Todas as nossas memórias

6 Capítulo 6 - Entre mascaras e sensações


Notas iniciais
Dessa vez, tudo conspirou bem e a espera foi pouca. Esse capítulo é dedicado a todos que estão surtando por cenas Scorose. Espero que curtam!

Tudo foi tão rápido e, ainda assim, ela absorveu cada sensação o mais lentamente que pode.

Em um minuto, esteva revivendo alguns dos momentos mais terríveis da sua vida, e no outro, Rose havia esquecido de tudo e todos que a cercavam.

Restava apenas ele. Entrando como um furacão e atraindo todos os olhares, principalmente, o dela.

Alto, loiro e forte, Scorpius continuava tão lindo quanto o rapaz que conhecerá em Hogwarts. Ele era mais velho agora e, certamente, mais musculoso, mas continuava com os mesmo olhos gentis que, um dia, havia revelado a ela.

A ruiva se aproximou antes mesmo que ele tivesse chance de falar algo, precisando desesperadamente toca-lo. Senti-lo sob seus dedos e ter certeza que era real. Algo além das memórias em que se agarrou durante os piores momentos da sua vida.

— Scorpius! — Ela o encarou, sentido uma eletricidade percorrer seu corpo quando o olhar prendeu no dele. — Não acredito que vou falar isso, mas é muito bom ver alguém conhecido. Ainda que esse alguém seja você, Malfoy.

Rose tocou seu rosto, adorando a sensação da barba por fazer contra a pele. E, quando ele pareceu relaxar sob seu toque, a ruiva não suportou a proximidade, se jogou em seus braços. Em sua mente, não havia espaço pra nada além dos momentos que viveu com ele, correndo livremente em sua memória.

Scorpius reagiu rapidamente, apertando o abraço e enterrando o rosto no pescoço dela. O loiro estava determinado a agarrar cada oportunidade de mante-la o mais próximo possível, mas quando ela se afastou para olha-lo melhor, o Malfoy não se conteve. Pegando seu braço esquerdo, o ergueu entre os dois.

Rose tentou puxar a manga da camisa que levava, escondendo o antebraço, mas Scorpius a impediu. Ele deslisou um único dedo sobre a imagem gravada na pele pálida, então levou a mão dela até os lábios e beijou a palma, sem desviar os olhos dos dela.

— Não devia se esconder. — A ruiva, completamente presa naquele olhar, perdeu o folego. Aqueles olhos, num tom cinzento, tão familiares à ela. — Até as partes mais sombrias da sua historia te fazem mais forte e vão te ajudar a superar tudo. Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Ela sentiu o mundo girar, quando uma memória surgiu rápida e certeira em sua mente, tão nítida como se a estivesse vivendo outra vez.

Hogwarts, 2021

Era inicio de setembro e Hogwarts fervilhava com alunos animados com a primeira semana de aulas. A empolgação era vista em todos os lados, exceto na jovem ruiva que se mostrava bastante aborrecida em percorrer o caminho que levava à torre mais alta do castelo.

Quando descobrir que o parceiro de ronda planejava deixa-la cumprir as atividades da monitoria sozinha pela segunda vez, Rose se viu obrigada a abandonar seu belo jantar para encontra-lo. E durante todo o caminho, sua mente se dividia entre amaldiçoa-lo e planejar a melhor forma de arranca-lo da torre de astronomia.

Acontece que, enquanto subia as longas escadas, ela já imaginava o motivo da reclusão do rapaz.

Prendo que Scorpius não estaria disposto a conversar, principalmente com ela, a ruiva pensava em meios pacíficos de convence-lo a cumprir suas funções e poupá-la do relatório que seria obrigada a escrever. Provavelmente, teria que recorrer a boa e velha chantagem. Estava com muita fome para aguentar mais uma das cenas que ambos, inevitavelmente, armavam ao se encontrar.

Parando no topo da escada, Rose observou o rapaz deitado no chão, olhando as estrelas sem qualquer preocupação aparente.

— O titulo de Monitor é mais do que apenas status, Malfoy. — Disse alto, assuntando o rapaz. Scorpius sentou-se rapidamente e, sem encara-la, manteve seu rosto fora do alcance de visão. — Se pressupõe que você tenha certas atividades para cumprir e, até onde eu soube, observar as estrelas não é uma delas. Fica a dica.

— Aparentemente, o distintivo de monitor te deixou ainda mais irritante, Weasley. — Rose teria rebatido a provocação, mas algo no tom grave da voz do loiro a freou. Ele esteve chorando, algo que ela não o via fazer desde o primeiro ano, quando um grifinorio, três anos mais velho, o empurrou no lago negro. — Fica a dica.

Ela caminhou na direção dele, tentando observa-lo da forma mais sutil que pode.

— O que aconteceu com você no trem? — Perguntou, checando o terreno. — Você não apareceu para a reunião, nem pra nossa ronda. E depois... Fiquei sabendo do incidente com os grifinorios.

— Então ficou preocupada e veio me procurar? Ou só bateu a saudade mesmo?- Enquanto Rose se aproximava, reparou que as mãos do jovem percorriam, disfarçadamente, o próprio rosto. o gesto deu a confirmação que ela precisava. — Sabe, fico pensando no que o papai Weasley diria sobre isso?

— O que o seu pai diria se soubesse de você se envolvendo em confusão e chorando escondido pelo castelo? — Rebateu, sentindo-se injustamente atacada.

— Direta, Weasley. Gosto disso. — Disse, finalmente olhando para ela. Seus olhos ainda estavam avermelhados pelo choro, mas a iris quase prateada mantinha o brilho característico. — Meu pai, provavelmente, ficaria feliz por me ver manter a calma e me afastar dos otários dessa escola. Minha mãe também, se quer saber, mas ela gostaria mais se soubesse que dei uma surra que neles.

— Posso imaginar qual das situações você iria preferir. — Eles trocaram um pequeno sorri e, mesmo sem entender a própria motivação, a ruiva tomou o gesto como uma permissão, sentando-se ao seu lado.

Scorpius voltou a observar as estrelas, tentando afastar as sensações que surgiam estando ao lado dela. Por fora, mantinha-se sempre tranquilo, mas, por dentro, ele estiva prestes a entrar em ebulição. Nunca sentirá nada como aquilo e sua mente trabalhava a todo vapor para desvendar os motivos para seu coração estar tão descompassado.

— Não vou fingir que não sei de quem estamos falando. Eu mesma já arrumei minha cota de brigas, principalmente com alguns babacas da minha casa. — Sua voz era muito suave nos ouvidos do loiro e ele começou a se sentir irritado com os arrepios que lhe provocavam. — Mas o que te deixaria assim? Nem nossas brigas arrancam essa sua máscara de indiferença. Lagrimas, certamente, não fazem a sua linha.

— E isso seria da sua conta, por quê? — Perguntou, emburrado.

— Porque estou sendo educada o suficiente pra falar com você, seu grosseirão. — A ruiva o encarou de má vontade. — E porque posso, ou não, aliviar a sua barra com a próxima ronda.

Ele levou seu tempo, pensando se responderia ou não. Tanto que Rose começou a se questionar o porque de se sentir compelida a entende-lo e, principalmente, o que a prendia ali.

— Eu... — Começou o loiro, ainda incerto, surpreendendo a ambos. — Eu deixei que vissem uma ferida que não queria mostrar, eles só se aproveitaram.

— Foi sobre o seu avô? — Insistiu, cautelosa. Era a primeira vez que conversavam civilizadamente e ela tinha medo de ultrapassar algum limite silenciosamente imposto. — Eu soube que ele...

— Morreu? Sim. — Scorpius completou por ela, deixando a mostra uma expressão cansada. Provavelmente, a primeira variação de humor que escapava da solida expressão de gelo do rapaz. — E eu venho tentando entender porque eu dou a minima pra isso.

— Bem, é seu avô...

— Era um maldito preconceituoso, isso sim. — Sua revolta assuntou a ruiva, que precisou encara-lo pra ter certeza do que dissera. Nunca ouvirá o Malfoy comentar sobre qualquer assunto que fosse ao menos minimamente delicado. Nada de politica, nada de ideologias, nada de nada.

— Nunca se referiu a minha mãe por nada além de traidora do sangue, sem mencionar o surto que teve quando levei meus amigos até mansão, nas ferias do primeiro ano. Ele se recusou a falar comigo desde então e o miserável manteve isso até seus últimos dias, não importando o quanto magoasse o meu pai. — Scorpius continuou, deixando suas emoções cada vez mais visíveis à ruiva. — Ainda assim, não consigo me impedir de lamentar a morte dele.

— Malfoy, ele ainda era seu avô. Independente das coisas que fez, você não deve se envergonhar de chorar a morte dele. Se algum grifinorio disse algo sobre isso...

— Não estou chorando por ele. — Scorpius a interrompeu, procurando seu olhar. — Aquele homem nunca teve uma palavra de carinho. Não pra minha avó ou pro próprio filho, muito menos pra mim. Sou um completo idiota e fiquei triste, principalmente porque o meu pai esta arrasado, mas isso não é pelo meu avô. — Havia mais do que ressentimento na sua voz e Rose viu, novamente, o brilho de lagrimas nos olhos dele.

— Então, o que poderia te deixar assim? Eles disseram mais alguma coisa? — A ruiva arriscou a pergunta, ainda mais intrigada com as sensações que percorriam seu corpo a cada nova emoção que o loiro revelava.

Durante esses anos em Hogwarts, depois de todas as brigas, nunca imaginou que fosse ver o loiro como algo além de um pedante, sem sentimentos. O quão errada poderia estar? Quantos segredos o Malfoy escondia por atrás daquela fachada de sonserino frio e calculista.

— Além do monologo de sempre? Aquele em que os Malfoy são a escoria da sociedade bruxa e que nem os malditos comensais nos aceitariam entre eles? — Ele precisou desviou os olhos dela, com medo de encara-la e descobrir que a ruiva concordava com o que diziam sobre sua família. Mas Rose pousou a mão sobre a sua, num gesto inesperado de apoio, surpreendendo à ambos.

— É. Eles disseram, mas foram mais criativos hoje. — O jovem continuou, incapaz de afastar o toque dela. — Foram bem claros ao dizer que meus pais seriam os próximos. Acham que os próprios comensais vão mata-los e ninguém, no Ministério ou em qualquer armada especial, vai fazer alguma coisa.

— Inferno sangrento! — Ela exclamou irritada, chamando a atenção de Scorpius para seus olhos que queimavam de raiva. — Estou tão cansada disso. Tem que contar a McDonagall. Ela precisa colocar um ponto final nessa situação.

— Não quero recorrer a ninguém para resolver meus problemas ou para tentar me convencer que o óbvio não é real. — Scorpius finalmente tentou puxar a mão da dela, mas Rose a manteve em um aperto firme.

— V-você acha que eles estão certos? — Ela inqueriu, assuntada. — Mas seus pais contribuíram com o novo governo e o Sr. Malfoy pagou pelos próprios atos, o Ministério tem que cumprir o acordo selado pelo Primeiro Ministro.

— O Ministro pode ter um acordo com meus pais, mas muita gente no Ministério ficaria muito feliz em olhar para outro lado quando algo acontecer. — Ao encarar o loiro, despido de todas as mascaras que costumava lavar, Rose não pode conter o coração acelerado.

Ela se virou completamente para ele e confirmou que as lagrimas caiam por seu rosto, silenciosamente. Surpreso, Scorpius percebeu que não tinha receio ou vergonha de encara-la daquela forma. Na verdade, nunca se sentiu tão tranquilo por seus sentimentos.

— Você esta com medo. — Não era uma pergunta. — Esta chorando por medo, pela sua família.

— Tem algum problema com isso, Weasley? — Ele travou o maxilar ao olha-la. Esperava o julgamento da ruiva, mas não foi o que recebeu.

Aqueles olhos o fitavam com acolhimento. Pela primeira vez, Rose Weasley não o encavava com reprovação e o loiro gostou mais do que devia da forma como a iris azul brilhava.

Por sua vez, Rose não conseguia desviar o olha do dele. Pela primeira vez, sentia-se conectada a algo. A alguém. A ele.

Travado pelo choque, Scorpius observou ela se aproximar.

Primeiro, tocando seu rosto, com tanta delicadeza que ele teve duvidas se aquele era outro sonho. Então, quando Rose estava tão perto que o loiro podia sentir a respiração dela em sua pele, a ruiva seguiu suas lagrimas com uma trilha de beijos suaves, mas que nunca chegavam aos lábios.

Até que Scorpius não pode mais se contem e, enfiando a mão pelos fios ruivos, puxou o rosto da jovem para si e tomou seus lábios.

E, depois que suas bocas se chocaram, nenhum deles seria capaz de dizer quanto tempo havia se passado. Só que, em algum momento, precisaram buscar por ar.

Rose foi a primeira a se afastar, vermelha até as pontas das orelhas e com a respiração desregular, ela o encarou por alguns instantes antes de falar.

— Não tenho nenhum problema, Scorpius. — Ela não sorriu, apenas o encarou com certa gravidade no olhar. — Mas não devia se esconder. Até as partes mais sombrias da sua historia te fazem mais forte e vão te ajudar a superar tudo. Vai ficar tudo bem, eu prometo. — Concluiu se afastando dos braços do loiro.

— Aonde você vai? — Questionou, surpreso ao vê-la levantar repentinamente e fez o mesmo, tentando impedir sua partida.

— Preciso cumprir nossa monitoria. Além disso, tenho algumas detenções para distribuir na minha casa. — Ela respondeu com o sorriso significativo, que falava mais que suas próprias palavras. — Sabe, posso até sentir algum prazer em fazer isso hoje.

— Espera. — Scorpius segurou o braço da ruiva, soltando logo em seguida, confuso com a necessidade de mantela por perto. A jovem não estava em melhor estado, inebriada por ainda sentir os lábios inchados dos seus beijos e o toque dos dedos dele em sua pele. — Como vai ser, Rose? Vamos esquecer essa conversa e fingir que nada aconteceu?

— Quer saber se vamos ser melhores amigos agora? — Questionou Rose, tentando ganhar alguns instantes para entender os próprios sentimentos quanto àquela pergunta. Mas, quando finalmente respondeu, ainda havia incerteza em sua voz. — Acho... Acho que nunca deixaremos de ser Weasley e Malfoy.

— Entendo. — Respondeu o loiro, já vestindo a costumeira mascara de frieza.

A ruiva ainda estava confusa, quando voltou dos devaneios e encontrou uma versão mais velha do Scorpius lhe observando.

Demoraram poucos instantes para Rose perceber que se tratava de uma memória. Na verdade, uma nova memória. Uma que, até então, ela não lembrava de ter vivido com o loiro.

Mas tão rápida quanto veio, a lembrança se desfez, trazendo Rose à realidade e a deixando com uma dor de cabeça insuportável.

E então, tudo escureceu.

Notas finais
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