Todas as nossas memórias

8 Capítulo 8 - Entre sussurros


Notas iniciais
Mais Scorose, mais drama, mais romance. Fortes emoções nesse capítulo. Espero que curtam!

Rose abriu os olhos com dificuldade, demorando alguns instantes até se acostumar com a claridade do quarto onde estava.

Ela examinou o arredor e a primeira coisa que viu foi o branco. Branco nas paredes, branco nos moveis, branco na própria roupa. Tudo terrivelmente claro, refletindo o sol que entrava pela janela e instigando a dor pulsante na cabeça da ruiva.

Se não bastasse o cenário, ela ainda podia sentir o gosto amargo de alguma poção em seus lábios e o cheiro forte de ingrediente se fundindo no estanho, deixando claro que estava no hospital.

Enquanto se levantava, percebeu que não sentia mais dores e não encontrou resquícios dos cortes e hematomas que levava no corpo antes de acordar.

Os únicos indícios do que sofreu nos últimos anos eram uma insistente dor de cabeça e a marca em seu braço esquerdo, oculta pela manga comprida de vestes que continham o emblema do Hospital St. Mungus.

"Menos um detalhe para descobrir", a ruiva pensou ao sentir o chão frio sob os pés.

Inspecionando o quarto enquanto andava, ela usou os moveis para manter o equilibro, seguindo até a cortina que separava o lugar e encontrando quem procurava.

Sentada em sua cama, Sofie observava atentamente uma jovem que à distraia com a levitação de alguns frascos, usando feitiços não verbais.

— Quem é você? — Rose se adiantou entre a pequena morena e a mulher desconhecida, agarrando à beirada da cama para se firmar quando a dor afiada na cabeça a fez conter o folego.

— Senhorita Weasley, não deveria estar de pé. — A curandeira fez pouco caso das desconfianças da ruiva, falando com ela em um tom muito bondoso. — Precisa descaçar e se recuperar.

— Não vou deixar a Sofie sozinha. — Rose tentou discutir, mas a moça era mais forte do que parecia. Ela prendeu a varinha no coque de mechas doiradas que usava e levou a paciente de volta para a cama, mantendo as mãos formes em seus ombros.

— Você esta no Hospital St. Mungus e eu sou a curandeira de plantão, Hanna Cowper. — A loira ensacou Rose habilmente com os lenções, enquanto falava. — Aqui, a senhorita é paciente e não auror, então você descansa e eu cuido daquela mocinha. O Malfoy deve voltar em instantes para vê-la.

Então aos poucos Rose foi lembrado do que aconteceu. A missão, o interrogatório e... Scorpius Malfoy.

— O Malfoy. Eu quero falar com ele. — Falou rapidamente.

— O Doutor não deve demorar. – Hanna já fazia seu caminho de volta para Sofie.

— Não. Eu quero o filho. Preciso ver Scorpius Malfoy. – Ela começou a se levantar de novo, mas o olhar da curandeira a impediu.

— Sim querida, todas nós o queremos. — Suspirou, percebendo que a piada não foi bem aceita. — Mando chama-lo pra você, mas só se prometer ficar nessa cama e descasar — Rose a olhou de má vontade, mas continuou deitada. Observou enquanto Hanna escrevia em um pedaço de papel e o encantava, lançando-o pela porta do quarto como um aviãozinho em busca do próprio destinatário.

— Prontinho. — A loira voltava para seu posto sob a cortina, abrindo mais um sorriso delicado. — Sem mais preocupações, você já pode descansar.

— Mantenha a cortinha aberta. — Foi a resposta, mal humorada, que ela recebeu da ruiva. — Vou ficar de olho em você.

...

Um debate acalorado sobre as técnicas da academia dos aurores, suas consequências e benefícios, se desenrolava na sala de visitantes no quinto andar do St. Mungus, tão tumultuado que chamou a atenção de um casal que perambulava perdidamente pelo hospital.

— Tantos ruivos em um só lugar, só podem ser os Weasleys. — Disse um homem sobre o arco de entrada. Ele era alto, com cerca de trinta anos e uma expressão preocupada no seu rosto.

— Graças a Merlin! Pensei que estávamos perdidos outra vez. — Surgindo ao lado dele, uma pequena encarou a todos. Ela arrumou o turbante sobre os cabelos e, sultando um suspiro aliviado pelos labios grossos, se adiantou para abraçar Hermione.

— Robert. Kendra! — Hermione saldou sob o enlace apertado da mulher. — Ainda bem que conseguira chegar. Eu estava a ponto de perguntar quando poderemos ver a Rose.

— Nós queríamos vir o quanto antes, mas eu tinha que contar a novidade ao meu pai. — Respondeu o segundo filho dos Shacklebolt. Sua pele negra, se destacando sob as vestes pálidas, quando apertou a mão de Draco num cumprimento. — Então, quando poderemos ver nossa filha, Malfoy?

— As visitas devem ser acompanhadas e nos horários estabelecidos pelo hospital, mas abrirei uma exceção, dadas as circunstancias. — Informou o loiro, acrescentando rapidamente. — Apenas os pais, é claro. Espero que entendam que esse é um momento delicado, onde não devemos agitar demais as pacientes. — Naquele momento, para a surpresa de alguns, um pequeno avião de papel planou, certeiro contra Draco, que o resgatou do ar habilmente. Ele leu o conteúdo da folha enfeitada e franziu o cenho para o filho. — Você também, Scopius. A senhorita Weasley pediu para vê-lo.

— O amor jovem... — Albus cantarolou, vendo o sorriso crescente no rosto do amigo enquanto seguia o pai. — Ou nem tão jovem.. Você não tem mais tempo pra perder, sabe?

— Vá a merda, Potter. — Mas Scorpius ainda sorria quando deixou a sala.

...

— Senhorita Weasley. — A voz de Hanna era ouvida ainda no lado de fora do quarto. — Estou fazendo meu trabalho. Não sou nenhuma novata, se quer saber.

— Não estou interessada nas suas qualificações. Até onde eu sei, você pode ser qualificada até demais. — Rose respondeu de má vontade, sua voz saindo abafada enquanto tentava manter a boca coberta e longe da poção que a loira oferecia.

— Isso vai melhorar sua dor, então abra a boca antes que eu chame o Dr. Malfoy. — A curandeira e Rose continuavam a discussão, sob os atentos olhos castanhos de Sofie, quando Draco entrou.

— Creio que isso não sera necessário, Senhorita Cowper. — Ele sorriu, atraindo a atenção das jovens. — Algum problema por aqui?

— A senhorita Weasley parece sentir algum prazer em questionar meus conhecimentos sobre a medicina bruxa.

— Ela não quer te contrariar, Hanna, só tirar sua atenção da menina. — Scorpius explicou, surgindo atras do pai e caminhando para Rose. — Já esta maquinando algum plano de fuga, Rosie?

— Não conheço essa mulher e vocês deixaram a Sofie sozinha com ela. — A acusação chiou pelos lábios rosados e Scorpius se encolhei inconscientemente.

— Hanna é curandeira. A melhor da equipe do meu pai, esta trabalha com ele desde que saiu de Hogwarts. — O loiro falou rápido, quase como se pedisse desculpas, ao passo que o pai confirmava a historia com um aceno breve.

— Então, me de essa porcaria, minha cabeça esta me matando. — Ela pediu o frasco que emanava um cheiro peculiar e enrugou o nariz levemente antes de tomar. — Obrigada. — A curandeira soltou um bofar pouco delicado, se retirando da sala após entregar os prontuários ao medibruxo.

— Fazendo amigos, Weasley? — A ruiva se limitou a revirar os olhos diante da provocação de Scorpius.

— É muito bem encontra-las acordadas e tão... Dispostas. — Draco apontou, olhando as anotações da curandeira. — Trouxe algumas visitas pra vocês.

Então quatro pessoas entraram pela pequena porta, ocupando quase todo o espaço restante na sala. Duas mulheres e dois homens e, dentre eles, Rose conseguiu reconhecer o auror ruivo que encontrou mais cedo, no Ministério.

— Sofie, meu amor. — O outro homem e a mulher que segurava sua mão correram em direção a criança, que se limitou a mover seus grandes olhos castanhos de um para o outro, sem esboçar reação. Rose, por outro lado, teve o impulso de sair da cama e se colocar entre eles, sendo contida apenas pelos braços de Scorpius.

— Esta tudo bem, são os pais dela.

— Você tem certeza disso? — A ruiva não tirou os olhos do casal em sua pequena bolha de felicidade, abraçados à filha que não viam desde os três anos.

— Sim. — Confirmou ele. — São Kendra e Robert Shacklebolt, ele era o Ministro da Magia quando a filha foi raptada.

— Não consigo lembrar. — Havia um sentimento de frustração muito nítido em suas palavras, mas ela não retrucou, se deixando levar de volta para a cama. — Vamos continuar o interrogatório aqui?

— Não mesmo! — Determinou o Malfoy, visivelmente surpreso com a pergunta. — Você já teve agitação demais por hoje e pelo próximo mês também. Porque pensou nisso?

— Você não é um dos aurores que encontrei no Ministério? — Ela olhou diretamente para Rony, que inconscientemente aumentou o aperto na mão da esposa.

— Sim, era eu mesmo. — Ele respondeu, enquanto se adiantava com Hermione até a beirada da cama de Rose. — Mas não estamos aqui por isso.

— Então... — A ruiva olhou confusa para o casal na sua frente. A mulher, com cheios cabelos castanhos e um sorriso gentil, a encarava com olhos ansiosos, incapaz de falar. Já o homem, exibia orelhas tão vermelhas quanto os cabelos ruivos enquanto abria e fechava a boca, nervosamente procurando as palavras que precisava.

Percebendo a dificuldade da dupla em se expressar, Rose olhou de Malfoy para Malfoy, questionando de forma silenciosa o que estava acontecendo.

Continuando as pequenas anotações que fazia na ficha do paciente, Draco deixou que o filho respondesse enquanto observava a situação. Por seu turno, Scorpius encarava ruiva com receio, levando um tempo até perceber que não havia um jeito certo para contar o que pretendia.

— Estes são Hermione e Ronald Weasley. — Ele informou, atraiu a atenção da mulher ao dizer o sobrenome do casal. — Seus pais...

— Não! — O equipamento enfeitiçado ao seu redor emitiu um barulho alto e depois começou a soltar pequenos beeps inconstantes. — Não.
— Senhorita Weasley, tente se acalmar. — O medibruxo se aproximou rapidamente. Agitando a varinha, ele diminuindo o barulho do maquinário e enviou um avião de papel escrito as pressas.

— Rose, querida. — Hermione finalmente conseguiu falar, se aproximando na tentativa de pegar a mão da ruiva. — É a mamãe e o papai. Somos sua família.

— Não! Eu não tenho família! — Ela recusou o toque, se encolhendo contra Scorpius. — Meus pais estão mortos.

— Não é verdade, Rosinha. — Disse Rony, abraçando a esposa que chorava pelas palavras da filha. — Estamos aqui. Te procuramos esse tempo todo, nunca desistimos de te encontrar.

— Não! Saiam daqui. — Naquele momento, Scorpius já estava sentado com ela sobre cama, a apertando em seus braços, e Rose encostou a testa no ombro dele. Sentia a cabeça pulsar, doendo muito mais do que antes, mesmo com a poção que tomara. — Minha cabeça... Inferno sangrento! Como doí.

— É melhor vocês se retirarem agora. — O pedido de Draco não recebeu qualquer resistência. Rony e Hermione lançaram uma última olhada sobre a filha antes sair da sala, desviando de Hanna que passou correndo pela porta.

A curandeira se apressou a encontrar o medibruxo, lhe entregando um pequeno frasco de liquido âmbar. Eles conversaram rapidamente e a loira se adiantou até os Shacklebolts, para retira-los da sala.

— Você mentiu pra mim. — Rose sussurrou sob as ondas de dor em sua cabeça, alheia ao que acontecia. — Nada disso pode ser verdade.

— Eu nunca mentiria, você sempre sabe quando faço isso. — Eles trocavam cochichos, enquanto o loiro a deitava mais uma vez na cama.

Rose tomou alguns instantes para investigar os olhos do loiro e não enxergou qualquer falsidade através das iris cinzentas.

— Beba isso, senhorita Weasley. — Draco colocou o frasco de poção contra seus lábios, a ajudando a beber. — Essa é mais forte que a anterior, então a dor passara logo. Pode ter a sensação que seu corpo começou a flutuar, mas não se preocupe, é apenas a poção surtindo efeito.

— Obrigada, doutor. Você é um anjo. — A fala da ruiva se enrolou rapidamente. Suas feições suavizando quando abriu um sorriso brilhante para Draco, que não segurou uma risada levemente constrangida.

— Pelo visto, a poção já começou a funcionar. — O loiro comentou com o pai.

— Scorpius... — Rose chamou, após o medibruxo se afastar. Sua voz não era mais que um murmúrio. — Não faz sentido, nada disso faz sentido.

— Do que esta falando, Rosie? — Ele perguntou, alisando algumas mechas dos cachos ruivos.

— Disso eu me lembro... — A mulher balbuciou, suas palavras sumindo aos poucos. — Deveria... Deveria estar sozinha. Não faz... Sentido.
Ela soltou um suspiro suave e dormiu antes que Scorpius pudesse rebater suas palavras. No entanto, isso não o impediu de se aproximar e sussurrar no ouvido da ruiva.

— Talvez você não entenda agora, mas nunca mais estará sozinha.

Notas finais
Não deixe de me contar o que achou desse capítulo. Te vejo nos comentários.