Toc - 2
1 1- Cidade Nova
Embora tenha passado na Cambridge, Dot resolveu se matricular na Oxford como eu e Danny. Depois de muita discussão, nossos pais resolveram alugar um apartamento bem no centro da cidade, bastante amplo, com três quartos. Temos que confiar nas fotos da internet ao alugar o lugar; sairia muito caro ficar indo e voltando da Inglaterra o tempo todo. Eles também andavam meio chorosos, lamentando que a filhinha deles estava se mudando para outro continente.
Na última semana antes da mudança, finalmente comecei a empacotar meu quarto. Eu estava muito claramente enrolando naquela tarefa, a adiando o máximo que pude. Mas não teve como escapar: logo, o chão do meu quarto estava cheio de caixas vazias, só esperando para receberem meus pertences. Decido começar pelas roupas. Guardo a maior parte nas caixas, colocando algumas na mala. Me despeço das peças que deixaria na Flórida, que não teriam qualquer serventia na Europa. As buscaria em alguma ocasião.
Na verdade, não tinha muito o que empacotar. Não levaria os móveis do quarto. Arrumo algumas fotos, pequenas decorações com algum valor sentimental, meu computador e é isso. Embora um pouco mais vazio, o quarto rosa-bebê parecia o mesmo de sempre. Não ocupo nem metade das caixas que tenho.
Com isso arrumado, tenho três dias para me despedir dos meus amigos, da cidade e dos meus pais. Começo pelo pessoal da escola. Sentiria tanta falta deles nos próximos anos! Vamos todos para o shopping, almoçar, e depois para um parque. É um dos melhores dias que passei com eles, sem dúvidas. Nos outros dias, não saio de casa, a não ser para jantar com meus pais. Queria passar o máximo de tempo com eles. E com meus bichos também. Não queria ter que me despedir em breve, mesmo sabendo que os veria no Natal.
Na última noite em casa, mal consigo dormir. Fico deitada no escuro olhando para o teto de um quarto vazio até altas horas, o que resulta no estilo panda no dia seguinte. Me arrasto pelo aeroporto, abraçada aos meus pais, seguidos de perto por Danny, Dot e famílias. Não tenho como não chorar ao dar tchau. Todo mundo chora, é inevitável. O avião tem fileiras triplas, e eu fico no meio, mais uma vez me sentindo uma anã.
Meus companheiros de voo são os piores. Mal o avião decola, e os dois já estão no sétimo sono. Ligo aquela televisão e assisto um filme de comédia, tentando não rir alto para não acordar os outros.
— A senhorita gostaria de algo? — uma aeromoça pergunta, parada a centímetros da cabeça de Dot.
— Huum… suco de laranja, por favor. — ela me alcança o copinho e faz um gesto para os adormecidos.
— Eles gostariam de algo?
Peço um minuto e os cutuco. Eles não ficam satisfeitos com a interrupção do seu sono.
— Quê foi, Lilianna? — Dot parece comicamente irritada. Repito a pergunta da aeromoça. — Eu quero balas de gelatina! — ela se anima rapidamente. A moça entrega um pacotinho de balinhas para ela. Danny não pede nada, e a mulher vai embora, provavelmente irritada por a termos feito perder tempo. Achei que ia ter companhia agora, mas me enganei. É só a mulher se afastar e Dot terminar as balas que já está dormindo de novo, seguida por Danny. Tento fazer o mesmo, mas não dá. Nunca consegui dormir em “público”.
Quando finalmente aterrissamos, depois do que parecem horas de silêncio absoluto, o carro que nos levaria está atrasado. Temos que esperar. Agora quem está cansada sou eu. Sento na mala, na saída do aeroporto, torcendo para não cair dali. Quando o maldito carro chega, ainda demora um tempão para conseguirmos encaixar toda a bagagem no porta-malas.
Já é quase noite quando abrimos a porta do apartamento, o encontrando repleto de caixas de papelão. Todos os quarto são do mesmo tamanho, então não há discussões sobre quem vai ficar com o maior. Ponto para os pais. Me jogo na cama do quarto do meio, no qual minhas poucas caixas se espalhavam pelo chão. Saio de cima do colchão, abrindo a caixa com roupa de cama. Dou uma organizada básica no quarto. Não trouxera muita coisa, então desempacoto e arrumo tudo bem rápido. Começo os trabalhos na sala, logo sendo ajudada por Dot, na cozinha. Na hora da janta, a casa já está praticamente pronta. Pedimos pizza e assistimos um filme, para fechar com chave de ouro.
Todos os quartos tinham suíte. Tínhamos decidido dormir cedo, pois além da exaustão da viagem, queríamos aproveitar o dia seguinte para explorar a cidade. No início da semana, planejávamos ir a Londres, Dot e eu para visitar Anne e o bebê, e Danny para visitar a avó. Tomo banho, escovo os dentes e visto a camisola. Apago as luzes e estou me direcionando para a cama quando ouço a porta sendo aberta atrás de mim, e logo depois trancada. Sinto mãos na minha cintura e um beijo no pescoço.
— Oi- sussurro para o escuro, me virando devagar para encontrar seus braços me esperando.
— Oi- o escuro responde, me girando até ficar de frente com ele, juntando nossos lábios num beijo gostoso. Ele me guia até a cama. Estava tudo muito bom até eu esbarrar com alguma caixa e derrubar algo. Quase grito de susto, então lembro que não podia fazer barulho. Sinto o colchão fofo conforme ele me deita de costas.
— Ela já foi dormir? — pergunto numa voz fina, o mais baixo que consigo.
— A luz está apagada – Danny responde no mesmo volume – vamos ter que manter baixo, está bem? — nem respondo. Continuamos os beijos de onde tínhamos parado. Aquele colchão parecia tão melhor do que o meu antigo. Já estávamos acostumados a deixar no mínimo volume, ou assim eu achava, até porque nunca fizera com mais alguém em casa, mas é impossível que tudo seja feito sem deixar nada escapar. Especialmente quando é tão bom… só esperava que Dot estivesse dormindo profundamente àquelas alturas.
Ele dorme no meu quarto, óbvio. Na verdade, não esperava que fosse diferente. Afinal de contas, morávamos juntos, sem supervisão de adultos responsáveis…
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