Toca uma Música pros Gays
1 Poker Face
Notas iniciais
Jogávamos pôquer, Amélia, Elvira, Lolerei e eu, como sempre fazíamos toda segunda-feira depois da missa. Estava no mesmo ritmo de sempre, se bem que Elvira ainda não tinha puxado nenhuma carta da manga ainda, então ainda poderíamos ter este tipo de surpresa.
Não que fosse enfadonho ou algo do tipo, era divertido jogar conversa fora e apostar trocados nos jogos. A impressão era que a companhia nos deixava mais fortes para aguentar a solidão proporcionada por nossos filhos.
Os três filhos de Amélia nem ligavam mais pra ela. A última vez que ela mencionou ter visto eles foi quando a neta caçula nasceu, o que já devia ter uns três anos... Sorte dela que a neta mais velha instalou um computador na casa dela da última vez que veio pra cidade, pelo menos ela pode ver os outros netos por vídeo conferência. As crianças de hoje estão cada vez mais inteligentes...
Lorelei tem cinco filhos, mas só os gêmeos visitam ela. A cada dois meses elas surgem, Thiago trazendo os filhos e Thomas vindo sozinha mesmo... Ou seria o contrário? Eu nunca lembro...
Elvira foi a que ficou pior de todas nós... Um dos filhos ainda mora na cidade, mas não adianta de nada porque a mulher dele não deixa o garoto visitar a mãe. Os netos vindos dos outros filhos não visitam até porque moram longe demais... Ela que vai para lá durante alguns feriados, mas a incidência dessas viagens está cada vez menor...
Eu, em contrário, estou na melhor. Tudo bem que meu primogênito sumiu depois da morte de meu marido e que minha filha é tapada ao ponto de expulsar o Nestor de casa só porque é viado — ele vive me dizendo que o certo é dizer "guêi", eu simplesmente ignoro porque tô falando português, não essas bobagens estrangeiras -, mas pelo menos meu neto fala comigo sempre.
Tudo bem, confesso que quando se mudou pra cá e disse o motivo de sua repentina saída de Campinas, eu também fiquei extremamente chocada. Cheguei a convencer a mim mesma que era só uma fase passageira, coisa da modernidade, só que as coisas foram se intensificando e ele foi trazendo os namorados pra cá... Foi dificil, mas eu o amo, isso é o suficiente. Sem contar que isso significa que não terei uma nora da parte dele, o que já é motivo de comemoração.
— Elvira, — diz Amélia, quebrando um silêncio extremamente longo e pouco usual no nosso grupo — tira logo esse Às de espadas da manga pro jogo andar...
Era incrível como Amélia conseguia ver por trás de todas as falcatruas de Elvira. Lorelei e eu ficávamos pasmas no começo, mas agora era até bom porque animava o jogo... Sem contar que era a brecha de assunto perfeita para uma de nós começarmos a fofocar de alguma coisa, como se fosse um sinal secreto para podermos prestar menos atenção no jogo e conversarmos mais:
— A propósito — começou Elvira, como se fosse responder ao comentário de Amélia — vocês não acreditam no que a Cidinha me contou noite passada...
— Noite passada?! — exclamou Lorelei, antes que alguém pudesse falar qualquer outra coisa — E o que você estava fazendo com Cidinha durante a noite?!
— Não creio! — disse Amélia, fazendo uma cara jocosa — Você foi ver seu Adamastor!! Certeza!!
Nos três rimos antes que Elvira pudesse falar qualquer coisa. Seu Adamastor era pai de Cidinha e dono da vendinha mais próxima da casa de Elvira. Nos tempos áureos, ele teve uma paixonite muito forte por ela, mas a mãe o obrigou a casar com alguém da colônia — Elvira é negra e Adamastor é filho de italiano — e ela acabou casando com um viajante uns anos depois... Agora, com ela separada e ele viúvo, era só uma questão de tempo para ficarem juntos.
— Que isso! — Elvira protestava, ruborizada — Já passou nosso tempo...
A forma como ela negava já dizia tudo. A vida fora extremamente difícil para todas nós, mas Elvira e Lorelei tiveram ainda de superar muitas coisas por serem de cor — outra coisa que Nestor diz que é errado falar, mas é mais forte que eu — então nos deixava muito feliz vê-la se libertando dessas amarras que a vida trouxe pra ela. Com a velhice, eu tenho a sensação de que a liberdade era uma recompensa por todas as dores que sentíamos nas juntas...
— Enfim, — disse Elvira, procurando retomar a fofoca perdida — Cidinha me disse que roda a boca pequena que o Arnaldo (sabem? Aquele vendedor novinho da vendinha...) é viado...
As cabeças das duas — Elvira já olhava pra mim — viraram para mim quase que ao mesmo tempo... Como toda a vez que esse tipo de assunto vinha à mesa...
— Já disse mil vezes pra vocês que não é porque meu neto é viado que sou especialista no assunto... — respondi, antes mesmo de qualquer pergunta — E não! Meu neto não estaria interessado em um vendedor de lojinha...
— Será? — cutucava Amélia — Ele já está há quanto tempo aqui na cidade sem ter arranjado um trabalho? Um mês? Dois? Acho que a vendinha nesse caso é um ganho enorme pra ele...
— Meu neto é administrador formado, Amélia — fiz questão de retrucar — se não está empregado é justamente porque deve estar planejando um negócio próprio...
— É justamente aí que a fofoca fica melhor — continuou Elvira, surpreendendo todas nós — parece que Cidinha descobriu justamente porque ouviu o menino falando no telefone sobre um baile de viados que ia ter na cidade...
— Oras, — interrompi — e o que isso tem haver com meu neto?!
— Esse baile está sendo organizado justamente por ele.
Eu não sabia o que dizer. Meu neto, administrador formado, se metendo em libertinagens assim? Os bailinhos normais de hoje já são extremamente duvidosos, imagina os...
— Nossa! — exclamou Lorelei, como se estivesse lendo meus pensamentos — Quem diria um baile desses na nossa cidade? Já ouvi cada coisa que acontece nesses lugares na tv... Dizem que os viados são piores que as moças de hoje...
— Eu acho que você devia tirar essa história a fundo — disse Amélia, petulante — se fosse meu neto, não deixaria que se envolvesse com esse tipo de libertinagem...
— Se fosse seu neto, querida, nem na cidade ele estaria — não era incomum termos discussões como esta, Amélia e eu, mas ainda tínhamos apreço uma pela outra, como se agradecêssemos que pudéssemos pelo menos discutir com alguém.
Aquele comentário arrancaria uns cachorros dela, disso eu tinha certeza. Já estava pronta pra ouvir sua defesa, quando Elvira surpreendeu novamente todas nós, colocando as cartas de sua mão na mesa e gritando:
— Royal Flush! — sinceramente, ela devia estar esperando o momento certo desde que começou a fofocar — Acho que ganhei essa noite meninas...
Amélia bufou, provavelmente se recriminando por ter desviado a atenção de Elvira tempo o suficiente para ela pegar a carta da manga. Lolerei ria da cara de Amélia, como sempre fazia quando Elvira ganhava trapaceando. E eu deveria estar juntando as cartas para uma nova partida, como sempre fazia, mas a imagem do baile dos viados não saía da minha cabeça...
É, talvez dessa vez eu escutasse Amélia e tirasse tudo a limpo com Nestor amanhã de manhã...
Notas finais
E aí?? O que acharam?? Tentei me basear o máximo que um grupo de velhinhas podia se relacionar com Poker Face da Lady Gaga kkk (o fato delas usarem termos como "viados" e "de cor" é pra dar esse retrato meio preconceituoso, não minha opinião pessoal nem nada @.@')...
Logo mais se preparem para o barraco que vai chegar no próximo capítulo... I Want to Break Free!!!
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