Toda garota precisa de um melhor amigo
3 Capítulo 2
Notas iniciais
— Então, foi isso que aconteceu. – expliquei, dando um gole no meu milk-shake.
— Minha gente, que babado! – exclamou Mari. Eu havia acabado de contar a ela sobre a noite anterior.
— Nem me fale. – suspirei.
— Mas, me conta... Você tá gostando dele?
Engasguei com a pergunta, com direito a algumas tosses dramáticas.
— Quê?! – gritei depois de recuperada, rindo feito uma louca. – Caramba, não!
Mari arqueou uma sobrancelha.
— Sei. Então foi só sexo?
— Exatamente. Continuamos amigos. – afirmei com a cabeça.
Mas, na realidade, a história não era bem aquela.
*Flashback on*
— Porra. – exclamou Luiz, nu ao meu lado.
— É... – murmurei. Não nos olhávamos de jeito algum, apenas encarávamos o teto.
Cinco minutos de um silêncio constrangedor depois, Luiz finalmente se virou pra mim.
— Porra, Anna! – Gritou outra vez.
— Você já disse isso.
Eu ainda não o olhava nos olhos. Era estranho.
— A culpa disso é sua. – continuou.
Finalmente o encarei, com os olhos pegando fogo.
— Vá tomar no seu-
Luiz cobriu a minha boca com a palma da mão antes que eu terminasse.
— Não me vem com essas porras de falar palavrão, caralho.
Fiz o maior esforço que pude pra tirar sua mão da minha boca, enquanto chutava sua perna.
— E você me fala isso soltando mais palavrões que a Dercy Gonçalves, estúpido?
— Foda-se. A culpa dessa merda toda é sua. – repetiu, desviando o olhar.
— Pois é... – concordei calmamente. — Até por que eu estava transando com a porra da minha mão! – Não contive a alteração de voz.
Ele riu, cobrindo minha boca mais uma vez.
— Vou lavar essa sua boquinha com sabão, pirralha.
Esperneei na cama até ele me soltar.
— Idiota! – bufei.
Luiz continuou rindo.
De repente ele estava montado em cima de mim, com as mãos apoiadas nos meus seios.
— Não se esqueça de que foi você quem me provocou, loirinha.
— Sai de cima de mim, seu gordo inútil! Você pesa, porra. – gritei, tentando afastar suas pernas.
Ele apertou meu queixo entre os dedos.
— Experimenta me chamar assim só mais uma vez, pra ver o que vai acontecer contigo.
Mostrei a língua pra ele, com preguiça de continuar discutindo.
— Malcriada. – resmungou ao sair de cima de mim.
Ficamos imóveis por alguns minutos, ambos pensativos.
— Você tem razão... – fui a primeira a falar.
— Sobre o quê? – perguntou distraído.
— Sobre a culpa ser minha.
Ele se virou para me fitar, dessa vez atento.
— Não, Anna. Desculpa por ter dito isso... – hesitou, aparentemente tentando procurar as palavras certas. Luiz não era muito bom com aquele tipo de coisa.
— Esquece. – interrompi-o. – Acho melhor eu ir.
Levantei-me da cama sob o seu olhar surpreso. Vestia minhas roupas enquanto sentia aquele olhar me queimando. Ele não dizia palavra alguma, apenas me observava. Por fim, passei a blusa por cima da cabeça, ajeitando a barra direitinho acima do short. Lancei um último olhar a ele, que continuava estático, com os olhos presos a cada movimento que eu fazia.
Com um suspiro, peguei minha bolsa e saí do quarto, fechando a porta atrás de mim.
*Flashback off*
Meio dramático. E eu também não entendi nada. Quero dizer, Luiz é meu melhor amigo, e nós ficamos. E não foi só uma ficada. Foi Le Le Le, tche tche re re tche tche, lepo lepo ou qualquer porcaria dessas. Sexo. Transamos. Eu, e meu melhor amigo. Caralho! E, pra piorar, acho que estávamos brigados.
Mari balançou meu braço, acordando-me do devaneio.
— Anna? – acenou a centímetros do meu rosto.
— Que foi? – empurrei a mão dela com uma tapa.
— No que estava pensando?
Desviei o olhar, tamborilando os dedos na mesa da lanchonete.
— Nada.
Mari franziu a testa.
— Claro.
— Ai, Mariana. O que você quer de mim? – resmunguei.
— Credo. Qual o motivo da mudança de humor repentina?
Soltei um breve suspiro.
— Sei lá...
Mari apoiou a cabeça sobre uma mão.
— Vai, me conta.
Tentei pensar em algo que a fizesse parar de me encher.
— Ele não me beijou. – falei sem pensar.
Mari estreitou os olhos, interessada.
— A-Ha! Olha aí. – apontou com o dedo pra mim. – Você gosta dele.
Gargalhei alta e sonoramente, deixando-a confusa.
— Ai, amiga. – tentei respirar. – Você entende tudo errado.
— Então por que disse que ele não te beijou como se estivesse lamentando?
— Eu só estava comentando, ué.
— Hum... – ponderou. – Tudo bem.
Sorri forçadamente pra ela.
— Mas por que será? – perguntou.
Eu olhava distraída a vista através da parede de vidro ao lado da nossa mesa.
— Por que será, o quê?
Mari virou meu rosto para encará-la.
— Por que ele não te beijou?
Cruzei os braços.
— Eu é que sei?!
Ela riu.
— Está bem... Vou parar de te irritar. Só me responde mais uma coisinha. – pediu, com aqueles olhos castanhos enormes brilhando.
Era impossível recusar qualquer coisa com aqueles olhos.
— Tá, vai. O que você quer saber?
Ela soltou um risinho.
— Foi bom?
Preparei-me pra responder, mas fechei a boca em seguida. Surpreendentemente eu ainda não havia pensando a respeito. Fora bom...?
Refleti por alguns segundos.
— Foi... Ótimo.
As palavras saíram da minha boca, deixando Mari e até a mim, perplexas.
— Sério?
— Sério. – reconheci. – Acho que temos química.
— Bom, são o quê... Quatro anos de amizade?
Confirmei com a cabeça.
— Só podia ter sido muito bom mesmo, ou muito ruim. – concluiu.
— É, acho que sim.
Ela riu.
— No seu caso foi muito bom.
Ri em seguida.
— Ok. Já entendi.
— Mas então... – disse após uma mordida em seu hambúrguer. — Não foi estranho na hora?
— Caramba, Mari. Você disse que não perguntaria mais nada!
— Oras! Só mais isso. É essencial que eu saiba. Caso contrário, não adiantaria saber de todo o resto. – insistiu.
— Exagerada nunca, né?
— Vamos, me fala! – falou entre mordidas.
— Não, não foi estranho.
E não fora mesmo. Luiz tinha pegada, sabia exatamente o que fazer, na hora certa. Não dera tempo pra nenhum de nós dois pensar que aquilo era estranho enquanto eu gemia e delirava contra seu corpo.
— Só quando acabou. – constatei.
Mari deu um gole no seu refri.
— Ficou um clima tenso?
— É...
— Então vocês não continuam amigos, como a senhorita me disse ainda há pouco?
— Claro que continuamos, Mari! Foi só... Um contratempo.
— Mas vocês chegaram a conversar sobre o que aconteceu?
— Ai, meu pai, pra quê todo esse interrogatório? – indaguei, cobrindo o rosto com as mãos.
Mari me puxou pelas mãos pra que eu a fitasse.
— Agora que você começou, termina. Não mandei me contar isso! É muito babado pra pouca Mari... Anda, Anna!
— Ô garota teimosa. – ri ao ver a careta que ela fez. – Mas eu te amo, amiga.
— Sei. Tô vendo. – fez bico, virando o rosto.
— Não, Mari, nós ainda não conversamos a respeito. – respondi com um suspiro. – Satisfeita agora?
— Perfeitamente. – afirmou, voltando a sorrir. – Mas sabe que vocês precisam, não é?
— Eu sei.
Mariana dissera algo óbvio. Era claro que eu e Luiz precisávamos esclarecer as coisas, entretanto eu não queria ser a primeira a se pronunciar. Ele que me procurasse.
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