Todo Mundo Mente no Currículo

1 Diretor Associado Kento Nanami


Uma década.

Esse era o tempo que fazia desde a última vez que Kento Nanami entrou naquele salão. Naquela ocasião, em vez de uma decoração de baile chique, com uma camerata de cordas tocando uma música suave que permitia a socialização sem necessidade de berros, havia várias cadeiras confortáveis dispostas em filas, com um longo corredor coberto por um tapete vermelho que levava até o palco onde a classe de 2007 subiu para receber seus diplomas de formatura.

A foto tirada depois disso, dos 23 jovens jogando seus capelos para o alto em comemoração ao final daquela etapa de suas vidas, foi impressa em 12 x 5 metros, cobria uma parede inteira e chamava imediatamente a atenção para ela quando paravam para se identificar.

Enquanto alguns comentavam entre si como sentiam falta do “frescor” da época, como se tivessem o dobro da idade atual, Nanami só conseguia reparar no próprio cabelo esquisito de adolescente, liso e caindo sobre um dos olhos, e em como, mesmo com todos vestindo túnicas similares, ficava óbvio que ele e Suguru não pertenciam ao mesmo mundo que aquela leva de herdeiros que até que o tratavam bem, mas nunca conseguiram fazê-lo se sentir bem-vindo de verdade.

Ainda assim, ele estava ali, ajeitando um broche com seu nome no paletó de grife que alugou para aquela noite. Kento confirmou sua presença meio no impulso, pois o comitê organizador entrou em contato justamente quando ele estava com a cabeça cheia por conta da demanda de trabalho e sentia que merecia “se mimar” um pouco, para não infartar aos 27.

— Kento Nanami?! MENTIRA! Caramba! Olha só pra você!

— Satoru Gojo. Você está… igualzinho. — ele analisou o outro, vendo como apenas um undercut e um pouco mais de músculos separava o garoto de cabelos brancos e profundos olhos azuis do homem que o abraçava animadamente.

— E sem nenhuma plástica, viu? — fez um charminho — Você tá bem bonitão. Sua cara de adulto cansado até que te deixa mais sexy. Suguru tava mesmo se perguntando hoje pela manhã se você apareceria. Nem com ele você manteve contato depois do último ano.

— Vocês ainda se falam, é?

— Não só isso. — o sorriso de Satoru se alargou e ele se inclinou para o lado, acenando — Sugu, amor! Vem cá ver o Nanamin!

Com um sorriso gentil no rosto e duas taças nas mãos, Suguru Geto se juntou a eles. Nanami reparou em como o ex-colega envelheceu como vinho: dava para notar, sim, que ele era um homem de quase 30 anos, mas sua pele levemente bronzeada e cabelos pretos — estes bem mais longos do que no tempo de escola — pareciam cintilar de tão bem cuidados. O loiro se lembrava bem de como a amizade entre Satoru e Suguru sempre gerou especulações de que o “herdeiro das vinícolas Gojo” estava se aproveitando do garoto pobre e inteligente para melhorar nas notas, mas nunca tinha passado disso — pelo menos não em público.

— Meu bem, não fale tão alto. Kento nunca gostou de chamar atenção. — Geto disse, tocando com carinho o rosto do companheiro, depositando um beijo suave nos lábios dele — Você está muito bem. Aceita um espumante?

— Obrigado. — agradeceu, pegando a taça — Desculpe, mas eu ainda não tô acreditando que vocês estão realmente juntos.

— Viu que sorte a minha? — Satoru comentou, orgulhoso, mostrando a aliança em sua mão direita — Vamos nos casar na primavera.

— Parabéns. — ele riu pelo nariz, tamborilando os dedos no cristal — Confesso que achei que vocês nunca mais se falariam depois daquela briga na frente do KFC.

— O motivo dela foi ótimo: a gente já estava namorando, no sigilo. Eu queria assumir meu gatão aqui pra todos, mas ele não deixou! — mostrou a língua para o moreno, que só riu — Acredita que ele disse que iam achar que ele estava comigo só pelo meu dinheiro? Como se não fosse óbvio que ele era completamente apaixonado por mim já naquela época.

— Devia ter terminado de vez com você mesmo há 10 anos, sabe? — Suguru revirou os olhos, mas o sorriso em seus lábios era uma prova irrefutável de um afeto genuíno que Nanami nunca tinha percebido, ao contrário do que Gojo afirmava com tanta certeza — Mas e você, Nanami? Você sumiu no minuto que tiramos a foto da formatura. Conseguiu um emprego bom? Tem alguém especial?

Nanami tomou um gole do espumante, sentindo em cada gota que descia pela sua garganta o sabor de várias de suas horas trabalhadas. Poderia começar a xingar seu emprego sem parar, como fazia com os colegas nas happy hours sagradas de cada última sexta do mês, mas ali…

— Trabalho com consultoria agora, buscando sempre alcançar a eficiência. — respondeu vagamente.

— "Eficiência". Essa palavra em contexto de negócios me causa arrepios. Lembra as conversas tediosas do meu pai! — Satoru exclamou, fazendo uma careta — Desculpa, Nanamin. Eu sei que você não tem nossas facilidades, mas… parece ser bem chato.

— Não esperava que você desse importância a isso.

— Não só eu! — Gojo riu pelo nariz, depois apontou com a taça para o outro lado do salão — O Haibara ali, por exemplo. Menos de duas horas de festa e ele já tá quase bêbado. Esbarrou num coitado de um garçom que carregava uma bandeja de canapés quando tentou cumprimentar todo mundo ao mesmo tempo, inclusive. Você acha que ele acharia interessante essa conversa sobre ser um “consultor eficiente”?

— Pelo menos ele sempre foi honesto. Ele ficaria respeitosamente contente por mim. — comentou Nanami, mudando em seguida seu foco para uma mulher de longos cabelos brancos presos numa trança grossa — Diferente da Mei Mei, que está provavelmente tentando convencer alguém a entrar nos esquemas de investimentos de alto risco dela. Ela saberia exatamente do que eu estou falando, mas tentaria me arrancar dinheiro que eu não tenho.

— Aquela ali não perde tempo. — Geto riu baixo — Ouvi dizer que ela está cobrando uma taxa de "consultoria informal" para dar dicas de investimento aos ex-colegas. Ela é a única pessoa que consegue lucrar em uma festa de reencontro.

— Mei Mei deveria estar como sinônimo de “ganância” nos dicionários. — Satoru completou, debochado — Mas antes alguém de uma área afim da sua, Nanamin, do que ser engolido pelo currículo impecável da senhora presidente da turma Utahime Iori, a advogada incrível. — ironizou ele, apontando para uma mulher de cabelos escuros perto de uma pilastra — A doida ainda é metida a Produtora de Eventos. Enfiou o nariz em tudo nessa festa e ainda passou os últimos vinte minutos tentando convencer Yaga-sensei de que a orquestra contratada é "culturalmente pobre" porque tocou uma versão sinfônica de uma música pop.

— O que vocês riquinhos chamam de problema continua sendo um amontoado das coisas mais bobas que existem. — Nanami comentou, vendo Utahime gesticular irritada enquanto outro ex-colega tentava acalmá-la, sem sucesso.

— Certo, mas… e o coração? — Satoru retomou a pergunta que ficou esquecida, olhando-o de canto — Não se amarrou ainda. Eu não tô vendo aliança.

Tópico sensível.

Como dizer, sem parecer um idiota, que ele amava a mesma pessoa desde o último ano? Que todas as vezes que tentou engatar em algum relacionamento, acabava sendo dispensado porque, além de não ter tanto tempo para se dedicar à companheira, ele não conseguia disfarçar que seu coração já estava tomado por outra mulher?

Kento começou a falar, mas parou ao notar a materialização da única ponta solta que ele deixou na escola, se aproximando deles com passos lentos e uma expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar do planeta — um engarrafamento ou uma fila de banco, por exemplo.

Shoko Ieiri.

De uma família tradicionalmente de médicos renomados e donos de empresas de insumos hospitalares, a mulher nunca deu a mínima importância ao dinheiro que tinha — embora desfrutasse bastante dele quando precisava. O vestido que ela usava, inclusive, parecia ter sido escolhido ao acaso e seus longos cabelos castanhos estavam soltos ao natural — o que não a deixava menos fabulosa, em absoluto.

Uma necessidade súbita e urgente de parecer impecável tomou Nanami, que instintivamente endireitou os ombros e checou se o nó da gravata ainda estava devidamente centralizado.

— Nossa, é verdade o que disseram de você, Nanami. — Shoko parou diante deles, segurando na mesma mão um copo de uísque e um cigarro entre os dedos — Esse seu terno te deixa igual aos modelos do catálogo da Patek Philippe que vi meu pai olhando hoje cedo.

— Ieiri-san. É bom ver você. — Nanami respondeu, levemente constrangido. Sua voz agora tinha um tom aveludado — Você está ótima também. Está na Medicina, suponho.

— Cirurgiã-chefe. Me especializei em neurocirurgia há dois anos. — ela disse, como se não fosse grande coisa — E você? Área de finanças?

Antes que a razão o freasse, a língua dele já havia floreado o cargo:

— Sou Diretor Associado de uma firma focada em aquisições estratégicas. — Kento disparou a falar, projetando confiança nas frases — Inclusive, recentemente, passei por uma rodada de negociações em Londres. Foi intenso, mas os dividendos para os clientes foram... substanciais.

Gojo arqueou uma sobrancelha, trocando um olhar rápido com Geto. "Londres" e "Diretor Associado" eram termos que não tinham surgido na conversa com eles em momento algum.

— Inglaterra, hein? — Shoko pareceu impressionada — Você sempre foi o mais focado de nós. Fico feliz que o esforço tenha rendido bons frutos.

— Faço o que posso. — Nanami minimizou, sentindo o corpo esquentar pelas mentirinhas que soltou.

…só que elas pareciam não parar de vir:

— Se bem que… a empresa está tentando me convencer a liderar a expansão para o Sudeste Asiático no próximo semestre. Ainda estou avaliando se vale a pena sacrificar minha qualidade de vida por mais um bônus de sete dígitos.

Suguru tossiu discretamente atrás da taça, enquanto Satoru parecia prestes a rir, mas, milagrosamente, se conteve.

— Bom… — Shoko disse, tocando levemente no braço de Nanami — Se você for pra lá mesmo, me traga algum chá, pra me ajudar a sobreviver nos dias de plantão.

— Com certeza, Ieiri-san. — ele prometeu, ignorando o peso de sua consciência em prol do sorriso que ela lhe dava pelo seu “sucesso profissional” — Escolherei pessoalmente o melhor lote para você.

— Shoko! Pelo amor de Deus, me tira daqui antes que eu agrida o diretor Yaga! — a voz de Utahime cortou o ar como um chicote. Ela nem olhou para os demais, só agarrou o braço de Shoko e a puxou — Estou a um passo de entrar com um processo contra a escola por mal gosto!

— Que problemão. — Shoko ironizou, divertida, e deixou-se ser levada enquanto lançava um último olhar para Nanami — Boa sorte com a expansão, Kento!

E no que as duas se afastaram em direção ao buffet, Nanami soltou pesadamente o ar de seus pulmões. Seu primeiro nome soou tão perfeito saindo dos lábios dela que ele sorriu, porém nem teve muito tempo para saborear a sensação:

— "Diretor Associado", Nanamin? Sério? — Satoru cruzou os braços, desconfiado.

— Eu não menti, Gojo. É uma questão de... semântica corporativa. — Nanami retrucou, ajeitando a gola da camisa com uma rigidez que beirava o cômico, se recusando a olhar diretamente para o sorriso predatório do outro — O cargo de Diretor Associado é frequentemente utilizado de forma intercambiável em estruturas de consultoria para designar profissionais com autonomia em decisões estratégicas. Só… simplifiquei.

— "Simplificou"? — Suguru repetiu, arqueando uma sobrancelha — E a rodada de negociações em Londres? Foi "simplificação" também?

— Mas eu tive uma conferência com o escritório de Londres na terça-feira passada!

— Presencial?

— Virtualmente. — ele admitiu, murchando a voz. O cenário verdadeiro não tinha nada de glamouroso: tudo aconteceu às duas da manhã e Kento usava calças de pijama por baixo do paletó, já que só aparecia na webcam da cintura para cima.

Satoru soltou uma gargalhada tão alta que um grupo próximo se assustou.

Nanami fechou os olhos por um longo segundo, sentindo sua dignidade no lixo:

— Tá bem! — deixou os ombros caírem, rendido — Eu sou só um analista sênior que passa dez horas por dia revisando planilhas de fundos de investimento de médio risco em um escritório sem janelas, gritando mentalmente com o PC quando o Excel trava. Meu maior bônus este ano foi um vale-presente de uma cafeteria superfaturada e a única "viagem estratégica" que fiz foi até o depósito para buscar mais toner para a impressora. Satisfeitos?

Feliz por saber a verdade. — Suguru disse, solidário — É bom ter você de volta, Kento. O "Diretor Associado" era intimidador demais para um reencontro de classe. O que você pretende fazer quando Shoko perguntar como está o clima em Bangkok daqui a seis meses? — jogou, curioso.

— Eu vou apenas... esperar que ela esqueça.

— Ah, ela vai lembrar. — Satoru deu seu melhor sorriso de quem já estava planejando o caos — Porque, se ela esquecer, eu vou fazer questão de perguntar como estava o sabor do blend. "Eu escolherei pessoalmente o melhor lote para você". Quase chorei. Juro! Você parecia um lorde tentando conquistar a dama.

Sem dar margem para a próxima piada de Satoru, Kento virou o restante do líquido de sua taça de uma vez e deu as costas, caminhando a passos largos em direção à varanda lateral do salão, interceptando um garçom que carregava uma bandeja de uísque puro antes de sair para o ar gelado da noite.

Notas finais
Gojo: 😈 Geto: 😅 Nanami: 🤡😡