento. Não sou religioso mas pedi muito para ser aprovado na universidade a qualquer ser existente ou não que pudesse me ajudar. O agradecimento é pelo tempo curto que vivemos juntos. De quando o senhor me levava junto em suas aulas. Me levava junto em todos os cantos. Todas as casas e trabalhos. Eu realmente sinto falta dessa época e daria tudo para ter de novo." Droga, era só para entregar e sair, sem sentimentos e sem choro.
Algum problema meu querido? Oi senhora. Não, não. Está tudo bem. E por que choras? Só estava lembrando dos bons momentos com meu pai. O perdi muito cedo e há muito tempo, quanto mais o tempo passa, menor dentro de mim ele fica. O tempo é grandioso. É sim, meu filho. Com ele não dá para lutar. Teria um cigarro? Ah sim, claro. Quer fogo também!? Se não for um problema.Talvez eu tenha tomado uma péssima decisão. Mas não iria negar um cigarro a uma senhora que usava roupas estranhas e ainda teve a decência de perguntar se eu estava bem. Saímos daquele espaço e fomos nos sentar em um dos vários bancos que haviam naquele cemitério que me doía o peito só de entrar. Lembrar que há quinze anos atrás eu tive de ver o corpo do meu pai entrar em uma cova e nunca mais pôde-lo ver novamente. Não é uma memória fácil de lidar.
"Sabe meu querido. As pessoas pensam que apenas por temos uma idade avançada nós temos algum conhecimento. Uma bobagem! A velhice só traz dor! Nos joelhos, nas costas. O único conhecimento que adquiri na velhice foi que não podia esquecer de tomar meus medicamentos. Viver 68 anos não é fácil! Após tantas perdas continuo aqui, os procurando em meio a tantas almas. O cigarro me acalma as vezes. Mas faz mal, devia parar de fumar." Ouvir tudo isso num tom semblante me fez parar de pensar em mim por 5 segundos. 5 segundos suficientes em que a fumaça entrava em meu corpo e saia levando junto consigo todos os maus pensamentos e a minha saúde de combo.
Bom, temos duas coisas em comum. Uma é que perdi muitas pessoas. Só resta minha mãe, mas não temos uma convivência muito boa. Duas é que cigarros me acalmam. Gostaria de mais um? Claro meu querido. Mas por favor, pare com esse vício. Vou fumar só mais um! E além de mentiras. Conte-me o motivo das lágrimas! Passar em uma universidade e não pode comemorar com a pessoa que gostaria é triste. Antes fosse se apenas tivesse longe ou impossibilitada por um tempo. A realidade é a impossibilidade para o resto da minha vida. Se tiver sorte o encontro após tudo isso.Por uns minutos a senhora não respondeu. Após deu-se o luxo de apenas dar boas tragadas no cigarro e repetir que deveria parar de fumar ou iria acabar como ela. "Metáforas não funcionam. Nada é melhor que a mensagem direta. Mesmo que às vezes machuque. Meu querido, quando eu tinha 67 anos eu ainda fumava como se não houvesse amanhã e a pior hipótese é realmente se não houver amanhã."
Eu não sabia. Mas ela estava prestes a terminar a conversa. E eu não queria! Conversar com estranhos é satisfatório. Pode contar todo seus problemas, eles fingem ligar e logo após esquecem até do teu rosto.
Parece que a senhora não aprendeu. Continua a fumar! Nós seres humanos gostamos do que nos dá prazer. Mesmo que faça mal ou mate aos poucos. O belo prazer de se matar pouco a pouco por minutos de esquecimento. Eu até pararia. Mas acho que enlouqueceria. Não recomendo a ninguém. Muito menos eu, meu querido. Por isso digo e repito, não fume mais. Mas poderia me dar mais um antes de eu ir embora. Na próxima semana farei 69 anos e gostaria de guardar um. Aceito de presente."Claro! Toma minha carteira. Já está no fim mesmo." Sem indagar ou estranhar entreguei a carteira com meus últimos três cigarros. Memória não era meu forte, não ao ponto de ligar a idade da senhora com as roupas estranhas e as conversas desconexas. Não houve tempo o suficiente de questioná-la. Já era tarde demais. O relógio se aproximava das seis e meia e o sol estava praticamente posto. Nesse frio todos necessitam fumar, até mesmo defuntos. Todos precisam fugir do presente.
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