Todo o Meu Amor
1 Seja feliz!
Notas iniciais
"Estou desistindo de você
Eu perdoei tudo
Você me libertou
Mande meu amor para sua nova amada
Trate ela melhor
Temos que nos libertar de todos os nossos fantasmas
Nós dois sabemos que não somos mais crianças"
Quando você encontra alguém que faz seu coração bater mais rápido em bom sentido e sorrisos dançarem sempre em seus lábios, significa que você gosta dela ou se sente no mínimo confortável em sua presença, era o que ouvia quando questionava minha avó sobre o amor e suas variáveis formas. O que dona Margaret não mencionou a mim naquela época era que existe amores que não serão correspondidos e que a dor pode sufocar a alma.
Sentada naquele banco de madeira, o ultimo no fim do corredor da igreja enquanto meus olhos estavam fixos no casal que nesse momento trocavam juras e promessas em frente de familiares, amigos, de um padre e perante Deus no altar decorado como toda a igreja para o casamento. Sorrisos eram demonstrados a todo instantes, transbordando amor. Dizer que não ardia na alma seria uma mentira gigantesca.
Quando enfim terminou a cerimonia e me permitir sentir o impacto do Sim dito e respondido dos noivos, me forcei ao sorriso e a chegar perto deles, para parabenizá-los pelo casamento. O perfume dele sempre fora marcante e me deixava em um estado de vicio, um abraço cálido e confortante como fiz questão de guardar em minha mente. O dela, era um perfume que consegui distinguir maça e caramelo, era bom também, o abraço foi desajustado e meio apavorante.
—Que vocês sejam muito felizes. –Deixei fluir as palavras quando me pus na frente deles, sabia que meu olhar trazia sinceridade e um resquício de dor. Sinceridade, pois queria realmente que ele fosse feliz e dor por saber que não era comigo.
Me afastei permitindo que os demais convidados os cumprimentassem para então fazerem as fotografias. Meus pés me levaram para o carro estacionado na esquina da igreja, adentrei no interior dele e me permitir mais uma vez naquele dia a deixar uma lagrima cair. A enxugue rapidamente, ligando o carro e saindo dali, não iria para a festa dos recém-casados, porém segui para um bar no centro da cidade.
Apoiando os braços no balcão de madeira, com a cabeça baixa e um copo de bebida na mão meus pensamentos faziam flashbacks em minha mente, como na primeira vez que eu e Lucas nos encontramos, como começamos nossa amizade estranha e como cheguei ao ponto de me apaixonar, quando soube sobre Laura e o quando ele parecia feliz com ela.
“Seguia para o refeitório da faculdade, os corredores estavam quase que completamente vazios afinal o período das aulas ainda estava ocorrendo, porém eu estava com fome de mais para aguardar por mais de 50 minutos até o intervalo para enfim comer algo. Então com um pedido de desculpas ao professor sai da sala de forma educada indo atrás onde teria comida, refeitório. Se não tivesse nada ali, teria que ir nos barzinhos enfrente a faculdade. Quando adentrei o recinto, meus olhos varreram o local de forma automática, captando um moço com uma camiseta preta e com o símbolo bordado em dourado da engenharia civil, em outra mesa uma das minhas professoras que daria aula somente nos últimos tempos daquele dia para gente, estava rodeada com um prato, suco e notebook com algumas folhas soltas por ali também.
Suspirei terminando a distância até o balcão para fazer o pedido, graças aos céus ali tinha salgado já, então não precisaria andar para fora da faculdade. Quando peguei o lanche o suco me virei para o ambiente composto por um largo espaço vazio e algumas mesas e cadeiras, poderia sentar sozinha ou poderia ir até ao moço de engenharia que estava com um livro sobre a mesa no qual eu tinha interesse e conhecimento. Passei pela professora e com um sorriso e um Boa noite a cumprimentei.
Quando cheguei próximo a mesa dele, o rompante de coragem foi se esvaziando rapidamente, junto com o sentimento animado de cara de pau e audácia para chegar ate ele. Quis rir de mim mesmo nessa hora, puxei o ar para meus pulmões passei pela mesa dele, deixando uma frase soltar de meus lábios.
—Achei que na semana de provas, a turma de engenharia estaria focada em cálculos, mas tô surpresa por Dan Brown. –Me sentei na mesa que estava ao lado dele, seus olhos de um castanho claro me encaram, com o cenho franzido que me deu vontade de se esconder, porém dignamente desviei o olhar, corei e comecei a comer com se nada tivesse acontecido, mas engenharia me surpreendeu quando lançou um sorriso e sua voz alcançou meus ouvidos.
—Eu achava que futuros biomédicos também tinham que estar estudando algo sobre analises. –Quis rir mas evitei pois estava com a boca cheia, mastigando e engolindo levantei meu olhar a ele, dando nos ombros como se fosse algo nada demais.
—É porque você não sabe o quão ruim estou em Uroanálise. –Ri de leve desta vez, bebericando um pouco do suco de laranja.
—Calculo II também não é algo de Deus não. –Ele comentou e sorriu mais amplamente.
—Julia. –Soltei meu nome a ele.
—Lucas. –Nos próximos 40 minutos discutimos sobre as grades, estágios e sobre os próprios cursos, além de livros e a vida que ambos levavam. ”
Naquele primeiro contado, soube que Lucas morava no mesmo conjunto que eu de apartamentos a cinco quadras da faculdade, ele morava no terceiro andar e eu no segundo, rimos por nunca termos nos vistos antes.
A forma que descobri que estava apaixonada por então melhor amigo foi aleatória e com um tempo de negação, alegando que estava confusa.
“-Seus olhos brilham quando envolve Lucas na conversa. –Franzi o cenho e parei o movimento que fazia com as mãos que levava uma xícara grande de café aos meus lábios. Minha mãe deu um sorriso e me questionei mentalmente se aqui era um bom sinal.
—Brilham? –Questionei de forma baixa, enfim tomando um gole de liquido preto e forte da xicara. Dei nos ombros. –Somos melhores amigos normal certo? Como está a Dona Catarina? –Questionei sobre a vizinha de minha mãe, uma forma de mudar de assunto.
—Ou pode ser um sentimento mais intenso que de melhores amigos, certo? –Ela se debruça sobre a mesa na cozinha apoiando o tórax sobre seus braços flexionados contra o mármore que compunha a mesa. –Dona Catarina vai bem, só a pressão que não está ajudando muito. É não mude de assunto.
Reviro os olhos, a algumas semanas tinha notado que algumas coisas mudaram, em relação aos sentimentos, porém pode ser o laço de amizade se fortalecendo, não é? Okay, nenhum laço de amigos fortes envolve o ato de querer beijar e tocar, ou de ficar ansiosa para encontros, com direito a frio na barriga e tudo mais, como uma adolescente descobrindo a primeira paixão proibida, era ridículo até. Mas negava até o último instante, de forma plenamente. ”
Minha mãe sempre foi observadora com aqueles que amavam, algo que herdei. Quando Lucas mencionou sobre estar gostando de alguém, minhas mãos gelaram e um frio percorreu meu corpo, um fio de esperança pulsou, mas foi cortado antes mesmo que se desenvolvesse.
“-Ela é simpática, conversamos algumas vezes. –Ele sorriu, suas mãos batucavam na mesa do refeitório. Minhas mãos estavam entrelaçadas em meu colo e tentava controlar as emoções.
—Hmm. Apaixonado é? –Comentei e sorri, tentando ao máximo não aparentar que era levemente forçado, pareceu funcionar pois Lucas sorriu e abaixou a cabeça dando nos ombros. A movimentação no refeitório aumentou pelo intervalo. Uma jovem que não parecia ter mais que 1.70 apareceu ao lado de nossa mesa, cortando assim o silencio que reinava ali. Lucas sorriu de forma grande e brilhante, concordando quando a desconhecida questionou sobre se sentar ali conosco.
A apresentação foi feita, ela era de urbanismo ali na faculdade, é incrivelmente simpática e bonita, seu nome era Laura. Observei a interação entre eles, e senti algo quebrar em minha alma, eles se davam bem e formavam um belo casal. Dez minutos depois, soltei uma desculpa sobre ir à biblioteca e sai dali de forma rápida, realmente seguindo para a biblioteca. Os olhos de Lucas e Laura brilhavam quando se olhavam, não era cega para não notar o início de uma paixão ali. ”
Uma paixão que virou um amor suficiente para um casamento. Soltei um riso sarcástico, “amar alguém é querer ver ela feliz” minha vó mencionara uma vez a mim, agora depois de duas doses de vodca e repetir todas as cenas na mente, inclusive do casamento, essa frase nunca fez tanto sentido como nesse momento. Amar alguém que não ama você, é permitir ir, é desejar que seja feliz com quem amar, é enviar todo o carinho e amor para a nova amada. A ironia é que doí e não é tão fácil assim.
A voz de Adele adornou o bar é reconheci Send My Love. Eu quis rir um pouco mais debochada, o universo parecia brincar como nossas vidas a todo momento. Ao meu lado tinha um homem que se olhasse bem, também parecia quebrado.
Pedi a garrafa de vodca para o barman, é por aquela noite, o então desconhecido que se chamava Miguel, se tornou um companheiro de copo de vodca. Nossa história era parecida, ele amava alguém que permitiu ir, já que a mesma não o amava. Naquela noite, éramos dois desconhecidos compartilhando uma garrafa de bebida, embalados por Adele com corações quebrados e amores não correspondidos.
Fale com o autor