To The Future In Which You Are
1 Único
Notas iniciais
Encontrava-se apoiada a grade relativamente baixa do berço branco e delicado, no qual sua filha estava adormecida tranqüila.
Observava o rostinho pequeno numa imagem turva do mesmo, já que mesmo se quisesse, não conseguiria parar de chorar.
Pela primeira vez, temeu o futuro de seu bebê. Como seria quando ela crescesse? Quem iria repor a falta que o pai lhe faria? Ou mesmo num futuro muito próximo... Quem a levaria para passear numa noite em que insistisse em chorar e não deixar que nem o pai nem a mãe dormissem?
O que faria quando Lovelie acordasse e não tivesse o pai a segurando nos braços, com aquele olhar abobado e orgulhoso? Diria que o pai nunca voltaria?
Melody poderia até ser considerada forte, não fisicamente, mas mentalmente, quando enfrentava algum problema. Mas sempre que ousava fraquejar ou até mesmo desistir, encontrava Miyavi ao seu lado, apoiava-se nele e seguia em frente.
Dessa vez, não tinha nada. Ao seu lado, apenas a memória de Miyavi, e do outro, a única coisa que ainda lhe fazia algum sentindo: sua filha. Mas como usar uma coisa tão frágil como algo para se apoiar? Melody deveria ser forte, mas sabia que não ia conseguir.
Simplesmente porque, mesmo agora que olhava sua filha com ternura, não via nela o que era necessário para continuar.
Saiu de seus devaneios e pegou uma mala média e branca, abrindo o armário igualmente claro e tirando de lá algumas roupas de seu bebê, quase todas que pôde colocar dentro da mesma.
Pendurou a mala no ombro direito e voltou-se novamente para o berço, tirando Lovelie do mesmo e confortando-a em seus braços.
Transpassou a porta do quarto pequeno e chegou à sala em questão de segundos, indo até a porta de entrada e girando a pequena chave prateada que repousava inerte dentro da fechadura. Abriu a porta e a trancou em seguida, chamando o elevador enquanto sentia Lovelie se remexer preguiçosamente em seus braços.
Não queria acordá-la, mas precisava deixar seu bebê com alguém que fosse de confiança, não só da sua própria, mas também de seu marido, mesmo que ele não estivesse mais vivo há algumas tantas horas.
Estava alheia a qualquer coisa, mas sabia que seus passos a levariam ao lugar certo. Desceu pelo elevador e passou pela cabine do porteiro sem fitá-lo. Passou pelo portão e iniciou sua caminhada até um lugar ao qual nunca imaginou ir sem que fosse obrigada por Miyavi a fazê-lo.
Sua sorte era que a casa de Kai ficava, não muito, mas ainda assim, próxima de onde morava com Miyavi e seu bebê.
Andando devagar, conseguiu chegar a seu destino depois de 15 minutos. Tocou a campainha e esperou que alguém fosse atendê-la.
Observou o moreninho abrindo uma fresta da porta de madeira escura e a fitando dali. Reconhecendo Melody pelos fios claros, não tão comuns em japoneses, abriu um sorriso e caminhou para fora, abrindo o portão e vendo a quase loira enxugar os olhos, como se ali houvesse lágrimas que seus olhos não foram capazes de identificar.
Mas os olhos inchados e vermelhos a condenavam; Melody chorava há horas sem parar, e passou a madrugada sem dormir enquanto velava o sono de sua filha.
Visivelmente atordoado, Kai resolveu quebrar o silêncio que se estabeleceu.
- Melody-san...?
- Kai... – saiu de seus devaneios e olhou o garoto nos olhos, fazendo-o perder o sorriso quase de imediato. – Eu preciso que faça um favor para mim... E que não me pergunte nada, apenas faça o que eu lhe pedir.
- Hai...
- Primeiro, Yutaka-san, preciso que cuide de minha filha. E me prometa que vai suprir qualquer falta que eu e Miyavi tenhamos em sua vida. Onegai.
- Hai, eu prometo. Mas... eu não entendi...
- Não faça perguntas, Yutaka-san, onegai. Apenas continue ouvindo. Vou deixar Lovelie sob seus cuidados. Se me demorar a voltar, apenas continue dando o necessário a ela. Se amanhã no mesmo horário eu ainda não tiver passado por aqui, mande a polícia ir até meu apartamento. Então eu não vou precisar lhe explicar mais nada, os fatos dirão por si só.
Dizendo isso, estendeu o braço no qual o pequeno corpo de Lovelie repousava a Kai.
Ainda hesitante, o homem tomou-a de seus braços e ajeitou-a em seus próprios.
- Tome essa missão como se Miyavi estivesse lhe pedindo, Kai-san. E me perdoe por todas as vezes que eu lhe tratei mal. – pegou a mão livre do moreninho entre as suas.
Kai continuava mudo, suas sobrancelhas estavam franzidas e, mesmo sem entender nada daquilo, podia sentir seus olhos ardendo enquanto as lágrimas eram seguradas ao máximo para não se desprenderem, desobedientes e caírem-lhe pela pele branquinha do rosto.
Sentindo a dor de Melody em seu próprio peito, apenas apertou a mão da mulher que agora lhe parecia tão frágil.
- Eu não sei o que está acontecendo... Mas eu prometo que vou cuidar dela enquanto você estiver fora. – apontou a bebê adormecida com um movimento de cabeça.
- Arigatou gozaimasu, Kai-san. Se pudesse, tenho certeza de que Miyavi lhe agradeceria. – soltou a mão do rapaz.
- Onde ele está, Melody-san?
- Ele não está, Kai... – sorriu fraco e virou as costas, deixando a mala — que Kai mal viu quando fora depositada em sua mão que, agora há pouco era segurada por Melody. – e seu bem mais precioso, sua filha.
Yutaka adentrou a casa às pressas, temendo que a pequena tomasse friagem e pegou o telefone num movimento rápido, já discando a seqüência numérica do celular de Aoi.
Alguns pulsos depois, foi atendido por uma voz mais grossa do que costumava ser, era cedo ainda, afinal. Yuu só poderia estar dormindo.
Passando cada informação da qual havia obtido, mesmo sendo quase nulas, pediu que Shiroyama o ajudasse com o bebê, afinal era completamente leigo no assunto. Nunca colocaria a vida da filha de Miyavi em risco por alguma bobeira que fizesse.
E, por algum motivo, de todos seus amigos, imaginou que Yuu seria o melhor para ajudá-lo.
Tinha prometido a Melody que cuidaria de Lovelie, mesmo que fosse por alguns minutos. Mas algo lhe dizia que havia muito mais pesar no tom da mulher do que sua mente era capaz de identificar, logo, sentia que ela não voltaria tão cedo.
Apressou-se em tentar acalmar o ser pequeno que repousava inquieto em seus braços, agora chorando ruidosamente.
Não parecia um choro de fome... Nem de cólica, muito comum em bebês. Por mais que Kai soubesse que ririam de sua cara se ele dissesse isso – o que ele esperava não fazer – aquele choro parecia conter desespero. Desespero que ia muito além dos sentimentos de um mero bebê.
Como se aquilo contagiasse, sentiu um bolo formar-se em sua própria garganta, deixando a atividade de respirar um pouco mais difícil.
Ótima hora para entrar em desespero.
*
Melody já andava em movimentos meramente automáticos na volta para casa. Enquanto isso, acalmava seus pensamentos.
Seu bebê estava seguro. Quando pensaria que Kai seria, de fato, alguém a quem confiaria a vida de sua filha? Justo o menino que Miyavi vivia convidando para sair junto aos dois, estragando o que podia ser uma noite romântica?
Aquilo, nos momentos em que acontecia, fazia o sangue de Melody subir, e isso sempre acabava em briga quando o casal chegava em casa. E quando Miyavi decidia, então, ir para a casa de Kai somente para não agüentar os ataques de ciúmes da esposa, Melody tomava calmantes para não sofrer um desmaio nervoso.
Crucificaria a si pelo resto da vida por só agora notar o quanto Miyavi ficava feliz quando estava com Yutaka. Se pudesse juntar os dois ao menos uma ultima vez, somente para poder ver aquele sorriso simples surgir na face do mais alto...
Adentrou o portão do prédio com rapidez, passando pelo hall em passos largos enquanto segurava soluços altos. Porque tinha de se arrepender? A culpa não era sua que Miyavi sofrera um acidente de carro! Era impossível se arrepender de algo que nunca se fez!
Mas como não se arrepender por saber que, por muitas vezes, aquele ciúme bobo foi motivo de brigas e choros? Ela era culpada por fazer Miyavi sofrer.
Bateu a porta atrás de si com força e escorregou as costas pela mesma, até sentar-se no chão. Agora já não segurava mais os soluços. Deixou que eles escapassem de sua garganta numa forma de atenuar a dor esmagadora de seu peito.
Sentir o coração bater, nunca foi algo tão insignificante. Ele estava ali, vivo, impulsionando o sangue para o seu corpo, mas... Sua vida não estava ali. Sentia-se morta. Sentia-se incompleta.
Pôs-se de joelhos e engatinhou até a cozinha, abrindo um armário branco embaixo da pia de mármore negro. Apalpou as prateleiras debilmente atrás de uma pequena embalagem feita de papelão.
Abriu-a com as mãos atrapalhadas e retirou de lá algumas cápsulas.
Suspirou, frustrada. Levantou-se e tomou um copo que se secava naturalmente no escorredor de louças, enchendo-lhe de água até sua metade.
- Miyavi... – começou, em um fio de voz. – Ishihara Takamasa... – tentou mais uma vez. — ... Isso... É somente por você. Se não fui boa o bastante durante sua vida... Não quero ser mais nada. Quando casamos... – soluçou uma vez, puxando a respiração com exagero para prosseguir -... Fomos obrigados a ouvir a frase “até que a morte os separe” não é mesmo? – sorriu, fazendo as lágrimas grossas mudarem seu curso. – Isso é uma inverdade. A morte vai nos unir, meu amor... – colocou a cápsula na língua, digerindo-a com água em seguida. – Pra sempre.
E as horas que se seguiram, foram agonizantes. Seus vômitos eram, a cada minuto que passava, mas compulsivos, e sentia-se fraca, pronta para desmoronar num buraco sem fim.
Depois de algum tempo... Convulsão. Não lhe restava muito tempo, e agradecia com o pouco de sanidade que ainda lhe era disponível.
Não se lembrava direito quando viu Miyavi, mas ele lhe sorria. Triste, mas sorria. Agarrou sua mão com força e murmurou em meio a um abraço apertado:
- Yutaka merecia seu voto de confiança. Obrigado por isso. E Lovelie ficará bem. – garantiu, inalando o cheiro suave que o cabelo de sua esposa exalava. – Que dure quanto for possível. – concluiu, apertando mais o abraço nos ombros finos de Melody.
E então tudo ficou negro. Não havia memória. Não havia dor. Não havia tristeza.
Havia, somente, a sensação de ser abraçada por Miyavi.
*
- Pai! – a garotinha de cabelos negros e lisos, cortados na altura do ombro chamou, entrando na sala com sua hiperatividade natural.
- Diga, meu amor. – o homem de cabelos negros e curtos respondeu ao chamado, sorrindo para a garota e mostrando-lhe suas covinhas.
- Eu... Pai, me conta o que aconteceu. Não sou mais uma criança.
- Lovelie...
- Papai...! Por favor.
Kai suspirou, pedindo com um sinal mudo para que Lovelie sentasse em seu colo.
- Você não precisa ficar pensando nisso. É passado, não importa.
- É a história dos meus pais. Não é obvio que importa? – retrucou, parecendo chateada, tendo a mesma reação de sempre.
- Esse assunto é doloroso, meu bem. É por isso que prefiro não dizer nada. Dói ter que falar sobre isso... E dói ainda mais saber que você também vai ficar triste. – passou a mão pelos cabelos lisos da menina, numa caricia terna.
- Papai, eu só quero saber o que aconteceu. Se você ficar chateado e eu também, a gente se abraça e chora junto. – suspirou antes de continuar. – Por favor?
Kai soltou um muxoxo pesaroso e prosseguiu, ignorando o bolo em sua garganta.
- Meu amor... Seu pai morreu em um acidente de carro. – Parou alguns segundos, estudando as reações da menina. — E sua mãe... – prosseguiu. — Bem, ela entrou em depressão e não agüentou.
- Mas como ela morreu? – perguntou, fitando o mais velho com curiosidade.
- Ela se envenenou. – respondeu, sério.
- Não entendo... Porque... Ela não pensou em mim...?
- Aposto que ela pensou. Lovelie, quando alguém importante para nós morre, uma parte da nossa vida vai junto. Quando sua mãe pediu para que eu cuidasse de você, era porque não queria que você fosse criada em meio à depressão. – suspirou, ajeitando a menina em seu colo. – Amor materno é algo que você só vai entender quando tiver filho, Lovelie. Nunca questione as razões de sua mãe.
A menina abaixou os olhos, procurando algo que pudesse entreter sua visão.
- E seu pai... – Sorriu. – Ele te amava demais, menina. E eu o amava demais também. Como um irmão.
Lovelie encolheu os ombros, fazendo força para que as lágrimas continuassem sem transbordar de seus olhos.
- Pai... me mostra as fotos do outro papai de novo? – perguntou, com os olhinhos vermelhos. As fotos que Kai tinha sempre faziam a pequena chorar, mas não ia negar isso a ela.
- Claro, meu anjinho. Mas antes, vá tomar banho. – deu dois tapinhas leves nas pernas magras da menina, que se levantou prontamente.
- Outro?
- Sim. Você foi brincar lá fora e se sujou. Agora anda. – sorriu fraco para a menina.
- Está bem, nee... – concordou, revirando os olhos. Fitou Kai por alguns segundo e então o abraçou com força. – Eu te amo, papai. Mesmo que eu não tenha conhecido o outro. – beijou a bochecha de Kai, que sentiu os olhos arderem.
Largou o homem rumou para o banheiro.
Kai deixou-se chorar por longos minutos.
Lembrou-se do dia em que as mortes de Takamasa e Melody estouraram na mídia japonesa. Ele, claro, havia chamado a polícia para invadir o apartamento da jovem moça, que, assim como disse, não voltou.
As imagens do carro de Miyavi que eram transmitidas... Era quase impossível imaginar como o próprio havia ficado, fisicamente falando. E Kai chorava quando tentava imaginar o mais velho daquela forma.
Porque Miyavi era o irmão que Kai não tinha, e lhe doía saber que havia o perdido.
Mas não podia deixar de agradecer pela dádiva de ter sido o escolhido para cuidar de Lovelie. Foi o que lhe motivou a tirar forças de Deus sabe onde para superar uma depressão.
Lutou para ser o bom pai que Miyavi seria. Esforçou-se para dar o carinho que seria dado por Melody.
Já não era mais tão novo. Tinha medo de abandonar Lovelie no mundo. Mas sabia que, caso acontecesse, sua missão estava cumprida.
O amor por Miyavi pode ter levado Melody a morte, mas trouxe Kai para a vida.
Sorriu, enxugando as lágrimas nas costas da mão ao ouvir o barulho da água no banheiro cessar.
Obrigado, Miyavi...
Notas finais
Até a próxima. ~
~25/04/2010~
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