Todas as estrelas
5 Apenas agradeço pela vida, pelo dia
Notas iniciais
—O cosmo é com um pequeno universo com suas próprias estrelas e poder, e que existe dentro de todo ser humano sobre a Terra. A diferença é que nós, os cavaleiros de Atena, treinamos nossos corpos e mentes para que despertem este poder e sejam nossa fonte de força para lutarmos em prol da humanidade...
—Então é assim que consegue lutar e dar todos aqueles golpes, Olos?
—Exatamente, Olia... E para você se tornar o cavaleiro de ouro de Leão, precisa além de despertar seu cosmo, atingir o sétimo sentido.
—Sétimo sentido?
—Sim, o maior nível de poder que um cavaleiro pode atingir em vida.
—E como faço isso? Me ensina!
—Não posso, Olia... Cada cavaleiro deve encontrar seu próprio caminho para o despertar do sétimo sentido.
—x-x-x-x-x-
A rotina era algo maçante para alguns, mas para Aiolia principalmente. E muito pior agora que estava sozinho no Santuário, tendo apenas a companhia do irmão e de Saga, ambos como seus mestres. O treinamento havia se tornado mais pesado e intenso, e não eram poucas as vezes que o leonino ia dormir sentindo seu corpo todo estalar, como se cada passo dado fosse capaz de quebrar seus ossos em lugares e maneiras impossíveis de serem curadas.
Se ao menos tivesse a companhia dos demais aprendizes, tudo seria um pouco mais fácil. Ainda mais se Shura estivesse ali com ele. Por Atena, como sentia falta do espanhol. Alguns meses após a partida dele, Aiolia finalmente havia entendido o que era o sentimento de “saudades” que Aldebaran falava sobre como se sentia com relação à sua terra natal, o Brasil. Era exatamente como se sentia com relação ao espanhol.
Por isso, mergulhava de cabeça em seus treinamentos como postulante à armadura de Leão, era uma forma de tentar se esquecer da falta que o espanhol fazia. Falta essa que sentia ainda maior quando estava em suas pausas para descanso, folgas ou quando se deitava para dormir e o sono simplesmente não vinha.
Para piorar ainda mais esse sentimento, havia descoberto pouco tempo depois da partida de Shura que Aiolos e Saga estavam juntos, em um relacionamento que era segredo ao Grande Mestre e todo o Santuário. No início, sentiu raiva e mágoa por ambos não lhe contarem sobre isso, afinal, ele não era somente um futuro companheiro de armas, ele era também família. Mas, depois de algum tempo, compreendeu as razões para tal segredo.
Eram cavaleiros de Atena, soldados treinados para a guerra e batalhas. Não para as relações humanas. O dever, sempre ele, deveria estará acima dos sentimentos e desejos humanos. No entanto, aquela descoberta havia sido boa para que ele, Aiolia, finalmente compreendesse o que se passava consigo desde que beijara Shura na despedida do espanhol.
O amava? Essa certeza ele não tinha, talvez só descobrisse de fato quando o outro estivesse de volta ao Santuário. Mas sabia que não gostava de Shura somente com um amigo ou irmão, ele o desejava com um homem. Restava saber se o sentimento, ou mesmo a atração, era recíproca.
E assim o leonino seguia seus dias, entre treinos, aulas, lições, sentimentos e a dura e maçante rotina...
Já era capaz de elevar seu cosmo a diferentes níveis e até mesmo a controlar a “cápsula do poder”, uma das técnicas de Leão. Porém, ainda estava longe de ser capaz de atingir o sétimo sentido e, por conta disse, controlar o poder de um “relâmpago de plasma”, a técnica máxima dos cavaleiros de ouro de sua constelação. Precisava ainda encontrar seu caminho para despertar o sétimo sentido. Algo que sua impetuosidade por vezes o impedia de ao menos tentar.
E quanto à Shura? De vez em quando se pegava pensando se o espanhol já conseguia atingir e controlar o sétimo sentido, se já sabia manejar Excalibur. Mas na mesma velocidade que essas perguntas vinham em sua mente, elas iam embora, pois sabia que se Shura já o fizesse, certamente já teria retornado à Grécia.
Com o passar dos anos, o retorno do espanhol passou a ser uma grande preocupação para o Grande Mestre, claro que ninguém havia dito nada para Aiolia, mas ele sabia. Havia um limite de tempo para que todo postulante a cavaleiro de ouro adquirisse de fato sua armadura, ou, do contrário, a aramada de Atena poderia ficar desfalcada e isso era inadmissível frente à uma possível guerra santa ou algo do tipo. Se o espanhol não conseguisse se tornar o cavaleiro de ouro de Capricórnio, então o Santuário teria que se colocar em uma busca urgente pelo mundo, atrás de outro postulante.
E Aiolia, ele sabia bem disso, não poderia aceitar outro cavaleiro de Capricórnio que não fosse Shura. Ah, se pudesse de alguma forma ajudá-lo...
Mas... De alguma maneira, o destino encontra um caminho, um meio de se fazer cumprir...
Era uma daquelas madrugadas que Aiolia não conseguia dormir de tanta dor que sentia em seu corpo, o treino que Saga havia ministrado aquele dia tinha sido extremamente puxado e doloroso. E, como se não bastasse, já há algum tempo sentia seu peito apertar toda vez que pensava em Shura, isolado nos Montes Pirineus. Suspirando de maneira pesada e nervosa, o rapaz se sentou à beira de sua cama, no quarto de hóspedes de Sagitário, como era o único aprendiz que restara no Santuário, Aiolos permitira que ele morasse consigo na nona casa.
Estalando pescoço, ele voltou seu olhar para o céu estrelado que podia ver perfeitamente de sua janela, a noite estava tão limpa que a escuridão era quase imperceptível. Fechou os olhos diante daquela visão e uma lembrança lhe veio à mente, quase que de imediato.
—Sabe... – ele disse, captando a atenção do outro – Quando eu finalmente for um cavaleiro de ouro e chegar o momento de meu juramento, eu o farei por Atena e toda humanidade, assim como aos meus companheiros de armas, mas... – uma olhada rápida ao cavaleiro atrás de si – Minha lealdade e fidelidade estarão sempre junto de meus amigos e das pessoas que amo...
As palavras que ele havia dito à Shura há tanto tempo, e que ainda se lembrava com clareza. Mas por que se lembrava delas agora? Por quê?
Em um impulso, deixou o quarto e casa de Sagitário e vestindo apenas a calça de algodão do pijama e descalço, se pôs a caminho da casa de Capricórnio, por que seu instinto o levava até lá? Mal chegou à casa, ele notou que as primeiras estrelas começavam a se “apagar” no céu, um sinal de que logo o sol nasceria. Ao olhar para elas antes de entrar na casa, notou que a constelação de Capricórnio aprecia brilhar com alguma intensidade diferente, ela regia à energia que vinha da casa.
Foi quando Aiolia viu, estarrecido, a armadura de Capricórnio deixar a casa e como uma estrela cadente, ganhar os céus de Atenas. Não conseguiu conter o riso, a gargalhada que lhe veio tão espontânea e cristalina, Shura tinha conseguido! Ele era um cavaleiro de ouro! O coração acelerou de imediato ao perceber que muito em breve ele retornaria o Santuário.
Ou ao menos era o que o leonino esperava que acontecesse...
No Santuário, Aiolia estava na casa de Capricórnio, desde que acordara no meio da madrugada há algumas noites, que todos os dias ia para a décima casa e por lá ficava um tempo, ora observando os quadros de cavaleiros antigos, ora sentado em frente à estátua de Atena, com a cabeça apoiada em suas mãos, pensativo. Tinha certeza de que a armadura de Capricórnio havia deixado a casa para se unir à Shura na Espanha, mas porque então não tinha notícias dele? Por que ele não voltava nunca de seu treinamento?
Tinha tanto a falar a ele, tantas coisas para contar, dividir... Viver. Poder finalmente deixar aflorar todo sentimento que deixou guardado em seu peito e alma, apenas esperando pelo momento em que Shura voltaria à Grécia...
—Essa postura sua... – A voz carregada de sotaque se fez ouvir pelo ambiente – É por que o desânimo por não ser ainda um cavaleiro de ouro atingiu seu ego ou... – Aiolia levantou-se depressa, encarando de frente o recém-chegado – Por que sente minha falta?
A fala era acompanhada de um discreto, porém significativo sorriso, assim como aquele brilho esverdeado que tanto adorava nos olhos negros do espanhol.
Shura estava de volta. E, por Atena, como sentiu falta daqueles olhos de lince dissecando sua alma e coração...
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