To Love Is To Destroy
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Notas iniciais
Andrômeda chegou meia hora antes do combinado na Sala Precisa naquela tarde de sábado. Se ela iria se forçar a passar a tarde com aquele cara esquisito só pra entender um feitiço, melhor que ninguém visse os dois entrando juntos na Sala Precisa.
Tudo bem que ele não era realmente esquisito (ela até chegara a pensar nele como bonitinho, mas nunca admitiria isso), mas isso não anula o fato de que ele não falava com quase ninguém naquele castelo e quase nunca era visto andando pelos corredores fora do horário de aula.
A porta se materializou e ela a empurrou para entrar na Sala, mas viu que não tinha nada do que ela tinha pedido. Ela tinha desejado uma sala de estudos com uma mesa grande, várias cadeiras e livros de feitiços ao redor, mas ao entrar ela viu um sofá, alguns pufes, uma mesa, uma lousa de giz e corredores infinitos de livros, além do garoto moreno que ela não sabia o nome ainda jogado no chão por cima do tapete colorido, lendo um livro em que ela não entendia muito do que estava escrito. Ela nunca diria que o que ela viu era muito melhor do que ela tinha imaginado.
– Olá, Andrômeda — ele disse sem tirar os olhos do livro, que ela percebeu estar escrito em galês quando se aproximou.
– Cara, você tem que parar com isso — ela disse quase rindo. — Você nem me viu para saber que eu estava aqui!
– Você não foi silenciosa, se me permite dizer — ele disse marcando a página e levantando os olhos para ela. — E eu consigo perceber se tem alguém me encarando descaradamente — ele pôs o livro no chão e se voltou para ela.
Se ela não dependesse dele pra passar na prova de Feitiços que estava vindo ela com certeza iria lançar uma azaração nele. Ela se sentou na mesa que havia ali e cruzou as pernas, olhando para ele como se esperasse ele fazer alguma coisa.
– O que você sabe sobre o feitiço? — ele começou. Era melhor saber o que ela já sabia pra não se tornar repetitivo.
– Eu sei que ele serve pra trazer os objetos pra você, coisas tipo uma mochila — ela disse irritada e ele riu.
– Resumindo, é isso. Na teoria você está ótima.
– Então por que não consigo fazer a porcaria do feitiço? — Andrômeda perguntou inconformada. Como ele conseguia e ela, uma Malfoy, não?
– Você não está tentando de verdade — ele disse e se apoiou numa estante de livros um pouco longe dela. — Tenta trazer meu livro pra cá.
– Se não deu certo das outras milhares de vezes, por que iria dar agora? — ela perguntou meio cansada.
Ele olhou torto pra ela, que achou melhor só fazer o feitiço e ficar por isso mesmo. Ela disse em alto e bom som “Accio livro em galês”, que era o único jeito que ela tinha de caracterizar o livro, mas ele nem se mexeu, não deu indício nenhum de ter sido atingido pelo feitiço.
Andrômeda olhou para o garoto como quem dizia “Viu?!”, mas ele não se deixou abater por isso. Não iria sair dali enquanto ela não convocasse alguma coisa até ela.
– Você está mexendo demais a sua varinha — ele disse e pegou sua própria varinha, imitando a garota fazendo o feitiço. — Parece que você está tentando convocar um guarda-chuva no meio de um furacão, e está sendo tão inútil quanto.
– Você por acaso tem como objetivo de vida me por pra baixo? — ela perguntou rindo e ele revirou os olhos.
– É bem diferente disso, na verdade — ele murmurou para si mesmo, então se virou para ela. — No momento meu objetivo é fazer você convocar alguma coisa. E já vou te avisando que nenhum de nós sai daqui enquanto você não tiver meu livro na sua mão sem ter que andar até ele.
Ela bufou e tentou fazer o feitiço de novo. Já que ela teria que fazer de um jeito ou de outro, quanto antes começasse, melhor. Tentou dizer as mesmas palavras, dessa vez balançando menos a varinha.
O livro deu uma balançada em seu lugar, mas não andou nem dois centímetros. Mesmo assim, era uma vitória para Andrômeda.
– Você viu isso? — ela perguntou toda empolgada virando-se para ele com um sorriso enorme na cara. Ele não tinha como não sorrir junto, mesmo que aquilo fosse quase nada para um feitiço convocatório.
– Eu vi — ele disse andando na direção dela, parando logo ao lado dela. — Mas isso não foi o suficiente, o livro não andou nem um pouco na nossa direção.
– Ah, vai, você podia ser legal por causa da minha conquista — ela pediu se virando de frente pra ele. — Não foi uma conquista de fato, mas vai.
– Ah, então você assume que não foi uma conquista de fato? — ele perguntou com um sorriso torto na cara. — Devia ter um gravador agora, pra essa fala ser eternizada — ele continuou rindo e ela revirou os olhos para ele, voltando seu foco para o livro.
Ela tentou fazer o feitiço mais uma vez, e de novo não deu certo. O livro deu mais uma mexida, mais forte dessa vez, mas nada além disso.
– Você realmente quer ficar a tarde toda aqui dentro comigo, né? — ele perguntou num tom malicioso e ela o fuzilou com os olhos. — O feitiço só não dá certo porque você não está se focando nem o mínimo para que ele aconteça. Até terceiranistas num campo de batalha teriam mais concentração — ele provocou mais uma vez.
– Ah, e o que estaria tirando minha concentração? — ela perguntou retoricamente e ele, no que ele mais tarde chamaria de movimento mais ousado da sua vida, deu um passo colou a lateral de seu corpo ao dela, dizendo logo em seguida:
– Eu.
Ela o olhou incrédula, tanto porque não esperava aquela resposta dele, principalmente por ela nem saber o nome daquele cara, mas também porque tinha um grande fundo de verdade na resposta dele.
– Ah, faça-me o favor — ela disse depois de retomar a pose, fingindo ser inabalável. — Nem sei seu nome, querido. Como você pode ter tanta certeza de si mesmo?
– Você hesitou — ele constatou e ela o olhou furiosa.
– Eu não hesito para nada — ela girou seu corpo de frente para o dele, deixando um espaço pequeno entre os dois. — Accio livro em galês – ela disse mais uma vez, num surto de nervosismo.
Ele moveu seus braços até a linha da cintura dela, mas parou antes de chegar ao corpo dela propriamente dito. Abriu um sorriso satisfeito e então levantou sua mão à direita de sua cabeça.
– Parabéns, Andrômeda — ele disse com o livro que lia antes em sua mão. A garota não acreditou quando viu o livro na mão dele e sem nem pensar pulou em cima do garoto gritando histericamente. — Eu sabia que se te irritasse você ia fazer o feitiço — ele se explicou antes que ela pensasse que ele a odiava.
– Mas por que você achou que isso ia funcionar? — ela perguntou confusa e ele riu fraco mexendo no cabelo.
– Você é uma fogueira. Quanto mais lenha, mais calor. Quanto mais irritação, mais magia — ele disse e ela o olhou em confusão. — Sou um stalker, minha função na vida é saber essas coisas esquisitas dos outros, não tem jeito — ele disse rindo e ela concordou com a cabeça. — Dan, o stalker — ele estendeu uma mão a ela.
– Calma, você por acaso é o Dan irmão da Mackenzie? — ela perguntou confusa e ele concordou com a cabeça. — Uau — foi o único som que ela conseguiu emitir enquanto dava a mão para Dan. Ele era bom demais pra ser o Dan que Andrômeda ouvia das histórias de Mackenzie.
Mesmo que Andrômeda disse antes que queria que aquela tarde acabasse o mais rápido possível, eles passaram o resto dela fazendo todos os feitiços do semestre até ali e conversando num tom muito mais ameno, afinal, agora a fogueira já estava acesa.
********
– Fred, eu preciso falar com você, cara — James disse assim que viu Fred entrando na Sala Comunal da Grifinória.
– Agora você precisa falar comigo? Onde tá a Dominique? — o ruivo disse o nome dela com um tipo de desprezo que James nunca tinha ouvido. — Vocês andam preferindo muito mais a companhia um do outro esses dias.
– É exatamente por isso que eu preciso falar com você.
Fred revirou os olhos e voltou em direção à porta de onde tinha vindo, o que James entendeu como um “siga-me”. Eles esperaram até estar em um corredor pouco movimentado pra falar alguma coisa de novo. Era esquisito, mas eles não ligavam, sempre tinham sido esquisitos.
– O que você quer falar? — Fred perguntou e James soltou o ar.
– Olha, você anda… estranho, sabe. E tipo, é só comigo isso.
– Você anda o tempo todo com a Dominique, quase uma simbiose! É óbvio que eu não trato uma simbiose do mesmo jeito que eu trato meu melhor amigo! — Fred quase gritou e James o olhou espantado. Ele estava assim por causa da Dominique? Isso não fazia o menor sentido.
– Nós não somos uma simbiose — James respondeu e Fred revirou os olhos.
– Por favor, né. Vocês só não vão ao banheiro juntos porque as pessoas iam olhar torto. O resto do tempo é James pra lá, Dominique pra cá, pausa pra se talvez lembrarem da existência de uma outro amigo de vocês que vocês acham que se chama Fred, mais James e Dominique pra cima e pra baixo… — Fred parou de falar e ficou um silêncio quase sepulcral no corredor. — Eu não aguento isso! — ele gritou. Gritou tão alto que não duvidava que McGonagall tivesse ouvido em sua sala.
– Você não aguenta ver a Domi comigo? — James perguntou já ficando com ciúmes. Era lógico que Fred se apaixonaria por Dominique assim como ele. Se ela era perfeita pra James, ela com certeza seria perfeita também para Fred. — Você tem ciúmes dela comigo?
– O que? — Fred fez uma cara de confusão. — Não, eu não tenho o menor ciúme dela, eu entendo que ela é tão minha amiga quanto sua, mesmo que pareça que você não quer ser só amigo, mas enfim.
– Isso não é ver…
– Verdade? — Fred completou e então começou a rir ironicamente. — Obviamente é, mas esse não é o meu ponto.
– Então eu não estou te entendendo.
– Cara, você quer que eu desenhe? — Fred perguntou irritado. — Você acha que eu gosto de ver meu irmão me trocando por uma garota por quem ele só sentia atração sexual há dois meses e agora poderia jurar amor eterno?
– Mas você não tem um ir… — James se interrompeu antes de terminar a frase.
Como ele era ridículo. Eles sempre se chamavam de irmãos quando eram mais novos, pra tirar sarro da cara do Alvo, fingindo que tinham trocado ele por Fred e James sempre afirmava ter sido o primeiro a apoiar essa troca. Eles sempre agiram mais como irmãos do que qualquer outra coisa, muito mais do que com seus irmãos de verdade.
James, você é trouxa.
– Vou desenhar porque você não tá raciocinando tanta informação de uma vez só — Fred começou a puxar sua varinha de suas vestes, mas James deu um tapa em seu braço e o puxou para um abraço. — Que merda você tá fazendo?
– Desculpa, cara — James pediu ainda abraçando o amigo. Foda-se se alguém visse e achasse que eles tinham tendências homossexuais, James não podia ligar menos para isso. — Eu só não sei lidar com isso. Não sei lidar comigo querendo duas pessoas diferentes ocupando um mesmo espaço da minha vida, de jeitos diferentes mas mesmo assim ali. Fui escroto com você e você é a pessoa que menos merecia isso de todas.
– Eu não usaria um termo tão forte, mas fico feliz que você usou — Fred disse começando a rir, abraçando de volta o amigo. Ele sabia que James não conseguia lidar com o turbilhão de sentimentos que eram os dezessete anos (ele não conseguia nem lidar com os dois ou três que tinha aos treze). Três frases sobre o assunto já poderiam ser consideradas algo memorável e o suficiente para Fred perdoá-lo.
Eles ficaram no corredor em silêncio, não tinham porque falar mais. Os dois eram tão amigos que já sabiam o que o outro pensava naquele momento, e os dois sabiam que era que o Halloween estava a uma semana deles.
– Você não teria uma caixa cheia de aranhas, ou teria? — James perguntou soltando Fred.
– Não sei, mas com certeza meu pai teria, caro cúmplice — Fred respondeu em seu jeito maroto habitual e os dois começaram a rir. Lógico que o último Halloween deles em Hogwarts não poderia passar em branco.
********
Scorpius tinha acabado de sentar em frente ao seu prato para o jantar, quando um pergaminho com escritos em tinta neon apareceu bem à sua frente. Ao ler, aquilo era um convite para uma festa de Halloween de uma garota da Lufa-Lufa, na Sala Precisa.
Estava escrito que obrigatoriamente todo mundo teria que entrar com um par e usar roupas que brilhassem em luz negra.
O primeiro pensamento do loiro foi em Rose. Levantou a cabeça para encontrar a ruiva no meio da mesa da Grifinória, mas ela não estava ali.
Em compensação, Alvo Potter era um reflexo exato de Scorpius do outro lado do Grande Salão.
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