Toc - 2

3 3- Má Ideia


Continuamos sentados por algum tempo, observando as pessoas passando na nossa frente, abraçados. Uma pergunta continua martelando na minha cabeça, mas decido esperar um pouco antes de incomodá-lo com aquilo.

— Danny – chamo, baixinho. Ele move a cabeça para olhar para mim, levantando as sobrancelhas. — O que a sua avó te perguntou aquela hora?

— Quando?

— Na mesa, que te fez ficar irritado? — ele para um pouco para pensar, ainda meio envergonhado.

— Ah, tá. Nada, não. — ele definitivamente estava envergonhado. Era alguma coisa, eu podia ver.

— O que foi, Danny?

— Não se aborreça- ele pediu, segurando minhas mãos. Concordo com a cabela e espero. — Ela perguntou se você também era louca.

— Também? — falo um pouco alto demais, atraindo alguns olhares para nós e fazendo Danny corar de vergonha.

— É, também. Ela acha que qualquer um que já pisou num psicólogo só pode ser louco.

— Você não é louco.

— Não muito. Nem você.

— Não muito. — sorrio para ele, deitando novamente a cabeça em seu ombro.

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Os dias passam rápido quando começam as aulas. Fiz amigos novos no curso de Direito, e Danny fez amigos em Medicina, Dot em Arquitetura. Com isso, nosso grupo cresceu. Fiquei próxima de duas meninas do curso, Lana e Lia. Lia era australiana, e seu sotaque era tão bonitinho que me dava vontade de ir morar na Oceania. Dot era amiga delas, e trouxe para o grupo Louise, uma menina bem quietinha que não tinha nada a ver com Dot, mas elas se davam muito bem. Lex e Paul eram a contribuição masculina trazida por Danny.

Foi essa galera, somada com os recém-casados Taylor e Pat, que me arrastou para um bar na noite do meu aniversário de vinte e um anos. Eu era a mais nova do grupo, por isso todos estavam animados para a noite.

Não vou dizer que nunca tinha bebido. Nem que nunca tinha ficado bêbada. Mas ainda acho que nada nunca vai se comparar àquela noite.

No começo, eu não queria ir, mas depois de muito convencimento, Dot me obrigou a colocar as botinhas de salto que me dera e o vestido preto de veludo que minha avó enviara e sair com eles. Aliás, todas as meninas estavam de salto. Achei que iríamos jantar fora, e até fomos, em um belo restaurante. Mas eles não deixariam por isso, então o muito solícito Lex encontrou um bar perto de um píer.

Foi aí que começaram os erros. Escolheram um maldito bar em um píer, perto da água. E era uma balada. Com música. Alta. As meninas me tiraram para dançar, e tudo bem, foi divertido. Mas quando começou a bebedeira…

Sentamos todos em uma mesa comprida, com aqueles copinhos de doses cheios de tequila na nossa frente. Era estilo competição: quem tomasse todos em menos tempo ganhava. O quê? Nada. Talvez mais tequila. O “juiz” deu a partida. Levei o vidro à boca, fechando os olhos. O gosto era horrível. Desceu queimando. Devo ter tomado quatro, no máximo, quando o juiz apitou novamente, anunciando Lex (obviamente) como vencedor.

Eu tinha tomado três doses de tequila (comparando às dez de Lex, não era nada), e minha cabeça já estava rodando. Mas eu não parei por aí, quem dera tivesse parado. A bebida continuava chegando, a música continuava tocando, e o pessoal ficava cada vez mais bêbado. Isso que é responsabilidade.

No final da noite, lá pelas quatro da manhã, estávamos rindo até do vento. Estava com ódio de Dot por ter-me feito vestir aquelas botas, sentia que meus tornozelos estavam prestes a quebrar. Eu caminhava com as meninas, atrás dos meninos, olhando para a água escura.

— Ei! Esperem aí, vamos tirar uma foto!- a voz de Dot estava toda enrolada. Todo mundo parou. Danny sacou o celular e mandou que nos arrumássemos. Paramos no único lugar sem grade da calçada. Os meninos nos mandaram sorrir, atrás de Danny. Ele tirou a foto, o flash foi disparado, Lana se assustou e puxou todas nós para a água gelada. Foi uma gritaria que só. Agradeci aos céus por estar sem celular, diferente de Lana e Dot. Os cinco meninos (bêbados) foram nos ajudar. Deve ter sido ridículo assistir a cena. Pelo menos ninguém mais caiu na água. Mas o banho serviu para fazer um pouco da bebedeira passar.

Eu, Danny, Dot, Taylor e Pat fomos para o nosso apartamento. Daria certinho o número de quartos. Puxei Danny para o meu, deixando os maridos no dele. Tomei banho, me sequei, saí do banheiro e fui me deitar. Ouvi o barulho de vidro se espatifando no chão, mas não levantei para conferir. Danny já estava dormindo ao meu lado, então não tinha se machucado. Fechei os olhos e adormeci em segundos.

Devo ter sido a primeira a acordar. Era, com certeza, a que tinha ficado menos bêbada. Cheguei na sala para encontrar vidro por todo canto. Uma daquelas esferas de vidro imensas que ficavam em cima da lareira tinha se quebrado. Fora um presente da tia-avó da Dot, que pensara que ela estava se casando. Ninguém nunca tinha gostado daquilo mesmo.

Catei uma pá e uma vassoura e comecei a varrer os estilhaços. Cortei os dedos, mas nada demais. Até que um passarinho bateu na janela e me fez pular de susto e olhar para trás, escorregando a mão no vidro e cortando o pulso esquerdo. Olhei para o corte, que não parava de sangrar. Estava doendo muito, mas eu estava incrivelmente brava com o pássaro. Entrei no banheiro, agarrei a toalha de rosto e fiz pressão no machucado. Peguei as chaves do carro e, provando não ter qualquer apego à vida, fui dirigindo com uma mão só até o hospital, onde a secretária me olhou como se eu fosse louca. Ela me passa correndo para uma salinha, assim que nota que estou ficando meio vesga. Não queria desmaiar ali, sem ninguém saber onde estava e sem nenhum documento.

O médico não demora, e logo estou em outra salinha, com uma agulha no meu braço. Ele está costurando meu pulso. Enquanto faz isso, alguém chama uma psicóloga, que pergunta se eu estou bem, se tinha alguma doença psicológica, porque, obviamente, quando alguém corta o pulso é porque tentava se matar. Demora para convencê-la de que, neste quesito, não havia nenhum motivo para preocupação. O médico termina os pontos, enfaixa meu braço, dá algumas orientações e me deixa em observação. Olho para o meu telefone. Vinte chamadas não atendidas, de Danny, Dot e Taylor. Reviro os olhos e baixo o aparelho, esperando pela próxima. É bem rápida.

— Alô? — pergunto, mesmo sabendo quem é.

— Lily? — A voz dele está desesperada, e é meio fofo – Ah, graças a deus. Onde você está?

— No hospital.

Onde?

— No hospital – repito, quase rindo.

— O que diabos está fazendo no hospital?

— Bem, alguém aí quebrou aquela bola horrorosa da lareira. Como ninguém acordou, eu fui limpar. Um passarinho idiota bateu na janela, me assustou e eu cortei o pulso.

— Em qual hospital?

— No do centro.

— Estou indo.

Ele encerra a chamada. Penso em como ele vai convencer alguém a deixá-lo entrar, uma vez que eu não tinha qualquer identificação. Fico sentada ali, as pernas balançando para frente e para trás, esperando sozinha no quarto. A porta é aberta de supetão, e Danny entra, a fechando atrás de si.

— Lily. — ele me abraça, um pouco aliviado, um pouco bravo. Ele se afasta e olha nos meus olhos, sério – por que não me acordou?

— Não passou pela minha cabeça. Foi confuso.

— Nos deixou preocupados. Dot acordou e começou a gritar. Encontramos um monte de vidro e sangue no chão da sala, mas nenhuma Lily. Assustador.

— Mas o que mais poderia ter acontecido?

— Não sei. Formulamos hipóteses. Talvez você tivesse sido raptada, sei lá. Ligamos para todos os hospitais, até esse, mas você não tinha dado entrada em nenhum.

— Não trouxe documentos. Como me achou aqui dentro?

— Perguntei pela menina que cortou os pulsos. Uma tinha dezessete anos. A outra era você.

— Acho que logo vão me deixar sair. Como vai a cabeça?

— Doendo. Estou muito arrependido.

— Acho que o mundo está me dando sinais para não sair para beber. É só desastre.

— Poderia ter sido pior.

— Aliás, quem quebrou a bola?

— Dot. E está se sentindo péssima. Não pela bola. Era muito feia.

— Era mesmo.

O médico chega minutos mais tarde, finalmente me liberando e me mandando direto para casa, encerrando assim o episódio do meu aniversário de vinte e um anos.

Notas finais
Eu achei divertido escrever esse capítulo... Comentem!