Todas as Estrelas se Apagam
3 Tarde no parque
A manhã nublada de Sett é entediante. Ele não gosta de correr sem que o sol energize seus músculos e se sente desmotivado de fazer exercícios físicos em casa. Deitado na cama de bruços, ele tenta ler um livro sobre as maravilhas do mundo afora que um dia pegou emprestado na biblioteca, mas a cada frase ele se distrai com pensamentos bobos e fúteis. Ele tenta não pensar em Rakan e Xayah, mas é impossível.
Ele lembra do que Janna falou na noite anterior, sobre se aceitar e se assumir do jeito que é. Para o grande adolescente é difícil. Ele parece ser destemido e amedrontador, mas ele é muito menos que isso. Rakan é a primeira pessoa que vem na sua cabeça quando pensa na palavra “assumir”, quer contar para ele o mais rápido possível e ver sua reação e tirar esse peso de suas costas. Ele vai me odiar ou me apoiar?, pensa Sett. Na cabeça dele, os mestiços devem viver escondidos para não sofrerem preconceito. Os tempos nunca vão mudar.
Sett se levanta rapidamente ao ouvir a campainha tocar duas vezes. Ele corre para a janela e vê nada menos que o próprio Rakan de braços cruzados, esperando uma resposta.
Um sorriso se abre e seu coração acelera.
— Falando no diabo — ele pensa alto.
Ele desce as escadas tão rápido que parece deixar rastros de poeira para trás. Sem fazer mais barulho, ele abre a porta e sorri de novo, ofegante.
— Rakan, que bom te ver. O que te traz aqui?
Ele cruza os braços, formidável.
— Eu queria agradecer por ter concertado meu terno que você rasgou. Sua mãe fez um ótimo trabalho. Para ficarmos quites, eu trouxe anotações da aula de linguagens estrangeiras. Tem muito conteúdo importante e acho que todos devemos ter a chance de estudar antes das provas finais.
Sett abre um sorriso maior e abre espaço.
— Pode entrar, vamos para o meu quarto. Lá nos sentiremos mais à vontade.
— Aham.
O quarto de Sett é sempre impecavelmente arrumado. Ele nunca faz nada lá dentro, apenas lê parágrafos de livros emprestados e dorme. Rakan se senta na cama e entrega o caderninho amassado nas mãos de Sett. Ele agradece e coloca na escrivaninha vazia, fazendo companhia ao velho abajur solitário.
— Muito legal da sua parte fazer isso por mim, fico feliz que tenha vindo — diz Sett, colocando os braços para trás.
— De nada, foi injusto você ter sido suspenso quando Darius que foi procurar briga. Pelo menos ele não saiu impune.
O musculoso adolescente ri, tímido.
— O Professor Ryze é um bobão. Ele pensa que só porque também é professor universitário pode tratar a gente como um bando de adultos ocupados.
— Claro. — Rakan se conforta na cama e analisa o quarto, pensando no que fazer mais tarde. — Mais tarde a gente vai se encontrar no parquinho, caso queira aparecer por lá.
Sett dá um passo para frente e respira fundo.
— Pode ser. Você é um bom amigo, Rakan. Queria que soubesse de algo sobre mim.
Rakan nada fala, apenas observa, entediado. O que seria tão importante, ele pensou, que o faz querer que eu saiba?
Sett respira fundo, morde os lábios e retira seu sua touca acinzentada. Suas orelhas vastaya respiram, ele detesta quando elas ficam suadas por tanto tempo. Rakan ainda espera Sett dizer alguma coisa e balança a cabeça.
— O quê, seu cabelo azul não é natural? Você tem pontas duplas? Posso te recomendar um ótimo creme masculino.
Sett junta as sobrancelhas e abre a boca.
— Não, Rakan, você não vê? Eu tenho orelhas vastaya. Sou mestiço, minha mãe é vastaya e meu pai é humano.
Rakan fica espantado com o discurso de seu colega, mas ainda não demostra surpresa.
— Ah, isso era para ser segredo?
— Como assim?
Rakan olha para o lado e solta uma risada perversa, engraçada.
— Desculpe, mas nos chuveiros você obviamente tira sua touca para tomar banho, e por mais que eu passasse a maior parte do tempo olhando para sua enorme bunda, eu também reparei que você não era humano. Daí eu contei para a Xayah, que contou para Ahri, que contou para todo mundo. Pensei que você soubesse.
Por um momento, a cabeça de Sett gira. Ele devaneia o pensamento de Rakan sobre o olhar enquanto se banhava, deslizando as mãos pelo seu próprio corpo musculoso e descendo mais para baixo, atrás. Rakan estala o dedo alto, fazendo Sett piscar.
— Alô? Você também gosta de visitar o mundo da lua? Xayah me recomendou ir ao médico, mas foi dinheiro em vão porque eu nunca prestava atenção no que ele falava, de qualquer forma.
Sett suspira.
— Você olhava para a minha bunda? — Ele pergunta, calmo e caloroso.
Rakan comprime o rosto, olhando para cima.
— Pensei que o assunto fosse você ser vastaya.
— Ah, sim, claro. Digo, todo mundo sabia? Minha nossa, estou envergonhado. Planejei tanto me assumir, mas tive medo.
— Medo de que? — Rakan se levanta e cruza os braços. — Não vê o que sou? Eu tenho orelhas pontudas e plumadas, as drogas das minhas pernas parecem patas de galinhas e eu faço um esforço danado para guardar minha asa gigante atrás nas costas, enquanto isso você está se lamentando por ter um par de orelhas pequenas e fofas?
Sett enrubesce. Rakan foi direto e óbvio, mas ele só se lembrou da última oração. Rakan o chamou de fofo. Sett balança a cabeça e leva uma mão na altura do peito.
— Você não entenderia! As pessoas me julgariam e me maltratariam por ser filho de duas raças diferentes! Já passei por isso antes, tenho medo de seguir em frente.
Rakan se aproxima e coloca uma mão no braço de Sett, confortando-o.
— Mas bobinho, todo mundo sabe sobre você e adivinha só: eles não ligam. As pessoas mudam e percebem que ser normal não te torna superior. E mesmo que as pessoas implicassem contigo, você sempre teria a gente para te acolher. Ahri, Neeko, Xayah e eu. — Ele sorri, olhando nos olhos. Sett desvia o olhar e enrubesce mais ainda. — Também tem a Sarah, ela não é vastaya, mas apoia totalmente. Estamos aqui para ajudar uns aos outros.
Sett não consegue conter o sorriso, seu coração está aberto e derretido. Ele pensa que talvez esteja se interessando pela pessoa certa. Para o musculoso mestiço, Rakan tem bem mais caráter do que sua parceira, Xayah, que prefere se aproveitar da inocência de pessoas ingênuas para ter o que quer. Mas ela também o atrai.
— Você é tão gentil comigo.
Sett se sente audacioso e determinado por um momento, coloca os braços de Rakan atrás dele e o puxa para bem mais perto. Ele tenta dar um passo para trás, mas Sett beija seus lábios, destemido. Sett vem sonhando com esse momento há bastante tempo. Para ele, foi um momento longo e único, romântico — especial. Mas para Rakan não durou dois segundos, segundos estranhos e confusos. Sem nenhum esforço, ele solta suas mãos das garras fortes de Sett e o empurra para trás, apavorado.
— Por que você me beijou?!
Sett enrubesce mais ainda, assustado. Ele recua.
— Eu pensei que você estivesse a fim.
— Só porque eu fui gentil? Você beija as pessoas que são gentis contigo?
Sett se lembra do dia anterior quanto tentou beijar Janna após ela ter sido gentil, também. Ele se envergonha, ficando tão vermelho quanto um rubi. Sett é um pouco carente.
— Me desculpe, Rakan! É que ontem eu me encontrei com Xayah, ela disse que você falava bastante de mim.
— Acontece que a Xayah é uma grande mentirosa! Ela só devia estar te atiçando ou algo do tipo, ela sabe que você é bastante ingênuo.
Rakan sai pisando forte, rápido. O coração de Sett bate forte.
— Espera! Não vá, por favor.
Mas é tarde, Rakan já se foi e Sett está devastado, decepcionado consigo mesmo. Fez com que a única pessoa que mais se importava depois de sua mãe o odiasse. Ele não queria que fosse assim, não era como ele planejava. Sett se deita na cama de costas com os braços abertos e fecha os olhos, respira fundo. Suspira. Seu coração despedaçado bate forte.
Ele levanta a cabeça, olhada para o caderno que Rakan deixou e lembra do que ele disse mais cedo sobre ir ao parque. Pode ter uma chance de se desculpar.
Ao anoitecer, Sett chega ao Parque da Cidade de Valoran. Está bem vazio, já foi bem mais movimentado há bastante anos. A parque é iluminada por postes baixos e tem bastante grama cortada e verde, algumas flores pequenas coloridas e várias namoradeiras de madeira espalhadas, cada uma embaixo de uma árvore alta e grossa. Pela manhã é refrescante, à noite é frio. Ele vê de longe o grupo de amigos sentados no gramado embaixo de uma árvore que balança com o vento, rindo e conversando em voz alta.
Xayah e Rakan estão encostados na árvore, aninhados, como dois passarinhos. Ao lado de Rakan está Neeko, deitada de bruços passando a mão no gramado e ao lado de Xayah está Ahri, olhando para suas próprias unhas enquanto fala sobre aquecimento global e como tudo pode ser resolvido antes de todos morrerem. Sarah está à frente de todos, mexendo a cabeça e concordando com o que sua amiga diz. É a primeira vez que Sett vê seus colegas com roupas casuais, sem o uniforme escolar. Ele se anuncia e se aproxima. É a primeira vez que Sett sai em público sem seus gorros.
— Oi galera.
Rakan revira os olhos e vira a cabeça, rezando para sair dali. Ainda está muito envergonhado, mas ele não sabe que Sett está mais ainda. Xayah solta uma risadinha.
— Olha só quem chegou, o ladrão de beijos.
Sett enrubesce e morde os lábios.
— Contou para ela?!
Rakan olha para ele e não sabe o que dizer, apenas balança os ombros.
— Era para ser segredo?
As orelhas de Ahri se mexem, curiosa.
— Qual é a fofoca dessa vez?
Xayah responde:
— Sett roubou um beijão do Rakan, ele até ficou todo molhado.
Rakan empurra o ombro de sua companheira. Neeko abre a boca.
— Um beijão? Faz tempo que Neeko não ganha um beijão...
Sarah revira os olhos e se levanta.
— É sério isso? A gente tem assuntos bem mais importantes do que falar sobre beijo. De qualquer forma, não era isso que o Rakan queria?
Ambos Sett e Rakan ficam vermelhos de vergonha. Mas Sett também ficou feliz em ouvir isso. Então ele realmente tinha sentimentos por mim?, pensou. Mas ele pigarreia e olha para Rakan.
— Podemos conversar?
Antes do vastaya esverdeado responder, sua parceira o censura.
— Claro que não, não está vendo que ele está me aquecendo? Está um frio danado aqui. — Xayah o agarra mais ainda e fechando os olhos, como se estivesse marcando território. Rakan olha para o lado.
— Não liga pra Xayah, Sett — Diz Ahri. — Ela é só uma ciumenta. Sente-se com a gente. Estávamos falando sobre o derretimento das geleiras e como isso vai influenciar no futuro da Terra.
Sarah bufa, frustrada.
— Ainda acho que temos problemas maiores. Não lembram daquela chuva quente de ontem?
Sett se alerta. Ele se lembra de ter tomado um banho de chuva, mas ela era quente. Tão quente como a água do seu chuveiro elétrico.
— E você acha que isso não tem a ver com o aquecimento global? — Ahri se levanta, fazendo suas nove caudas saltarem. — Se chuvas como essa fossem frequentes, com certeza seria um problema para a gente. Isso deve ser coisa dos Invasores.
Todos ficam em silêncio, menos Sett.
— Que Invasores?
— Invasores assassinos do espaço sideral — responde Xayah, levantando o braço e fazendo sons de terror. Mas Sett curva as sobrancelhas.
Neeko se levanta e puxa o braço de Sett.
— Você quer ver nossos bichinhos? Eles são fofos e legais.
Sett se lembra do que Xayah e Rakan falaram anteriormente, sobre todos terem animais de estimação especiais e diferentes. Ele também se lembra do gato de Janna, o Zéfiro, que não parecia nada com um gato. Ele também lembra de Baki e Boki, que não se parecem com nada.
Descendo uma pequena colina de grama que tem no parque ele vê um grupo de bichinhos brincando. São estranhos, como se fossem tirados de um desenho animado. Ele identifica Baki e Boki brincando com um sapo verde rechonchudo que parece estar sempre confuso, acompanhado de um par de asas de borboleta pequenas nas costas com o desenho de uma estrela de quatro pontas amarela esverdeada entre elas. Perto deles está uma raposa branca e bem pequena de três caudas, ela tem o desenho de uma estrela rosa no meio de sua testa, a mesma cor das pontas de suas caudas e orelhas pontudas. Ele está correndo atrás de suas próprias caudas, como um cachorro bobo normalmente faria.
Em cima deles, voando, Sett vê dois passarinhos grandes e gorduchos, dançando em harmonia, romanticamente. Eles são bastante parecidos, ambos têm penas brancas, exceto nas asas e antenas, onde as de um são verdes e as do outro são rosas. Ambos também vestem uma capinha minúscula, que parece ter sido feito a mão sob medida. Eles ainda têm o desenho de uma estrela no meio de suas testas, cada um de sua cor primária. Eles lembram Rakan e Xayah, para Sett. A cor e a paixão.
— Aqueles amarelos são Baki e Boki, você os conhece, estão sempre na escola — diz Neeko, apontando. — Aquele sapão bonitão é o sapão de Neeko, o Towa. Detesto me separar dele. A raposinha biruta é o Kiko, ele é da Ahri caso não tenha ficado óbvio. Ele parece ser mansinho, mas a mordida dói. Os pombinhos ali? O verde é o Riku, do Rakan. A rosa é a Saki, da Xayah. Eles se amam, são tão fofos. Queria que Towa encontrasse seu verdadeiro amor também.
Sett sorri, estupefato.
— Eles são... incríveis! Como eu consigo um?
— Eu consegui a minha na padaria — responde Xayah. — Implorei para uma otária chifruda e ela me deu um desconto de dez por cento.
— Aquilo não foi um pão de mel? — Pergunta Rakan, confuso.
— É que a Saki é o meu docinho, às vezes eu confundo.
Sett suspira.
— Por que você a ofendeu?
— Não foi ofensa, ela literalmente tem um chifre no meio da testa. Acho que é uma nova raça de unicórnio.
— Você não deveria falar com ela assim, eu tenho quase certeza de que ela é uma de nós — diz Sarah, orgulhosa.
Sett levanta uma sobrancelha.
— Nós?
— Especiais — corrige ela.
— Você não parece ser especial.
— Você não sabe nada sobre mim, seu medroso.
Rakan se levanta.
— Parem com isso!
Antes que a discussão prosseguisse, um trovão estronda e começa a chover forte repentinamente. Tal como no dia anterior, a chuva também está quente. Mas bem mais quente do que antes. Sett tenta se abrigar embaixo da árvore com os outros, mas é inútil. Os bichinhos se reúnem cada um para seu dono, fazendo barulho.
— Que droga é essa?!
Depois de alguns segundos a chuva para, mas o calor continua. Um vento forte sopra das nuvens e um pequeno brilho roxo chama a atenção no céu. Ahri dá um passo para frente e Kiko pula no seu ombro. Ela levanta um braço para trás.
— Guardiãs, atenção!
As orelhas de Sett se mexem.
— Que papo é esse de guardiãs?
— Sett, é melhor você ir embora — diz Rakan, tocando no seu ombro.
— Por quê?!
Antes de Rakan responder, um zumbido soa do céu. Depois outro. E mais outro. De repente, uma orquestra muito ruim está tocando. Das nuvens surge uma pequena criatura roxa, do mesmo tamanho dos bichinhos dos colegas de Sett. Ele cai a alguns metros do grupo e grunhe. A criatura começa a correr na direção do grupo e Sett se põe na frente, pronto para defender seus amigos.
— Sett, não! — grita Rakan.
— Ele vai se machucar — diz Sarah.
Quando a criatura chega perto o suficiente, Sett desfere um soco bem no meio dele. Mas a criatura é bem mais forte e o soco dele reflete em si mesmo, o arremessando para bem longe. Xayah gargalha alto. Sett se levanta e limpa a terra da bochecha.
— Isso não foi nada — anuncia Sett, orgulhoso. — Que droga é essa?
— São inimigos — responde Ahri. — Rakan está certo, é melhor você ir.
— Não vou deixar vocês serem atacados por essas coisas bizarras!
Mais uma criatura cai do céu, seguido por mais duas, três. De repente, dezenas dessas coisas estão espalhadas pela parque. Sett se assusta e recua.
— Eles vão acabar com a gente!
Seus colegas dão um passo para frente e começam a brilhar.
— Não vão — diz Xayah, confiante.
Ahri levanta Kiko no ar e pronuncia:
— Guardiãs, transformação!
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