Todo Está Al Revés
3 Ya no importa qué pueda pasar.
Notas iniciais
Ao abrir a porta de casa, estava esperando por tudo: dezenas de policiais rodeando a sala, falando em seus celulares a procura de informações sobre mim; Olga chorando alto na cozinha, preocupada com a possibilidade de algo ter acontecido; dezenas de malas empilhadas logo na entrada, apenas aguardando meu retorno para irmos embora mais uma vez; papai gritando com Angeles e ameaçando acabar com qualquer prestígio social ou profissional que tivesse caso voltasse àquela casa. Pensei em várias possibilidades. No entanto, o que vi me surpreendeu.
Nada.
Todos os móveis estavam no lugar, as portas para a varanda estavam abertas e uma brisa agradável vinda do jardim atingia meu rosto. Porém, não havia uma alma viva rondando pela casa. Não se ouvia som de passos ou de vozes, nem qualquer menção de movimento. Estava vazia.
Rapidamente vasculhei todos os cômodos, em busca de qualquer pista que ao menos me permitisse deduzir aonde foram todos. Quando não encontrei nem sequer um vestígio, chamei o número de Ramalho, papai e até mesmo de Jade e Matias no celular. Não recebi qualquer resposta.
Já estava começando a cogitar a possibilidade de ligar para a policia quando escutei o som da porta se abrindo no andar de baixo. Quase me estatelei nas escadas de tão rápido que desci.
Dei de cara com Ramalho e Olga entrando cabisbaixos, como se recém saíssem de um funeral.
— Onde está meu pai? – perguntei sem cerimônias.
Eles se entreolharam e pude ver um lampejo de preocupação passar em seus rostos. Já sabendo do que se tratava aquilo, rolei os olhos.
— Por favor, peço que não defendam ele. – comecei, me sentando no sofá e encarando-os com seriedade. – Sei que não deveria ter saído daquele jeito, mas vocês com certeza já sabem o que aconteceu, certo? Preciso esclarecer tudo com ele, e já. Ele me deve explicações.
Olga baixou os olhos para os próprios pés e simplesmente adentrou a cozinha, deixando Ramalho sozinho comigo na sala. Estranhei a atitude. Ela jamais perdia a oportunidade de fazer mil e um comentários sobre qualquer coisa que falássemos. Analisei o rosto de Ramalho, em busca de respostas. Ele desviou o olhar e respirou fundo antes de dizer qualquer coisa.
— Violetta, pode vir comigo ao escritório do seu pai, por favor? – pediu em um fio de voz.
Aquilo já estava me deixando seriamente preocupada. Papai estava tão bravo assim para que os dois estivessem agindo tão estranho? Alguma confusão teria acontecido depois da minha saída? Provavelmente sim. Mas o quão grande fora?
Apenas assenti com a cabeça e me dirigi ao escritório, sentando-me na cadeira de frente para a escrivaninha. Pude notar que algumas pastas e documentos que geralmente ficavam empilhados pela mesa tinham sumido. A briga teria envolvido arremesso de objetos?
Comecei a me desesperar. O que aconteceu? Quando corri, não parei para pensar em qual seria a reação de papai ao saber de tudo, e o que sua raiva poderia gerar. Talvez algo realmente sério tenha acontecido. Talvez tenha sido grave.
Mordi os lábios pela tensão enquanto Ramalho se acomodava na cadeira à minha frente.
— Violetta... Não sei como começar. – afirmou com sinceridade e levou uma das mãos à testa, massageando as têmporas. – Nem posso imaginar como você deve estar se sentindo nesse momento.
— Confusa, angustiada, nervosa... Resumindo: Péssima. – Uma risada meio bizarra escapou de meus lábios. – Pode ir direto ao ponto, por favor?
Ramalho pareceu se preparar para o que estava por vir, e não pude deixar de fazer o mesmo. Segurei com força os braços da cadeira, temendo as próximas palavras que sairiam.
— Acho que o melhor jeito de começar é te pedindo perdão. Olga e eu sabíamos tudo sobre a família de Maria, e ajudamos Germán a esconder todas as informações de você por todo esse tempo. Não foi justo, e você não merecia isso, Violetta. – Ramalho tinha uma aparência atordoada. – Mas seu pai é nosso patrão. Não podíamos ir contra as regras da casa.
— Então é verdade? – A pergunta saiu em um sussurro. – Toda essa história que mamãe teve uma irmã e uma mãe, e ela estiveram todos esses anos tentando me encontrar...
Ele balançou minimamente a cabeça.
— Receio que sim, Violetta. Sentimos muito.
A imagem da mulher loira preencheu meus pensamentos. Angeles. Mesmo sem me conhecer, ela parecia gostar de mim de verdade. Pude ver a determinação em seus olhos no momento em que me viu pela primeira vez, apesar de toda sua ansiedade.
Aquela pessoa esteve me buscando durante tanto tempo, e eu nem fazia ideia...
— Como ele pôde, Ramalho? Como ele teve coragem de fazer isso comigo?
Eu não esperava respostas para aquelas perguntas. Era mais como uma retórica. Como uma reprodução dos sentimentos que me consumiam naquele momento.
— Ele tinha medo, Violetta... Medo de que você sofresse ainda mais. Medo de que não pudesse ser feliz convivendo com o passado sua vida inteira.
Me levantei no mesmo instante.
— Medo de que EU sofresse? – gritei. – O único que tem medo aqui é ele! Como eu posso ser feliz convivendo com um pai que só sabe mentir? Como posso, Ramalho? Ele sempre vem com esse pretexto de que se importa comigo, que só quer a minha felicidade, quando na verdade ele só se importa com o próprio nariz! As memórias da mamãe só trazem dor a ele, a mais ninguém!
— Violetta, por favor, acalme-se...
— Não me diga para me acalmar! Ele é um monstro, Ramalho! Um monstro! Ele escondeu toda uma família de mim porque ELE não podia conviver com seus próprios pesadelos!
Não pude aguentar mais: Cai em prantos. Chorei como nunca havia chorado em toda minha vida. Chorei alto. O tipo de choro em que você mais soluça do que derrama lágrimas. Não queria me sentar de novo, mas acabei desabando na cadeira, me sentindo um peso morto. Abracei minhas próprias pernas e escondi o rosto nelas.
Sequer notei a presença de Ramalho quando ele se agachou ao meu lado e afagou meus cabelos, tentando me confortar.
— Onde ele está, Ramalho? Onde ele está? – balbuciei e minha voz era quase ininteligível. – Quero que ele olhe diretamente pra mim e fale toda a verdade.
Ele pareceu paralisar com essa frase e recolheu a mão rapidamente. Pude sentir que se levantou e agora andava pelo espaço pequeno do cômodo.
— Preciso que me escute.
Seu tom me trouxe certa urgência. Imediatamente meu choro descontrolado parou e mirei Ramalho com atenção. Pude notar que seu nervosismo aumentou. O que meu pai fez dessa vez?
— Violetta, o seu pai... – Ele gesticulava com as mãos enquanto tentava encontrar as palavras certas. – Pode parecer meio impulsivo da parte dele, mas... – Parou de andar e ficou de costas para mim. Passou alguns míseros segundos assim. – Violetta... Seu pai viajou.
— O QUÊ?
Era primeiro de abril e eu não estava sabendo? Por que aquilo era uma piada, certo? Ele não podia estar falando sério.
Observei-o, incrédula, aguardando explicações.
— Depois que você saiu, seu pai e... Angie, isso, Angie, tiveram uma discussão um tanto acalorada. Ele a ameaçou, disse que te tiraria do país, que se ela ousasse se aproximar outra vez de vocês conseguiria um mandato de afastamento para ela. – Ramalho se permitiu rir um pouco. – Mas aquela mulher... Não sei. Há algo de diferente nela, sabe? Quando seu pai parou de xingá-la com todos os nomes possíveis, ela olhou com seriedade nos olhos dele e começou a falar com a maior destreza que já vi. Falava de maneira tão eloquente, tão encantadora... Seu pai ficou sem palavras. Jamais presenciei uma cena como aquelas. – Seu semblante era pensativo. – Depois disso, eles enfim tiveram uma conversa civilizada e quando ela foi embora, seu pai parecia decidido. Disse que sairia do país por tempo indeterminado e pediu que Olga arrumasse uma mala apenas com o estritamente necessário.
Fiquei boquiaberta durante alguns instantes. Era tanta informação para digerir que estava perdida. Como assim? Como tudo aquilo fora acontecer tão rápido?
— Então é isso? – questionei. – Ele simplesmente foi embora? Me deixou aqui com vocês, sem o menor arrependimento?
Ele finalmente esboçou um sorriso para mim, abandonando toda aquela tristeza perturbadora. Em seguida, tateou os bolsos de seu terno e pegou um objeto metálico metálico. Abriu minha mão e colocou-o na palma.
Uma chave dourada.
— Busque as respostas e vai encontra-las. – instruiu e se retirou.
— O que diabos isso quer dizer? — perguntei para o além, porque ele já tinha ido.
Vasculhei minha cabeça à procura de algo. Tudo estava tão confuso e embaralhado que demorei bastante para assimilar os fatos. E depois de algum tempo racionando, senti a resposta estalar.
O quartinho.
(N/A: Vocês lembram do quartinho, né? Aquele quarto que no começou da primeira temporada da novela o Germán não queria que a Violetta entrasse de jeito nenhum.)
Não tardei em subir as escadas e parei de súbito em frente àquela porta que tanto me intrigava desde o início do dia.
Papai me dissera mais cedo que eu não deveria entrar naquele quarto, pois estava todo desorganizado e empoeirado, e não tinha necessidade de ver aquilo. Seria outra de suas mentiras? A julgar por todo aquele mistério, seguramente era. Respirei fundo e girei a chave na fechadura.
Ao entrar no aposento, senti que iria desmaiar. Meu coração bateu descompassado e minha vista ora escurecia ora aclarava, uma lâmpada defeituosa tentando incansavelmente funcionar.
Quadros de cantores de óperas e espetáculos preenchiam as paredes. Roupas elegantes pendiam de cabides em um armário e serviam como vestes para alguns manequins. Cadernetas, pentes, espelhos, batons e boás acumulavam-se em pequenas cômodas. O local estava tão cheio que era difícil se movimentar e não acabar se esbarrando em alguma coisa.
E um nome em especial adornava cada centímetro do lugar. Maria Saramego.
Ali estavam todos os prêmios que ganhara cantando, todos os recortes de jornais que citavam seus shows e entrevistas, todas as suas fotos com fãs e a família. Aqueles objetos, todos eles, pertenciam à minha mãe. Cada pecinha ela presente passara por suas belas mãos e fizera, de alguma maneira, parte de sua história.
Achei que começaria a chorar outra vez, mas meu choque era tamanho nem mesmo consegui expressar emoções. Sentia que começava a ficar tonta e uma dor de cabeça me deixava em um estado entorpecido.
Senti um pânico tomar conta de mim e dei alguns passos para trás. Quase escorreguei em uma folha de papel repousada no chão. Imaginei se seria alguma canção que minha mãe escreveu e tive esperanças de que fosse algum sinal, alguma dica, algum conselho que o destino mandara para que eu soubesse o que fazer com minha vida.
Apanhei-a do chão e reconheci a letra do meu pai. Estranhei, mas quando analisei melhor a tinta no papel, pude perceber que era recente. Comecei a ler.
“Violetta,
Sei que tudo isso deve estar sendo muito confuso e doloroso para você, assim como é para mim. Como você acaba de descobrir, menti para você todos esses anos e não só sobre a família de Maria, mas também sobre este quarto em que você está agora, com tudo o que tenho da sua mãe.
Ao contrário do que você deve pensar, nada disso foi fácil. A cada dia me doía mais saber que estava te ocultando coisas realmente importantes para você, e que quanto mais demorasse para te contar toda a verdade, mais difícil seria para você aceitar. Resultou que não foi da minha boca que você ouviu tudo o que estava escondido. Posso imaginar o quão isso foi decepcionante para você, e provavelmente devo estar sendo odiado nesse momento. Não posso te culpar por isso, filha.
Sei que não tenho sido um bom pai, nem um bom amigo... De modo geral, não tenho sido uma boa companhia. E te peço perdão. Não só por isso, mas tudo que já te fiz. Todas as vezes que te magoei, todas as vezes que te deixei sufocada, todas as vezes que não te apoiei e não fiquei do seu lado. Estou longe de ser um pai perfeito, Vilu. E isso é algo que não posso mudar.
Bom, você já sabe de tudo, e provavelmente o que direi a seguir é desnecessário, porém ainda assim me sentirei melhor sentindo que finalmente estou te contando. Sua mãe teve uma irmã, filha. Ela se chama Angeles Carrara e quando Maria morreu, ela ainda era muito jovem. Me lembro vagamente de Maria me contando todas as peripécias da irmã, os bons momentos que passou ao seu lado e o quanto a amava. Assim como você também tem uma avó, que se preocupa muito com você e está louca para te conhecer. Uma avó que está te procurando por todos os lados, mesmo que para te ver por um milésimo de segundo.
Essas duas amam você com todo o coração filha, mesmo que tenham passado tanto tempo distantes. E tenho absoluta certeza de que você irá amá-la também.
É por isso que decidi estar fora por um tempo, como Ramalho já deve ter lhe dito, caso contrário, você não estaria aqui nesse momento, lendo essa pseudo-carta. Você merece uma oportunidade de conhece-las melhor, e creio que comigo por perto todo instante, principalmente depois de tudo o que fiz tanto para você quanto para elas, essa oportunidade seria arruinada. Pode parecer meio precipitado da minha parte e até mesmo incomum, mas acredito que já está na hora de você seguir seus próprios passos, de ter sua própria vida. E estou certo de que quando voltar, ficarei muito orgulhoso do que encontrar.
Infelizmente não estarei presente no seu aniversário, e sinto muito por isso. Eu poderia ter esperado mais um dia antes de partir, só que provavelmente eu não teria mais a coragem para tomar a decisão que tomei. Deste modo, foi melhor assim. O fato de eu não estar presente, no entanto, não quer dizer que você não possa aproveitar a comemoração. Sei que você não suporta a Jade, filha, e respeito a sua opinião. Mas peço que ao menos dê uma oportunidade a ela. Aceite a festa que ela está organizando, tente interagir com os convidados, coloque um sorriso no rosto. Pode até mesmo convidar quem você quiser para comparecer. Sei que fará excelentes escolhas.
Falando em Jade... Ela, junto com Ramalho e Olga cuidarão de você enquanto eu estiver fora. Não decido isso porque penso que você é uma criança que necessita de cuidados especiais. Sei que pode muito bem tomar conta de si mesma. Cresceu muito ao longo do tempo, e está a cada dia mais madura. Entenda, entretanto, que você ainda é menor de idade. Ainda tem um longo caminho pela frente até ser uma adulta formada, e ainda existem muitas coisas que você não entende e precisa de ajuda nisso. Não olhe para eles como seus vigias, e sim, como seus amigos, que vão estar aí sempre que você precisar.
Por fim, filha, só quero dizer que te amo. Eu te amo com todas as minhas forças e sempre irei te amar, não importa quantas atitudes falhas eu tome ou quantas baboseiras eu te diga. Nunca se esqueça disso.
Peço também mais uma vez que, por favor, me perdoe. Tive meus motivos egoístas, mas o que fiz também foi por amor, por me preocupar de verdade com você. Não posso viver feliz sabendo que minha filha guarda um rancor de mim.
Já estou sentindo saudades!
Germán.”
Deitei-me ali mesmo no chão e reli a carta uma, duas, três vezes. Fiquei ali por horas, absorvendo pouco a pouco todas aquelas palavras e sentindo um misto de sensações a cada nova leitura. Não consegui formular bem o que pensava daquilo. Ora sentia felicidade, outrora sentia mais raiva do que antes. Minhas concepções mais oscilavam do que se concretizavam.
Depois de um tempo, simplesmente me aconcheguei mais àquelas micro-partes de minha mãe e acabei adormecendo.
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